domingo, 29 de setembro de 2019

Neomalthusiano. Quem, eu?

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Zero Hora, sempre ela. Não, nem sempre: muitas vezes é a Zerro Herra. Na Zero Hora deste fim-de-semana, estampa-se uma entrevista com Werner Herzog. Eu nem sabia tanto sobre o pensamento deste maravilhoso intelectual, além de seus filmes sempre impactantes e me deliciei com a entrevista do Caderno DOC.

Vou me ater a um comentário que reforça minha visão construída a partir de uma constatação da infância e, décadas depois, a ser burilada com leituras abalizadas. Garantidamente, antes de 1960, fiquei a me perguntar se, com aquelas exportações de toneladas e mais toneladas de café, não haveria buracos abertos por toda a nacionalidade. A resposta é que, talvez todo mundo sempre tenha sabido, sim, essas exportações causaram e causam erosão. Já formado em economia em 1972, falou-se um tanto mais sobre o "meio-ambiente", termo incorporado a empurrões no vernáculo brasileiro. Environment.

A degradação do subsolo provocada pela extração de, tá na moda, minério de ferro deve ser ainda mais perigosa que os lagos formados por dejetos, subprodutos dos processos da extração. Um dia, dias atrás, atrevi-me a fazer uns cálculos sobre os volumes estocados naqueles "lagos", aqueles mingaus nauseabundos. Pensei que, se do barro nascem os tijolos, com subsídios adequados, aquele lodaçal mortífero poderia ser transformado em tijolões. Com eles, se poderia promover aquela meta que o prof. Adalmir Marquetti acenava como saída para a economia brasileira desde os tempos imemoriais: habitação, 20 milhões delas, para a população desabitada.

Mas a escala do saque ao meio-ambiente com o café, com a mineração, com o gado, os frangos, praticamente com toda a atividade produtiva na agropecuária, os dejetos industriais e os insumos para prestação de serviços, ou seja, tudo, tudinho é realmente escandalosa.

Um autor de respeito que me foi indicado pelo econ. Eugênio Cánepa é

BOULDING, Kenneth (1966 [1964]) O significado do Século XX; a grande transição. São Paulo: Fundo de Cultura.

Boulding, buscando explicar o significado do século que nos antecedeu, fala que, para alcançar aqueles horizontes luzidios tão enfaticamente prometidos, a humanidade precisaria enfrentar e vencer três ameaças devastadoras:

.a a guerra nuclear (era o tempo da guerra fria, agora reinaugurada por Jair Bolsonaro)
.b a degradação do meio-ambiente
.c a explosão demográfica.

Pois, além disto, ao trabalhar na editoração do livro

BÊRNI, Duilio de Avila & LAUTERT, Vladimir (2011) MESOECONOMIA: lições de contabilidade social; a mensuração do esforço produtivo da sociedade. Porto Alegre: Bookman.

vim a entrar em contato com o conceito de capacidade de carga do planeta, ou de qualquer sistema contemplando vida. É como um fusca: não dá, com razoáveis padrões de conforto, para carregar mais de oito pessoas [feito de que fiz parte em passado um tanto remoto].

Quer dizer, tá na cara que o Terceiro Planeta de Sol está com sua capacidade de carga esgotada. Parece que, como disse o conjunto The Youngsters, "havia gente demais". Naturalmente sou favorável ao uso de métodos pacíficos para estancar este churrio demográfico, como a educação e a renda básica universal paga às mulheres (depois vamos pensar em pagar para os marmanjos). Como sabemos, dadas as atuais sobredeterminações demográficas, rico tem menos filho que pobre, o que me leva a crer que, enriquecendo os pobres, eles tampouco terão manadas de filhos.

Pois agora chegou a hora de retomar a conversa sobre a entrevista de Werner Herzog. Selecionei trechos que li no jornal de papel, mas coletei aqui:
O senhor é um visitante constante não apenas do Brasil, mas já esteve muitas vezes na Amazônia. Como tem visto as recentes notícias sobre o aumento das queimadas?
Vejo sob duas perspectivas diferentes. Por uma perspectiva global é catastrófico. Mas há uma segunda perspectiva, histórica. Por que nós, como europeus e norte-americanos, fazemos um barulho tão grande a respeito disso quando nós queimamos nossas florestas há muito tempo? Na Idade Média, a maior parte da Europa ocidental era de florestas, destruídas para criar pastagens para o gado e campos para a produção agrícola. Nós fizemos a mesma coisa, por uma perspectiva histórica, e por isso consigo entender que algumas vozes no Brasil digam: “Qual o direito de europeus ou nova-iorquinos gritarem tanto sobre isso?”.

O senhor já declarou que um dos grandes problemas ambientais hoje é que nossa sociedade baseada no consumo não é sustentável. há alguma mudança no horizonte?
Tende a ocorrer. É escandaloso, é um ultraje que a civilização ocidental como os Estados Unidos ou as nações europeias, ou outras civilizações, como o Japão, joguem fora 40% de sua comida. É um ultraje. Reduzindo nosso consumo, teremos um impacto gigantesco no ambiente. Para apenas um quilo de carne, imagine o impacto de quanto pasto você precisa, quanta água, quanto trabalho no matadouro e no transporte até o supermercado para vendê-lo embalado em plástico. E aí, jogamos fora 40% disso. Se você começar a organizar bem sua geladeira para não jogar comida fora, já estará fazendo algo importante. Se todos os que tivessem carros reduzissem seu tempo dirigindo. Se você pensar de modo mais estratégico em como usar seu carro, você pode facilmente reduzir a necessidade dele em 20%, o que faz muita diferença.

Como isso pode se contrapor a políticas que vão em sentido contrário?
Não é preciso esperar pelos políticos. O mundo político é incapaz de entrar em acordos. Foi feito um acordo climático, mas a China não está nele, os Estados Unidos idem. Nós temos de ser a política. Acho que os jovens que protestam contra o aquecimento global estão certos, mas eles precisam começar pela própria casa, pela própria geladeira. Outro problema é que há gente demais no planeta. A explosão populacional é o mais profundo dos nossos problemas.

Mas há muitas nações em que a curva populacional está em queda. na própria Europa, por exemplo.
São poucos países. A China, mesmo com sua brutal política do filho único, hoje mais flexível, tem visto um aumento populacional contínuo. A Etiópia cresceu nos últimos 20 de anos de 40 milhões para 89 milhões de habitantes. É um problema.

Podemos ver que a frase Outro problema é que há gente demais no planeta. foi mesmo influenciada pelas audições que Herzog fez dos The Youngsters. Mas o interessante é que ele não fala nada sobre os 40 partidos políticos brasileiros, não lhes dá qualquer crédito como expectativa para resolver problemas alheios à formação de seus patrimônios. Ao mesmo tempo, apenas a educação é que poderia ajudar os atuais 7,5 bilhões de poluidores a cuidarem de reduzir seu consumo supérfluo. Quem sou eu para dizer o que é supérfluo? Primeiro, sou o autor do blog. Segundo, tenho em mente essas questões da capacidade de carga do planeta.
Tem muita coisa envolvida nessa questão do desenvolvimento sustentável. Tenho insistido que o primeiro problema ambiental do Brasil, e ao mesmo tempo ramo condutor do desenvolvimento sustentável é formar uma boa rede de esgotos, saneamento, serviços industriais de utilidade pública. Mas, sem a educação da mãe, suas barrigas seguirão ingerindo seres vivos e, como output, jogando hijitos no mundo. Neomaltusianos Herzog e eu? Et vous?
DdAB

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Provérbios Portugueses+ QUATRO


No outro dia, chegou-me aos ouvidos um provérbio (dito) português que não consta do livro que estou usando para esta série de postagens:

MILHANO, Deolinda (2017) Dicionário de Ditados (Provérbios) e Frases Feitas. Lisboa: Colibri.

Diz ele:

31. A abelha procura a parelha.
32. A abelha tem a doçura do mel mas também o aguilhão que pica (prov. africano)
33. Enquanto disputam os cães, come o lobo a ovelha.
34. Meus filhos criados, meus males dobrados; meus filhos casados meus males triplicados.
35. Mulher, ainda que rica seja, se é pedida mais deseja.
36. Não cortes o que puderes desatar.
37. Ovos e juras são para quebrar. [Este dito lembra as razões para a criação de regras: economizar em processo decisório e quebrá-las assim que conveniente...]
38. Quantas vezes a fortuna que buscamos fica atrás.
39. Tudo vale a pena se a alma não é pequena. [Vejo esta frase atribuída a Fernando Pessoa e Mário Quintana, neste último caso, falsamente]
40. Minha Vó Tem Muitas Jóias, Só Usa No Pescoço [enigma que me foi passado por uma assistente da Casa do Papel da Rua Marcílio Dias, em Porto Alegre. E sua solução mostra que se trata de um recurso mnemônico para a criança decorar os nomes dos planetas do sistema solar: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Maneiro, não?]

DdAB
P.S. Tá aqui o famosíssimo e lindississíssemo poema de Fernando Pessoa do dito 39:

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

P.S.S. Ilustrei esta postagem com um mapa tirado da Wikipedia brasileira em que vemos a localização do Cabo Bojador. Bem lá pra baixo, tá o Cabo da Boa Esperança.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

O Grupo, Meu Grupo: lições abruptas


Pois então. E apenas pois então. Tipo em 1968, algo assim, li o livro

McCARTHY, Mary (1967) O grupo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 3ed. Trad. Fernando de Castro Ferro. Capa de Eugenio Hirsch. A primeira edição americana é de 1963.

E a história rola em torno de 1933, ou seja, seis anos antes da II Guerra Mundial enquanto projeto exclusivamente europeu, uma vez que -como sabemos- os Estados Unidos nela ingressaram em 1941. E, vamos ver em seguida, repé dos "processos de Moscou". Esse 1933 é evocativo da autora que se graduou em Vassar precisamente naquele ano. De minha parte, talvez até aquela estimativa de que li "O Grupo" em 1968 esteja errada. O certo é que, no máximo, no primeiro semestre de 1968, eu falava tanto em ler este livro que meu colega Ubiratan Silveira sugeriu que eu estava mesmo era anunciando a vontade de entrar num processo de psicoterapia de grupo.

Ocorre que, semanas atrás, li novamente o iluminado romance de Mary McCarthy, que me pareceu fruto de uma intelectual de porte, dona de seu tempo. Buscava rememorar a história e a minha história. Reconheço apenas traços de ambas. De minha parte, tinha presente que lera acerbas críticas ao mundo soviético, com referências aos "processos de Moscou", aquela inominável vergonha protagonizada pelo stalinismo e que tanto marcou as dissidências nos partidos comunistas do mundo inteiro. Hoje penso que os que tomaram contato com a violência que serviu como arremedo de justiça, com boas razões abandonaram o ideal de que a União Soviética poderia oferecer algum progresso moral para a humanidade.

Hoje em dia, costumo dizer que o socialismo ainda não é viável no planeta, pois a humanidade ainda não é capaz de gerar instituições que lhe deem suporte. Quando vejo amigos falando em algo estrutural que destruiria o capitalismo, exigindo de nós que tratemos de substituir esta formação econômico-social, penso que eles estão enganados, como eu estive. E estive mesmo muito enganado, pois foi só em meados dos anos 1990 que deixei de acreditar nas possibilidades do socialismo no planeta tão cedo, com implantação tão abrupta como o foi a Revolução Russa e outras revoluções de similar espectro (trocadilho intencional).

No que segue, vou citar algumas alusões aos julgamentos de Moscou, o problema da venda de sangue e, por fim, a crítica feita pela autora ao conceito de progresso, tema que tornou-se bastante em destaque na virada do milênio.

JULGAMENTOS DE MOSCOU
Página 252
Gus [que fora socialista e depois comunista] jamais tomou conhecimento dos pequenos grupos dissidentes, como os trotskistas, por exemplo, aos quais pertencia o Sr. Schneider, vizinho de Polly, ou os lovestonistas [oposição americana aos trotskistas] ou os misteístas (quem? perdidos?) - todo grande movimento, costumava ele dizer, tem sua cota de malucos,. Contudo, não ingressou no no partido ao voltar para a América.
:: nada mais normal para um americano daquele tempo ter suas simpatias pela União Soviética. Afinal não tinham-se ido nem 20 anos desde a revolução. Certos requebros ainda podiam ser considerados apenas ajustes temporários, em busca da construção do "homem novo". Mas já tinha rolado o massacre de Kronstaadt.

Página 253
[Gus] não mantinha polêmica com os infiéis, inclusive ela e, na verdade, pouco se importava em difundir suas ideias, ao contrário do pobre Sr. Schneider, que vivia tentando convertê-la ao trotskismo e, agora mesmo, andava excitadíssimo por causa dos grandes julgamentos de Moscou, os quais citava toda vez que encontrava Gus na escada. Estavam por demais longe do cenário, comentava Gus, para poderem julgar quem estava certo e quem estava errado - a história é que decidiria. Particularmente, achava aquilo tudo insignificante em comparação com a guerra da Espanha, algo que o excitava profundamente.
:: então estavam na parada os processos de Moscou e a Guerra Civil Espanhola, a antessala da II Guerra Mundial.

Página 266
[novamente a dupla Sr. Schneider e Gus em ação} Se não fosse sobre os julgamentos de Moscou, a conversa versaria sobre a guerra na Espanha. O Sr. Schneider estava ligado  um grupo chamado Poum [sic] e era também favorável aos anarquistas, e ambos, na opinião de Gus, estavam sabotando a guerra.
:: e a dupla de assuntos também... E o Poum era, se bem lembro (vou conferir na Wikipedia) o Partido Operário de Unificação Marxista. E, se naqueles tempos, podia-se pensar na unificação marxista, por que hoje, a exemplo do Uruguay, as esquerdas brasileñas não podem unir-se para enfrentar a direita nas eleições municipais?

Página 273
[Polly, garota envolvida com Gus falando:] Acho que você devia ter prestado mais atenção às conversas do Sr. Schneider sobre os julgamentos de Moscou.
:: E conclui, o que parece tornar-se uma maldição jogada sobre uma pilha de esquerdistas: "Alguns minutos antes, repentinamente, chegara a uma conclusão que explicava tudo: Gus era um ordinário. Essa era a lamentável verdade."

Página 282
O responsável [pela conversão do pai de Polly ao trotskismo] foi o Sr. Schneider, é claro. Uma vez terminado o [consertos e reformas] apartamento [de Polly], o Sr. Andrews ficou com muito tempo para matar enquanto Polly trabalhava no hospital e, aproveitando a situação pelas suas costas, Schneider fornecera-lhe pilhas de livrose de panfletos sobre os julgamentos de Moscou. 

VENDA DE SANGUE
Página 292
[Polly, agora abrigando o pai em sua casa, estava apertada de dinheiro] Naquela semana vendeu sangue ao laboratório, o mesmo fazendo nas duas semanas seguintes.
:: Então, hein? Compra e venda de sangue? Um bem altamente meritório? É, isto mesmo, este é o depoimento de Mary McCarthy. E meus leitores lembram da viagem do Reino Unido, nos anos 1950, quando a venda de sangue tornou-se oficial e a oferta caiu? Mercado também serve para desmotivar os doadores voluntários. No caso britânico, dizem que a turma que doava por puro altruísmo, empatia com os doentes, achou que poderia furtar-se desta ação, pois agora haveria pessoas interessadas no comércio. Mas a oferta teria caído, vendedores de sangue não conseguiram bater a quantidade anteriormente provista pelos bons cidadãos.

CRÍTICA AO CONCEITO DE PROGRESSO
Página 344
"Você ainda acredita no progresso?", indagou [Norine] gentilmente. "Já tinha esquecido que há gente que acredita nisso. É uma espécie de sucedâneo para a religião. Para vocês, o deus familiar são as vantagens oferecidas pelo progresso. Mas acontece que já ultrapassamos tudo isso. Uma mentalidade de primeira classe não pode mais aceitar o conceito de progresso." "Você sempre foi muito radical". protestou Priss. "Não tem admiração por certas coisas que Roosevelt está fazendo? A eletrificação rural, a administração da Redistribuição de Terras, o controle das colheitas, salários e horas de trabalho. Lógico que incorre em alguns erros...". "Eu ainda sou radical", interrompeu Norine, "mas agora sondo o significado das coisas, penetro até às raízes. E o New Deal [sic] não tem raízes, é superficial. Não tem nem mesmo o dinamismo do fascismo."
:: Olha só: com aquele pano de fundo dos grandes acontecimentos dos anos 1930, guerra civil na Espanha e guerra mundial, os processos de Moscou chegaram a colocar-se em segundo plano. Mas agora Norine joga de mão e dá as cartas: que diabos é este de progresso?, como falar em progresso com aquele pano de fundo? Mas sobrou para os liberais contemporâneos: a política econômica implementada por Roosevelt para combater a grande depressão e, depois, sua manutenção e ampliação para vencer a guerra. Obviamente, Norine ou Priss nada sabiam sobre as eleições brasileiras de 2018, ou sobre a dupla Reagan-Tatcher, com a revolução neo-liberal e seus libelos contra a social-democracia.

Quando li o livro, o Brasil vivia sob uma ditadura militar que se enfeitava de laivos de apoio da sociedade civil, a classe política puxa-saca e corrupta, bem como alguns idealistas de direita.

DdAB
P.S. ontem o jornalista Moisés Mendes escreveu o que segue em sua página no Facebook:
JORNALISTAS BOLSONARISTAS
Alguns colegas têm notado um fenômeno que exige acompanhamento: o crescimento do bolsonarismo no jornalismo.
Logo depois da eleição, os jornalistas de direita mais cuidadosos com a própria imagem se protegeram como isentões. Alguns até se afastaram de Bolsonaro como forma de sobrevivência.
Outros [jornalistas isentões] faziam jogo duplo, atacando Bolsonaro, mas ao mesmo tempo, em qualquer fala ou texto, sempre fazendo referências [desabonadoras] a Lula e Dilma. Bolsonaro isso, mas Lula aquilo.
O que se vê hoje é que muitos correm de volta para os braços da extrema direita, num movimento aparentemente suicida, porque Bolsonaro está em baixa.
O que aconteceu? O que eles ganham com isso? Os patrões determinaram? Tem algum acordo, alguma trégua?
Precisamos saber mais. Nenhum jornalista é bolsonarista impunemente.
abcz

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Expectativas sobre o Emprego

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Então falo no jornal Zero Hora, às vezes, por erro, digito Zerro Herra... Na página 2, temos mais um dos cronistas enviesados para a direita: Túlio Millmann. E, às vezes, ele dá notícias de enorme conteúdo revolucionário. Como a de hoje:

Futuro do trabalho
   Alexandre Pellaes, pesquisador, assustou os mais de 400 participantes do Cenex Talks, realizado em Porto Alegre, semana passada. A previsão em 20 anos, metade da força de trabalho humana deverá ser substituída por robôs.
   Se ele estiver certo, toda essa discussão atual sobre reforma de Previdência estará caduca em pouco tempo. E as chances de ele estar certo são muitas.

Fiquei pensando:
.a quem é o Cenex. E achei um link em que dei uma olhada. E declaro-o uma dessas organizações modernosas, com propostas revolucionárias para manter o mundo exatamente como ele é
.b quem é Alexandre Pellaes. Ele tem um site: "Pesquisador, consultor e palestrante, especialista em modelos flexíveis de gestão, no significado do Trabalho e o papel da produção individual na vida das ..."

E que podemos dizer sobre expectativas? Que o governo espera que, feita a reforma da previdência, os empresários/investidores, também esperem que tudo volte a crescer. No mundo das expectativas, pode ser que dê certo, por que não? E pode ser que dê errado, pois esse mundo de expectativas é mais tangido pelas expectativas dos empresários quanto a sua taxa de lucro. E tão severos serão os atropelos postados sobre a classe trabalhadora que, uma hora dessas, a distribuição funcional pró-capital ajeita essa taxa de lucro e -voilà- retorna o crescimento que andou fugidio por 30 anos. Ou 40 anos.

Parece evidente que as sucessivas reformas da previdência que têm sido endereçadas ao corte de cabeças da classe trabalhadora estão intrinsecamente erradas. Quem está certa é a Lei 10.835/2004 (Lula...), que institui a renda básica da cidadania (iniciativa de Eduardo Suplicy).

E quem está ainda mais errado são os políticos que não lhe dão prioridade número um!

DdAB

domingo, 22 de setembro de 2019

Provérbios Portugueses+ TRÊS

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Já começa a virar rotina: vou citar 10 provérbios do livro da sra. Deolinda, tudo descritinho na primeira postagem desta série.

21. A abelha mestra não tem festa.
22. A abelha perto do monte, com fonte e casa abrigada, produz mel e cera dobrada.
23. Lágrimas em vão consoladas são.
24. Morra o homem, fique a fama. [Daqui tem a canção do "quero morrer numa batucada de bamba]
25. Não se canta bem se do coração não vem.
26. O filho da cabra salta na rocha
27. O filho da puta tira a mãe da culpa. [Não falei que ia ter palavrão da d. Deolinda?]
28. Quantas cabeças quantas sentenças.
29. Sexta-feira, treze, dia de azar! [e no 13 de agosto, comemoramos no Brasil o dia do economista]
30. Zurra o burro deita-lhe o cabresto [é o último do livro e não entendi..., parece faltar uma vírgula]

DdAB
MILHANO, Deolinda (2017) Dicionário de Ditados (Provérbios) e Frases Feitas. Lisboa: Colibri.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Ulysses: sobre os títulos das três partes e 18 capítulos

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Proêmio: Quem bebe comigo na birosca do boi barroso do bairro sabe que volta e meia alego a condição de especialista na primeira sentença do "Ulysses", de James Joyce. Mas minha vontade de entender tudo o que fosse possível sobre ela levou-me a ler muitos comentadores, além dos que escrevem prefácios ou posfácios para as diferentes edições que vou colecionando. E, numa dessas, li o correspondente ao que Makoto Itoh chama de plan problem, dirigindo-se à obra magna de Karl Marx. Existe, como já veremos, um verdadeiro problema do plano da obra também no que diz respeito ao "Ulysses".

Primeiro: Joyce escreveu pilhas de cartas e memoranda durante a redação do romance feita entre 1914 e 1921, publica. Como lembramos, o romance teve sua primeira edição declarada pronta no dia 2 de fevereiro de 1922, aniversário do autor. Antecedeu-a um enorme número de correções e adições feitas por Joyce nas provas que sucessivamente lhe enviava o editor Maurice Darantière, da cidade de Dijon, na França, trabalhando para a Editora Shakespeare and Company, de propriedade da americana Sylvia Beach. Desde então, até 1936, Joyce mexeu e remexeu no texto, talvez nunca se declarando satisfeito, mas por essa época devia estar absolutamente assoberbado com o fechamento de sua última obra, o "Finnegans Wake", enfim publicado em 1939. Ou seja, trabalhava nesse último, mas não deixava de revisar provas daquele primeiro... Houve anteriormente a esse 1922, já sabemos, publicações de partes, capítulos em versão preliminar, que Joyce vendia para fazer uns trocados... Todos lembramos que Otto Maria Carpeau (foi ele?) classificou "Vidas Secas" de "romance desmontável". Ao ler uma biografia de Graciliano Ramos, entendi que ele pensava no romance, mas ia fazendo-o desmontado, um capítulo vendido para cá, outro vendido para lá. Até que chegou uma hora de colocar tudo junto, dando à obra o formato pelo qual nós, jovens, conhecemos.

Entre os memorandos de James Joyce a que me refiro, costuma-se mencionar a existência de dois planos bem assemelhados de leitura, enviados a dois amigos -diferentes, claro. Em setembro de 1920, ou seja, pelo menos um ou dois anos antes da publicação, Joyce escreveu a seu amigo Carlo Linati, montando um esquema que vai muito além do que falarei em seguida. Em 1921, o mesmo esquema também foi usado por Stuart Gilbert e, em sequência, na "biografia" do "Ulysses" que o próprio Gilbert escreveu em 1930. Eu disse "o mesmo esquema"? La verità é que os desdobramentos feitos individualmente para os dois amigos, tratando do esquema original são super diversos. Talvez um dia eu centre uma postagem discutindo-os. Talvez não...

Segundo: Pois esta data de 1922 é importante para o próximo assunto, a divisão da obra em partes e capítulos. A edição original, tanto quanto sei (por comentadores, que nunca nem cheguei perto dela), não tem divisões nem em partes nem em capítulos. É muita informação, fazendo-me confuso sobre as fontes. Seja como for, no presente momento, estou seguro que Don Gifford deu nome às três partes dentro das quais todo mundo distribui 18 episódios (contrastando com a obra parodiada, nomeadamente a "Odisseia", que tem 24 capítulos. Então chegamos, colando daqui e dali, às três partes de Don Gifford e aos 18 capítulos dos esquemas Linati e Gilbert, com traduções minhas ou de Bernardina da Silveira Pinheiro. Vejamos o meta-esquema que segue:

PARTE I: Telemaquia (e a personagem Stephen Dedalus, "filho adotivo" de Leopold Bloom)
Episódio  1. Telêmaco (o próprio Stephen; e tu sabes que se pronuncia "Stíven"?)
Episódio  2. Nestor
Episódio  3. Proteu

PARTE II: Odisseia (a história de Odisseu, id est, Ulysses, incorporado por Leopold Bloom)
Episódio  4. Calipso
Episódio  5. Os Lotófagos (comedores de lótus)
Episódio  6. Hades
Episódio  7. Éolo
Episódio  8. Os Lestrigões (antigas tribos da Córsega e Sardenha, tutti buona genti)
Episódio  9. Cila e Caribde
Episódio 10 As Rochas Ondulantes
Episódio 11 As Sereias
Episódio 12 Os Cíclopes
Episódio 13 Nausicaa
Episódio 14 O Gado do Sol
Episódio 15 Circe

PARTE III: Nostalgia (doença, saudades de casa; "The homecoming") [tudo a ver com Penélope]
Episódio 16 Eumeu
Episódio 17 Ítaca
Episódio 18 Penélope [aqui encontramos o maior monólogo da história de James Joyce]

Terceiro: Meu paradigma, como sabemos, é a tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro, que me parece mais seguidora de Gabler do que do Penguin. Dito isto, acrescento que, para um bom tradutor, a diferença -parece que horrenda- entre uma e outra edições não é tão relevante. As milhares de correções de um lado e outro anulam-se no processo de tradução. A macróbia dá destaque com as páginas numerádas com algarismos arábidos como Parte I (página 25), Parte II (página 81) e Parte III (página 655). Com esta sequência de 25, 81 e 655, num total de 839-25+1=815, vemos enormes assimetrias entre o número de páginas de cada parte. Estas diferenças se acentuam quando consideramos os capítulos. Parece que Joyce, à medida que ia escrevendo, dava-lhes chá de crescimento. Muitos chegaram a pensar que o livro não acabaria nunca, mas estavam errados...

Este procedimento joyceano contrasta com o de John Hicks em seu clássico "Valor e Capital". Como Fernando Cardin de Carvalho chamou a atenção numa conferência tipo 1987 na faculdade de economia da UFRGS, Hicks era um cara que tinha o conteúdo de sua -talvez- obra prima de tal forma organizado na cabeça que despendeu aproximadamente o mesmo número de páginas em todos os capítulos.

Quarto: Além da tradução de Bernardina, dou destaque à primeira tradução brasileira, obra que adquiri, digamos, em 1968. Dela consegui ler apenas a primeira sentença (aquele "Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan..."), mas passei-lhe os olhos tantas vezes que cheguei a sabê-la de cor. A tradução de Antônio Houaiss foi publicada pela Editora Civilização Brasileira. Pois talvez uma das razões me impediu de ler de cabo a rabo a tradução que acabo de indicar, sob a responsabilidade de Antônio Houaiss, é que ele não dá nenhuma dica sobre nada. Ora, nada saber para ler aquela encrenca toda não estimula um guri. E só fui virar adulto há poucos anos, com a tradução da profa. Bernardina. Ou seja, Houaiss apresenta, suponho que contrariado, a divisão nas três partes, sem títulos e, menos ainda, assinala ou divide nos 18 capítulos. La verità é que Houaiss foi absolutamente fiel às intenções finais de James Joyce, pois removeu os títulos dos capítulos (e das partes, claro) em certa altura de suas reedições. Isto é o que nos diz a renomadíssima biografia escrita por Richard Ellman cuja tradução para o espanhol faz parte de meu acervo. Lá ele diz isto na página 557-8. E a "turma do Pasquim" espalhou que Antônio Houaiss gastou mais anos traduzindo o "Ulysses" que James Joyce escrevendo-o.

Quinto: Tá na cara que o tema é palpitante. Aqueles leitores que gostam de encrenca podem conferir tudo o que falei nesta postagem e, eventualmente, vão encontrar erros ou imprecisões. Eu mesmo voltarei ao tema num futuro discernível em meu mapa astral.

DdAB
Imagem: não posso garantir que aquele boi malhado (bos taurus) seja o próprio boi barroso, companheiro do boi pitanga. Mas não tenho dúvida de que aquele vivente trajando a camiseta da seleção deve ter sofrido barbaridade com o afamado 7x1. E aproveito para dizer que entendi que a brasileirada sofreu mais com o 1x0 de 1950 do que com os 7x1 do capitão Filipão. E , neste dia 19 de setembro, véspera do boi barroso, sofro com a perda do título do campeonato brasileiro pelo Sport Club Internacional, eu que sou mais do Grêmio, mas também um tanto internacionalista e que o vi ser campeão em 1975. Rubens Minelli era o treinador. E foi bicampeão. E depois veio Ênio Andrade e foi campeão invicto.
P.S.: a imagem do boi barroso não é perene. Aí troquei-a por a deste cavalo, parece-me que da professora Márcia Teston.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Armínio Fraga Terá Lido Jessé Souza?



No Facebook, podemos ler:
Alberi Petersen
13 de setembro às 22:36 ·

“Armínio Fraga era o Presidente do BC quando lá ingressei, em 2000. Em 2001 fui trabalhar em Brasília, no investimento das reservas internacionais, e ele descia de seu gabinete para atuar pessoalmente nas intervenções no mercado de câmbio durante a crise do 11/setembro, crise argentina, perspectiva de eleição do Lula... Ele não é de esquerda; é apenas um cara muito inteligente, competente, experiente em mercado financeiro e sim, humilde para estar sempre aprendendo e revendo seus conceitos.
“A surpresa da noite foi ele a dizer que diminuir a desigualdade deveria ser a prioridade número um e que “a desigualdade impede o crescimento”. Parecia Lula falando. A surpresa foi tal que Miriam Leitão disparou: “O senhor é de esquerda”?
Ele admitiu ter adotado a tese depois de ler relatórios recentes com números do Brasil comparados aos de outros países e constatar que o nosso país é campeão na modalidade:
“Sem diminuir a desigualdade não há como crescer. E a desigualdade sequer está na pauta do governo”.”
Da colega de Rafael Bianchini de Abreu, Daniele Barcos, ambos do BC!


Segui o link do Blog da Cidadania (aqui). E encontrei:

Armínio dá a mão à palmatória: Lula tinha razão13 de setembro de 2019
Leia o texto de Alex Solnik, jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete
***
Poucas vezes eu vi um entrevistado tão para baixo como Armínio Fraga ontem à noite. Seu desalento era tão palpável que contaminava o time de entrevistadores do programa Central Globo News e certamente os telespectadores. Embora se rotulasse como otimista.
Poucas vezes eu vi um entrevistado falar muito menos que seus entrevistadores. Eles – Merval Pereira, Valdo Cruz, Miriam Leitão, João Borges, Natuza Nery e Heraldo Pereira – faziam longas e implacáveis exposições acerca da situação política e econômica e ele apenas confirmava.
“Está pior do que antes”?
“Está”.
“Está vendo melhora no horizonte”?
“Não”.
Estava ali um ex-presidente do Banco Central e atual gestor de fundos milionários, de dentro e de fora do país. Um homem do mercado. Alguém que conhece os dois lados do balcão.
Seu quadro depressivo deve ter a ver com as cobranças dos clientes. Ele apostou em Bolsonaro; apostou as fortunas de seus clientes; e agora está vendo a fria em que meteu seus clientes e ajudou a meter o país. Me lembrou aquele quadro de Munck, O Grito. Desesperado. Mas seu desespero era um grito murcho, lacônico.
Ninguém perguntou em quem Armínio votou em 2018, mas não deve ter sido em Fernando Haddad, a julgar por suas opiniões pretéritas acerca do PT.
Se os entrevistadores não tivessem uma pergunta engatilhada atrás da outra o silêncio tomaria conta: para cada pergunta de dois minutos ele respondia em dez segundos.
"As declarações do presidente e de seus filhos prejudicam o ambiente de negócios”?
“Prejudicam”.
“Quais? Sobre a Amazônia? Sobre a mulher dom Macron?
“Todas… aquela do dia sim, dia não…”
Citou preocupação no exterior com a Amazônia, com a incapacidade de o país crescer e com a “qualidade da democracia” brasileira, que também o preocupa. “Não há que vá ter um golpe” arriscou.
A surpresa da noite foi ele dizer que diminuir a desigualdade deveria ser a prioridade número um e que “a desigualdade impede o crescimento”. Parecia Lula falando. A surpresa foi tal que Miriam Leitão disparou: “O senhor é de esquerda”?
Ele admitiu ter adotado a tese depois de ler relatórios recentes com números do Brasil comparados aos de outros países e constatar que o nosso país é campeão na modalidade:
“Sem diminuir a desigualdade não há como crescer. E a desigualdade sequer está na pauta do governo”.
Depois de duas horas de clima de velório o apresentador Heraldo Pereira encerrou com uma brincadeira para desanuviar o ambiente:
“E o senhor disse no começo que era um otimista”…
“Imagina se eu não fosse” respondeu Armínio.


Aí eu fui lá no mural do Alberi e comentei:

Hora de lembrar Jessé Souza, que diz precisamente isto: a tolice da inteligência brasileira é acreditar que o problema central do país é a casa grande x senzala, ou o mito da cordialidade, ou ainda a casa x a rua, negando-se a ver que o verdadeiro óbice para qualquer ação perene no campo sócio-econômico é a desigualdade.

Mas o Alberi estava inspirado, ou melhor, ele tem um nível de inspiração que torna obrigatório acompanhá-lo com proximidade:

Alberi Petersen
13 de setembro às 21:42 ·
Época
Me prestei e li toda reportagem!
Como ficar inteligente e culto
“Querido diário, até a sessão da semana que vem preciso registrar em você alguma coisa pela qual eu tenha sido grato — à chuva pela manhã, a uma conversa com minha família, a um dia produtivo.” Foi um pedido da Heloísa. Acompanhar menos notícias tristes também fazia parte das metas (além de ler, cozinhar e ir à academia). Pedi a ajuda da coach nessa, pois quero continuar antenado. Como apoio, recebi um e-mail com sugestões de oito canais de direita que eu poderia acompanhar. Terça Livre, Senso Incomum, Renova Mídia, Allan Santos, Filipe G. Martins, Tradutores de Direita, Ideias do Caio Copolla e Brasil Paralelo. O último é utilizado por Eduardo para estudar história nos preparativos para a sabatina do Senado: “Depois de assistir, a pessoa se torna muito mais inteligente e culta, eu amo!”, recomendou Heloísa. O canal, porém, já foi contestado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por divulgar fake news

Eu comecei no link que acessamos ao clicar aqui. Li alguma coisinha, prometi a mim mesmo voltar e examinar com mais exação. Mas criei a promessa atenuante de fazer nada mais que uma leitura diagonal. Seja como for, fiquei com a dica de um fragmento da turma chapa-branca: 

Terça Livre,
Senso Incomum,
Renova Mídia,
Allan Santos,
Filipe G. Martins,
Tradutores de Direita,
Ideias do Caio Copolla e
Brasil Paralelo.

Se ainda me lembrar como é que se faz um "favorito" no Chromium (um dos navegadores do Ubuntu, meu... favorito), vou dar destaque a essa aba, pois tenho o maior interesse no material etnográfico a recolher nas reflexões dessa rapaziada. Juro que vou começar com os "Tradutores de Direita". Será que, no devido caso, traduzem "new left" como "a velha sinistra"?

Talvez, ao invés de voltar ao site da sra. Heloísa Wolf Bolsonaro, psicóloga e coach, essa nova profissão tão baseada em opinião, com eco, equinho e ecão, eu fizesse melhor abrindo imediatamente uma nova cachaça que ganhei num torneio de bocha. A verità é que eu mesmo já andei pensando em tornar-me coach. E gostaria de poder exercer meu -assim que se diz?- "coachment" com os jogadores de futebol nas Arábias. Não ler mais foi uma decisão felizmente volátil, pois voltei e já achei uma pérola:

Helô (o apelido pegou rápido) perguntou as razões que me levaram a procurá-la. 'Quero saber por que tu está interessado nesse processo. Como é que tu está atualmente? Por que tu achas que é importante passar por um autoconhecimento?', questionou, com verbos conjugados na segunda pessoa do singular, conforme o figurino gramatical dos gaúchos.
Super bacana, inclusive temos certo orgulho em falar n'"os caco de dois tijolo pra te ajudar a lavar os teus pé e as tuas mão". Sabemos que o gaúcho que quer falar nos dois pés (de um bípede) precisa colocar aqueles pronomes "teus" no plural, pois "os teu pé" soa como falta de educação. Nosso único arcaísmo é ainda falarmos o "tu", que -segundo gramáticos de respeito- está condenado ao olvido no português brasileiro, tendo sido substituído pelo "você". Lembro de Monteiro Lobato falando pela voz da srta. Emília, que ficou feliz ao livrar-se daquele "tu-tu-turu-tutu", ou algo assim. By the way, as novas gerações de gaúchinhos e gauchinhas, especialmente xs interioranxs, trocaram o "tu" pelo "você".

O "tu" permanece por mais algum tempo no carioquês de gente da boa, que fala: "este bagulho [de fumar] foi feito especialmente pra tu". Ainda pego o presidente da república falando ou fumando nessa cota cultural.

Sigo no baile (como se diz por aqui, "eu sou um cuera que gosto de rebuliço, já me meti em muito enguiço só pra ver no que ia dar"... Fui procurar, como sempre faço, uma ilustração para minha postagem, buscando "parada de muitos anões e alguns gigantes", tendo como retorno a imagem de meu próprio livro sobre contabilidade social. Como pudemos ver, coloquei-a lá nas parte de riba. E, procurando dentro do link, achei a passagem que agora registro. Os amarelinhos glosam os termos da busca localizados na área.


Ok, ok, aquele "ótimo de Pareto" desgarrado ali em cima num capítulo sobre mensuração da desigualdade só pode querer indicar que:

a) sou leitor (na verdade fã cinematográfico) de meu -deste modo- idolatrado Samuel Bowles e seu livro de microeconomia. Li o bagulho em inglês, mas tenho cópias em PDF das versões italiana (universidade de Siena, aqui) e em espanhol (neste caso, não consegui dar melhores dicas que a busca no google de "sam bowles microeconomia los andes").

b) sou neo-clássico de esquerda, com dizem amigos diletos (não todos...).

E aqui vai a Figura 10.7 de um livro que apenas pode ser encontrado nas melhores livrarias da República (em Porto Alegre, a Rua da República tem, se bem conto, umas rês livrarias de escol).


São três distribuições, a terceira mostrando mais claramente uma sociedade desigual com os tais montes de anões e meia dúzia de gigantes.

Moral da história: aparentemente, sou mais próximo (anão, claro) do Armínio Fraga (gigante) que, por exemplo, de Luiz Carlos Bresser Pereira (gigante), quem diria?

DdAB

domingo, 15 de setembro de 2019

2017: o ano que terminou...




Fiz comentários inteligentíssimos sobre livros que li em 2017. Estava prestes a lançá-los ao olvido (na lata do lixo) e decidi transcrevê-los para cá, amado blog. Já fizera dois balanços aqui no blog sobre pilhas de leituras que realizava em duas oportunidades aqui e aqui. Agora é diferente: são leituras lidas. Foram 11 leituras que fiz. Média inferior a uma por mês... Mas seriam 12 se eu tivesse computado "O Analista de Bagé", que sempre estou lendo, nem precisa dizer, mal acaba uma reinicia outra. Daria a média de um por mês. Ponho-me, deste modo, em direto contraste com Geraldine Chaplin, de quem ouvi dizer que costumava ler dois livros por semana, 104 por ano, algo assim.

.1. A CONSCIÊNCIA DE ZENO de Italo Svevo
Demorei, na verdade, pois o li entre 8 de julho de 1987 (quando o ganhei de presente da amiga Moema Kray) e 16 de fevereiro de 2017 quando o concluí. 30 anos interessantes de minha vida, nem sempre ao sabor da charmosa leitura deste velhinho. Que vim a saber, foi professor de italiano de James Joyce e tem uma face (foto no livro) que me fez suspeitar que a aparência de Leopold Bloom lá do "Ulysses" foi baseada nela.

.2. DE FRENTE PARA O SOL de Irving Yalom
Esta foi a quarta ou quinta leitura deste livro. Yalom, alegadamente, era um psiquiatra especializado no tratamento d'"os que vão morrer", ou seja, doentes terminais. Depois de 2017 já devo tê-lo folheado novamente umas duas vezes. E por que o leio tanto? É que ele fala da angústia da morte, o peso da morte em nossas vidas que, mal resolvidas certas equações, nos impedem de viver plenamente, de usufruir plenamente a alegria de estarmos vivos.

.3. O CASAMENTO de Nelson Rodrigues
Li-o entre 30 de dezembro de 2016 e 2 de janeiro de 2017. Estávamos hospedados na casa de Analice Amazonas. Ao conversarmos olhando o oceano Atlântico na praia da Boa Viagem, surgiu a sugestão de leitura. E o fiz. No final, ganhamos outro livro, a biografia de Nelson Rodrigues que não entra nas estatísticas de 2017, pois li 35% a mais que a leitura de contato, apenas.

.4. MENTES PERIGOSAS: o psicopata mora ao lado de Ana Beatriz Barbosa Silva
Li-o entre 4 e 12 de janeiro de 2017. Psicopatia. Comprado em Recife, sugerido por nossa hospedeira. Se bem sei a tabuada e sequelas, este termo clínico é um sinônimo de neoliberalismo.

.5. POR QUE AS NAÇÕES FRACASSAM de Daron Acemoglu e James Robinson
Lido entre 4 de dezembro de 2016 e 14 de janeiro de 2017. Livro maravilhoso: certamente a melhor leitura de 2017 e talvez de toda a década. Por que fracassam? Por causa da má qualidade das instituições que elas criaram e não reformaram. Então as instituições políticas podem ser inclusivas ou extrativistas. Além de boas instituições o fracasso associa-se à irrelevância, na vida econômica, da destruição criativa e, além delas, da existência de um estado não-centralizado.

.6. MACHADO de Silviano Santiago
Li entre 14 de fevereiro e 6 de março de 2017. Uma biografia romanceada de Machado de Assis. Eu já conhecia este Silviano dos tempos de leitura dos jornais cariocas (isto é, o final dos anos 1960 e início dos anos 1970). Parecia-me ser um crítico de teatro. Mas ele é mais que isso. Ele é um gênio. E tem o livro assemelhado sobre a vida de Graciliano Ramos, também genial. (Ver no que segue).

.7. A TOLICE DA INTELIGÊNCIA BRASILEIRA de Jessé Souza
Lido entre 31 de janeiro de 2017 e 16 de março de 2017. Sugiro mudar o título para "A Cegueira da Intelectualidade do Brasil". Também achei um livro genial, especialmente porque dá razão a minhas intuições e leituras: é tolo não entender que o verdadeiro problema do Brasil é a desigualdade. Ele aponta, se bem lembro, o mito do brasileiro cordial, a divisão entre casa grande e senzala e aquela viagem da casa e da rua como ilusões nas tentativas de explicação sobre tanta ziquizira. Se bem lembro, relembro... Encaixo nessa parada a turma que acha que produzir aviões com a tecnologia 4.0 é mais importante que produzir esgotos... 

.8. O VELHO GRAÇA de Dênis de Moraes
Li-o entre 6 e 16 de abril de 2017. E gostei, aprendi algumas coisas interessantes sobre o genial alagoano, de Palmeira dos Índios. E que fez João Valério dar um beijo na boca da sra. Luíza e dela tirar sangue, um caeté, se não estou metendo um spoiler.

.9. EM LIBERDADE de Silviano Santiago
Li entre 1o. e 23 de abril de 2017. O Silviano é campeão. Mas talvez eu não aguente um terceiro, como me ocorreu com Eça de Queiróz: reli recentemente do original dos tempos pré-universitários "A Cidade e as Serras", depois "A Correspondência de Fradique Mendes", mais alguma coisa, se o fiz, O Mandarim, sei lá, e nem cheguei nas grandes obras, já estando cansado, larguei-o de mão. Um dia, por descuido ou poesia, posso voltar e ler o resto. E parece que andei farejando "A Tragédia da Rua das Flores", mas também larguei. O Eça é um gênio e este leitor é que é burraldo.

10. O ARQUIPÉLAGO de Érico Veríssimo, volume 2
Já estou eu a 54seg das 12h09min de 19 de maio de 2019. Lá pela página 160. Enigmático.

11. O ENIGMA DE ESPINOSA de Irvin D. Yalom
Li entre 23 de março e 12 de maio de 2017. Li-o, tá lido. Lembro de pouco. Mas lembro agora que, muito mais interessante sobre Espinosa, temos aquele "Hereges" de Leonardo Padura que vim a ler em 2018.

Observação: talvez eu tenha jogado mesmo no lixo o restante desta lista. Por que digo isto? Pois acho difícil que viesse a acabar as leituras desse ano em 12 de maio, véspera da libertação dos escravos. Ou eu é que fui escravizado por forças desconhecidas que me retiveram aquele analfabetismo que eu encerrara, digamos, em 1954.

Finis Africae.

DdAB

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A Polêmica sobre o Muro da Av. Mauá em Porto Alegre

A imagem pode conter: carro e atividades ao ar livre


Esta foto é de, se bem lembro de ter lido há dias em algum lugar de respeito, 1967. Conhecido logradouro porto-alegrense, conhecida camionete DKW, atrás dele, aparentemente um táxi-Fusca e mais um, sei lá, ônibus. Tudo dentro d'água. Enchente em Porto Alegre, devia ser junho, só podia ser maio-junho ou julho, sei lá. Sabe-se lá, sabê-lo-emos lá...
E tem uma macacada da região que volta-e-meia quer desmoralizar o muro de contenção criado na Av. Mauá pelo pessoal da ditadura militar, capitaneada (epa!) pelo prefeito Thompson Flores por considerá-lo inútil ('lo', eles, ambos, muro e governante), por considerar que ele afronta o direito de ir-e-vir na cidade.
E, macaco velho myself, fico pensando que essa macacada que nunca viu o bafo da enchente nos pés, na nuca, que nunca está preparada para se proteger de incêndios e outras catástrofes naturais (e artificialmente naturalizadas) não sabe do que está falando. Inclusive porque, mais recentemente do que o DKW houve novos avanços das águas sobre belas áreas da cidade, sendo retidas, no hoje chamado centro histórico, pelo muro da av. Mauá. Então já temos amostra de tamanho 2: uma sem muro e outra com ele.
DdAB

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Provérbios Portugueses+ DOIS


O título é "Provérbios Portugueses+" e mais o número da postagem, no caso, o numeral de 2. Aquele "+" é para dizer que também entram nesta série provérbios brasileiros que me ocorrerem, como na postagem anterior relembrei aquele "praga de urubu não pega em cavalo gordo". E até poderia mostrar meu poliglotismo falando coisas em espanhol que são de nosso conhecimento comum no Brasil, e.g., "hecha la ley, hecha la trampa" [tem parecidos no livro, como veremos a qualquer momento...]. Mais menos, quero dizer, mais provérbios menos parecidos, tenho um em inglês: "an apple a day keeps the doctor away".

11. A abelha é gado que não conhece o dono.
12. A noite não tem dono. (provérbio africano) [sic]
13. Casa nova tumba à porta. [Só pode ser sobre o Bolsonaro...]
14. Casa nova vida nova. [Brasil 2023]
15. Casa teu filho quando quiseres e tua filha quando puderes. [Só pode ser Bolsonaro...]
16. O figo sai à figueira.
17. Ovo é, galinha o põe.
18. Pancada grande é que mata a cobra.
19. Quem o fez que o ature.
20. Quem pariu Mateus que o embale. [De minha memória]

DdAB
P.S. Como pude esquecer na primeira postagem o amado Chico Buarque com seu "Bom Conselho"?

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Provérbios Portugueses+ UM

Hoje inicio um novo marcador em nova série de postagens. Lembro dos 116 hai-kais do livro de Millôr Fernandes que levei um tempão para reproduzir todos, pois não entrava neste assunto diariamente. E, para animar o campeonato, digitava o hai-kai, conforme publicado pela editora L&PM e repetia o último verso, fazendo uma trova do estilo gaúcho (em geral com quadrinhas) com ele. Tá aqui, como exemplo rememorativo, o primeiro, de 8 de novembro de 2012, com o mais ou menos óbvio título de "O Hai-Kai e a Trova":
Original de Millôr Fernandes:
OLHA,
ENTRE UM PINGO E OUTRO
A CHUVA NÃO MOLHA
Trova de DdAB
Se a chuva não molha.
é o pingo de cima
que faz a escolha.

A nova série intitula-se "Provérbios" e, por razões óbvias, é formada por... provérbios. Retirei-os do livro

MILHANO, Deolinda (2017) Dicionário de Ditados (Provérbios) e Frases Feitas. Lisboa: Colibri.

Com 375 - 13 + 1 = 363 páginas, uns 70 provérbios por página, temos cerca de 25 mil provérbios a serem transcritos. É um monte, só agora me dei conta de que, citando 10 por dia, passarei os próximos sete anos neste afã. Para não carregá-los pela ordem alfabética, que é o critério de ordenação usado no livro da -já tratando com familiaridade, proximidade- Deolinda, decidi ir citando aleatoriamente, embora inicie cada postagem com o mais próximo do início lá da página 13. E vou percorrendo o livro em ordem crescente de paginação e selecionando o que virá em seguida.

Ainda tem o seguinte: ao brincar e mexer com o livro da Deolinda, procurei provérbios ou ditados que eu mesmo conhecia. Até agora, listei 21 destes que não constam do livro. Então, to be true, são 384 entradas. E juro que, até terminar essa tarefa de seis anos de duração, terei acrescentado mais outros, até mais do que esses 21 iniciais. Hoje, por exemplo, lembrei-me -por razões de uma briga com o cachorro de um vizinho- daquele "praga de urubu não pega em cavalo gordo". A Deolinda não o consigna. E eu vou inseri-lo como o décimo do dia. Então segue-se logicamente:

1. A abelha conhece o dono que a trata bem. E, farta, não ferra ninguém.
2. Antes quebrar que torcer.
3. Antes solteira toda vida que um dia mal casada.
4. É mais fácil bem dizer que contradizer.
5. É mais fácil caçar moscas com mel que com vinagre
6. É mais fácil demolir que construir. [Dedico este ao presidente da república]
7. Madruga e verás, trabalha e terás.
8. Não se deite à albarda a culpa do burro. [Dedicado à mesma pessoa].
9. Se a vida dura a tudo se chega.
10 Praga de urubu não pega em cavalo gordo. [Inserido por mim]

Além das duas dedicatórias que fiz a Jair Bolsonaro, vê-se que arranjei um lugarzinho para a praga de urubu. E ocorrre-me dizer mais um traço metodológico do projeto. Eu, que não uso palavrões em minhas comunicações com as redes sociais, vou transcrever os palavrões citados pela Deolinda e talvez me inspire para lembrar de algum provérbio "brasileiro" também contendo palavrões. De acordo com a regra dos dedos cruzados, não estarei infringindo nenhuma regra.

DdAB
P.S. No Facebook: Prá animar o cortiço [inteligente brincadeira com o primeiro provérbio e suas abelhas] que me abriga, iniciei no blog uma série que será mais longa que o atual mandato presidencial no Brasil. Vou transcrever provérbios de um livro. E proponho a brincadeira para meus leitores de lembrar de algum e pedir-me para testar se consta do livro.
P.S.S. Eis um site maneiro sobre o tema: clicar aqui.

domingo, 1 de setembro de 2019

O Cortis Verbis N. 2


Vou reproduzir depois de minha assinatura a mensagem que Márcio Gasperini Gomes colocou no WhatsApp sobre o triste destino imediato da educação superior brasileira. Os dias que correm estão mesmo de assustar o observador interessado. Para amenizar nosso sofrimento, evoco a parte relevante do ditado: "não há mal que sempre dure". É claro que essa macacada que ocupa o poder hoje em dia vai cair, um dia vai cair.

E eu, que em 1968 ingressei como estudante na faculdade de economia da URGS, logo depois foi transformada em UFRGS. E que a gauchada segue pronunciando 'urgues'. Era o marechal Castelo Branco. E a turma do puxa-saquismo controlando o conselho universitário ofereceu a ele o título de doutor honoris causa pela universidade. E a turma sensata entendeu que a causa era tíbia e a consagração estava mesmo no doutor "cortis verbis", fazendo montes de pixações em vários locais da cidade. Um jejum pecuniário que não foi eterno. Mas aquele mal finou-se, e agora temos o Bolsonarus Cortis Verbis.

Ninguém sensato pode combater a educação per omnia saecula saeculorum. Que projeto de país teria um grupo encastelado no poder central da república que odeia jovens e seus professores?

Vamos dar a volta por cima. Como diziam os revolucionários franceses, tão em moda no Brasil de hoje: Ah, ça ira, ça ira, ça ira. E como dizíamos em Jaguary: vai mudar nem que crepe!

DdAB
Fala, Marcinho:
A partir de 15/09 na UFSC não tem mais restaurante universitário, ar condicionado não pode ser ligado, bolsas suspensas, projetos de pesquisa e extensão na comunidade encerrados, etc etc etc.
O colunista da NSC (Globo), Anderson Silva, falou na radio esses dias que o lado bom dos cortes é que a universidade vai ter de ser mais transparente com relação aos seus gastos, comprovando tostão por tostão para receber o quinhão do mês seguinte e mostrando pra sociedade o que anda fazendo.
Ao ler a notícia em outros portais de informação também vi/vejo gente dizer que acabou a farra, que o dinheiro do contribuinte não cai do céu e por aí vai.
Fico pensando se essas pessoas acham que o alface que comem no almoço cai do céu; se pensam que não tem pesquisa da agronomia da UFSC junto aos produtores; se pensam que o fruto do mar fresco e de qualidade que serve pra aquele post bonito do Instagram não tem nada a ver com a engenharia de aquicultura da universidade; se acreditam que o motor do ar condicionado ou da geladeira de casa não tem a ver com os convênios UFSC-Embraco (líder mundial no mercado de compressores); ou se acham que o transporte rodoviário, aéreo, aquaviário e ferroviário que nos faz viajar ou traz produtos que consumimos até o mercado da esquina também não tem nada a ver com os laboratórios da universidade.
Se acham mesmo isso poderiam ler mais sobre o papel das universidades nas revoluções industriais, na revolução da TI dos anos 70 que nos permite hoje usar a internet e smartphone. É a combinação mercado-universidade que cria tudo o que consumimos. Quanto desconhecimento ao celebrar o lado bom da tragédia. Como diz um professor meu, quando achar que estas dominando um assunto, leia um pouco mais.
Talvez estes contribuintes, assim como o jornalista, só percebam a contribuição da universidade nas suas vidas quando ela fechar a porta.
abcz