quinta-feira, 27 de junho de 2019

"Vi os Olhos que Viram o Sargento"

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Bem, não é bem o sargento. O original de Roland Barthes fala "vi os olhos que viram o imperador", referindo-se à foto do irmão de Napoleão Bonaparte que o filósofo viu em tenra infância. Mas ver os olhos de Bolsonaro, ainda assim, nem garante que ele tenha visto os olhos do sargento, ou até o sargento de costas, ou encoberto por sacos e sacos de papelotes de primeira. A verità é que o sargento já viajou nos aviões da presidência da república voando com pelo menos três presidentes.

Ouvi dizer que o sargento é "comissário de bordo". E Jair Bolsonaro, como sabemos, é o presidente da república ungido ao cargo por uma turma do arco e outra que queria tudo menos Haddad no poder, a volta do PT, como argumentavam. E parte desta turma segue hoje em sua luta ideológica defendendo o direito de Sérgio Moro aconchavar-se com os promotores e policiais para impedir Lula de ser candidato (vencedor, aposto) a presidente da república.

Uma vez que já andei pleiteando cargos mordômicos, como assessor de ministros do supremo tribunal, com CCs de alto coturno. Claro que agora também me escalo: como faço para ser comissário de bordo de um avião da FAB que carrega bagagem legal?

Bem, bem. Voltando aos olhos que viram outros olhos. Li o livro de Roland Barthes, digamos, em 1982, o que muito me dignificou aos olhos -sempre os olhos- de amigos diletos. Muito me impressionou aquele tipo de ensaio, eu que era mais habituado a ensaios de economia, inclusive o audacioso "Robinson Crusoé e o Segredo da Acumulação Primitiva".

E que me está levando a fazer todo esse fuzuê com olhos que veem olhos que veem olhos, até as carreiras a serem disponibilizadas pelos 39 quilos de cocaína transportada pelo sargento. Sabe-se lá o que a defesa do alferes vai dizer: que ele é inocente, presumo. E a razão do fuzuê?

Minha motivação é clara. Já falei e repito que a proibição do uso das drogas pesadas (maconha tem um quarto de quilo que pesa precisamente 250g, quando não é fraudada) é o maior incentivador de cobrança de preços de monopólio pelos ofertantes, geração de lucros extraordinários e -just business- corrupção de tudo que é instância do governo da república: executivo, legislativo e judiciário. Será que os aviões que transportam juízes e deputados, além daquele afamado caso do sr. Perrella, não têm tripulações envoltas em tráfico? Estou apostando minha reputação de detetive que, sim, que transportam.

E qual a solução para o problema das drogas pesadas? Primeiro: aceitar o conceito de drogas recreativas, o que é facilmente atestado por psiquiatras, psicólogos e até astrólogos e quiromantes: quando neguinho é louco, ele pode estar consumindo drogas mas fugindo do esquema de recreação. Viciado tem é que ser tratado.

Segundo: as drogas pesadas devem ser distribuídas gratuitamente pelo governo, fora as inconsequentes que podem ser vendidas em farmácias, como parece-me ser o caso composto de maconha e lança-perfume e talvez outras. Não entendo mais tanto do assunto como já o fiz há uma década. Mas este segundo ponto é fundamental e cheguei a ele quando li no jornal Zero Hora (sempre ela...) que uma garota de seus 13 anos de idade assassinou, em Erechim, uma velhinha de seus 85 para roubar R$ 10 voltados a financiar o consumo de crack. Na oportunidade fiquei imaginando haver um mercado ausente para transacionar a vida prorrogada da velhinha. Claro que a família pagaria uma pedra de crack por dia, para reter a matriarca. Além disso, a guria, nas salas de consumo governamentais, dialogaria com enfermeiros e não com traficantes.

Os traficantes, como sabemos, estão enrustidos em todos os poros da sociedade, por contraste aos enfermeiros que, nesta quadra em que se elegem neo-liberais, ou médicos de Cuba, cada vez mais escassos em cada vez menos eficientes postos de saúde. E a solução? Education, education, education. A educação permite ao educando descobrir seus objetivos na vida e lhe dá ganas de lutar por eles. Além disso é apenas com educação que a sociedade poderá avaliar suas instituições econômicas, políticas e sociais, reformá-las, ou criar novas.

DdAB
Frase corrigida do título:
BARTHES, Roland (1980) [1981] A câmara clara. Lisboa: Edições 70. Estou citando trecho da página 15.

HYMER, Stephen Robinson Crusoé e o Segredo da Acumulação Primitiva. Literatura Econômica (Rio de Janeiro). V.5 n.5, set./out. p. 551-585.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

O Dinheiro e o Mundo no B33



Uma pessoa dona de, pelo menos, 95,31% de meus afetos, ofereceu a imagem que nos encima, tratando de "colocar o dinheiro mundial em perspectiva". Eu, logo eu, que considero que:

.a o capitalismo acabou há mais de 15 dias

.b entendo que a atual formação econômica e social, em que convivem Nigéria e Noruega, Paraguay e Portugal, está muito do mal-entaipada, uma vez que esses países e todos os demais ainda veem com desdém a luta pela implantação do governo mundial, que se encarregará de acabar com o tráfico de pessoas, o tráfico de armas, o tráfico de drogas e o tráfico de dinheiro.

Pelo que consigo ler do gráfico pictórico, temos:

Total de dinheiro .......................... 83.6T
Mercados de ativos ..................... 66,8T
Dinheiro físico ............................. 31.0T
Ouro amoedado ........................... 8.2T
Dólares USA em circulação ........ 1.57T
Apple ........................................... 0.73T
Amazon ....................................... 0.40T 
etc.

De sua parte, pelo que leio aqui e ali, o montante do capital das empresas cujas ações são transacionadas na Bolsa de Valores paulista é de US$ 1,4 trilhão, comparando-se com o PIB de US$ 3,2 trilhões. Mais ou menos pelo mesmo tempo, o PIB mundial era de 127 trilhões de dólares (PPP). Espero que essas cifras deem uma boa ideia daquele "total de dinheiro", que -na média mundial- representa dois terços do PIB mundial. Faço dois comentários.

Primeiro comentário: a composição da oferta de moeda pelo mundo
No capítulo 7B no CD do livro de contabilidade social de que falamos aqui, lemos o título "Indicadores monetários e a nova contabilidade social". A certa altura, tipo página 35 do arquivo do próprio CD, temos uma lição (com dados inventados) interessante sobre a monetização das economias monetárias, ou seja, o crescente grau de participação do dinheiro (em suas diferentes formas, como moeda em poder do público, títulos públicos, títulos privados, etc.) na vida societária. Chamando esta regularidade de velocidade de circulação da moeda (isto é, da equação quantitativa M*V = P*Q, "passando M para o outro lado", temos V = P*Q/M, temos alguma correlaçãozinha entre a magnitude da renda interna bruta e a velocidade de circulação: quanto mais rico, mais se corre atrás do dinheiro, ou vice-versa. Quanto mais pobre, a oferta monetária é formada praticamente apenas por moeda manual e depósitos bancários.

Quando falo, portanto, que o segredo reside no setor serviços (lembre-se que Porto Alegre segue produzindo flores, pêssegos e cavalos, mas a participação do PIB agrícola no total é simplesmente 0,00%, pois o total é enorme e, por maior que seja, o PIB agrícola não se compara), penso em serviços médicos (vida eterna, ou algo parecido) e serviços de transportes (lua de mel rodeando os anéis de Saturno...), people say I'm crazy, but I'm not the only one. E eu olho para o futuro e apenas confirmo estas intuições. O cassino financeiro com aquelas transações de 67 trilhões de dólares (PPP) é de dimensões siderais. E, quando os seguros generalizados abarcarem o risco provocado por todas as ações humanas e suas máquinas, esse valor será apenas brincadeira, as relações interinstitucionais também alcançarão valores espantosos.

Segundo comentário: o papel das relações interinstitucionais pelo mundo
Relações interinstitucionais? No capítulo 4A do CD anexo ao livro citado, vemos algumas matrizes de contabilidade social de cinco quadrantes e outras de seis. Em particular, interessa-nos entender o conteúdo do chamado quadrante B33, ou seja, o das relações interinstitucionais, em que, por exemplo, uma família rica (devedora) oferece uma mesada aos pais pobres (credores) e outra família rica é credora de transferências governamentais, na forma de pagamento de pensões a juízes e promotores. Pois essas transferências e recebimentos de seguros generalizados não têm limites discerníveis nesse capitalismo que, tenho afirmado há anos, acabou há mais de 15 dias.

E uma conclusão anti-industrializante
Esta conclusão já era esperada: aquela turma de economistas que têm rala inserção dos desdobres da economia do desenvolvimento e, principalmente, na economia do insumo-produto, turma essa que anseia desabotinadamente pelo desenho de políticas governamentais apoiando a industrialização, essa turma, não se dá conta de que a verdade verídica é que
Yind = f(Yt)
ou seja, a renda total é que explica a renda industrial e não o contrário. Trata-se de uma intuição à la Jane Jacobs de que a cidade é que criou o rural e não o contrário. Em nosso caso, da indústria, quem paga a conta é mesmo a plebe rude.
DdAB

domingo, 23 de junho de 2019

Finnegans Wake: postagem número 2 (era língua artificial?)

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No dia 15 de maio deste ano que corre contra o Brasil por causa daqueles 57 milhões de votos depositados em favor de Jair Bolsonaro, escrevi no blog: Finnegans Wake: não dá pra ler...

Lá fiz o anúncio de que iria ler três ou quatro peças literárias envolvendo a feitura desse livro. Em torno do pós-12 de maio (dada que assinalei como da chegada do livro encomendado à Amazon, que estou em boicote contra a Estante Virtual por um ano), concluí a leitura do segundo livro de Dirce Waltrick do Amarante (ver postagem que indico no parágrafo anterior). 

A notícia otimista é que, depois dessa bateria de ideias e explicações feitas pelos autores daquele quarteto, sem esquecer o que já lera no livro de Donaldo Schüller, passei a admirar um tanto mais o velho James Joyce. E a má notícia é que não posso deixar de sentir carinho por um louco levado a tão escabelados sonhos, carregados por um esforço pessoal da ordem de trancar com as mãos e o peito a própria correnteza do rio Liffey. Tanta disciplina tinha O Louco de Dublin, sofrendo cada vez mais com os problemas de visão, i.e., cegueira gradativa, que fiquei estupefato ao ler que, a certa altura, ele disse: "Estou tão prejudicado das vistas que mal consigo fazer a barba" [frase citada de memória, já não sei de qual fonte, com aquelas 'vistas', acho que foi mesmo a Dirce Waltrick do Amarante].

No segundo livro que li de Amarante, passei a criticar as algaravias de Finnegans Wake sob outro ponto de vista. Vim a entender tratar-se da tentativa de criação de uma língua artificial. Cara, uma língua artificial, meu. Nada menos que uma língua artificial, e nada mais artificial que uma língua artificial, apenas empatando com um sistema econômico-social artificial, como é o caso do socialismo alheio à social-democracia.

Na condição de falante (e leitor) da língua portuguesa, sem maiores compromissos com a visão estabelecida, há anos, quando comecei a fazer essa analogia de artificialidades entre linguagem e socialismo, olhei daqui e dali e aconcheguei-me à Wikipedia (aqui, talvez verbete já editado).  Então vou anotar uns trechos de Amarante que evocam essa viagem:

Página  67: um certo Aleph
[...] Sua [de Finnegans Wake] sintaxe básica e seu ritmo são aqueles do inglês falado em Dublin, mas existem ecos de quase 50 línguas de todas as partes do mundo.
É uma Babel!
[...] 'a história é contada numa língua que contém todas as línguas'
Um ponto que abarca todos os demais pontos, inclusive a si próprio, é o Aleph de Jorge Luis Borges.
[...] Desde jovem, Joyce refletia sobr a possibilidade de uma língua literária universal, que não fosse nenhuma das línguas conhecidas. [Nota 177] Em julho de 1905, o então jovem escritor declarou: 'eu gostaria de uma língua que estivesse acima de todas as línguas, uma língua que todos pudessem utilizar. Eu não me posso expressar em inglês sem encerrar-me numa tradição.'
Depois daquele "escritor", passamos à página 68. Mas aquela nota de rodapé 177 (que se prolonga pela página 68) é talvez a mais interessante do pedaço:
Na América Latina, o pintor, místico e poeta argentino Oscar Alejandro Augustín Schulz Solari, ou simplesmente Xul Solar, contemporâneo de Joyce, iniciou também na década de 1920, um trabalho similar com a linguagem. O envolvimento de Xul com os movimentos de vanguarda levou-o a criar dois idiomas, a 'panlíngua e o 'creol' ou 'neocrioulo'. O primeiro idioma era filosófico, já o outro era uma reforma do espanhol, com palavras inglesas, alemãs, gregas e a retomada do idioma guarani. Este segundo idioma, o 'neocrioulo', apresenta certas semelhanças com a língua criada por Joyce em Finnegans Wake: é formado por uma mescla de línguas e pretendia ser uma língua cosmopolita e sem fronteiras - o objetivo de Xul era criar uma língua para a América Latina, alternativa àquela do colonizador europeu -; os textos que ele escreveu em 'neocrioulo' vêm acompanhados por uma 'glosa' que ajuda a decifrar o vocabulário do texto.d Além disso, os textos nesse idioma exigem uma participação ativa do leitor, por permitirem uma multiplicidade de significados.
Na página 69 ainda lemos:
   Certamente não se pode mais analisar e compreender a motivação que teria levado Joyce a criar um dialeto 'universal', o dialeto do sonho da humanidade sem levar em conta uma questão regional, a questão irlandesa.' [...] Assim, na opinião de Seamus Deane, 'Finnegans Wake é a resposta de Joyce a um problema irlandês. Está escrito numa língua fantasma, sobre figuras ilusórias; a histŕoa é assompbrada por eles e os incorpora repetidas vezes em pessoas, lugares e linguas específicas. Se a Irlanda não pode ser ela mesmoa, em compensação, o mundo pode se tornar a Irlanda'.
E paremos.

Resumo: James Joyce viveu num tempo em que volta e meia faziam-se tentativas de produzir uma língua artificial, talvez todas essas tentativas orientadas pela busca da fraternidade universal. Desse momento, destacou-se o esperanto. Seu fundador (aqui) morreu em 1917, estando Joyce a cinco anos da publicação do Ulysses. Mas a própria Wikipedia diz algo estonteante sobre o que pode acontecer com a língua artificial que passa a ser falada por muita gente:

Todavia, tão logo uma linguagem construída comece a ter certo número de falantes nativos, ela começa a evoluir e em consequência perde seu caráter artificial ao longo do tempo. 

Tentando não me alongar ainda mais, que posso dizer sobre a analogia que venho fazendo entre o esperanto e o socialismo? Uma população que fale apenas o esperanto desde o nascimento terá dificuldade, presumo eu, de criar novas palavras, ou -se o fizer- cairá naquela perda de caráter que a caracteriza como língua artificial. O socialismo é artificial, mas não começou  a evoluir, pelo menos não o fez no sentido da transição da artificialidade à incorporação de traços acrescentados às características estruturais do sistema, tendo levado ao fracasso em virtude da incapacidade de enfrentar diversos problemas, como a invasão de caroneiros, a criação de uma burocracia partidária, a falta de imprensa livre, a falta de desenvolvimento comunitário, a corrupção e especialmente a falta de incentivos para a elevação da produtividade do trabalho.

DdAB
Imagem: Rio Liffey, com uma vista que me é familiar, embora não seja foto de minha autoria. Diz que se chama Ponte Samuel Becket, um negão que foi tipo secretário de James Joyce. Perto de outra ponte mais para a montante do rio, há uma estátua do próprio Jim.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Zero Hora e o Anti-Anticomunismo

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Leitor praticamente indefectível do extraordinário jornal Zero Hora, vi com o usual contentamento um elenco de informações que servem como contrapropaganda à vulgaridade e radicalismo das campanhas contra os governos populares brasileiros dos últimos anos. Trata-se agora das falsas acusações de que os governos do lulismo deram "dinheiro dado" para Cuba e para a Venezuela.

Então, e apenas pois então. Na página 9 do jornal de hoje, vemos a coluna +Economia, assinada por Marta Sfredo. Na quarta parte do lado direito da página, vemos uma entrevista da redatora com Paulo Rabello de Castro:

   Pioneiro da doutrina liberal no Brasil, [ele] foi presidente do BNDES no governo Michel Temer e é um duro crítico das gestões petistas. Em sua gestão, relata, fez devassa nos empréstimos para ter certeza de que não havia ameaça à instituição [...] Diante da insistência do governo Bolsonaro em 'abrir a caixa-preta do BNDES', focando em operações feitas em Cuba e na Venezuela, avisa que será 'uma busca inútil'.

Transcrevo apenas um dos quatro "drops" derrubados (usando o lugar comum achegado à jornalista...) por Marta:

CUBA E VENEZUELA
   '[...] Cuba não pode vir aqui pedir um empréstimo. A aprovação é para uma obra, para exportação de serviços em que empresas do Brasil com CNPJ brasileiro exportam produtos como guindastes e tratores, mais o serviço de engenharia. Todo e qualquer centavo que sai do BNDES é para notas fiscais desses produtos e desses serviços. Ou seja, 100% geração de emprego made in Brasil [sic] É irrelevante se você vende a cama para convento, hotel ou casa de tolerância. E a venda da cama é segurada, então o financiador recebe, mesmo quando o pagante atrasa. É um erro total dizer que o BNDES vai ter prejuízo, nem 1% dessas operações são descuradas.'

Ou seja, estou quotando a Marta quotando o Rabello. E o Rabello? Já foi presidente do IBGE na gestão Temer e depois emplacou o BNDES, possivelmente por ser acolherado com outro doutor chicaguense, o sr. Paulo Guedes, ministro da economia este nefando governo. E parece que ele andou colocando seu nome à disposição para o cargo de vice-presidente da república. Como sabemos, estaríamos em caravela muito menos sujeita a calmarias econômicas, como a que vemos sob a égide do divertido presidente Bolsonaro.

Quero dizer: se o comunismo foi uma baixaria, ainda mais baixaria é ser contra a baixaria e ainda assim dizer baixarias, inverdades conduzidas por uma ideologia que preza a burrice.

DdAB
P.S. Drops derrubados? Caravelas e calmarias? É meu lado lugar-comum...

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Dois Blim-blim-blins Extraordinários

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Como todos sabem que vivo alardeando, além do título de Philosophy Doctor em filosofia, acalento a ambição de ser declarado um especialista em introdução à filosofia. Na tentativa de alcançar essa especialização, o mínimo que posso fazer é tentar ler todos os livros introdutórios sobre o tema.

E tem dois deles que me dizem lições há muito negligenciadas até os dias que correm. O primeiro lê-se em:

ALMEIDA, Aires e MURCHO, Desidério (2014) Janelas para a filosofia. Lisboa: Gradiva. (Coleção Filosofia Aberta, 26).

lá em sua página 247. Estamos na primeira página do capítulo intitulado "Pensamento fundamentado". E a seção é chamada de "Conceitos e definições". Quando o li, gelei, degelei e tornei a gelar, saltando, como o general saltou ante-ontem fora do governo, à leitura, pois sabia que me aguardavam estrondosos aprendizados. Direto no primeiro parágrafo li:

   Um conceito não é uma palavra; é o que as palavras exprimem. Há muitos casos em que uma palavra exprime diferentes conceitos: a palavra 'papel', por exemplo, tanto exprime o conceito de pasta fibrosa de origem vegetal com que fazemos livros, jornais, etc., como o conceito de um dos povos da Guiné-Bissau. Quando queremos definir um conceito [DdAB com o negrito], não é porque estamos interessados em palavras, mas antes porque estamos interessados no que as palavras exprimem.

Já ri muito, em pretérito em que eu primava pela arrogância, de um economista que falava em "definição de conceito". E agora rio de mim por ter rido dele. E talvez ele pudesse hoje rir de mim... A verità é que essa passagem ajudou-me a me situar na encrenca. Por um lado, tenho uma lista de termos que pedem definições (bactérias, algas, fungos, líquens, briófitas, pteridófitas, gimnospermas e angiospermas, que não lembro mais o que significam) e, por outro lado, lembro de uma aula do prof. José Fraga Fachel em que ele disse: "termo é a expressão verbal de uma ideia".

Ligo essas intervenções como a análise do termo papel, por exemplo, no sentido que lemos no dicio.com: "[Economia] [sic] Título que representa dinheiro, como ação, letra de câmbio, apólice. [...]" Então a ideia encontra-se em nossa mente como um título que representa dinheiro, como ação, letra de câmbio ou uma apólice de um seguro contra fogo [a República de Curitiba, outro oximoro, by the way, na linha daquele 'Juiz Moro é oximoro', pois a "coisa pública" não pode ser regida como fizeram os rapazes a ela vinculados].

Então o impreciso conceito e a ideia papeleira nela contida de papel tem como definição útil ao estudo mesmo que introdutório ao mercado monetário (do M3 ao M5) aquela que o Dicio nos ofereceu.

Mais um exemplo. Além do vemos considerar uma observação que apus à margem daquela página filosófica: parece que entendi que o conceito é o significado de um significante. Por exemplo, os economistas sabem o que é renda. Digamos que seja: renda é uma das óticas de cálculo do valor adicionado que contempla a remuneração dos fatores de produção devidamente empregados. Pimba: exatamente isto é a definição do conceito de .

Pois então. O outro livro de introdução à filosofia tem uma chamada sobre a relação entre conceitos e definições, já devidamente incorporada e sendo aplicada. Estamos agora falando em

WARBURTON, Nigel (2018) Grandes livros de filosofia. Lisboa: Edições 70. 2ed. revista e atualizada. Tradução de Paulo Bernardo e associados.

Agora estamos no meio do capítulo "Ayer, linguagem, verdade e lógica". Como sabemos, não sei bem que é Ayer, mas a Wikipedia tá ali mesmo... E aí na página 278, Warburton fala em definição de conceito, ele também:

   Para Ayer, a filosofia desempenha uma função muito restrita. Não se trata de uma disciplina empírica, facto que a distingue das ciências [empíricas, DdAB]. Enquanto nestas está implicada a formulação de afirmações acerca da natureza do mundo, contribuindo, desta forma, com o conhecimento factual, o papel da filosofia é clarificar as consequências das definições de conceitos [negrito de DdAB] e, em particular, dos conceitos utilizados pelos cientistas. A filosofia está centrada na questão da linguagem não no mundo por esta descrito. Trata-se essencialmente de um ramo da lógica. [...]

Que dizer? Digo que não sei o que dizer. Nunca se deve dizer o que não dizer, exceto esta frase. Logo a filosofia da linguagem deve ser estudada quando bebemos...

DdAB
A imagem lá de cima colhi-a ao pedir ao Google Images o conceito "blim-blim-blim". Vieram várias fechaduras de porta, portão, etc. e selecionei aquela imagem, pois cria-nos mais problemas do que soluções. Então há três , não é mesmo? Mas como é que pode a primeira linha da figura ser quando apenas na segunda linha é que temos um dos princípios básicos da filosofia: blim = blim, ou seja, o todo é idêntico a si mesmo? Já teríamos, neste caso, um todo de três metades em que apenas duas são autenticamente metades, pois a primeira delas -como outros filósofos contemporâneos têm falado sobre as liquidações de estoques das modernas lojas antigas- é apenas a metade de seu dobro.

E aqueles que quiserem brincar com variantes do poema " 'Juiz Moro' é oximoro" podem ler o que o Dicio me deu:

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Matemática no Governo Bolsonaro

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Hoje vi no jornal que o "grupo olavista" derrotou a "ala militar". Nem preciso dizer de que governo estamos falando. No outro dia, vi o ministro da economia, mister Paulo Guedes, informar que aquela zoeira toda envolvendo a dupla Moro-Dalanhol foi montada para estrachinar o ambiente e "prejudicar" a aprovação da reforma da previdência.

Pensei cá comigo que minha saúde também está conspirando contra, na visão daquela macacada, o futuro do Brasil. Nem me refiro à hipótese de que sigo vivo, ganhando pensão paga pelo INSS, mas àquele gripão que me derrubou em 1991 (ano do rebaixamento do Grêmio) que aponta causas relevantes bem na linha do mister Guedes.

Achei que a matemática pode ajudar-nos a entender em que mato-sem-cachorro está metida a república instaurada por estas bandas lá em 1889. Tá na cara que o governo acredita que o investimento explica-se por uma função de proporção direta com as expectativas dos ricaços:

I = f(E).

Agora tem. De minha parte entendo que essa função f(E) é uma expectativa do governo, ou seja,

I = f(g(E))

que se explica pela expectativa que os parentes dos governantes têm sobre os rumos do patrimônio público, que -de sua parte- se explica pelas expectativas que os sabiás que cantam extemporaneamente nos dias que correm têm sobre os ditames da nutrição saudável a que deveriam ser submetidos que, por sua vez, dependem... you know...

Agora digamos que queremos testar econometricamente essas teorias que acabo de expressar. Primeiro de tudo, devemos convidar o professor Adalmir Marquetti para um café e pedir-lhe ajuda. Em segundo lugar, digamos que encontremos mesmo as esperadas correlações positivas daqui a dois anos. Ainda assim, permanecerá a dúvida se a retomada do investimento do Brasil deveu-se à expectativa da morte do filósofo Olavo de Carvalho, dos sucessos futebolísticos do Grêmio, da posição da economia brasileira em sua curva ajustada de ciclo de movimentos do PIB ou ainda de fatores que apenas as gerações futuras é que irão dominar.

DdAB
Fonte da imagem: Internet...

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O Caso de Moro: ocaso de Moro?


Todos conhecem minhas opiniões sobre o jornal Zero Hora. Hoje devo elogiá-la. Talvez tudo tenha a ver com o dia dos namorados, ternura jorra sobre mim como os vazamentos seletivos da Operação Lava-a-Jato, capitaneada -não pelo Capitão- mas pelo então juiz Sérgio Moro (nunca esquecendo que "juiz Moro é oximoro").

Pois bem: o lado alegre é que li a coluna "Política +", em geral assinada pela jornalista de direita, sra. Rosane de Oliveira, mas hoje sendo redigida pela jornalista Débora Cademartori. Seu comentário principal diz: "Moro se veste de político e encara crise". Em seu tópico frasal, evoquei meus pais, meus avós, essa turma toda do tempo antigo (ao qual alguns já andam atribuindo meu próprio nascimento e até carreira profissional...): "Visivelmente incomodado, o presidente Jair Bolsonaro zarpou e entrevista coletiva ontem após ter sido questionado sobre a relação das conversas entre o então juiz Sérgio Moro [...]" Segui lendo, mas assinalei com minha canetinha de cor "zeroherra" aquele "zarpou". Vovó zarpou. Mamãe e papai também o fizeram, guardo-lhes a mais intensa ternura.

Disse ela:

[...] Disse [Moro] para os senadores que as conversas divulgadas pelo The Intercept foram coletadas de maneira 'ilegal' e que isso é 'criminoso'. Quando juiz, Moro autorizou indevidamente a divulgação de áudio interceptado em que a então presidente Dilma falava.

Em outras palavras, esse tipo de atitude, agora sabidamente sabido, como aliás sempre se soube, foi o que ajudou Bolsonaro a vencer Haddad no segundo turno daquela eleição presidencial. Na verdade, falei em ajudar, pois não podemos negar os 57 milhões de cidadãos que nele votaram. E ajudou Moro a ser guindado à posição de reserva dos ministros do supremo tribunal (de salários invejáveis, sinecura das mais sofisticadas).


DdAB
P.S. Não esqueçamos que, durante suas férias, ele acionou a polícia federal, para dar um basta a um desembargador que andou pensando em acolher um habeas corpus pela libertação de Lula. Parece óbvio que temos aí algo ilegal e therefore, como diria o anglicismo o próprio Dalanhol, contra a lei e, therefore, criminoso. Como diria o próprio Sérgio Fernando Moro, sic transit gloria mundi.
P.S.S. Propagandeei os feitos de cá no Facebook de lá: Neste dia dos Namorados, enamorado evoquei que escrevi para minha, então, noiva: "caso caso no ocaso do caso case uma casa", poema em prosa desclassificado num concurso de frases de uma só palavra. Lembrei dele, pois escrevi no blog algo por ali inspirado:

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O Desmonte que Vem de Fora

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Dias atrás, li estupefato no jornal que o Ministério Público do Rio Grande do Sul estava solicitando à assembleia legislativa a criação de 41 cargos de confiança, os afamados CCs. E fiquei boquiaberto ao ler o jornal de hoje e saber que os próprios solicitantes, dada a reação que a iniciativa provocou na opinião pública, ou sei lá aonde, voltaram atrás e pediram para cancelarem a tramitação do pedido.

Logo eu, que considero que o emprego público é obrigação do estado, como já prescrevia a constituição da república que regeu meu nascimento, ou seja, eu, de 1947 e ela, de 1946: "todos terão direito a um emprego que lhes possibilite existência digna". E que vim a aprender, na minha longa convivência com a literatura igualitarista, que o "governo é o empregador de última instância".

Então, como é que vou conciliar querer menos cargos públicos? É que John Rawls diz que a sociedade justa terá seu governo gerido por empregos abertos a todos. "Todos" não quer dizer os parentes dos procuradores do ministério público, nem dos deputados, nem dos juízes, na troca de nomeações, já que a nomeação direta está proibida no país da impunidade...

Em compensação, parece que já falei que andei lendo a revista Época, número 1090, a da maconha. E nas páginas 78 e 79, temos um comentário, um balanço sobre o desmonte do estado norte-americano que deixa qualquer um de cabelo em pé:

   [...] o resultado [do desmonte, se bem resumo em uma palavra] é parecido [ao que ocorre na retirada de poder do Foreign Office, o da diplomacia]: diplomatas sentados nos bastidores, políticas sendo feitas em outros lugares.
   A queda livre do Foreign Office continuou através das eras Obama e Trump. Em 2012, 28% dos cargos do Foreign Office no exterior estavam vagos ou eram preenchidos por funcionários de nível inferior, trabalhando acima de sua experiência.
   Em 2014, a maioria dos funcionários tinha menos de dez anos de experiência, um declínio até mesmo em relação aos anos 90. Menos funcionários do que antes foram promovidos à liderança em 1975, mais da metade dos funcionários chegará a postos superiores: em 2013, apenas um quarto uma profissão [no Foreign Office] que, nas décadas anteriores, recrutara as mais brilhantes mentes das universidades americanas e do setor privado agora estava enferma, se não morrendo.

Se meu início foi falar nos 41 cargos em comissão, que sou contra, sigo para uma conclusão com matéria também do jornal. O ministro Paulo Guedes disse que não haverá concursos públicos nos próximos quatro anos. E pode ser que Bolsonaro seja reeleito. E pode ser que, mesmo saindo do poder pelo voto majoritário, essa turma deixe uma herança como a  que ficou de Temer, com aquela lei esdrúxula dos 20% de aumento no gasto, algo assim, que felizmente não lembro com exação.

Então: Paulo Guedes segue no projeto de secar o estado dos melhores cérebros, da perspectiva da carreira do funcionalismo público (da qual outro câncer, by the way, é mesmo a nomeação indiscriminada de pessoas em cargos em comissão). A macacada terá menos de 10 anos de experiência. A macacada não terá mais promoções a cargos de liderança nem a postos superiores. A macacada não vai originar-se das universidades, pois estas estarão acabadas, a macacada não terá nem mesmo empregos no setor de mercado, pois este também fenecerá e aparentemente os chineses vão preferir trabalhadores chineses: se exportarem 210 milhões de pessoas não vai faltar chinês naquelas bandas.

DdAB
Foto de um desmonte lá no início.