sábado, 24 de agosto de 2019

Ulysses: o caso de Haines, Hynes e Haynes.

Como sabemos, declaro-me especialista na primeira sentença do "Ulysses", de James Joyce: "Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan postou-se no alto da escada, portando uma tigela de barba em que encontravam-se, entrecruzados, um espelho e uma navalha". Estamos vendo uma citação imperfeita da tradução de Antônio Houaiss [ver o verbatim dele no rodapé]. E ela própria imperfeitinha, pois aquele "fornido" entre vírgulas devia dar lugar a "o fornido Buck Mulligan". Houaiss pisou na bola!

Mas acho que todo mundo que se mete a mexer com a primeira sentença do "Ulysses" (meu caso, claro) está condenado a, mais cedo ou mais tarde, também cometer erros. Nunca publiquei, creio, mas acho que andei fazendo confusão com os nomes de Haines, Haynes e Hynes, que parece que aparecem (...) no livro. Tenho três arquivos em formato PDF ou assemelhado. Vejamos o que pesco ao "localizar" cada um desses nomes.

Não tendo o PDF da edição Penguin-inglesa, atenho-me à edição Gabler-em-inglês do Projeto Gutemberg. Vejamos

Haines: citado 66 vezes
Haynes: não tem
Hynes: citado 35 vezes

Segundo arquivo: tradução para o espanhol de J. Salas Subirat

Haines: citado 69 vezes, ou muito me engano
Haynes: tem uma vez no parágrafo que já vou transcrever
Hynes: citado 33 vezes, ou muito me engano.

Agora vai a transcrição:

BLOOM.
—Eso quise decir, Leopardstown. Y Mariquita ganó siete chelines con un caballo de tres años llamado Nolodigas y volviendo a casa de Foxrock, en ese viejo carricoche de cinco asientos; tú estabas en tu apogeo entonces, y tenías puesto ese sombrero blanco con un ribete de piel de topo que la señora Haynes te aconsejó comprar porque estaba rebajado a diecinueve chelines once, un pedacito de alambre y un trapo viejo de pana, y te apuesto lo que quieras a que lo hizo a propósito.

Terceiro arquivo: tradução para o italiano por Gianni Celati

Haines: citado 59 vezes
Haynes: não tem
Hynes: citado 34 vezes

Aqui já comentei o livro que segue:

JOYCE, James (2014) Ulisses. Lisboa: Relógio D'Água. Tradução de Jorge Vaz de Carvalho.

Vemos na página 10:
"Quanto tempo vai ficar Haines nesta torre?".
Na página 24, vem o pobrema:
"Pararam, enquanto Haynes examinava a torre e dizia por fim: [...]"

Ou seja, o tradutor de Portugal encaçapou um "Haynes" onde ninguém respondia por esse nome. E faz solitária companhia ao velho Salas-Subirat.

Que mais posso dizer neste sábado?

DdAB
P.S. Aqui vemos o Houaiss citado literalmente: "Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha."
P.S.S. Mas olha esta que achei ao procurar a imagem na Amazon que nos encima. Tá aí um outro Haynes:
 Narrator Tadhg Hynes: "I first decided to record Ulysses in October 2015. Little did I know then what an unforgettable 18 months lay ahead. Having already recorded Dubliners and Portrait (and being terrified of Ulysses), I decided to give myself a year just to read it. However, after about four episodes I started recording it and became hooked.
P.S.S.S. Respondo a questão sobre o que mais posso dizer, depois de ter dito tudo o que disse. Entendo que as queimadas desta temporada na Amazônia Brasileira e a reação internacional ao amadorismo grosseiro do presidente da república vão provocar um turning point em seu comportamento. Ele passou a entender que precisa de contenção para reduzir danos. Como sabemos, "errare humanum est, mas persistir na burrice asinus est. Pedi ao Google tradutor para traduzir "persistir na burrice é coisa de burro" e ele disse: "stultorum est stultitia est, perseverare", que eu modificaria para
"stultorum perseverare stultitia est".

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

JMB - FHC

Resultado de imagem para jericoacoara
Ontem anunciei, no Facebook, minha contabilidade sobre os "marcadores" de temas neste blog. Disse que dispara em segundo lugar o "Escritos" e falei numas equações transcendentais que há muito deixavam-me de pulga atrás da orelha. Decidi fazer hoje um exercício mostrando o que meu marcador "Besteirol" tem de mais legítimo. Basicamente a numerologia do quinteto C, F, H, J e M (com um C duplo) dá boas informações sobre a urubucaba que acabou se abatendo sobre a República Federativa do Brasil.

Pois então. A equação é JMB - FHC. Pela matemática do alfabeto, as equivalências numéricas são:

B > 2
C > 3
F > 6
H > 8
J > 10
M > 13

Substituindo (A) em (B), temos:

10813 - 683.

Buscando a anamorfose digital (isto é, contando com os dedos), fazemos a primeira transformação por anamorfose:

10.813 - 683

= 9.450.

Subtraindo dessa cifra o par de bailarinos de forró num festival de Jericoacoara (ímpar, homem, par da mulher), 87 e 84, chegamos:

= 9.450 - 8784

= 666.

Prova-se que FHC era o pacífico tempo do governo Fernando Henrique Cardoso e que JMB é o do atual presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro. Inequívoco e impossível deixar de notar que coube ao atual presidente da república o número da besta do apocalipse. Haja besteirol lá da parte dele e, por isso, o que aqui consta é a mais pura expressão da verdade.

DdAB
P.S. Parece que sobrou 1, em homenagem ao versinho: 9 x 9 = 81, no tempo dos burros teu presidente era um...

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Euler dos Santos: trigonometria e números complexos


Na vida, tive dois ou três colegas chamados Euler, fora o general Euler Bentes Monteiro, que chegou a ser cogitado a presidente da república e, felizmente, não foi meu colega. E um daqueles Euleres protagonizou involuntariamente uma situação divertida. Ocorre que o nome que a família dera para ele pronunciava-se "oiler", como bom alemão ou até inglês (como 'either' ou 'eigenvector'). E assim era conhecido na escola. De sua parte, os pais de um colega, literatos matematizados, apenas vendo o nome escrito aqui e ali naturalmente transliteraram para "euler", mesmo. E aí o filho do casal estrilou, requerendo que o rapaz fosse identificado como "oiler". Sons sem grafia fazem-nos a alegria.

Pois então era Euler, Leonhard Euler, matemático suíço, conhecido por inumeráveis "teoremas de Euler". Tá aqui na Wikipedia. E daí? Daí que comprei na Livraria Passos e Passos o livro

HART, Michael H. (2002) As 100 maiores personalidades da história; uma classificação das pessoas que mais influenciaram a História. 5ed. Rio de Janeiro: DIFEL.

que li com exação. E, por outro lado, como não poderia deixar de ser, eu já ouvira, da parte de meu querido amigo Sílvio Luiz dos Santos, nome que ajudou-me a intitular esta postagem, a existência de uma fórmula que associa uma função trigonométrica com números complexos (que o tradutor ou o autor chama de números imaginários). Então lá na página 433, lemos:
Tá lá na Wikipedia:


E parei por aqui.


DdAB
P.S. Sobre o general Euler, diz a Wikipedia: "[...] Uma frente de oposição à ditadura militar, articulada por Severo Gomes,[2] levou-o a se candidatar à presidência da República, pelo MDB, na eleição indireta de 1978, tendo como vice na chapa o senador Paulo Brossard, mas foi derrotado pelo general João Figueiredo, por 355 votos contra 226 . [...]".
P.S.S. Hoje, na rua, ouvi um menino de rua dizer "vi a galinha ponhá ovos".

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A Frente de Esquerda em Zero Hora

Resultado de imagem para governo mundial

Zero Hora é um jornal reacionário, bem sabemos, e sabemos bem que volta-e-meia, dignifico-a com o epíteto de Zerro Herra. Mas hoje, na página 6, tem uma crônica de Cláudia Laitano. Intitulado "Realismo Distópico", ela apresenta o resumo de uma série BBC/HBO intitulada Years and Years, em que "nenhuma angústia contemporânea parece ter escapado [...]" e cita, com ligeiras edições minhas:

. democracias evaporando,
. aquecimento global,
. crise dos refugiados,
. populismo em alta e jornalismo em baixa
. profissões deixando de existir,
. ameaça nuclear
. avanço da tecnologia sobre o corpo
. aumento da insegurança dos mais velhos,
. aumento da insegurança dos menos preparados.

Volta e meia falo na prioridade absoluta da montagem de uma frente única de esquerda, a fim de dar respostas criativas aos desmandos brasileiros que vêm ocorrido desde 21 de abril (21 de abril? aqui). Recapitulo o que tenho dito:

.a luta pela implantação do governo mundial
.b voto universal, secreto, facultativo, periódico e distrital
.c república parlamentarista.

Na lista da BBC, também há "grand politics" e não vejo solução para os itens que repito por conveniência visual que não sejam o governo mundial:

. aquecimento global,
. crise dos refugiados,
. ameaça nuclear

Ao mesmo tempo outros itens como

. avanço da tecnologia sobre o corpo
. aumento da insegurança dos mais velhos,
. aumento da insegurança dos menos preparados.

precisam da social-democracia, da busca rigorosa da sociedade igualitária.

A turma que acompanha sistematicamente meus escritos aqui no Planeta 23 sabe que tenho muito mais que apenas indicações gerais para uma enorme gama de problemas em diversas postagens depositadas por aqui ao longo desses 10 anos de blog/Google. Da lista Laitano, tá na cara que o trio que destaquei (aquecimento global, crise dos refugiados e ameaça nuclear) não poderão ser resolvidos sem o governo mundial. E tá na cara que serão necessárias mudanças também globais para anular o segundo trio que destaquei (avanço da tecnologia sobre o corpo, aumento da insegurança dos mais velhos e aumento da insegurança dos menos preparados), ainda que possamos pensar em certa autonomia local/nacional, também tudo ficaria mais fácil com uma política global que está chegando, mas podemos acelerar o sucesso: a criação da renda básica da cidadania.

Com ela, a renda básica da cidadania, matamos dois coelhos com a mesma traulitada: empoderamos a mulher, com seu dinheirinho, podendo prescindir dos valentes de ocasião, e confirmamos o empoderamento feminino com o aumento das oportunidades educacionais a serem abertas a elas. (Para não sermos ridículos, não proibiremos o acesso à educação também aos marmanjos...)

A insegurança dos mais velhos é problema momentoso. A renda básica em nível decente deve contribuir para reduzir-lhes os maus tratos familiares e sociais. Mas, numa social democracia, há uma verdadeira rede de proteção, com serviços médicos e recreativos e também de manutenção e conservação de residências: uma roda-viva de emprego de jovens e insistentes maneiras de tentar "transformar trabalho vivo em trabalho morto". Como cuidar de uma casa com trabalho morto? Robôs, claro. E o emprego? Cada vez mais lazer! E até emprego e máquinas para oferecer infinitas alternativas de lazer.

A redução da insegurança dos menos preparados será feita pela maneira mais óbvia: na social-democracia promovida pela nossa frente única de esquerda, todos serão preparados. E o trio crianças-criminosos-loucos? Também eles receberão tratamento decente, iniciando com serviços humanos e em seguida passando a serviços mecânicos.

Em poucos anos, alcançaremos o paraíso.

DdAB

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Um Par de Imbecis

Resultado de imagem para trio de burros
Querido diário:
No outro dia, andei falando sobre a principal virtude do sistema econômico capitalista: forçar as empresas a serem o mais produtivas possível. Em jargão, maximizar a produção por unidade de insumo ou, o que dá no mesmo, minimizar o custo médio. E volta e meia falo no presidente da república, um tipo que não entende que aqueles despidos de cultura não poderão avaliar o que aqueles outros investidos de alta formação artística-científica-cultural-religiosa-etc. estão pensando.

Então meu par de imbecis não contempla, de momento, o presidente da república. Mas não posso deixar de preocupar-me com os economistas que ainda relutam em entender que, enquanto não dominar a tecnologia de oferecer esgotos a toda população, o Brasil deve ser proibido de sonhar com indústria 4.0. Analfabetos comandando máquinas de controle digital? Ora, meu senhor!

Então neste exemplo, tenho meditado profundamente sobre... palitos. Estou usando um frasco de palitos produzidos pela Cia. Fiat Lux de Fósforos de Segurança. Esta sociedade anônima é incapaz de proauzir 240 palitos de boa qualidade. Eles se quebram ortogonalmente e longitudinalmente. Será responsabilidade dos economistas 4.0 ou dos engenheiros arbóreos?

Desabafos à parte, chego em outro desabotinado exemplo de imbecilidade que nos separa daqueles 4.0 que, para muitos, é conditio sine qua non para a felicidade geral da nação. Falo agora dos intermediários financeiros, na linha da movimentação mundana e da movimentação bancária. Então segue-se que uma das imobiliárias com que lido em meu despojado cotidiano dá, em meu endereço, o apartamento 0003. Como se diria no imposto de renda da pessoa jurídica, 3 mil invertido. Ora, os afamados zeros à esquerda, desde a queda do comunismo, deveriam ter sido banidos. Só um programador de computador ou secretário de embaixada imbecil para impedir que, se o sistema receber um 3, seu entendimento seja do 3 mil invertido.

Em compensação, no setor da intermediação financeira propriamente dita, o dito banco em que recebo meus quase-decentes proventos da aposentadoria, registra minha conta corrente com o número 00012345.0-0. Agora nem dá mais para facilitar falando em 54.321 mil invertido. Não é simplificador, não é promotor do aumento da produtividade, não é promotor da minimização de custos. É imbecilidade.

E uma parelha de imbecis liderados por outro tecnicamente chama-se "junta". E não deixa de classificar-se naquelas tabelas do censo de antigamente como "tração humana". Eita.

DdAB
P.S. Lembro que havia um adesivo afixado ao vidro traseiro de alguns automóveis de baixo valor de mercado com a efígie de dois burricos muito simpáticos usando óculos quadradinhos e os dizeres: "Quando será que nós três nos encontraremos outra vez?". Isto explica que coloquei na imagem lá de cima três burros, ficando a dúvida sobre o terceiro ser o presidente da república ou eu mesmo.
P.S.S. Ficou claro que meu par de imbecis (removendo as suspeitas sobre Bolsonaro e myself) é mesmo o carinha que meteu aquele 3 mil invertido e o outro da conta bancária.

sábado, 3 de agosto de 2019

Socialismo e Eficiência: de S a Z


Ontem vivi uma experiência extraordinária. Fui tomar uns tragos com três casais de amigos naquele proverbial Bar Pedrini de Petrópolis. Falo de Porto Alegre, Brasil. Os assuntos mais interessantes pouco tinham a ver com minha filosofia política... Mas é dela, de um traço dela, de um pedacinho dela que desejo falar nesta postagem.

Aquele S de socialismo também é um S de Sabino, meu querido amigo e eterno professor Sabino Porto Jr. Já não lembro como o assunto de que tratarei lá adiante iniciou. O fato é que eu fiz uma afirmação com aquele canto da boca que não se ocupava de destrinchar um pedaço (muito do saboroso) de polenta frita coberta com neves queijolinas.

AFIRMAÇÃO:
O problema do capitalismo é sua ineficiência distributiva, embora suas demais dimensões (produtiva e alocativa) sejam irreprocháveis.

Ok, ok, não falei bem assim, pois isto atemorizaria o garçom e precisávamos de renovar alguns pedidos, chamando-o.

Mas a ideia está dada. Só que não, só que precisamos dimensionar adequadamente o significado do termo eficiência. Acabo de olhar a Wikipedia aqui. E vim a entender haver-me enrustido num tema muito maior que a montanha de paralelepípedos de polenta queijolina. Mas nem li tudo e abandonei a empreitada, atendo-me a conceitos que nem estão explicitados adequadamente naquele verbete. E fiquei com meus conhecimentos anteriores ao bar e à Wikipedia, no nível em que volta e meia venho falando aqui neste blog.

Minha referência para discutir eficiência é o modelo de concorrência pura. Bem sei que tem uma turma que odeia esta expressão, por não entender tratar-se de um modelo e não de concorrência pura. Sabidamente, concorrência pura não existe, da mesma forma que tênis Olympicus ou unicórnios não existem. Quero dizer, o unicórnio é mais fácil de ter sua existência negada. Mas um tênis também é meio estranho. Refiro-me à filosofia de Platão, com aquelas encrencas sobre o coelho ideal e o coelho real. Parece que comecei a modelar estas coisas com base nas leituras do livro de introdução à filosofia de Carlos Roberto Cirne-Lima. Quando vejo um coelho, estou inspirado na realidade realmente real para capturar algo na minha realidade imaginada. Quer dizer, existe um mundo real que não nos é acessível e outro ao qual temos acesso truncado e um tanto esmaecido. Mas ainda assim conseguimos viver adequadamente (most of the time) nesses contornos pluridimensionais.

Um modelo ainda mais abstrato que o tênis Olympicus de que falei lá atrás é o da concorrência pura ou perfeita. E a diferença entre 'pura' e 'perfeita' é que na segunda supõe-se que os agentes relevantes detêm informação completa sobre os eventos relevantes. Se bem lembro das aulas de microeconomia que preparei em 1979, o gráfico que agora exibo representa os dois casos, além -se bem entendidos- o caso do unicórnio e o do tênis Olympicus.
abcz
Resultado de imagem para modelo de concorrencia pura
abcz

Começa que não sabia bem o que é "paned", pensei que fosse "pannel", uma figura com dois painéis. E é algo parecido. No dicionarinho Oxford que me foi dado pelo Conselho Britânico em 1977, lemos: "pane - n. single sheet of glass in a division of a window." Dei-me por satisfeito: é painel mesmo... Então temos na parte (a) a modelagem da lei da oferta e procura aplicada ao mercado de -pura coincidência- tênis Olympicus. Tem uma curva de oferta, outra de demanda e sua interação gera o preço de equilíbrio daquele mercado específico. E serve para milhares de outros mercados em que as curvas D - de demanda - e S - de oferta - estão modeladas. E temos no painel (b) várias estilizações. A primeira é a da curva de receita média (bem naquele nível do preço de equilíbrio P apontado no painel (a), aliás, curva que é reta, dizendo que, qualquer que seja o nível de produção que lemos no eixo horizontal, o preço daquele mercado tal como aparece para a empresa retratada no painel (b) será aquele mesmo P. Então vemos por ali uma turma de signos: P = D = AR = MR (preço = demanda = receita média = receita marginal).

Podemos ver que é tudo igual: o preço, a curva de demanda daquela firma, sua receita média e sua receita marginal. Depois temos uma curva chamada de ATC, que é a que nos interessa para falarmos do conceito de eficiência que adoto . Vemos que ATC é tangente a P no ponto Q1, isto é, quando a empresa produz a quantidade de tênis Olympicus Q1, digamos 250 mil pares, seu custo médio é de P (digamos, D$ 95). E também vemos que a curva MC passa precisamente por esse ponto. E as demais curvas da figura gentilmente cedida pela sra. Internet não nos interessam.

Com isso nosso circo está armado:

.a aquela interseção entre a curva de custo médio de longo prazo e o custo marginal informa que a quantidade Q1 é produzida ao menor custo médio possível, id est, estamos observando uma situação em que há eficiência produtiva. Claro, pois produz-se com o melhor aproveitamento dos recursos possível.

.b aquela tangência entre P e ATC (o preço e o custo médio total) diz-nos que, em concorrência pura, também observamos eficiência distributiva, pois não há lucro extraordinário, isto é, a empresa está recebendo apenas (mas todo) o lucro que lhe permite pagar o custo de oportunidade pelo uso do capital que possui.

.c por fim, aquela secância, isto é, o ponto em que a linha do custo marginal intercepta a linha do preço, está apontando para a existência de eficiência alocativa: a sociedade está pagando um preço P exatamente para cobrir o custo em que a empresa incide para produzir um par de tênis a mais do que vinha produzindo.

Melhor dos mundos. Só que não: este mundo não existe, aliás, nem o coelho ideal, nem o tênis ideal, nem o unicórnio, nem a linha reta, nada dessas coisas existem. O mundo da realidade imaginada é um mundo de areia movediça: por instantes pensamos que estamos capturando a realidade realmente real, mas é tudo tão fugidio quanto a água morro abaixo. Mas é bem para isto que serve um modelo: leva-nos a ter a sensação de que dominamos a realidade realmente real, quando temos apenas compreensão fugidia do mundo da realidade imaginada por nós. E, como sabemos, nós não aguentamos nem um segundo sendo a mesma pessoa: no segundo t + 1, já somos mais velhos que em t. E aí tudo da realidade realmente real também terá mudado, inclusive o coelho ideal lá do velho Platão.

Pois agora volto ao prof. Sabino. A certa altura, tentando conseguir a simpatia do dr. Mauro Sálvio para me passar aquele pratão de polenta queijolenta, disse-lhe ter abjurado o socialismo há mais de 30 anos. Ele indagou: "só 30?", passando-me o prato. Confirmei e disse ao prof. Sabino que o capitalismo é maravilhoso, exceto no que diz respeito à eficiência distributiva. Nosso professor paraibano bem sabia sobre o que eu falava e manifestou todo seu apreço a este tipo de visão de mundo.

Entendo e acho que ele também entende que, com este tipo de visão, ao abjurarmos o socialismo, somos levados a aceitar que o capitalismo é a formação econômico-social que melhor pode servir a humanidade no presente momento de sua/dela/humanidade evolução institucional. Ainda não foram criados (e talvez não sejam nunca, mas acho que poderão ser criadas um dia) arranjos institucionais que favoreçam a produção eficiente (custo médio mínimo e preço igual ao custo marginal) num regime de inexistência de propriedade privada dos meios de produção. Ou seja, não estamos falando de meios de consumo, tal como é o caso da escova de dentes que o prof. Sabino carregava no bolso e, fui lembrando, daquela que guardo em casa. Ele não empresta a dele para ninguém e tampouco eu o faço: como dizia meu então próximo amigo Hermes Aquino, são bens amplamente individuais.

E aquele "Z" de zocialismus? (???). É minha homenagem ao prof. Zander Navarro que, há 35 anos, me contou uma história sobre escovas de dentes. Para impedir que o Algoritmo saiba mais detalhes sobre a vida de nosso valente sociólogo, metade do que segue é ficção, mas trata-se de ficção comprovável. Pois digamos que Zandão tenha ido a um congresso de sociologia, em 1985, realizado na cidade de Brno, na então Tcheco-Eslováquia. Por que Brno? Pois lembro que não era Praga, nem Bratislava, mas não lembro o canto interiorano. O fato é que Brno é a cidade que deu nome à cadeira que nos encima, projeto de Mies van der Rohe, o carinha que disse ser mais fácil produzir um bom arranha-céu do que uma boa cadeira. Ok: Zandão está na soi disant aldeia Brno.

Coça o bolso da calça, não dá por sua escova de dentes, nem deveria... Mas vai às malas, bagagem de mão, bloco de notas, pilha de transparências, olha e reolha. Não encontra sua propriedade privada: a escova de dentes. Desespera-se, pois é um homem de hábitos de boca limpa. Já instalado em seu apartamento do hotel de Brno, as malas abertas sobre a cama, tudo de uma limpeza exemplar, desce à recepção e indaga onde pode adquirir uma escova de dentes. Informam-no que deve dirigir-se a uma das farmácias desta cidade.

Ok, ok. Minha história não está sustentada por minha imaginação: Brno hoje é dada na Wikipedia como tendo 400 mil habitantes. Acho impossível que não tenha mais de uma farmácia. Mas sigamos, mudemos: Zander não encontrou escova de dentes naquela aldeia, embora tivesse um quarto limpo, perspectivas de um bom café-da-manhã e outras amenidades compatíveis com a vida moderna.

Ele queria porque queria escovar os dentes, lembrando-se com saudades daquele espécime que ele esquecera no transbordo do avião entre Paris e Brno. Fato verídico: ele me contou que, já espicaçado por curiosidade sobre o modo de vida na sociedade socialista, decidiu caminhar até a cidade mais próxima, pois duvidava de que lá tampouco haveria escassez de escovas de dente. Abreviando a história: não encontrou nada. E ficou preocupado com este tipo de deficiência da economia tcheco-eslovaca. E eu também, tanto é que, anos depois do incidente e do relato, vim a entender que o verdadeiro problema econômico do socialismo é mesmo a ineficiência alocativa: há setores produtores de bens de consumo corrente muito do triviais que não conseguem prover as necessidades de toda a população.

No capitalismo, um indício de ineficiência alocativa é a existência de lucros extraordinários, isto é, lucros que não seriam obtidos em aplicações alternativas e se devem -quase sempre- ao poder de monopólio da firma ofertante. E no socialismo, aquela equação de Lange-Taylor dizendo que a variação de estoques dos produtos prontos é um razoável indicador do excesso ou da escassez de oferta.

Concluo: por que desprezar as melhores virtudes do capitalismo por causa de uma deficiência que talvez até seja intrínseca a seu modo de funcionamento? Falo na linha daquelas leis da centralização e concentração do capital. Por que não corrigir o problema precisamente onde ele se encontra? No caso, se o problema é da dimensão distributiva, a solução é re-re-distribuir. Aliás, hoje em dia, está na cara que o mercado de trabalho já deixou há muito tempo de ser o principal elemento da distribuição da receita total dos compradores.

DdAB
P.S. O prof. Flávio Comim, que não se escondia, portanto a tudo assistia.
P.S.S. às 23h20min deste domingo, corrigi um lapsus linguae e outros errinhos de digitação.