terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Industrialização e a Desigualdade Brasileira


Querido diário:

Não se vão muitos anos na contagem regressiva, no tempo em que o prof. Adalmir Marquetti era presidente da FEE, a seu convite, participei de um seminário sobre industrialização, ou desindustrialização, sei lá. Tentando centrar minha análise "na vida como ela é", busquei um referente no tipo ideal de um menino de rua, mais carente de educação (alimentação, uniforme, psicólogo, professor, caderno, ônibus, etc.) do que de um daqueles empregos que alegadamente são criados para gerar renda. Pois um amigo que faleceu pouco tempo depois do épico evento achou esdrúxulo que um professor doutor PhD, especialista em economia industrial e economia do insumo-produto, não tivesse um filão mais nobre em que centrar a falação.

Pois não é que não é que Jessé Souza permitiu-me ler a página 52 de seu livro

A tolice da inteligência brasileira; ou como o país se deixa manipular pela elite. São Paulo: LeYa, 2015.

E que li? Vai lá, Jessé:

   "O que queremos neste livro e neste esforço é precisamente articular as ideias força, ou seja, as ideias que s tornam vida prática da sociedade brasileira contemporânea. A 'sacada genial' de [Sérgio] Buarque [de Hollanda, no livro "Raízes do Brasil"] de constituir uma visão de mundo liberal-conservadora - posto que esconde as verdadeiras razões da desigualdade e da injustiça social - com a aparência e o 'charme' de uma suposta crítica social é a ideia-força mais importante para o entendimento da manutenção da desigualdade e da injustiça social. Afinal, a injustiça flagrante dos privilégios que se tornam permanentes tem que ser, na sociedade capitalista que 'diz' ter acabado com todos os privilégios de nascimento, 'legitimada' para que possa se reproduzir.
   "Essa legitimação tem de esconder o mundo social injusto como ele é, se possível, ainda 'deslocar a atenção' para aspectos falsamente importantes - ou, pelo menos, de importância secundária com relação às questões mais importantes - de modo a perceber o mundo social escondendo o essencial e enfatizando o secundário. [...]".

Aqui temos -mutatis mutandis- que "a luta pela industrialização" (título de um livro de história econômica muito popular há 30 anos) esconde "as verdadeiras razões da desigualdade e da injustiça social", que -a meu ver- pouco ou nada têm a ver com os atropelos que vive o setor industrial numa economia fechada como a brasileira. Por isso, entendendo que o foco deve ser "a condição da classe operária no Brasil" e seu artelho representado pelo lumpen-proletariado. Centralizar minha preocupação no menino de rua é muito mais "economia política" do que economia industrial ou economia do desenvolvimento.

Ou seja, Jessé Souza está sugerindo que as explicações (na verdade, Buarque, Raymundo Faoro -no mesmo capítulo- e Roberto da Matta no seguinte) estão evadindo a questão central, nomeadamente, a manutenção da desigualdade e da injustiça social. Quando vejo que vai-se falar em financiamento governamental da industrialização, voltado à geração de "emprego e renda", invariavelmente já vou espichando a mão para meu copo de cachaça. Para uma expressiva fração dos economistas de esquerda, não há evidência que os faça repensar a encrenca toda, o que apenas uma meia dúzia já fez. Primeiro, desde o artigo "Possibilidades Econômicas de Nossos Netos", de John Maynard Keynes, temos até o nome para a hidra: desemprego tecnológico. Mesmo que tenha havido e venha a haver períodos de excedentes de demanda por trabalho, a dura realidade é mesmo o desemprego crescente da mão-de-obra em todo planeta. Segundo, mesmo que houvesse demanda por trabalho, como é que um povo analfabeto iria atender o chamado desses empregos modernos sinalizados por baixa produtividade? Education, education, education. Terceiro, a "abissal desigualdade" (Jessé, página 53, in fine) guarda no bojo de seu combate uma estratégia mais realista: "para longas caminhadas, pequenos passos." O que eu acho é que, ao invés de nos iludirmos com a quimera da "ascensão ao primeiro mundo" devemos é nos compungir com esse estado de coisas e paralisar o país, como é possível no impacto, mas imitando a forma dos movimentos chineses (Grande Salto Para Frente e Revolução Cultural) e começar a cuidar da educação, do saneamento, da moradia,

Constatar a existência da corrupção de agentes públicos (e obviamente de corruptores "do mercado"), não nos impede de vislumbrar um papel central para o governo voltando-se à realocação dos recursos (tributos e crédito) para a formação de capital humano e social. Pois a questão central é que, mesmo que o Brasil tenha "fechado um parque industrial" de modernidade média, seu crescimento extensivo (mostro isto em minha tese de doutorado) pré-1980 e rastejante, desde então, não poderia ter sucesso com uma mão-de-obra de tão baixo nível de treinamento. Se a Nissan processava um milhão de sugestões de melhoria do serviço (cf. a biografia de Akio Morita), o trabalhador brasileiro mal sabe escrever e a empresa local não teria a menor capacidade de processar tanta informação.

DdAB
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