quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Voto Útil, Voto Burro: recados da ralé


Querido diário:

Parece óbvio que estou falando das eleições municipais em Porto Alegre a ocorrerem em futuro próximo, o horário de verão, que entra em vigor no próximo domingo e do estrondoso livro

SOUZA, Jessé (2016) A ralé brasileira; quem é e como vive. 2ed. Belo Horizonte: UFMG.

O primeiro traço de uma resenha bibliográfica deste estrondoso livro é dizer que ele, por incompetência dos editores e talvez até leniência dos autores (Souza et al.), não tem índice analítico. Eu queria a definição de ralé e tive que ralar até agora e ainda não sei. E vou citar em seguida umas considerações estrondosas que, para citar o nome do capítulo, tive que ficar folheando ad initium, pois não o/s tem no topo da página ou em seu rodapé, coisa que os bons livros das boas editoras devem exibir. Então, dois traços: não tem índice analítico nem identificação do capítulo ao longo da leitura.

É que esta resenha bibliográfica está ocorrendo avant la lettre, ou seja, ou melhor, em outras palavras, estou falando de uma coisinha que me apareceu aos olhos durante a leitura de contato. Então não é resenha bibliográfica, mas apenas falar sobre os recados da ralé no primeiro turno das eleições municipais de 3 de outubro. Parece óbvio que os 10 milhões de votos perdidos pelo PT relativamente à eleição anterior, quando o Brasil tinha no mínimo 5% a menos de população, é prova de um estrondoso fracasso, fracasso do PT, vitória do juiz Moro, da rede Globo, do Eduardo Cunha, do ministro Gilmar Mendes, óbito de Gilmar, campeão de 1958, essas coisas.

Andei anunciando que iria votar em Sebastião Melo, para não dar o prazer da vitória eleitoral para Nelson Marquesan Jr. E agora já vi que, enquanto os partidos de esquerda, ou até mais consentaneamente, os integrantes dos partidos de esquerda, não tiverem um instituto de pesquisa de confiança (e por que não fazer um?), nunca saberemos quais serão as candidaturas ridículas, como o foram as de Raul Pont e sua amiga Luciana Genro. Vergonha, como é que pode políticos profissionais e suas entourages errarem tanto quanto a suas perspectivas eleitorais? Parece óbvio que Nelson Marquesan já ganhou. Eu e meu caráter amador de entender da política partidária/eleitoral brasileira nos deixamos enganar ao pensar que votando em Melo evitaríamos o que me parecia o mal maior, ou seja, a assunção de Marquesan ao estrelado executivo. Pois meu voto útil poderia ser designado como voto burro: como é que não se sabia que Marquesan iria ganhar? Moral da história, agora declaro a verdade: imagino que nem sei o que farei no dia da eleição, sendo provável que nem compareça (fique bebendo em casa), afinal, estas são as últimas eleições em que o voto é obrigatório para mim.

Em compensação, transcrevo trechos do capítulo 12 do livro editado por Souza, citando as páginas 326-327:

FREITAS, Lorena. A instituição do fracasso; a educação da ralé. p.325-351.

[abre aspas]
A miséria obrigava sua mãe, Dona Luzia, a trabalhar o dia inteiro, e Juninho pouco a via. Nos momentos em que ela estava em casa era cuidando da roupa, da limpeza ou da comida. Além disso, agredida demais pela vida, era impossível para ela uma relação com os filhos pautada pelo respeito mútuo, pelo carinho e pelo cuidado. Seus próprios pais não souberam tratá-la desse modo, como então poderia ensinar aos filhos algo que jamais teve a chance de aprender? Ela nunca fora amada pelos pais como um indivíduo único que merece respeito e cuidados. Desde menina foi 'entregue a si mesma' e muito cedo aprendeu a dureza da vida, tendo que aprender a 'se virar sozinha'. Apesar de nunca ter podido dar aos filhos carinho e compreensão, ela fazia o que podia para manter a casa limpa, para botar comida no prato e lhes ensinar a não 'mexer nas coisas dos outros' e nem se 'meter com coisa errada'. Foi a influência de Dona Luzia que fez com que nenhum de seus quatro filhos, a despeito da vida que tiveram, caísse na delinquência.
[...]
Devido a isso [no parágrafo que omito], esses familiares costumam naturalizar o desinteresse e a indisciplina das crianças na escola 'porque criança gosta mesmo é de brincar' e a disciplina que os estudos exigem é vista como algo antinatural, pois vai de encontro à 'liberdade natural' das crianças. Essa 'liberdade natural' é, na verdade, fruto de um modo de vida que exige pouco controle dos impulsos e que, por isso, não prepara  as pessoas com a disciplina e o autocontrole suficientes para um bom desempenho no mundo escolar e, posteriormente, no mundo do trabalho qualificado. Apenas os sujeitos que tiveram uma socialização capaz de desenvolver neles uma identificação afetiva com o conhecimento, concentração para os estudos, disciplina, autocontrole, e capacidade de pautar suas ações no presente a partir de um planejamento racional do futuro são capazes de incorporar conhecimento para se inserir no mundo do trabalho qualificado e ser úteis e produtivos à sociedade. [...]
[fecha aspas]

Cito: "identificação afetiva com o conhecimento, concentração para os estudos, disciplina, autocontrole e capacidade de [...]." De sua parte, esse [...] que acabo de usar para interromper a fala da autora do capítulo bem merece o que volta e meia relembro: a educação te permite descobrir quais são teus objetivos na vida e te dá meios para lutar por eles.

Claro que estou falando das eleições, do voto útil e da triste sina da esquerda num momento como o que ora vive o Brasil e seus 205 milhões de desvalidos. Claro que estou falando da PEC 241: rever substantivamente o lado da despesa no orçamento federal apenas em 2036. É, 2036. É o tamanho da desfaçatez. E dedico a passagem da dona Luzia àquelxs que acham que o lugar de educar é na família e que a escola deve ensinar apenas as quatro operações, os quatro pontos cardeais e as quatro estações do ano: quadrúpedes.

DdAB
Imagem daqui.

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