segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O Gigante Terteão e o Ludopédio


Querido diário:

Eu ia citar direitinho onde li a frase que segue, mas perdi o momento, embora não seja difícil para um detetive achá-la. Adianto que é do futebol do jornal que, carinhosamente, designo como Zero Herra, dadas as poucas (muitas) e boas (péssimas) que vejo com frequência, especialmente, quando se fala de um conteúdo "de direita". Futebol? Já andaram corrigindo minha fala, dizendo que "futebol" é anglicismo e que o certo é dizermos "ludopédio".

Frase prometida:

Se protegerá para escapar em contra-ataque.

Esta questão do clube jogar no contra-ataque já me deu dor de cabeça para entender, no tempo em que o São Paulo Futebol Clube (oslt) usava a tática. Eu pensava: se é contra-ataque, nunca ataca, sempre contra-ataca, mas isto não dá muito futuro, pois o bom mesmo é o ataque-ataque. Seja como for, parece que a realidade tangível da objetividade concreta mostrou meu erro. O São Paulo foi campeão.

Sabe quem sabe que, volta e meia, tiro onda de esmerado estudante de nível de ensino médio, fazendo reflexões sobre a língua portuguesa, especialmente, achando erros desabotinados no jornal Zero Hora, que -como acentuei- costumo chamar de Zero Herra, por isso mesmo. Também sabe quem sabe que tenho meu consultor particular sobre estes assuntos, o prof. Conrado de Abreu Chagas, dono de meu marcador de temas intitulado "Conradianas". Este material, mesmo chamando-se "Conradianas" não tem o aval de meu querido mestre. Que pensará ele, by the way? Penso eu que ele sente certo orgulho em ter-me ensinado algumas coisas importantes. A mais contundente delas, devo admitir -agora com indisfarçado orgulho- é que entendi que não falamos aquele português que nos foi ensinado na escola. Nada daquele "nóis pega os peche", o português castiço que o próprio Bill Gates veio a intitular em seu editor de textos como português brasileiro.

No passado mais remoto do que menos, tive muito contato com o pessoal da editoria da FEE e basta ler meus textos lá revisados para saber quão português brasileiro culto aquilo é. No passado mais recente, envolvi-me com as editorias das Editoras Saraiva e Bookman/Grupo A e, por exemplo, desta vez aprendi a descolar o verbo (descliticizar, talvez dissesse nosso professor Conrado) em certas formas de locução que não consigo analisar adequadamente. Mas no que segue darei um ou dois exemplos que me são mais ditados pelo ouvido do que pela reflexão. Este "que me são" já é uma prova de que ainda os arcaísmos habitam em minh'alma... Acho que a Bookman não deixou nenhum quemessão lá no livro de mesoeconomia/contabilidade social... E se eu dissesse "que são-me"? Acho que ficaria ainda mais português europeu. E a solução? Acho que a mais elegante seria dizer "que são para mim".

Todos sabemos que, há uns 20 anos, lancei o movimento "Me Faz Próclise Te Chamo de Castelhano", o MeFa. Naquele tempo, eu não tivera a sorte de conhecer o brilho do prof. Conrado, pois -depois de tê-lo conhecido- abortei o MeFa, ou pele menos, reduzi-lhe a importância. E, se aquela argumentação não tivesse caído em terreno fértil, as dúvidas desapareceriam ao ouvirmos o presidente postiço Michel Fora Temer falar em algo como "ter-te-ão". No português falado, parece que isto se origina mesmo de um pedante, ou vários pedantes falam como se escreve, prova de pedantismo. É que aprendi com Stephen Pinker que "a gente escreve como lê e não como fala". Então é óbvio que posso falar "me faz próclise", mas escrever esta forma apenas como citação literal a uma fala" E já fui generalizando que língua é oral, não existe língua escrita, aquela coisa de fonema e fonético (eu ou Chomsky?). 

Ter-me-ia, temer-nos-ão, ter-te-ão. E entra na história o Gigante Terteão. Agora estamos falando não do senhor Fora Temer, mas de Graciliano Ramos, no livro "Infância". Ele aprendeu as primeiras letras no início do século XX, algo assim, pois nasceu em 1892. E aquele "ter-te-ão" estava lá em seus livros. Ainda mais: ele já estava estupefato com a necessidade de aprender quatro alfabetos:

.a TER-TE-ÃO (em maiúsculas, ou versais, ou caixa-alta, dependendo de quem fala)
.b ter-te-ão (em letra de forma minúscula, caixa baixa)
.c as maiúsculas manuscritas (lá em cima, com a fonte Segoe Script e a seguir a bandeira americana)
.d. as minúsculas manuscritas (idem).



É muita coisa para o menino cujo depoimento, já adulto, foi dado para -segundo a memória dita- deixar marcada a educação dada a sua infância pela cultura nordestina. Sem esquecer a injustiça que lhe foi infligida pelo próprio pai por causa de um cinturão perdido, ou melhor, negligenciado pelo coroa. Especialmente no caso (evitável dos quatro alfabetos) já temos tortura suficiente para impingir sobre uma criança analfabeta. Eu jamais iria escrever, como o jornalista de Zero Hora, "Se protegerá para escapar...", Vejo-me dizendo, falando assim. Mas porém todavia contudo entretanto: eu jamais escreveria a frase iniciando-a com pronome átono. São quase 70 anos estudando e escrevendo essas coisas. E que faria eu por escrito, que escreveria eu? "Vai proteger-se para escapar...", "Irá proteger-se para escapar..." ou talvez, na linha da Saraiva/Bookman, "Vai se proteger para escapar".

E quem invocaria o gigante Terteão? Acho que ninguém, ninguém fora o sr. Michel Fora Temer. Fora Temer!

DdAB
P. S. The quick brown fox jumps over the lazy dog: a ágil raposa cinzenta salta sobre o cão preguiçoso. Não é a metáfora para o povo e Temer? É a frase, uma das primeiras tentativas, de escrever com todas as letras do alfabeto agora novamente em vigor no Brasil.

P.S.S. O [gigante] Terteão está na página 99 do livro "Infância", da Editora Record, sem data, mas um ISBN: 85-01-15407-5. E a frase é: "Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém."

Nenhum comentário: