domingo, 10 de novembro de 2013

"Ulysses" e o Número Platônico

Querido diário:

PROÊMIO
Recebi do sr. Adalberto de Avila uma mensagem no Twitter que abaixo transcrevo. No hológrafo central da nave, ele acrescentou o que intercalei. Parece tornar-se evidente que estamos frente a um dos mais estranhos comentadores das obras de Homero, James Joyce e Bono (bona fide) com que jamais este blog topou, o que é estupefaciente, como se falássemos da política brasileira bicentenária, ou daquele campeonato em que o Grêmio foi rebaixado.

OS PROLEGÔMENOS
Parece evidente que existem três e apenas três (3 = 3 = 3) traduções de "Ulysses", retirando-o da sua -nos dias que correm- pacata Dublim e reposicionando-o sobre o Rio de Janeiro, São Paulo e a própria Brasília. Para termos uma ideia da variabilidade que engolfa o tema, examinemos a sentença inicial da trilogia. Trilogia? Três: número platônico! Antes, vejamo-la na língua original.

Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead, bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed.


VOLUME 1


Editora Abril Cultural: São Paulo, 1980 (que adquiri nsq [id est, não sei quando, mas antes de 1990, digamos)]). A tradução original circulou com o selo da Editora Civilização Brasileira, em 1966 (que adquiri nsq, mas antes de 1970) foi feita por Antonio Houaiss (que deve ter nascido Antônio e a lei, em 1973 ou algo assim, mudou para Antonio [mas na op. cit. está Antônio mesmo], pois em Portugal até hoje se escreve António). Corria uma piada, que talvez eu tenha lido no respeitado jornalzinho O Pasquim, que Houaiss levou mais anos traduzindo do que Joyce escrevendo. By the way, Joyce escreveu entre 1914 e 1921.

A imagem que vemos acima é mais feinha que a original.

Primeira sentença (página 9):

Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha.

Número de páginas: 852 - 7, ou 846.


VOLUME 2


Editora Alfaguarra/Objetiva: Rio de Janeiro, 2007, que adquiri em 2013 mesmo e estou lendo. Quase desisti quando aquele enterro do capítulo 6 não acabava nunca. A tradução é de Bernardina da Silveira Pinheiro. O interessante da tradução da professora Bernardina (da UFRJ) é que a tradução foi concluída em torno de seu 85o. aniversário. 

A primeira sentença está na página 27, deixando-se ler como:

Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba.

Número de páginas: 839 - 25 ou 815.


VOLUME 3

Editora Penguin/Companhia das Letras: São Paulo, 2012. Adquiri-o em 2012, coisa rara, pois não me é usual comprar lançamentos absolutos, pelo menos não o faço com a mesma frequência com que pronuncio a palavra "quixeramobim", dando-lhe um sotaque de colono italiano em Bento Gonçalves - RS. A tradução é de Caetano W. Galindo, contendo uma introdução escrita em 1922 por Declan Kiberb, umas 75 páginas que lerei apenas quando a palavra quixeramobim (aqui) tiver como sinônima a permutação mibomarexiuq, que parece asteca. Nesta linha, o Ulisses desta editora pintou como Ulysses (que, ao revés, lê-se como sessylu, como sabemos palavra que significa secilu, em inca e secilou, em francês).

A primeira sentença, depois daquela bruta introdução, posta-se na página 97:

Solene, o roliço Buck Mulligan surgiu no alto da escada, portando uma vasilha de espuma em que cruzados repousavam espelho e navalha.

Número de páginas: 1006 - 93, ou 913.

ESTIMADORES DE VARIABILIDADE
Exórdio
As três traduções mantêm o número de capítulos delineado por ninguém mais ninguém menos do que o próprio autor: 18.

Medidas de tendência central e de variabilidade
Só comentaremos o número de páginas, eis que 18, 18 e 18 têm média 18 e variância nula. Segue-se que a média dos números de páginas de 815, 846 e 913 é 858,3 e sua variância é 5.128,3.


COMENTÁRIOS FINAIS
Tem tanta coisa, tantos comentadores escrevendo, tendo escrito sobre "Ulisses" que até os deuses duvidam. As três traduções brasileiras mostram algumas comunalidades neste aspecto, sendo mais circunspecta a de Bernardina da Silveira Pinheiro. Inclusive, e não sei de onde saiu, um "passo-a-passo" chamado de "Notas", muito útil, ainda que não sacie toda a fome de todos os leitores. Os três contam com material de apoio desenhado por James Joyce para seus amigos, alguns deles. É o que leio nos verbetes das Wikipedias in English e em português. Que posso dizer para concluir? Riulcnoc (em maia).


DdAB
Curiosum I: primeira sentença em inglês, com tradução do Google: "Imponente, gordo Buck Mulligan vinha do stairhead, tendo uma tigela de espuma em que um espelho e uma navalha estava atravessada."
P.S.: este "stairhead" não foi traduzido, né?

Curiosum II: como não acredito sem ver, cito a fonte que me cedeu a frase que não conheço/conhecia no original. Aliás, o próprio original é sujeito a disputas: qual edição é a melhor? Fonte da frase acima está aqui.

Curiosum III: a fonte da imagem é daqui. Todos conhecemos Jon Elster, não é mesmo? Marxismo Analítico, Teoria da Escolha Racional, não é mesmo?

Curiosum IV: este site aqui é maravilhoso. Tão maravilhoso, actually, que antecipou esta minha postagem, com vantagens, inclusive a de não ter nada a dever a Adalberto de Avila... Olha, por exemplo, o que ele diz aqui e que seria inalcançável pela dupla Adalberto-Myself: "As soluções tradutórias são opções criativas. Houaiss, Bernardina e Galindo tiveram, cada um, o seu encontro insubstituível com Joyce. E por isso já não é apenas Joyce em português. Será Joyce-Houaiss, Joyce-Bernardina e Joyce-Galindo." Tornou-se claro que minha tradução preferida, que estou lendo, é a de Bernardina? Não conferi nos demais este troço (termo, aliás, que ela utiliza) dos quatro pontos (ou seja, duas vezes dois pontos), como é o caso de, por exemplo, na página 149: "Um velho ator: bisavô: ele entende do riscado." Acho interessante esta do Joyce-Houaiss, Joyce-Bernardina e Joyce-Galindo, pois nunca falaríamos em Maughan-Érico/Vallandro, e por aí vai! Só vale a pena dizer isto quando são duas ou mais as traduções. Estudo assemelhado deve ser feito naquele Salinger que teve a tradução brasileira do "Catcher in the Rye" como "Apanhador no Campo de Centeio" e a portuguesa como "Uma Agulha num Palheiro".

Curiosum V:
Começamos com isto:
Google
Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead, bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed.
Civilização/Abril Cultural
Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha.
Alfaguarra/Objetiva
Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba.
Penguin/Companhia das Letras
Solene, o roliço Buck Mulligan surgiu no alto da escada, portando uma vasilha de espuma em que cruzados repousavam espelho e navalha.


Curiosum VI
Stately: sobranceiro, majestoso, solene. Sou mais majestoso.
Plump: fornido, gorducho, roliço. Gostei mais do fornido. Ou, diria eu, gordacho, que este editor de texto do Windows não reconhece.
Stairhead: alto da escada, topo da escada, alto da escada. Alto da escada é melhor, mas eu preferiria balaústre.
Bearing: ‘com’, trazendo, portando. Ganha o trazendo. Portando não é mau, talvez também coubesse segurando.
Bowl of lather: vaso de barbear, tigela com espuma, vasilha de espuma. Haveria ou não espuma naquela tigela? A bowl of lather não requer necessariamente a espuma, apenas que seja a bowl da espuma. Mas a sra. Bernardina resolveu a questão, talvez, olhando o texto mais adiante: “[...] ele apoiava o espelho no parapeito, molhava o pincel na tigela e passava a espuma na face e no pescoço.” Ou seja, tinha mesmo espuma dentro da tigela. E não era este troço de vaso de barbear e, presumo, nem de vasilha de espuma. Era uma tigela cheia de espuma para se amaciar a barba antes de cortá-la com navalha ou gilete.
Mirror: todo mundo traduziu como espelho. Sabidos.
Razor: todo mundo traduziu como navalha. Naquele tempo já havia giletes, o que deixa-nos – se não pudermos andar adiante nas investigações – em dúvida sobre se o velho Joyce queria mesmo dizer navalha ou gilete.
Lay crossed: se cruzavam, repousavam cruzados, cruzados repousavam. Fico a indagar-me como é que poderia uma navalha cruzar-se com um espelho. Acho que apenas se pode conceber o espelho sobre a navalha ou esta sobre esse. E o mais plausível é o que diz o Google Tradutor: estavam atravessados, ou seja, a navalha estava colocada em ângulo de 45 graus (ou outro acutângulo) com relação às diagonais do espelho.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
P.S. Acrescentado às 22h40min de 21/jan/2014.
Acabo de ver o site aqui. De lá retirei a seguinte capa do Ulisses em tradução não registrada neste meu blog, pois é de Portugal. Mas talvez ainda venha a adquiri-la e lê-la, comparando-a com as três traduções brasileiras.
Diz lá o texto:
Ulisses | James Joyce
2013/12/01 BY DAS CULTURAS
«Ulisses» é um romance de referências homéricas, que recria um dia de Dublin, a quinta-feira de 16 de Junho de 1904, o mesmo em que Joyce conheceu Nora Barnacle, a jovem que viria a ser sua mulher.
Nesse único dia e na madrugada que se lhe seguiu, cruzam-se as vidas de pessoas que deambulam, conversam, tecem intrigas amorosas, viajam, sonham, bebem e filosofam, sendo a maior parte das situações construídas em torno de três personagens. A principal é Leopold Bloom, um modesto angariador de publicidade, homem traído pela mulher, Molly, e, de modo geral, o contrário do heróico Ulisses de Homero.
Joyce começou a escrever esta obra em 1914, recorrendo às três armas que dizia restarem-lhe, «o silêncio, o desterro e a subtileza».
Depois de várias dificuldades editoriais, «Ulisses» seria publicado pela Shakespeare & Company, em Paris, em 1922, no dia de aniversário de Joyce.
«Mais do que a obra de um só homem, “Ulisses” parece de muitas gerações (…). A delicada música da sua prosa é incomparável.» [J. L. Borges, «James Joyce», 1937]

P.S.S.: também vale a pena olhar aqui. É altamente informativo e altamente erudito. E temos esta capa:
P.S.S.S.: e tem mais. Veio daqui, mas não fui capaz de saber mais a respeito. A não ser que não é a mesma coisa: não é o Ulisses de Joyce.
P.S.S.S.: e agora esta, na Edição Livros do Brasil:

P.S.S.S.S. E agora esta que sempre esteve aqui! (Escrevi isto às 18h04min de 4/fev/2014).
P.S.S.S.S.S. Em 1/jun/2014, mudei o título para Ulysses.

3 comentários:

Anaximandros disse...

impossível comentar, de ler lido, assumo as duas primeiras, tenho lá comigo o original, "trazido" por uma amiga, posto esses cometi a biografia, recomendo, e todas obras diurnas do bardo, assim, o primeiro tradutor cometeu oito meses para a empresa, o que resultou no que resultou, mais nada. Abraço, belo post, s.

Anônimo disse...

Eae Duilio,

bem primeiramente não sabia que tinhas conta no pássaro azul (tentei buscar, mas não achei, rs).

Estou vivendo de postagens programadas no blog, já que a Dilma ainda não criou o "internet para todos" ou o "minha internet minha vida" nos campus amazonicus.

Fora a parte vossa postagens, tenho notado a diferença no vocabulário de moços acadêmicos e experientes mestres. A linguagem muda umas vezes muito rápido, outras parecem que não "evoluem".

De todo o modo, meu verbete da vez foi o PROLEGÔMENOS (claro que pesquisei no Google) (claro que o resultado me levou ao Wikipedia) haha

Abs

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

fratelli:
.a. Anaximandros: assim que eu terminar esta empreitada homérica, lerei as demais obras de Joyce; li bastante os periféricos, parece que gosto mais de comentadores do que de certos novelistas. Obrigado pela avaliação.
.b. Daniel: nada sei sobre pássaro azul. Adorei o "minha internet, minha vida". Acho que toda a informação (bem de mérito) deveria ser gratuita. Meu coautor no "Ensaios sobre a Economia Gaúcha", Adalmir Marquetti (48 anos) sempre briga comigo por causa do estilo, embora não fale em empolação. Eu gosto de português e gosto de confundir o leitor, fazê-lo forçar-se a distinguir o termo técnico do termo erudito. Foi dito lá naquele livro de mesoeconomia que "o dicionário é o melhor amigo do homem". E que me dizes de prândio, ágape, aqueles outros termos menos usuais que volta e meia uso?
Abçs a ambos
DdAB