14 janeiro, 2022

Dom Casmurro: mais uma hipótese


                                               Cosi è se vi pare

Em compensação terminei de ler (cuidado quem não leu, pois há spoilers no texto que segue): dois pontos:

([1899], 2016) Dom Casmurro. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras. Introdução de Luis Augusto Fischer.

Então o título da postagem refere-se às hipóteses já formuladas sobre a eventual traição de Capitu a seu marido Bentinho. Todos sabemos quem são as personagens principais do Dom Casmurro, d. Glória, José Dias, digamos, coadjuvantes. José Dias até que nem tão coadjuvante assim. E aí vem o quarteto -  1: Bentinho e Capitu, 2: Escobar e Sancha. Segue-se Ezequiel, filho de Capitu com... três pontinhos. Com passagem rápida, mas importante para a hipótese da inocência de Escobar, Capitolina, sua filha com a legítima esposa Sancha. Tá na página 320 e vou deter-me um tanto mais lá adiante.

No final do livro, quando Ezequiel retorna da Suíça ao Rio de Janeiro, já Capitu estando morta, tudo se torna difuso, confuso. Não é impossível que ainda se encontre uma carta, um texto biográfico do próprio Machado de Assis dizendo se Capitu e Escobar geraram Ezequiel, deixando Bentinho no corner. Mas é até mais provável que Machado não tivesse vislumbrado uma solução, deixando -como James Joyce desejava que ocorresse com seu Ulysses- várias gerações ocupadas em decifrar o mistério.

Aceitando essa omissão, provavelmente voluntária, temos então duas hipóteses para resolver o mistério  da paternidade de Ezequiel:

a) o guri era mesmo filho de Capitu e Escobar

b) Bentinho era um ciumento e aperfeiçoou-se ainda mais, ao longo do tempo, na devastadora doença do ciúme irrefreado, felizmente não tão letal quanto aquele que Paulo Honório sentiu, no S. Bernardo de São Graciliano Ramos. Quer dizer, Capitu e Escobar não teriam gerado Ezequiel. (E por que diabos Capitu não poderia ter tido um caso com um terceiro, um quarto, sei lá?)

Mas aí, já desafiado pela Introdução de Luis Augusto Fischer, e levando em conta minha experiência com Marx e Freud (para citar o título de um livro de Erich Fromm), inventei de inventar mais uma hipótese:

c) projeção (mecanismo de defesa do ego) feita por Bentinho sobre Escobar: Bento deseja Sancha, amiga íntima de Capitu e, que por essa via, tornou-se esposa de Escobar. Por esses laços de amizade, não consegue confessar nem para si mesmo esses pensamentos libidinosos mas livra-se da angústia projetando-os sobre Escobar. 

Já não sei dizer se foi lendo as páginas 14-15 da Introdução de Luis Augusto Fischer que fiquei com a pulga atrás da orelha, como se diz lá em Jaguary, eis que o literato gaúcho fala em quatro dualidades iluminando (confundindo) o roteiro da história. E vou falar apenas na última:

Quarto par: o livro traz em si duas camadas narrativas, ou duas diferentes versões do enredo, ou melhor, duas formas distintas e até opostas de pensar sobre o que aconteceu entre Bento e Capitu. De um lado, temos a traição de Capitu como uma verdade nítida, pois é isso que o narrador nos conta, convictamente; mas, de outro, quando o leitor se aproxima do texto alerta para o fato de que o narrador é parte interessada no processo, no qual ele mesmo figura como acusador e vítima (e juiz!), o que temos é, em certo sentido, uma traição de Bentinho. Dom Casmurro, é um romance com duas interpretações muito distintas, e até opostas: ele contém duas traições, uma suposta mas narrada como verdadeira, a de Capitu, outra verdadeira, mas nem sempre visível, a de Bento.

Sigo na Introdução de Luis Augusto Fischer. Voltando (eu aqui) às página 42-43, dou meu sussurro final, enquanto leio a seção "Momentos da fortuna crítica".  Fischer começa citando comentadores que rapidamente pularam para a hipótese da traição, comprando "a versão do narrador". Fischer fala em, pelo que sei, dois gaúchos, Augusto Meyer e Érico Veríssimo: Capitu traiu. Mas eis que surge no palco a americana Helen Caldwell. Diz Fischer na página 53-4:

   [...] Caldwell em seu texto conclui que o narrador é um novo Otelo [de Shakespeare, tema em que a americana é especialista], convencido da culpa de sua amada, o que compromete em toda linha a acusação que faz. E a autora, por norte-americana e por feminista, empreende toda uma contra-argumentação, como se estivesse de fato num tribunal - é como se ele tivesse levado em conta a peça de acusação que é Dom Casmurro e então tivesse assumido o encargo da advogada de defesa da acusada, para concluir que não há rigorosamente nenhuma chance de concluir pela culpa (nem pela inocência, acrescentemos) de Capitu, dada a perspectiva envenenada do narrador. Estava aqui inaugurada uma nova fase no debate crítico.

De minha parte, juro que o extraordinário intelectual Silviano Santiago leu o livro de Helen Caldwell, publicado no Brasil em 2002, mas aparecido nos Estados Unidos em 1960. Para ele (páginas 54-55 de LAF):

Começa [o ensaio de Silviano Santiago publicado em 1978] que ataca a visão fragmentária da obra machadiana, reivindicando que há unidade profunda, estrutural, que ele não identifica no artigo, mas intui existir; depois, considera o romance não um estudo sobre a traição, mas sobre o ciume, motivo por que estavam errados os críticos em sua maioria, até ali, ao buscarem no livro a verdade sobre Capitu, quando a verdade a ser buscada se refere a dom Casmurro.

Nessa linha de mudança de foco trazida por Silviano Santiago (apud LAF) aproveito para evocar uma passagem que poderia estar indicando a inocência de Capitu, pelo menos relacionada ao envolvimento com Escobar. Agora cito o próprio Machado de Assis na página 320: Escobar "[c]hegou a falar da hipótese de casar o pequeno [Ezequiel] com a filha [Capitolina]." Ora, será que ela poderia imaginar esse casamento se suspeitasse que Ezequiel fosse seu filho." Dica do autor, claro, registrada pelo narrador Bento, que Escobar não poderia ser pai de Ezequiel. Daqui faço um pré-sussurro: pode ser que Bentinho estivesse ficando cada vez mais pirado, tangido pelo ciúme de Capitu e inveja de Escobar. Mas tem mais: naquele tempo não se falava em swing, ou no quatrilho, de José Clemente Pozenato (Teresa, Pierina, Ângelo e Massimo): Bento e Sancha, como ando sugerindo no bar do bairro e, claro, por quê claro?, Capitu e Escobar.

Tá aqui o sussurro: vemos duas hipóteses explicativas da trama (a terceira é, como sabemos, o ciúme: a traição (agora de Bentinho com Sancha) e a inveja de Bentinho relativa aos dotes másculos de Escobar:

   Tudo se precipita, em momento magistral do romance, quando em sequência rápida recebemos notícia de que os dois casais, reunidos na casa de Escobar e Sancha, fazem planos para viajar juntos à Europa, e logo Escobar saindo de perto, se desenha uma surpreendente cena de discreto erotismo entre Bento e Sancha, claro que sempre segundo a visão dele, que afinal nos conta a história, transcorrido em um diálogo de olhos - sempre eles [olhos de cigana, oblíqua e dissimulada, etc... DdAB]; Escobar reaparece para bravatear que o mar, vigoroso como está (eles enxergam de casa), é que vale a pena ser enfrentado por um nadador forte como ele, que mostra seus braços fortes, que Bento apalpa, invejoso, enquanto pensa nos braços de Sancha. A trama emocional e erótica não é nada linear, como se vê; o narrador chega a falar 'um instante de vertigem e pecado'.

Então, paixão, sedição, inveja. E aquele "tudo se precipita" tem a ver com o exibicionismo de Escobar, talvez a covardia de Bento em não ir para o banho de mar bravio. E também vinda de Bentinho, a inveja dos braços fortes do amigo, precipita-se também a sedição à amizade, com o desejo de Bentinho pelos braços de Escobar e projetados pelo primeiro, sobre os de Sancha.

DdAB

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