quarta-feira, 30 de outubro de 2019

O Viés do Walter

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Parece ideia fixa: quase nunca ler, mas -ao fazê-lo- ficar sem palavras e, deste modo, partir para a escrita. Tanta enfatuação, tanta e tão larga visão estreita. Estou falando nos vieses do sr. Walter Lídio Nunes que, acabo de conferir, já tem duas entradas aqui neste blog. E nem posso dizer discordar de tudo o que ele diz. O que afirmo é que, em minha leitura cabrita de Zero Hora (pulo mais que os bichinhos na montanha), raramente leio o Walter.

Pois hoje é dia de minoria, isto é, exceção a meu padrão de pular a coluna que ele escreve. Quem é Walter Lídio Nunes, se não o conheceis? Ex ou atual presidente da ex-Borregard, afamada empresa que transformava florestas em pasta de celulose, atual vice-presidente da Associação Gaúcha das Empresas Florestais e, como inferimos, colunista de Zero Hora. Sem dúvida, uma das lideranças do meio empresarial sul-riograndense.

Sua coluna quinzenal, de hoje, tem o título de "Entraves para o Crescimento" e, como diriam os inspirados redatores do jornal, plantou-se na página 23. Se fosse crescimento dos preços, da taxa de câmbio, da distância do Sol à Lua, crescimento do que quer que seja, numa coluna assinada por ele, eu iria dar uma olhada. Seu tópico frasal me cativou, já no lado negativo do cativismo, tornou-me cativo, escravo, negativista:

   Para termos um Brasil com mais igualdade social e qualidade de vida, precisamos desenvolver o ambiente de empreendedorismo sustentável.  Uma país não resolve problemas sociais por meio de 'esmolas' assistencialistas, mas com empregos e iniciativas empreendedoras. Para promover a nossa inserção na economia globalizada e assegurar taxas de crescimento dignas de um país continental, o foco das políticas de Estado deve ser facilitar o empreendedorismo sustentável e a competitividade sistêmica.

Primeiro: então é o empreendedorismo sustentável que oferece "mais igualdade social e qualidade de vida"? Claro que este é um dos ingredientes da promoção da igualdade, se é que o Walter vai além e está pensando em crédito ao cidadão que apresente um bom projeto ao Sebrae, obtendo dele o financiamento para a implantação. Em minha visão, complementar?, à dele, o Sebrae deveria convidar a população interessada e oferecer-lhe bolsas de estudos, digamos, R$ 1.200 por mês para assistirem a cursos de empreendedorismo. Estudariam, até suas empresas passarem a gerar renda maior que R$ 200 mensais, quando o Sebrae passaria a pagar uma bolsa de R$ 1.000, a mesma esmola assistencialista que, por abrupto contraste com sua concepção de mundo moderno, eu recomendaria, em paralelo: a implantação da renda básica da cidadania estabelecida pela lei 10.835 de 2004.

Segundo: a que estará referindo-se o Walter ao falar em naquelas "esmolas assistencialistas"? Será ele contra a renda básica, a renda incondicional que representa, para o século XXI, o que a abolição da escravatura fez para o século XIX e o feminismo, para o século XX? [ideia de Phillipe van Parijs] . Bem, claro, seguramente, óbvio: ele se refere a uma taxa de investimento na economia que absorva aquele enorme exército de trabalhadores precários. Ele não se deu conta de que nunca haverá emprego para todos. Seus assessores economistas não são de confiança... E as iniciativas empreendedoras, como concebê-las para desvalidos sociais que não sabem diferenciar um tubo de pasta de dente de um tubo de cola?

Por fim, "competitividade sistêmica" num país de classe trabalhadora de rala incorporação de capital humano precisamente por causa de luminares do porte do Walter, que parece que fugiu dos livros de economia do desenvolvimento como as árvores sortudas escapam do machado de sua firma? Parece óbvio que o empreendedorismo em si está longe de ser o início da salvação nacional. Por contraste, o gasto público em educação, saúde, segurança, saneamento e previdência é que está na vitrine. E, naturalmente, o imposto de renda progressivo, o imposto sobre o patrimônio e o imposto sobre heranças ajuda a financiar esse gasto, também dando sua contribuição para reduzir a estonteante desigualdade que percola a vida social brasileira.

DdAB
Imagem: busquei no Google o título de um texto no livro de português que estudei em 1958 em Campo Grande, Matto Grosso. E veio aquela devastação deixando parte do mato sem cachorro.

domingo, 27 de outubro de 2019

A Mancha e o Caos


Eu vivo num tempo sombrio. A inocente palavra é um despropósito. Quem está rindo é porque não recebeu ainda a notícia terrível! (Volta e meia lembro desses versos de Bertold Brecht de que vemos uma citação recente aqui). E meu título também é evocativo: o jornal Zero Hora.

A MANCHA
Na página 5 do caderno DOC deste jornal, leio o artigo de Cristina Bonorino intitulado de A mancha. A professora de imunologia recentemente aprovada no concurso para o cargo de titular da Universidade Federal das Ciências da Saúde de Porto Alegre está falando sobre a mancha de petróleo que está invadindo as praias do Brasil ensolaradas (ironia com aquela canção do "Eu te amo, meu Brasil..."). Diz ela:

[...]
Nunca havia visto [... na Austrália] a proteção tão profundamente institucionalizada do patrimônio natural, que era como patrimônio econômico, tanto pela direita quanto pela esquerda, tanto por religiosos, como políticos, empresários e ativistas.
   Comentando com colegas, um deles salientou que haviam sido criados pelo governo brasileiro - na época, 2013 - planos de proteção ambiental que incluíam um Plano Nacional de Contingência para Poluição por Óleo. Esses planos fofam construídos por comitês compostos por cientistas de diferentes especialidades: biólogos, químicos, engenheiros, administradores públicos. Ali se detalhavam as responsabilidades e ações em cada caso - seja qual for a origem ou causa do desastre que vai sendo apurada em paralelo.
   Quando surgiu a mancha de óleo que há dois meses se estende por algo como 200 praias em nove estados brasileiros, fiquei esperando a implementação do plano, que não aconteceu até hoje.
[...]

Não aconteceu até hoje? Parece mentira. Parece óbvio que o governo está esperando um apoio da sociedade a sua mudança de estilo, como a que estamos vendo (de longe...) no Chile do neoliberalismo radical. Estou seguro de que, se um milhão de brasileiros forem às ruas, digamos, em Brasília, o governo vai sentir-se legitimado para implementar medidas delineadas precisamente para este tipo de tragédia, concebidas em pleno regime comunista que varreu o Brasil.

O LULISMO
Era o lulismo, minha gente. E olha o que foi feito:

01) Fies
02) Pronatec
03) Prouni
04) Ciência sem Fronteiras
05) Mais Médicos
06) Farmácia Popular
07) Minha Casa, Minha Vida
08) Bolsa Família
09) Cisternas no sertão
10) Luz para Todos
11) Transposição do Rio São Francisco
12) Reativação do Transporte Ferroviário
13) Ferrovia Norte-Sul
14) Ferrovia Transnordestina
15) Aumento do salário mínimo acima da inflação
16) Água para Todos
17) Brasil Sorridente
18) Pronaf
19) FAT
20) Programa Brasil Sem Miséria
21) Bolsa Atleta
22) Bolsa Estiagem
23) Bolsa Verde
24) Bolsa-escola
25) Brasil Carinhoso
26) Pontos de Cultura
27) Programa Biodiesel
28) SUS
29) SAMU/UPAS
30 Saúde da Família
31) FGEDUC (Seguro do FIES)
32) Casa da Mulher Brasileira
33) Aprendiz na Micro e Pequena Empresa
34) MEI Microempreendedores Individuais
35) Pagamento da Dívida Externa ao FMI
36) Empréstimo ao FMI
37) BRICS
38) Retirada pela ONU do Brasil do Mapa da Fome
39) Reequipagem, Valorização e Autonomia da Polícia Federal
40) Liberdade para a PGR
41) Liberdade para o MP
42) Escolha para os órgãos da Justiça dos primeiros das listas das corporações
43) Jogos Pan-americanos
44) Copa do Mundo
45) Olimpíadas
46) 98 conferências nacionais de 43 áreas, como educação, juventude, saúde, cidades, mulheres, comunicação, direitos LGBT, entre outras.
47) Orçamento para a Cultura cresceu de R$ 276,4 milhões em 2002 para R$ 3,27 bilhões em 2014
48) Vale-cultura
49) Programa Cultura Viva
50) Programa Mais Cultura nas Escolas
51) PND - Política Nacional de Defesa - Investimentos em defesa cresceram dez vezes: de R$ 900 milhões em 2003 para R$ 8,9 bilhões em 2013
52) Participação das FFAA em 11 missões militares de paz da ONU
53) Projeto Submarino Nuclear
54) Modernização da frota de aeronaves da FAB com transferência da tecnologia
55) Pré-sal
56) Redução de 79% do desmatamento da Amazônia brasileira
57) Aumento em mais de 50% da extensão total de área florestal protegida.
58) Liderança mundial em redução de emissão de gases de efeito estufa (GEE). Entre 2010 e 2013, o Brasil deixou de lançar na atmosfera uma média de 650 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano.
59) Valorização do polo naval
60) Refinaria Abreu e Lima
61) Novas usinas hidrelétricas: Teles Pires, Belo Monte, São Manoel, Santo Antônio, Jirau, São Luiz do Tapajós
62) Conferência Mundial Rio+20
63) PPP
64) PAC
65) Aumento exponencial do parque eólico brasileiro
66) Polos de desenvolvimento NE: Suape PE, Pecém CE e Camaçari BA: Investimentos somam cerca de R$ 100 bilhões.


Parece que era outro país. Parece que houve problemas e parece que 57 milhões de pessoas não gostaram do saladão que lhes foi servido pelo próprio lulismo, mas também por uns aos outros, por um segmento reacionário da imprensa, outro da classe empresarial, outro das fake news, e outros tantos que nem tenho a listagem oficial.

CAOS NO CHILE
E pelo que entendo, antes da instalação do caos na sociedade chilena, não se falava em social-democracia. Mas aquele um milhão de pessoas pelas ruas de Santiago fez seus governantes entenderem que assim não dá pé. Muita desigualdade gera instabilidade popular, que se manifesta de maneira bem menos pacífica que por meio das eleições.  Aqui está um resuminho - "algumas das propostas" - das medidas encaminhadas pelo governo do Chile, em vista da fúria da revolta popular:

[...]
Nesta terça-feira (22/10), o presidente chileno, Sebastián Piñera, anunciou um pacote de medidas para aplacar algumas das demandas de parte dos cidadãos: um aumento do salário mínimo em 50 mil pesos (62 euros), novo imposto de cerca de 40% para os que ganhem mais de 8 milhões de pesos (9.950 euros), ou corte de 9,2% da tarifa de eletricidade, são algumas das propostas do mandatário para 2020, estimadas em 1,2 bilhão de euros.
[...]
RESULTADO
Negligência do governo Bolsonaro? É que o plano contingencial foi feito por comunistas. Novo imposto de cerca de 40%? Nova alíquota? Tipo R$ 50-60 mil por mês, coisa que qualquer juizeco recebe por estas bandas? Eu acho esta cifra até modesta. Por mim, já entraria a de 35% para os de mais de R$ 20 mil mensais e, para esses R$ 50 mil eu reservaria a de 60%.

DdAB
Imagem: Praia da Pipa em Maceió.

sábado, 19 de outubro de 2019

Estarrecedor, inimaginável e repugnante

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Acabo de ler no mural de Marino Boeira [lá do Facebook] a seleção de um texto do vazamento desta madrugada divulgado pelo site The Intercept Brasil, entrei na dança escrevendo por lá.
Marino e Intercept:
"Estarrecedor, inimaginável e repugnante" Estes foram adjetivos que a defesa do presidente Lula usou para classificar os novos vazamentos da Intercept sobre as ações de Moro na Lava Jato. Moro não somente conspirou com os procuradores e comandou a força-tarefa da Lava Jato, mas também, desde o começo da operação, capitaneou operações da Polícia Federal. Chats de grupos da Lava Jato no Telegram, indicam que ele ordenou busca e apreensão na casa de suspeitos sem provocação do Ministério Público, o que é irregular. 'Russo [id est, Sérgio Moro] deferiu uma busca que não foi pedida por ninguém…hahahah. Kkkkk', escreveu Luciano Flores, delegado da PF alocado na Lava Jato, em fevereiro de 2016, no grupo Amigo Secreto — se referindo a Moro pelo apelido usado pelos procuradores e delegados. “Como assim?!”, respondeu Renata Rodrigues, outra delegada da PF trabalhando na Lava Jato. O delegado Flores, em resposta, avisou ao grupo: “Normal… deixa quieto…Vou ajeitar…kkkk”.

"Vou ajeitar?" Ou seja, cobriu a falha de Moro em sua tentativa de ser policial e juiz. Então vi-me estarrecido, incapaz de imaginar e repugnado. E declarei-me tudo isto e até mais, chegando a: Estarrecedor x estarrecedor + Inimaginável x inimaginável + Repugnante x repugnante + 2 x estarrecedor x inimaginável + 2 x estarrecedor x repugnante + 2 x inimaginável x repugnante. Ou seja, estarrecedor, inimaginável e repugnante elevados ao quadrado.

DdAB
Imagem: Entre outras, o Google-Images deu'ma quando lhe pedi: estarrecedor, inimaginável, repugnante.
P.S. E hoje achei isto, pois acabara de ver o filme "O Contador".
“Solomon Grundy,
Born on a Monday,
Christened on Tuesday,
Married on Wednesday,
Took ill on Thursday,
Grew worse on Friday,
Died on Saturday,
Buried on Sunday.
That was the end of
Solomon Grundy.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Sobre a Frente Única de Esquerda - UM

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Tenho lido no entorno que frequento o Facebook manifestações a favor do impeachment de Jair Bolsonaro. Nada me desagrada mais que essa mania de portadores de "mentes cansadas" acharem que impeachment é uma saída para qualquer atropelo ao bom-senso que o governante faz. Nunca esquecerei que Tarso Genro, se bem lembro era presidente do PT à época, queria o impeachment de Fernando Henrique Cardoso no quarto dia do mandato. Ora, ora, cá entre nós...

Quando leio este tipo de -digo apenas aqui- delírio que nem podemos chamar de esquerdizante, pois seria então esquerdizante remover Dilma do poder, tenho redarguido com a proposta da formação de uma frente única de esquerda. Por outras vias, volta e meia, propagandeio aqui neste blog o que considero os principais pontos de um programa político da Frente de Esquerda:

.a luta pela implantação do governo mundial
.b voto universal, secreto, facultativo, periódico e distrital
.c república parlamentarista.


Pelo que também tenho visto em meu entorno, não vai ter frente nenhuma, pois a esquerda arcaica jamais toparia um programa desta natureza. Mas vou mudar minha abordagem. Vou falar topicamente nos próximos tempos sobre outros pontos que podem unir e ungir uma frente progressista. Penso que a palavra que nos pode, assim, unir é igualitarismo.

Por que governo mundial?
Por um lado, já temos diversas instituições tentando a ação e a política internacionais. A primeira é a velha Liga das Nações, transformada em Organização das Nações Unidas após a II Guerra Mundial. Na mão da União Europeia, estão a Comunidade Econômica Europeia e sua antecessora Comunidade do Carvão e do Aço (de 1951) e a Comunidade Europeia da Energia Atômica (de 1957), culminando com a adoção de uma moeda única em 1997. Na contramão, temos o Reino Unido, que começa que não entrou na união monetária e depois pediu desligamento da Comunidade Europeia. Uma tristeza. E até hoje estão brigando dentro do próprio reino e os dirigentes conservadores com as lideranças "de Bruxelas".
Mas o verdadeiro "outro lado" do "por um lado" é que já existem instituições internacionais, nem todas eivadas de bom-mocismo. O bom-mocismo é visto na ONU, claro, nas organizações dentro da ONU para a agricultura, a educação, a saúde, a indústria, etc.. Também o é o Banco Central Mundial, e seu germe, pelo menos, no Bank of International Settlements. Mas aí começam os fatores de baixaria: tráfico internacional de pessoas, de armas, de drogas, de dinheiro.

Por que voto universal, secreto, facultativo, periódico e distrital?
A universalidade do voto
é o cerne da vida democrática: cada homem um voto, diz a consigna antiga. Ao falarmos em "voto universal", estamos contemplando as mulheres, os negros, os brancos, os LGBT+, e por aí vai. Certamente não é voto universal o existente em sociedades de castas, ou o que já existiu no Brasil, garantindo a representação política apenas a cidadãos portadores de fortuna superior a certo valor.
O voto secreto deve garantir a maior liberdade possível ao eleitor, impedindo-o de ser identificado por políticos de maus bofes que desejariam comprar sua cumplicidade ou persegui-lo por não votar "no gunverno".
O voto facultativo é o modo dominante no mundo e, em particular, o voto obrigatório não é mais que outra manifestação da tragédia nacional: eleitores desengajados e políticos oportunistas. Fazer do voto um instrumento de uso facultativo é estratégia dominante, pois quem quiser votar vota, ou seja, ninguém é impedido de votar, e vota quem quiser. Já o voto obrigatório obriga os que querem votar a fazê-lo, mas também obriga quem, pelas mais variadas razões, não quer nem saber de política. E obrigar quem não quer nem saber a querer é de um autoritarismo absolutamente atroz.
O voto periódico é fundamental para que os eleitores possam avaliar o desempenho dos eleitos para cargos públicos e, se for o caso, os retire do cargo mal-desempenhado. Há sistemas que falam em eleição com "recall", ou seja, na metade do mandato (ou menos), os eleitores reavaliam seus votos, confirmando ou demitindo os anteriormente eleitos.
O voto distrital serve para acabar com o oportunismo de alguns candidatos ou dirigentes partidários que procuram celebridades (jogadores de futebol, radialistas, jornalistas, cantores) sem o menos compromisso com ideologia ou partido político a eleger-se e "levar consigo" outros apaniguados do partido. O "recall" de que acabei de falar faz sentido apenas no sistema de voto distrital, no qual a proximidade entre o eleitor e o eleito é enorme. A prática brasileira (gaúcha apenas?) deixa claro que, informalmente, há voto distrital, pois fala-se no "deputado de Caxias", no "deputado da soja", etc. Ademais, como os deputados não estão disputando o mesmo espaço eleitoral, é bem possível que a cooperação entre eles ocorra, em benefício da celeridade nas decisões políticas por eles adotadas.

Por que república parlamentarista?Num regime presidencialista, as crises entre a sociedade e o presidente ou entre o presidente e seus controladores legislativos podem ser gravíssimas, alcançando mesmo o impeachment do presidente. Numa república parlamentarista, as crises se resolvem com a dissolução do governo (demissão do primeiro ministro pelo congresso legislativo) ou do congresso pelo primeiro ministro. É proverbial o caso italiano de ter tido em média mais de um governo por ano nos longos anos posteriores ao final da II Guerra Mundial. E também é conhecido o caso da Bolívia que também teve em média mais de um golpe de estado por ano.

Que mais?Temos que criar uma imprensa de marca esquerdista melhor do que praticamente tudo que conheço no Brasil. Já falei ter lido con gusto a Carta Capital. Mas ela e as dezenas de sites que frequento na internet, Facebook etc., não são capazes de separar fato de opinião. É doido dizermos que, num país que já possui quase 40 partidos políticos, a solução é a criação de um novo que consiga tornar-se um verdadeiro partido de massa. E também é doido dizermos que precisamos criar mais um site de esquerda, este sim, representando os princípios gerais que discuti nesta postagem.

DdAB

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Preocupações Generalizadas: Olga Paulo e eu


Testemunhei (e até participei) uma troca de ideias muito criativa entre Olga Veiga e Paulo Baptista no Facebook, a partir de uma postagem da primeira. Fiquei particularmente tocado ao ver a matéria da Carta Capital (que não li, pois a revista não foi capaz de me prender como assinante) em que a turma do Capital dos Carta prenuncia a queda de Bolsonaro. Já falei aqui no blog ter recebido uma enorme lição de democracia do prof. Eugênio Cánepa ao falar que a maior motivação para o golpe militar de 1964 foi o medo que Leonel Brizola fosse alçado à presidência da república. Cánepa voltou a exibir  sua proverbial sensatez: se a ordem democrática for mantida, e se efetivamente Brizola fosse eleito, ele teria seus quatro anos de presidente da república e então se retiraria, pois nem se falava em reeleição, como a que ungiu Fernando Henrique a seu segundo mandato. O país veria novas eleições sem quebrar a ordem institucional. O preço pago naquela vintena de anos de repressão jamais poderá ser avaliado. Da mesma forma, felizmente, portador de menos violência, o impeachment da presidenta Dilma voltou a jogar o país nas barras da quebra institucional. E até hoje estamos pagando, agora com Jair Bolsonaro aterrorizando as pessoas de boa vontade com sandices e um programa promotor de ainda maior desigualdade no Brasil. Dito isto, vamos ao Facebook:

OLGA VEIGA:
E [a pergunta] que não quer calar..."Volta a pergunta: o que explica que Bolsonaro aí fique, apesar de tudo? Se não é por apreço à estabilidade institucional, se, em seu caso, a 'legitimidade das urnas' é amplamente questionável, se exprime um sentimento minoritário e se, além disso, é um presidente de péssima qualidade, por que permanece no cargo?"

PAULO BAPTISTA:
O que explica Bolsonaro no poder é a mediocridade da oposição a ele se organizar manifestada nas eleições...

DdAB (entrei na conversa):
Estão pensando em impeachment? Sou contra! Sobre a legitimidade das eleições, lembro que o voto obrigatório corrompeu e corromperá todos os processos eleitorais neste país. Mesmo porque imagino que, se Lula tivesse sido o candidato do PT (com rala frente de esquerda apoiando-o), não é impossível que seu coeficiente de rejeição durante todas as pesquisas eleitorais o tivessem condenado à derrota.

Obviamente não apoio o Sérgio Moro, algoz da democracia e do direito no Brasil.


OLGA:
Não, tbm sou contra. O custo é muito alto e quem paga é o povo. O que me espanta é o apoio, o voto. Acho que eles (oposição/eleitores) não entenderam que pior que perder uma eleição é perder a democracia. É 'como as democracias morrem'.... Faltou percepção.

PAULO BAPTISTA:
Olga, esta percepção faltou não foi por parte do eleitor, foi por parte de quem estava em condições de encaminhar o processo de forma a não se correr o risco que se antevia. O que ocorreu, conforme dito por alguns (talvez possam identificar) foi a chamada 'dança à beira do abismo'. Os líderes que são seguidos cegamente frequentemente levam a isto.

OLGA:
Desse ponto de vista, concordo que foi essa 'dança a beira do abismo' que levou à cegueira aqueles que seriam os 'guardiões da democracia' e, que ao serem confrontados com extremistas e demagogos deveriam fazer um esforço orquestrado para derrotá-los.
Por outro lado, também cabe aos eleitores estarem atentos aos sinais de alerta que podem ajudar a reconhecer um autoritário que poderá colocar a democracia em risco (do livro “Como as democracias morrem”)...lendo hehehe:
1) Rejeitam, em palavras ou ações, as regras democráticas do jogo;
2) Negam a legitimidade de oponentes;
3) Toleram ou encorajam a violência;
4) Dão indicações de disposição para restringir liberdades civis de oponentes, inclusive a mídia.
Coincidência....


PAULO BAPTISTA:
Olga, talvez seja exigir muito dos eleitores. As lideranças estão muito empenhadas em demarcar cada qual o seu espaço de poder, espaço que devem dividir com os seguidores. Se for necessário levam ao extremo a disputa para não cederem nem um pouco desse espaço. E não faltam seguidores que os impulsionem a agir assim. Neste momento a política se torna uma paixão. Campo fértil para os que sobem aos palanques para discursos inflamados. Exemplos como o de Mujica e Mandela que , embora extremamente populares, reconhecem o momento de deixar o processo avançar sem eles, são poucos. Para isto é necessário humildade e um sentido da história que está muito escasso.

OLGA VEIGA:
Pois é, tudo é um risco, se os eleitores fossem engajados com valores democráticos, a democracia estaria salva? Não, a história já mostrou que não. Ao contrário, também não saberíamos o que viria pela frente. Por isso é que eles devem estar atentos. Não creio que seria 'exigir muito'.
Quanto a essas lideranças empenhadas em demarcar espaços e levar o poder ao extremo, aí que é que mora o perigo e, é aí que entram os eleitores, que devem avaliar os riscos para “impor limites” e não 'impulsionar' os tiranos.
Agora, comparativamente, Mujica e Mandela tiveram um processo de saída naturalmente, se é que entendi tua colocação. Mas, considerando as circunstâncias, aqui no caso, nossas lideranças deveriam ter, além de humildade, sabedoria de que o país está à frente do partido e que é de vital importância colocar seus interesses partidários de lado quando a democracia está em risco.


PAULO BAPTISTA:
Mujica e Mandela abriram mão de manter candidaturas de reeleição. Em nenhum momento parecem ter nutrido a expectativa de se tornarem estrelas mundiais da política. Mujica está, no entanto, bem presente e atuante na política conforme se pode constatar em intervenção recente em evento na Argentina. Argentina na qual, aliás, de forma inteligente a oposição evitou de acirrar o radicalismo e candidatar Cristina Kirchner. Tudo indica , no entanto, que ganha a eleição. Acredito que talvez Cristina possa não ter gostado mas, pelo menos, entendeu que era necessário sair da linha de frente. https://ametadesul.blogspot.com/.../ustedes-son...

OLGA VEIGA:
Sim, Mandela já era uma estrela e saiu por questões de saúde. Mujica não tinha mais o apoio do povo, agiram certo na hora certa. Aqui alguns poderiam ter feito o mesmo e Bolsonaro não teria sido eleito.

OLGA VEIGA (novamente):
Sim, Mandela já era uma estrela e saiu por questões de saúde. Mujica não tinha mais o apoio do povo, agiram certo na hora certa. Aqui alguns poderiam ter feito o mesmo e Bolsonaro não teria sido eleito.

PAULO BAPTISTA
Segundo o Ciro o que tem?

OLGA VEIGA:
o resultado das eleições não seria alterado.

A conversa acabou por aí. E eu fiquei pensando mais ardentemente ainda na lição dada pela Argentina com a legislação eleitoral que permite/induz a uma prévia entre todos os candidatos no primeiro turno, levando apenas os dois mais votados ao segundo. Lá a esquerda ingressou unida e dizem os estudiosos do tema que sua eleição ainda este mês é super provável.

Aqui, a "sabedoria da natureza" nos dá uma chance, um ensaio geral: as eleições municipais de 2020. Imagino que uma linha de argumentação deveria ser:
.a que é esquerda
.b quem são os partidos de esquerda
.c não fazer alianças com partidos da não-esquerda.

Dos 5 mil municípios do país não serei capaz de indicar candidatos a prefeitos e vereadores para todos. Mas do Brasil tenho meu candidato que deve quebrar a cabeça para escolher (se é que não o fez) um partido de esquerda para ingressar e concorrer à presidência: Renato Janine Ribeiro.

DdAB

sábado, 12 de outubro de 2019

Mais Novidades: o governo é importante...


Nenhuma descrição de foto disponível.

Do mural do Facebook de minha amiga Rosemary Fritsch Brum, copiei este quadro supermaneiro. De sua parte, ela copiou do mural de Ane Arduin (11/out/2019, tipo 14h00. Aeee, eu peguei esses dados e os coloquei lado a lado com o índice de Gini da distribuição da renda dos países correspondentes.


Não fiz nenhum cálculo nem gráfico, mas parece que temos uma regularidade. Esse exame perfunctório leva-me a crer que, como na postagem à qual remeto no rodapé, a correlação entre o emprego no setor público como fração da população e o índice de desigualdade de Gini da distribuição da renda é imponente.

Claro que ficam pendentes muitas clarificações, como é o caso do período a que se referem as duas variáveis, o que é emprego público, se a renda capturada pelo Gini é a mesma, tipo, depois de correções para o gasto público e a tributação, essas coisas.

DdAB
P.S. Eu já trabalhara  com uma amostra um tanto maior aqui.
P.S.S. O título é de uma obviedade constrangedora. No Brasil, a malta que assaltou o poder (pudera, 57 milhões de votos) é ignorante em matéria da teoria da escolha pública e não tem qualquer apreço pela promoção da sociedade igualitária. Ou seja, despreza o emprego público e tudo o mais que diga respeito aos "de baixo".

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Ordem alfabética: Argentina, Bolsonaro, Brasil, Romênia, Trump



Além da notícia de que um desembargador do tribunal de justiça do Rio Grande do Sul ganhou R$ 118.084,39 num mês e mais R$ 82.829,01 no mês seguinte, o jornal Zero Hora deixou-me estupefaciente na manhã de hoje. Sua principal manchete diz: "EUA indicam Argentina e Romênia para grupo de nações ricas e frustram Brasil".

Naturalmente a pergunta é "quem o desembargador pensa que é para retirar esses estupefacientes montantes de dinheiro de um estado que é incapaz de prover esgotos a sua pacífica população ou o salário mínimo do magistério?" A resposta veio rápida, mal a formulei: o desembargador, claro. Fosse eu o secretário da receita federal ou mesmo da estadual, propugnaria pela elevação da alíquota do imposto de renda para quem recebe mais de R$ 35.000 (parece que o teto -furado- pelo jeito) mensais. Só para ilustrar e calcular algo, imagina que os R$ 35 mil são o montante da isenção, ou seja, todos os brasileiros nada pagam se receberem 35 paus por mês. Então, essa diferença entre os 118 mil e os 35, ou seja, os 83 paus que igualam o do mês seguinte, teriam 40,15 retidos. Ainda assim o desembargador seguiria classificado na categoria dos apaniguados maiúsculos, mas o estouro nas combalidas contas estaduais seria menos indecente.

-Começou bem, pensei.

Mas voltei à capa: então Argentina e Romênia, sim, mas Brasil, não. A Romênia, nem mesmo forneceu os ancestrais da presidenta Dilma. Aí fui ver o embasamento econômico da recusa americana em aceitar um país que não manja de tecnologia para fazer esgotos cloacais. Não achei os dados cloacais, por assim dizer, mas peguei alguma coisa dos verbetes dos nomes dos trẽs países, já recebendo alguns bits de esclarecimento. Primeiro, o Brasil, com seu vasto e rico território e sua grande e vibrante população é o terceiro (segue no pódio...) em renda per capita. Ou seja, um pobretão, status compatível com a falta de esgotos, falta de policiais, professores e enfermeiros et tutti quanti.

Mas bem sabemos que a renda per capita corrigida pela paridade do poder de compra não é tudo. Afinal, a felicidade não é comprada com dinheiro. (Ou é? De acordo com Richard Layard, é...). Mas tem indicadores de que a vidinha de cá não é tão enobrecedora como a dos vizinhos do sul e os amigos do norte. Nossos índices de Gini da desigualdade na distribuição da renda são:

Argentina - 0,41
Romênia - 0,35
Brasil - 0,53.

Bem assim: 0,53. Falta emprego, faltam professores, enfermeiros, policiais, motoristas, aviadores, ascensoristas, engenheiros, garçons, 20 milhões de faltas.
E quando ao que mais interessa para deixar-nos de vez no grupo dos mais felizes do mundo? Vejamos o IDH:

Argentina - 0,83
Romênia - 0,81
Brasil - 0,76.

Epa, talvez tampouco sejamos o país de maior coeficiente de felicidade nacional bruta. Uns brutos. Um país que abandona sistematicamente sua infância (desde aqueles "capitães da areia" até os meninos e meninas de rua dos tempos atuais). E seus adultos, ignorantes, deseducados, beberrões. Claro que não estou falando dos desembargadores. Mas provavelmente eles têm em comum com todos os demais brasileiros natos ou naturalizados a inconformidade com seus ganhos, com planos de gastar mais, se lhes derem novo aumento.

Argentina
Population
• 2019 estimate
44,938,712
• 2010 census
40,117,096[13] (32nd)
• Density
14.4/km2 (37.3/sq mi)[13] (214th)
GDP (PPP)2019 estimate
• Total
$920.209 billion[14] (25th)
• Per capita
$20,425[14] (56th)
GDP (nominal)2019 estimate
• Total
$477.743 billion[14] (30th)
• Per capita
$10,604[14] (53rd)
Gini (2017)Positive decrease 40.6[15]
medium
HDI (2017)Increase 0.825[16]
very high · 47th
Romênia
Population
• 2019 estimate
Decrease 19,401,658[4] (59th)
• 2011 census
20,121,641[3] (58th)
• Density
84.4/km2 (218.6/sq mi) (117th)
GDP (PPP)2019 estimate
• Total
$541.807 billion[5] (40th)
• Per capita
$27,753[5] (54th)
GDP (nominal)2019 estimate
• Total
$244.158 billion[5] (46th)
• Per capita
$12,506[5] (57th)
Gini (2018)Negative increase 35.1[6]
medium
HDI (2017)Increase 0.811[7]
Brasil
Population
• 2019 estimate
210,147,125[5] (5th)
• Density
25/km2 (64.7/sq mi) (200th)
GDP (PPP)2019 estimate
• Total
$3.495 trillion[6] (8th)
• Per capita
$16,662[6] (80th)
GDP (nominal)2019 estimate
• Total
$1.960 trillion[6] (9th)
• Per capita
$9,343[6] (73rd)
Gini (2017)Positive decrease 53.3[7]
high · 10th
HDI (2017)Increase 0.759[8]
high · 79th

Desde o tempo dos militares, os presidentes da república do Brasil têm sonhos fenomenais, um deles é ter assento no conselho de segurança da ONU. Sempre fui a favor não desta posição, mas de mais conforto emblematizado por mais esgotos. Naturalmente nosso atual presidente é um militar. E que tem a ver esta peroração com o apoio americano à Argentina e à Romênia, deixando o Brasil, por assim dizer, mascando o freio?

Zero Hora, na página 10, explica tudim tintim por tintim:

Qual a contrapartida em troca do apoio americano?
Em março, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu fazer esforços para ajudar o Brasil a ingressar no bloco, foram exigidas contrapartidas. [...] Em troca do apoio de Trump, o Brasil também permitiu a entrada de americanos no país sem necessidade de visto. A permissão para uso da Base de Alcântara, no Maranhão, e a isenção de tarifas de importação de trigo dos Estados Unidos completaram a lista de medidas oferecidas por Bolsonaro.

Três belas contrapartidas. Um presidente da república ungido ao cargo por 57 milhões de brasileiros. Uma tragédia, duas tragédias, pilhas e pilhas de tragédias. Outro 7x1.

DdAB
Imagem: tão abisurado fiquei com o grau de debilidade mental da diplomacia brasileira e do presidente da república que, eu mesmo, fiquei um tanto debilizado e fiz propaganda para uma loja que me vendeu aqueles copos de R$ 9,90 por cada, como diriam os suinocultores. E os literatos da entourage presidencial.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Provérbios Portugueses+ CINCO

Resultado de imagem para O filho da tua vizinha tira-lhe o ranho e casa-o com a tua filha.
Vamos a nossos 10 provérbios portugueses que selecionei para hoje. Ou melhor, nove do livro de Deolinda Milhano e mais o de número 50, que eu mesmo inseri no livro.

41. A abóbada celeste é órbita sem fim. [Parece anti terraplanistas, né?]
42. A abóbora e o nabo enganam o Diabo.
43. Lenha dourada, pão queimado.
44. Mãos generosas, mãos poderosas.
45. Muitas vezes paga o justo pelo pecador.
46. Muito barulho para nada.
47. O filho da tua vizinha tira-lhe o ranho e casa-o com a tua filha.
48. O que é moda não incomoda.
49. Paixões não pagam dívidas.
50. [Isto, estes] são outros quinhentos. [Não sei quais seriam quantos e quais são os quinhentos anteriores]

DdAB
P.S. A imagem é a antítese do provérbio 47.

P.S.S. Leis da dialética:
. transformação da quantidade em qualidade
. interpenetração dos contrários
. negação da negação

P.SS.S. Fonte: MILHANO, Deolinda (2017) Dicionário de Ditados (Provérbios) e Frases Feitas. Lisboa: Colibri.

sábado, 5 de outubro de 2019

Bom Humor Brasileiro (de quem conta as histórias)

Resultado de imagem para dilamar schoeninger

No outro dia, dona Dila (Dilamar Schoingele), nossa admirável cozinheira estava preparando a carne para produzir uns bifes enrolados, daqueles com recheio de bacon e cenoura, tudo espetadinho com palitos. Eu, em louvável atitude de reformador (preocupado em salvar o mundo), lia meu jornal calmamente à mesa da sala. Casa de pobre, sala contígua à cozinha...

Uma história a contar sobre as batidas do bife é que eu nem notei, mas pessoas próximas o fizeram, no passado remoto, havia uma reforma na cozinha e no banheiro de minha velha morada à Rua Demétrio Ribeiro, em Porto Alegre, certamente no ano de 1993. Eu, para minha própria tristeza e decepção de amigos, não defendera a tese de doutorado nos dias finais de Oxford, tendo que fazer muita edição ainda, até receber o O.K. de meu finado orientador, o inesquecível mr. Andrew Glyn. Pois foi exatamente naqueles tempos que a bateção de martelo e chispar de lixas tornou-se -dizem- mais invasiva, só que eu nada ouvia.

Pois então. D. Dila em sua faina esmerava-se em deixar aquela carne de segunda com a maciez da de primeira. Eu nem ouvia, pois estava, como disse, lendo o jornal e amaldiçoando os tempos que me foram dados para viver sobre a terra. Epa, agora Brecht (tá aqui o poema). Mas, de repente, ela adentrou porta da sala, com o avental todo sujo de ovo (epa, agora não dei a origem desta expressão. Alguém não sabe?) e, percebendo que eu segui concentrado na leitura do jornal, contou-me a seguinte história. Muitos anos atrás, ela própria trabalhava numa casa em que a patroa era uma chata. E, chata oficial, certo dia, ouviu a d. Dila em sua esmerada bateção de bifes, dirigiu-se a ela, em bons termos e pediu: "Por favor, nunca mais bata bifes em minha casa, pois os vizinhos vão pensar que estamos comprando carne de segunda e, ipso facto, pensar que somos pobres."

Pois então II. Li, juro que li, lá por aqueles tempos ou oxfordianos ou no imediato retorno ao Brasil:

BUARQUE, Cristóvão (1991) A desordem do progresso ; o fim da era dos economistas e a construção do futuro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

Agora não sei onde está o livro, de sorte que não citarei a página. Mas consta em minha memória que Cristóvão visitava Manaus, um calor de assar pinhão nas calçadas do afamado teatro. Ele andava, digamos, com seu anfitrião local num automóvel de ar condicionado ligado. O anfitrião viu um táxi-fusca todo fechado, vidros, claro. E disse a Cristóvão: "Sabe por que aquele táxi tem os vidros fechados?" Para abreviar a história, Cristóvão respondeu: "Não." E seu amigo explicou: "Com os vidros abertos, todos verão que o motorista está passando um calor dos diabos, mas com os vidros fechados, vão pensar que ele está com o ar condicionado ligado." Cristóvão teria pensado: "Não!" Se ele não fosse pernambucano, mas gaúcho, a exclamação muda seria: "Capaz!", com o mesmíssimo ponto de exclamação.

Pois então III. Uma história de fusca puxa outra e aí me lembrei de outra delas, que me foi contada pelo meu líder na Sociedade de Economia e ex-prefeito de Porto Alegre, o já falecido prof. João Acyr Verle. Na busca de conseguir "instrumentar" a sociedade civil, especialmente frente a um grupo de economistas definitivamente da velha geração que controlavam a Sociedade de Economia do Rio Grande do Sul, Verle associou-se à entidade e chegou a fazer parte da diretoria quando -agora não lembro se testemunhou ou apenas ouviu falar- fizeram um jantar de arrecadação de fundos e os convites falavam que seria sorteado umfuscanovinho. Deu-se o jantar, deu-se o sorteio, deram-se os discursos laudatórios e deu-se a confusão. Digamos que o econ. Fulano de Tal viu seu convite ter o número sorteado, credenciando-o a tal mimo. Mais discursos e o brinde vai ser entregue: um autinho de plástico em formato de fusca dentro de uma jarra de vinho: um fusca no vinho.

Dizem que até hoje o econ. de Tal está reclamando, querendo processar os dirigentes da instituição da qual naquela mesma oportunidade demitiu-se.

DdAB
P.S. O combo do restaurante Dilamar é apenas ilustrativo. E pode ser acompanhado por um vinho sem fusca.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

1872: mais um ano que terminou...



A tabela (ou o que seja, poderia ser chamada de "quadro" por algum revisor de textos escalafobéticos, ou revisor escalafobético de textos) que nos encima foi construída por mim mesmo, com base no PDF do censo de 1872 hoje disponível no site do IBGE. Clicando sobre a figura, pode-se aumentá-la um tanto e conseguir melhores resultados na leitura. Bem enquadradinhos, temos: Raças, dos homens, das mulheres, brancos, pardos, pretos, caboclos, brancas, pardas, pretas e caboclas.

Cabocla, se bem lembro, era Iracema, a virgem de ouro dos lábios de mel. E não pretendo discutir mais os termos nem suas definições que devem localizar-se em algum lugar do PDF propriamente. Mas algo interessante, chamando-me a atenção, é uma espécie de hierarquia nos estados naturais e sociais. Explico-me: o que me interessava era ver a origem racial, surpreendendo-me ao ver que aquelas classificações ainda são usadas, nada de negro, mas "brancos, pardos, pretos e caboclos", parecendo referir-se a um estado imutável, tanto é que na linha do estado civil, vemos solteiros que são promovidos a casados e depois alcançam o status final que é o de viúvo.

Minha preocupação era comparar a situação atual com a d'antanho, como se dizia no antanho. Éramos (éreis?) 4,8 milhões de habitantes, contra os hoje mais de 200 milhões. Destes, 51,7% de homens 47,3% de mulheres. Hoje em dia, esta composição por gênero é majoritariamente feminina. Em 2010, para cada 100 mulheres, há 96 homens, vitória de 51x49 para o rosa contra o azul. Este escore deve dilatar-se com o passar do tempo. Tá na cara que tem mais viúva que viúvo nos dias que correm e, como sabemos, as mulheres são mais adoecedoras que morredoras...

Em 2010 a composição "por grupos étnicos" era:

Brancos = 47,5%
Pardos = 43,4%
Pretos = 7,5%
Outros = 1,6%

Os caboclos sumiram, devendo, se bem adivinho, declarar-se brancos, talvez novos tempos, talvez apenas tendenciosidade do informante. A propósito de tendenciosidade do informante, sabemos que fui entrevistador no censo demográfico de 1970. E visitei uma casa em que, sob meu critério, a população era parda. Mas o dono da casa foi logo afirmando tratar-se de uma família branca. O entrevistador, claro, deu a palavra ao informante.

As cifras de 2010 eram de meu conhecimento, curiosidade que surgiu com as eleições de 2018, quando ficou claro que o candidato acolherado com a misoginia, homofobia e racismo recebeu maciça votação de mulheres, HGTB+ e pretos+pardos. E fui olhar nos Estados Unidos. Marcou-me (chocou-me) o contraste entre as proporções cá e lá. Pelo que lembro, brancos são 72%, pretos e pardos, mais 12,6% e os demais perfazem os faltantes 15%.

DdAB
P.S. O inteligentíssimo título da postagem se deve ao fato de que, alguns dias atrás, usei um assemelhado: "2017, o ano que terminou".
P.S.S. Dedico esta postagem a minhas amigas Gislaine Teixeira, Leda Guidotti Dillmann e Mary Setalip, além de sua aparentada Paula Setalip.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Ulysses: que pensará Stephen de Leopold?


Em compensação, Paul Prescott, falando de Hamlet, nominou 20 características que um ator, para representar essa legenda do teatro shakespeariano, deve apresentar. Já falei das características físicas de Leopold Bloom que, em minha opinião, foram incorporadas por James Joyce como sua figure du rôle a partir da aparência de seu crescentemente amigo e colega literato durante os tempos de Trieste. Falo de Italo Svevo, pseudônimo de Hector Schmitz. Talvez estejamos vendo precisamente a foto de seu aluno de inglês.

Segue-se logicamente que tomei para minha descrição de Leopold Bloom não apenas a foto que nos encima, mas também essas 19 características do ator shakespeariano, a saber:

anger, arrogance, charm, classicism, colloquialism, cruelty, discontinuity, excessive subjectivity, generosity, inconsistency, irony, lunacy, melancholy, mercurial shifts, stamina, variety, vocal technique, vulnearabitily, wit.

Desta lista, vemos quão latina é a língua inglesa. Olha os cognatos mais óbvios: 
arrogance, classicism, colloquialism, cruelty, discontinuity, excessive subjectivity, generosity, inconsistency, irony, melancholy, stamina, variety, vocal technique, vulnearabitily. Total, entre as 20, dá-nos 15 expressões (inclusive a dupla vocal technique). Ou seja, ficam fora do latinório do inglês apenas cinco: anger (raiva), charm (charme...), lunacy (demência), mercurial shifts (crises de raiva) e wit (sagacidade).

E por quê dei no título da postagem os possíveis pensamentos de Stephen (alias de Telêmaco) sobre Leopold (alias de Ulysses) e não o contrário? É que Stephen é sabidamente, por declarações do autor do romance, um especialista em Shakespeare. Jamais Leopold poderia ter-se tornado um leitor de Shakespeare além do que um judeu culto era capaz de fazer. Nada de especialização, por contraste a Stephen..

DdAB

P.S. A foto dali de cima retirei-a da Wikipedia no verbete Italo Svevo, que é o pseudônimo de Ettore Schmitz). Esta mesmíssima foto consta da página 428/23 (ou seja, depois da 
página 428, a 23a. página com lâminas de fotos de pessoas, desenhos e coisas) do livro 

ELLMAN, Richard (1982) James Joyce. 2ed. Barcelona: Anagrama.

Em outro momento, queixei-me de que os editores da Espanha não colocaram um índice analítico. Mas tem, e me foi útil para checar coisas de Svevo, um índice onomástico.

P.S.S.  Andei falando pelas postagens cujos títulos iniciam com "Ulysses" que Svevo foi professor de italiano de Joyce. O fato é que até agora voltei a consultar Richard Elllman (ver o rodapé anterior) que, na página 298, fala o que Svevo foi é aluno de inglês de Jim. Além disso, Joyce também foi professor da Berlitz School de Trieste. Parece que eu confundia coruja pelada na praia com com a cuja enfarpelada na Baía da Coruja... Dei umas espiadas aqui e ali e não encontrei referência a essas aulas de italiano. Aliás, duvido que Joyce tivesse dinheiro para pagá-las, o que, aliás, não impediria que algum de seus amigos e admiradores as ministrasse "de grátis". O que vi a respeito é que provavelmente ele já chegou à Itália com o domínio parlante da língua de Dante...

P.S.S. Depois da viajação, deu uma olhada neste site aqui e achei as viajações do próprio James Joyce:

Dia 02 de fevereiro de 1882 nasce James Joyce (1882 – 1941) em Dublin.
Depois de estudar num colégio jesuíta, muda-se para Paris em 1902 com a intenção de cursar medicina, mas vive como professor de língua e literatura inglesa.
Volta a Dublin em 1903 por causa da morte de sua mãe.
Em 1904, conhece Nora Barnacle, com quem se casa no mesmo ano.
Em 1905 muda-se com a esposa para Trieste, onde leciona na escola Berlitz de línguas e onde nascem seus filhos Giorgio (em 1905) e Lucia (1907).
Volta a Dublin em 1912. Em 1914 publica Dublinenses. Durante a Primeira Guerra Mundial, refugia-se em Zurique (Suíça).Muda-se para Paris em 1920, onde conhece Sylvia Beach (proprietária da livraria Shakespeare & Co.).Publica Ulisses em 1922 pela Shakespeare & Co. Em 1923, começa a ter um problema nos olhos que o acompanhará até o fim da vida.Começa a escrever Finnegans wake – que será publicado em 1939. Em 1940, vai para Zurique, onde morre em 13 de janeiro de 1941.