quinta-feira, 3 de março de 2016

Caetano: keynesiano e crítico?


Querido diário:

Primeiro: Caetano Veloso reapareceu em minha vida all of a sudden, como diria Melody Gardot, de quem falei anteontem no Facebook. Diz que ela, entre milhares de influências do jazz ao baião (?), contou com a inspiração de Caetano Veloso. O fato é que ela canta em português, como milhares de outros/as estrangeiros, alheios ao mundo da herança linguística ibérica.

Segundo: em compensação, vi-o, ao Caetano, citado por Antonio Delfim Netto na Carta Capital de 4/fev/2016, página 35, cuja leitura ficou pendente em virtude de meus compromissos diplomáticos no exterior (férias na Espanha, hehehe). Em ainda mais sinuosas compensações, não era bem Caetano Veloso, mas Alvin Hansen (aqui), consagrado divulgador da teoria keynesiana nos EUA, sentenciou: "Vivemos num mundo perigoso. É perigoso agir e é perigoso não agir." Achei esta tirada divina, maravilhosa, claro. Atenção, tudo é perigoso, tudo é divino, maravilhoso!

Terceiro: Delfim Neto é meu conhecido por uma posição às vezes defensora dos bons ritos da teoria econômica e em tantas outras é seu crítico mordaz. Diz ele:

Em nenhum [país, as autoridades monetárias internacionais] sabem muito bem o que estão fazendo. Ou alguém acredita que [elas... sabem] para onde estão nos levando neste mar revolto que ajudaram a construir? Foi obra lenta, apoiada na imaginária 'ciência dos mercados perfeitos'. Com ela, colonizaram e submeteram à sua vontade os pobres nativos que, sem imaginação, se limitaram à produção de bens e serviços.

E acrescenta:

[...] o excerto de um depoimento no Congresso dos Estados Unidos, de 16 de maio de1939, do [citado Alvin Hansen], onde revelou a sua grandeza e as limitações de seu enorme conhecimento:

   Eu gostaria de prefaciar meu depoimento sobre a análise econômica e suas conclusões. Estou seguro de que aqui trataremos de matérias que não são sujeitas a demonstrações matemáticas inequívocas ou a resultados possíveis nos laboratórios das ciências naturais. Os dados com os quais trabalhamos são sujeitos a erros com margens ivariáveis. Os métidos com os quais os analisamos são imperfeitos. Logo, as conclusões a que chegamos são inevitavelmente tentativas. O papel do economista no seu esforço para interpretar as tendências econômicas será, se ele for honesto, muito modesto. Vivemos num mundo perigoso. É preciso agir e perigoso não agir. É perigoso dar conselhos e seria mais fácil tentar escapar dessa responsabilidadse recusando-se a fazê-lo... Eu gostaria de pedir-lhes que tenham em mente desde o início que todas as pesquisas nesta área devem ser feitas com muita humildade. Dizer-lhes que há lugar para outras competentes e honestas opiniões, tanto com relação às tendências econômicas atuais quanto para a adequação da solução de nossos problemas.

Quarto: pois bem, pois mal, pois então, pois é, pois sim, pois não! Preciso prefaciar meu comentário dizendo que há umas reticências e outras aspas que andei retirando, pois acho que houve erro de edição nas citas do velho Hansen. Depois deste caveat, faço alguns comentários:

.1. estou seguro de que há dezenas de temas econômicos que se sujeitam tanto a demonstrações matemáticas precisas, a estimativas econométricas confiáveis e, principalmente, a experimentos de laboratório. Não eram naquele tempo, mas agora são! E não havia nada de errado com a modéstia invocada por Hansen, mas há problemas de preconceito de Delfim Neto, quando ele diz: "Pois bem, 77 anos depois desse depoimento, a situação não é muito diferente." Segue o ex-ministro discutindo a política monetária (ergo, Banco Central) do Brasil. E eu o abandono aqui.

.2. e passo a meu segundo ponto no exame do discurso de Alvin Hansen. Quando ele diz que, uma vez que os dados usados pelos economistas são sujeitos a erros e os métodos são imperfeitos, as conclusões são tentativas. Eu acrescento, na linha de Terence Hutchison (é ele? ele está aqui, mas nem li), quando os economistas passarem a lidar com dados não-sujeitos a erros e métodos perfeitos, ainda assim, suas conclusões serão tentativas. O salto indutivo é proibido! Nunca de núncaras neste mundo empírico das quatro dimensões e da realidade do concreto tangível, a indução oferecerá garantias de levar-nos à verdade. Aliás, verdade é um conceito não muito afeito à verificação empírica na linha do "se... então": se sobem os juros, cai a inflação. Aliás, by the way, to stick to my selected anglicisms, entendo, baseado em Marx e milhares de outros, que o verdadeiro inimigo da inflação é a falta de crescimento na produtividade do trabalho. Pimba: este é o milagre brasileiro: como é que uma sociedade dual pode viver há longos anos, talvez mais de 77, sem desintegrar-se? Resposta: parece que já se desintegrou mesmo e segue o exemplo do Império Romano: a turma estava tão distraída que foi notar apenas uns três ou quatro séculos depois da queda.

.3. Mas não me conformo com a possibilidade da existência de gente que professa a "ciência dos mercados perfeitos". Em outras palavras, qualquer leitor da teoria da escolha pública há de defender a ideia de que precisamos de sistemas de tributação com tais ou quais características, por saberem que o mercado não resolve todos os problemas da vida social. E que o governo ele mesmo ou por delegação à comunidade precisa de recursos para prover bens públicos e bens de mérito.

Por estas alturas, lemos no início aquela encrenca que "viver não é preciso", digo, viver é perigoso, é impreciso e... bom pra xuxu. Mas não posso deixar de aclamar como alerta ao Brasil contemporâneo seu finalzinho olímpico. Agora refiro-me àquela ode ao clamor de Ana Maria Bianchi: "muitos métodos é que é o método". E desejar que sejamos capazes de diferenciar as proposições positivas das normativas é que nos leva a dar aquele passo que nos leva do sublime ao ridículo (a internet tem milhares de citações, dando a autoria desta frase a Napoleão Bonaparte. Minha 'primeira vez' foi ouvi-la de Pedro Malan, em conferência pela FCE/UFRGS, talvez até trazido pelo DAECA).

DdAB
Peguei a imagem de uma página que não se deixou referenciar este sublime cãozinho que nos mostra que o ridículo será facilmente vencido, in due time.

p.s. dei umas mexidas pelo texto, acrescentando o .3. às 13h56min de hoje mesmo.

2 comentários:

Fabio Cristiano Pereira disse...

Bom dia Ilustre Mestre Duílio!
Pitacos modestos:
- Adorável o dog da foto, apesar de eu ser mais fã de pastor alemão...
- Texto impecável como sempre!
- Sempre lembro da definição de Economia, por Delfim Netto: É a Arte de Pensar!
- Fato: Nossa ciência não é precisa, "but who cares?", não fazemos previsão do tempo! :)
- Derivei um pouco sobre o tema em meu post de hoje!
Abraço!

... DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...

Oi, Cristiano:
Primeiro li teu blog e apenas agora é que cheguei ao comentário. Talvez deva colocar o que segue também como considerações lá mesmo. Há um artigo que muito aprecio que e avalia o grau de acerto das previsões feitas pelos economistas/modelos econômicos. Mesmo naquele tempo (então, ainda sem traços de modelos de inteligência artificial), a economia fazia previsões com muito mais precisão que a meteorologia:

BRONFENBRENNER, Martin (1973) Introducción a la metodologia economica para lectores de pretensiones intelectuales medias. In: KRUPP, Sherman Roy ed. La estructura de la ciencia economica. Madrid: Aguillar, 1973. p.5-29.

Olha:
"Evidentemente a economia não usa métodos de laboratório [hoje em dia, M.B. não diria mais isto...]. Os casos mais estreitos de analogia com as ciências naturais referem-se à astronomia e à meteorologia. Estas, tal como a economia, têm buscado extensivamente apoio na matemática e na estatística, a fim de substituir os métodos de laboratório."

Esta passagem e outros detalhes estão aqui:

http://19duilio47.blogspot.com.br/2014/08/metodologia-economica-e-martin.html