29 janeiro, 2026

Buffon, quem é Buffon?


Por outro lado, na página 58 da edição que estou lendo as Memórias Póstumas de Brás Cubas, encontra-se a expressão "inspetor de quarteirão". Leio agora a edição da Companhia das Letras de de 2014 (sexta reimpressão). Volta e meia penso exatamente no que Machado de Assis queria dizer com essa edificante variante (se não bisbilhoteira e cagüetista) de servidor público. E provo que pensei no assunto em 16 de setembro de 2010, pois escrevi aqui mesmo neste blog a postagem a que se tem acesso ao clicar aqui.

Por um lado, bem ao gosto de Machado, dialético e irreverente, escrevo este "por um lado" antes do "por outro lado", na página 48 desta edição (diferente, como vê quem lê a postagem alcançável com o clic naquele "aqui"), lê-se o que acabo de escrever, endereçado ao chatbot DeepSeek:


No final do capítulo VI de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", Machado de Assis fala: "O filho sentia-se satisfeito, ouvindo aquela palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião." Indago sobre Buffon e os gaviões.

Indaguei-lhe, claro, sobre gaviões e bufões. Só que não, que não eram bufões. Vejamos o que o diligente chat chinês tem a dizer sobre Machado de Assis e mesmo sobre mim:

A referência a Buffon e aos gaviões nessa passagem é uma das típicas digressões filosófico-científicas de Brás Cubas, cheia de ironia machadiana. Vamos destrinchar:

1. **Contexto imediato**: Brás descreve uma discussão entre seu pai (Bento Cubas) e seu tio (João Cubas). O pai defendia a experiência como mestra da vida, enquanto o tio preferia seguir os livros e teorias. Quando o pai proferiu "uma palavra digna e forte" sobre o assunto, Brás comenta que ficou satisfeito, e então vem a reflexão: "o que diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião."

2. **Quem é Buffon**: Georges-Louis Leclerc, Conde de Buffon (1707-1788), foi um naturalista francês, autor da monumental *Histoire Naturelle*, uma obra que pretendia descrever e classificar todos os seres vivos. Buffon era famoso por suas teorias sobre a natureza, muitas vezes baseadas em observação, mas também carregadas de interpretações humanas e moralizantes sobre os animais.

3. **A ironia da reversão de perspectivas**: A pergunta de Brás inverte a lógica antropocêntrica. Se Buffon fosse um gavião (ou seja, se o grande classificador da natureza fosse um animal, não um homem), ele descreveria o mundo a partir da perspectiva dos gaviões, possivelmente atribuindo aos humanos características que nós atribuímos aos animais (como selvageria, irracionalidade, etc.). A "palavra digna e forte" do pai de Brás, que soa tão sábia aos ouvidos humanos, poderia ser ridicularizada ou incompreendida pela ciência dos gaviões.

4. **Crítica ao conhecimento humano**: Machado de Assis (por meio de Brás) está questionando a suposta objetividade da ciência e da filosofia. Toda descrição do mundo é feita a partir de um ponto de vista específico, condicionado pela espécie, cultura e interesses do observador. Buffon, como humano, descreveu os animais com categorias humanas; um Buffon gavião faria o mesmo, invertendo os termos.

5. **Gaviões como símbolo**: Os gaviões são aves de rapina, vistas como violentas e predadoras na perspectiva humana. Mas na natureza, são simplesmente animais que seguem seu instinto. A pergunta sugere que nossa visão moral do mundo (o que é "digno e forte") é relativa. Talvez, para os gaviões, nossos valores sejam estranhos ou fúteis.

6. **Relativismo machadiano**: Essa passagem é um exemplo do **ceticismo relativista** de Machado. Ele constantemente lembra ao leitor que a verdade depende do lugar de onde se olha. A vaidade humana de achar que nossas interpretações são absolutas é frequentemente satirizada.

Em resumo, a menção a Buffon e aos gaviões serve para sublinhar a **relatividade do conhecimento e dos valores humanos**. Machado ironiza a pretensão humana de compreender e julgar o universo, sugerindo que outras espécies poderiam nos ver com a mesma arrogância com que nós as vemos. É uma forma de colocar em perspectiva as discussões "sérias" entre os homens, como a que ocorria entre o pai e o tio de Brás.

E aí, grato como fiquei, decidi agradecer ao algoritmo:

Maravilha! Obrigado.

Ele não vacilou e disse:

Maravilha! Fico muito feliz em ter ajudado a desvendar essa camada da genialidade machadiana. É nessas pequenas digressões aparentemente absurdas que Machado de Assis esconde algumas de suas críticas mais profundas e bem-humoradas à condição humana.

Se surgir outra dúvida sobre Memórias Póstumas, Buffon, gaviões filosóficos ou qualquer outro ponto da literatura, filosofia ou relativismo aviário, estou à disposição. Foi um prazer conversar sobre isso!

Boa leitura (e reflexão) com o Brás Cubas!

Estes chineses não são mesmo uma plêiade de amorecos?

DdAB

Imagem do verbete "gavião" da Wikipedia.

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