terça-feira, 30 de abril de 2019

Ulysses: fotografando um bem de Giffen

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Tenho uma coleção de traduções do livro "Ulysses", que leva a assinatura de James Joyce e publicado no dia do aniversário do autor, ou seja, 2.2.22, ou melhor, dois de fevereiro de 1922. Leio-o por pirraça, pois leio e mais leio e mais leio e nada entendo. Lembra-me aquela piada de, parece, de Woody Allen, ao dar o relato do resultado de um curso de leitura dinâmica em que o objeto do estudo era "Guerra e Paz": no caso, tinha a ver com dezenas de irlandeses.

Quando leio os comentadores, cada vez menos entendo, cada vez menos me entendo e cada vez mais me acho estranho por prolongar essa aventura que está muito, muito longe de terminar. É que cada vez aparecem mais comentadores e minha desiderata já tem uma centena de livros e artigos sobre o tema.

Por uma questão de razões estranhas, decidi ler a tradução da editora Relógio D'Água, de Portugal, isto que a primeira que li foi a de Bernardina da Silveira Pinheiro, brasileira. Por quê estranha? Simplesmente é que a leio apenas nas salas de espera daqueles locais em que ainda dão boa acolhida a seres humanos, como consultórios médicos, filas de acesso às repartições públicas e, em breve, na espera de comida nos restaurantes mais procuradinhos.

Então: na página 159 da versão de:

JOYCE, James (2014) Ulisses. Lisboa: Relógio D'Água. Tradução de Jorge Vaz de Carvalho.

podemos ler, sem disfarces:

   Bom Deus, o vestido dessa pobre criança está em farrapos. Parece subnutrida também. Batatas com margarina, margarina com batatas. É depois que se ressentem. Prova dos nove. Mina-lhes a constituição.

O romance foi publicado em 1922, retratando o dia 16 de junho de 1904, uma quinta-feira. 1904 ou 1922, vemos o bem de Giffen ali retratado precisamente com a dupla batata-manteira. Sabemos que aquela turma da pobreza irlandesa era tão pobre que precisava basear sua alimentação na batata. Quando tinha alguma melhoria na renda, abandonava a batata e passava a comer pão. Mas quando o preço da batata subia, a negadinha que já era pobre torna-se paupérrima e aquele pãozinho do dia do aniversário de algum membro da família, ao invés do pão, vinham mais batatas.

O único elemento consolador dessa tragédia lá daqueles tempos é que, hoje, a renda per capita da Irlanda é de US$ 53,570, ao passo que a do Reino Unido é de US$ 40,600, tudo corrigidinho pela paridade do poder de compra. Ao mesmo tempo, o que vemos é Joyce fazendo uma apologia da sociedade igualitária: desigualdade gera pouca renda para os pobres, pouca disponibilidade de ingerir uma dieta saudável e, assim, trabalhadores fracotes, como é o caso dos brasileiros contemporâneos. Tudo cheio de batata frita e pouco hamburguer.

DdAB
P.S. Decidi copiar aqui o verbete da Wikipedia. No tradicional plano (q, p), isto é, a quantidade desejada no eixo horizontal e o preço correspondente no eixo vertical, vemos uma curva de demanda (procura) positivamente inclinada, ou seja, quanto maior o preço, maior será a quantidade consumida de... batatas. O interessante do verbete da Wikipedia é que ele fala exatamente o que Alfred Marshall pensava do caso: quanto maior a renda, menor seu consumo. A outra peculiaridade é que não é nada peculiar ao bem de Giffen, pois todos os bens e serviços, quando o preço sobe, mostram uma queda na quantidade de consumo planejada. É, parece, da natureza humana. É, parece, pelo menos, das economias monetárias.

Bem de Giffen

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
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Em economia, um bem de Giffen é um bem inferior, ao qual grande parte da renda é destinada, e para o qual uma redução do preço faz diminuir a sua quantidade demandada. Este comportamento é diferente dos da maioria dos produtos, que são mais consumidos (ou comprados) à medida que seu preço cai. Em termos microeconômicos, sua curva de demanda é crescente e, por isso, sua elasticidade-preço da demanda é positiva. Outra repercussão microeconômica é que seu efeito rendaé maior que o efeito substituição.
As provas da existência de Bens de Giffen são debatidas. Um exemplo de uma situação em que pode ter existido um Bem de Giffen foi o pão na Irlanda do século XIX.[carece de fontes] Uma elevação moderada dos preços de pão levou a um maior consumo de pão, principalmente em famílias pobres, pois não havia outro bem barato e acessível capaz de substituir o pão na dieta das pessoas. Desta forma, maiores gastos no consumo de pão levaram a uma redução do consumo de outros produtos alimentícios, o que obrigou os mais pobres a consumir mais pão para sobreviver.

Descoberta[editar | editar código-fonte]

Essa classe de bens recebe esse nome em homenagem a Sir Robert Giffen, que foi citado no século XIX por Alfred Marshall como o criador da ideia.
Giffen imaginou uma família muito pobre, em que a sua renda seria de 100 unidades monetárias, sendo suficiente apenas para consumir arroz durante o mês. Havendo uma queda no preço da polenta, por exemplo, faria com que esta família não consumisse mais arroz, pois eles já estavam saturados deste produto e dariam preferência ao outro produto. Sendo assim, a variação da demanda é diretamente proporcional à variação do preço, e não inversamente, como no caso dos bens comuns.
abcz
P.S. Deixo um lembrete para ler atentamente o texto que nos encima, pois parece que falei em substituir o de maior preço relativo pelo de menor. Ou vice-versa, eis a questão.

domingo, 28 de abril de 2019

Nem Tudo que Herra é Zerro

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Um momento marcante do cenário político brasileiro foi a vitória do senso comum com a decisão do supremo tribunal federal (precisava subir tanto para conceder (conceder?) uma obviedade, que foi a entrevista trancada há sete meses que Lula deu e deveria ter dado aos jornais Folha de São Paulo e El País. Se bem entendi, a melhor maneira de lê-la é clicar aqui.

Mas clicando lá, lemos uma esfaimada, escabelada tolice:

Se le ve fuerte. Decidido a cambiar su destino. La idea de que la cárcel, con el tiempo, iba a debilitar a Luiz Inácio Lula de Silva no se corresponde con la realidad. El expresidente de Brasil (Caetés, 1945), preso desde abril de 2018 en dependencias de la Policía Federal de la ciudad de Curitiba, ha decidido romper su silencio en una entrevista con EL PAÍS y el diario Folha de São Paulo desde la cárcel. Durante la conversación, que se prolonga durante dos horas, el líder del Partido de los Trabajadores (PT) confiesa que está obsesionado con probar que es víctima de una farsa y no descarta volver a la política si logra salir en libertad.

Lá mais adiante, o próprio site dá a real:

FIN DE LA CENSURA

La entrevista de EL PAÍS y Folha de São Paulo con el ex-presidente Lula pone fin a un intento de censura que duraba ya siete meses, y que dejó en suspenso si este diario lograría conversar con él hasta el último momento. En Brasil, la Constitución permite a los presos conceder entrevistas. El jueves, 25, un día antes de la fecha marcada para el encuentro de Lula con los periodistas de los dos medios, delegados de la Policía Federal de Curitiba, donde el expresidente está preso, nos avisaron de que la entrevista solo sería realizada en la presencia de otros periodistas que querían participar en la charla de dos horas con Lula. Transformarían la exclusiva en una rueda de prensa, sin consultar al entrevistado, aunque dejaran que el expresidente respondiera a las preguntas que él quisiera, según nos explicaron. Llamaba la atención que la presión por abrir la entrevista de Lula a otros periódicos fuera hecha por medios que tienen una postura editorial radical contra el expresidente; algunos de ellos se refieren a Lula en sus noticias como “presidiario”. El abogado de EL PAÍS presentó un recurso al Supremo el mismo jueves para que se respetara la exclusividad – y la voluntad de Lula que aceptó la entrevista para hablar por primera vez desde que fue preso con estos dos periódicos— y la Corte lo aceptó. Si el Supremo no se hubiera manifestado, la entrevista no se habría realizado porque Lula se negaría a hablar en una rueda de prensa en este momento.

Pois que dizer? Acho que a primeira coisa é que a entrevista é emocionante. A segunda é que a prisão de Lula foi de um oportunismo vulgar, preparada desde um ou dois anos antes com aquela farsa da prisão em segunda instância. Ele não foi o primeiro, mas a decisão era direcionada para ele. E, cá entre nós, essas acusações da posse do apartamento e do sítio são verdadeiramente infantis. Ainda assim, não posso deixar de dizer que Lula pisou na bola, naqueles tempos, ao omitir-se de indicar o candidato a vice-presidente em sua chapa. Quando isto foi feito, já não havia tempo para saber-se de uma frente liderada por Fernando Haddad e para desfazer a campanha de robôs com as fake news. Nossa esquerda precisa de uma injeção de coramina, se não sou antigo...

DdAB

quinta-feira, 25 de abril de 2019

"Amanhã Começo a Fumar"

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No outro dia, falei de umas leituras recentes, o livro de obras em co-autoria de Jorge Luis Borges. E citei uma passagem exaltando o princípio máximo da divisão e especialização do trabalho. No caso, achei exagerado ver o juiz, digo, ministro, Moro fazendo inquérito policial, fazendo inquérito judiciário, fazendo julgamentos, encaminhando negociações junto a instâncias superiores à sua, e tudo o mais. Ao passar pelo texto que citei, não me contive e associei aquelas chuveiradas que os bombeiros podem dar em quem se arvora à posição de combater o fogo.

Em compensação, não foi leitura de páscoa, mas uma leitura que fiz há uns bons 35 anos. Li o livro "Morangos Mofados", de autoria de Caio Fernando Abreu. Pouco lembro, mas não me foge da memória um dos contos em que -eita memória...- parece que um soldadinho, depois de algumas refregas com o mundo civil, aquele em que vivemos, termina sua última reflexão, que também é o fim do conto: "Amanhã começo a fumar".

À época não havia nada que me exigisse maiores esforços do que tentar deixar de fumar. Tentei diversas vezes, sempre rindo da tirada de Mark Twain ("parar de fumar é fácil, eu mesmo já o fiz dezenas de vezes"), pois era-me efetivamente fácil. E voltar também era fácil, até, penso hoje, mais fácil. Então achei interessantíssimo o -digamos- soldadinho estar planejando ingressar naquele mundo de praticantes daquilo que meu ex-chefe sr. Dorvalino Panassolo considerara "um vício maldito", ele que -se bem entendo- também afanosamente tentava deixar o cigarro.

Pois um número expressivo de pessoas já marcou data para deixar de fumar e eu nunca ouvira nem lera alguém planejando começar a fumar. Mas, pensando melhor, parece que, digamos, um rapaz brasileiro contemporâneo que levou um balaço no pulmão e que fez tratamento hospitalar, ao ter alta, na véspera da alta hospitalar, começa a dizer "amanhã começo a fumar".

DdAB

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Moro Carece de Chuveirada: usurpando funções


Título um tanto enigmático, admito. É que andei lendo (e já não mais aguentei, relegando/delegando para um certo futuro) dois contos do livro "Duas Fantasias Memoráveis", de autoria de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, enfeixados no primeiro volume das "Obras em Colaboração" de Jorge Luis Borges, Rio de Mouro: Teorema, 2002. Tradução de Serafim Ferreira. Aí achei um trechinho que rima esplendorosamente com as manias do ministro Sérgio Moro, cujo cachorro, bem sabemos, tem uma carteirinha do PSDB com sua foto, do bicho e não do apoliticado ex-juiz

Então na página 103, li:

[...] finalmente, vi o mago, que depois de ajudar Nemirovsky, correu até à casinha do fundo e salvou Fang She, cuja felicidade nessa noite não era total por obra e graça da febre dos fenos. Esse salvamento revela-se mais admirável se minuciosamente indicarmos as vinte e oito circunstâncias que o distinguem, e delas só exporei quatro, em virtude da mesquinha brevidade [e eu apenas referirei a quarta delas]:

"d) Assim como no corpo do homem o dente não vê, o olho não arranha e a pata não mastiga, no corpo que por convenção chamamos de 'país' não é decente que um indivíduo usurpe a função dos outros. O imperador não abusa nunca do seu poder e fecha as ruas; o presidiário não compete com o andarilho e desloca-se em todas as direções. Tai An, ao resgatar Fang She, usurpou as funções dos bombeiros, com grave risco de os ofender e de eles o encharcarem com suas caudalosas mangueiras.

Parece óbvio que as analogias são gritantes. A primeira é que havia mais de 28 circunstâncias atenuantes para os conspiradores não trancafiarem Lula. Mas eles, com aquela balela que alguns consideram saber jurídico, negaram-se a considerar o princípio da gradação das penas. Tá na cara que Lula "não é qualquer um", ele é um ex-presidente da república e bem que -mantendo a farsa- poderia ser condenado a cumprir a pena a que -injustamente- o condenaram em velocidade sideral em casa, uma prisão domiciliar. Mas, não. Não poderiam deixá-lo na prisão domiciliar, sob pena de serem declarados isentos. E eles não queriam isto. Queriam mostrar-se subservientes às ordens do imperador, seja ele quem quer que seja. Em resumo, eu diria haver pelo menos 56 circunstâncias e não apenas 28. Ou 580. Uns doidos.

Depois, Moro, ao exercer o papel desde o chefe de polícia ao juiz compenetrado (?), julgando, acusando, defendendo, condenando, vendo agravantes, agravando visões, estava usurpando funções até dos bombeiros, merecendo uma chuveirada. Esta inegavelmente iria fazer-lhe bem, pois aura cheia de nódoas como ele só mesmo o cachorro peessedebista.

DdAB
P.S. Na imagem que recolhi de um filminho do YouTube, temos um bilhetinho para o juiz ou seu cachorro, que se encontra escondidinho, de sorte que não podemos ver seu crachá do PSDB.

domingo, 14 de abril de 2019

Charade (em itálico) e o Mercado de Trabalbo

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Acabo de rever o filme "Charade", em itálico. Charada, em português. E acabo de ouvir falar em sugestões sobre a reforma da previdência para evitar a substituição do trabalho humano pelo de robôs na economia monetária em que vivemos. Decidi ligar pontos desses dois bordados (hehehe) e colocar aqui o resultado de algumas reflexões. Dou por pacífico que todos sabemos o que é um robô, que obedece integralmente aquela definição que Umberto Eco (Somewhere) deu para máquina: um macaco da natureza, que lhe imita a função, mas não retém a forma.

E que é uma charada? Tem várias interpretações, inclusive o problema da tradução. Vejamos:

dicio.com.br:
Substantivo feminino: enigma que consiste em compor uma palavra em tantas sílabas ou partes quantas possam ter uma significação determinada, dando-se a cada uma dessas partes a definição em termos mais ou menos vagos, e acrescentando uma alusão à significação da palavra inteira.[Figurado] Conversa ou discurso ininteligível.Matar uma charada, adivinhar a palavra sobre a qual ela é feita.

Wikipedia:
A charade is an informal composition wherein a word is broken into its component syllables and presented as a series of punning clues to the identity of each part and the whole. From the poor acting usually involved in its dramatic form charades, it has also come to mean any farce or poorly-executed deception.

Wikidictionary:
From French charade, charrade (“prattle, idle conversation; a kind of riddle”), probably from Occitan charrada (“conversation; chatter”), from charrar (“to chat; to chatter”) + -ada. As a round of the game, originally a clipping of acting charade but now usually understood and formed as a back-formation from charades.

Voltando a falar em macacos da natureza, naquela imagem lá de cima, vemos (e podemos ampliar clicando sobre a imagem) um moinho d'água, como seu operador, possivelmente, enviando mensagem de amor em seu celular. Mas também podemos ver um "ladrão", ou seja, a roda dentada parece não estar recebendo a água corrente, levando a crer que o operador do moinho desviou seu curso, a fim de completar sua mensagem... Olhando para a direita da roda vertical, observamos uma ponta de eixo. Presumo que, do outro lado desse eixo, aquela energia cinética que veio da água que move a roda é transformada em energia mecânica, fazendo algum movimento que culmina por moer o cereal, ou o que seja.

E aquele filetezinho d'água que já referimos ao vê-lo desviado, ele é eterno? Eterno, eterno mesmo, nem os prótons... Mas fico mais preocupado com o perigo de seca e ociosidade do moinho do que a decadência do universo. Só que a turma bolou a solução: transformar aquela fonte de energia dependente daquele curso d'água em uma fonte mais confiável. Digamos que inventaram a máquina a vapor, que recebe a energia da queima de um pedaço de madeira (ou hulha), ou o que seja, e o transforma na mesmíssima energia mecânica.

E será que houve "queima" de milhares de empregos, quando a máquina mais moderna substitui a mais antiga? Parece óbvio que houve. E isto foi bom? E, em tendo sido bom, cui bono? (quem se beneficiou?). E aí as opiniões se dividem. Tem gente até que considera ser melhor que a tecnologia do moinho d'água devia ter sido mantida, proibidas as máquinas a vapor e aquelas a explosão e as elétricas, para preservar os empregos. Eu, olimpicamente, acho que quanto mais trabalho vivo der lugar para o trabalho morto, melhor para a humanidade. Sideralmente, considero que o problema, o verdadeiro problema, do capitalismo é a eficiência distributiva, ou seja, a definição contemporânea daqueles que se beneficiam.

A social-democracia tem dado respostas interessantes ao problema distributivo, desde a cobrança de impostos maiores sobre bens de demérito, à criação do seguro desemprego e, mais recentemente, o pagamento da renda básica (incondicional) universal. Mas seria adequado que se cobrasse um imposto sobre cada robô incorporado à fábrica e que substitui um trabalhador? Se a encrenca apenas imita a função e não a forma da natureza, é difícil sabermos o que é um robô. Em minha definição, o primeiro deles foi um simples e genial termostato. E o programa que faz análise de crédito? E aquele outro que faz cirurgias, com cada vez menor controle do cirurgião formado pela faculdade de medicina?

E a dupla Acemoglu e Robinson e seu livro sobre as comunalidades entre as nações incapazes de acompanhar o progresso técnico das demais?

ACEMOGLU, Daron e ROBINSON, James (2012) Por que as nações fracassam; as origens do poder, da prosperidade e da riqueza. Rio de Janeiro: Elsevier Campus.

Como sabemos, esses dois professores falam das instituições inclusivas e das extrativistas e da presença de inovação na economia nacional. Claro que o Brasil é lotado por instituições extrativistas, que comportam um ideário anti-igualitarista e de baixa adesão aos padrões de honestidade e alta impunidade. País que não tem educação (e, antes dela, precisaria ter esgotos...) jamais poderá criticar as instituições existentes e, menos ainda, criar novas, mais afeitas ao progresso e à democracia. Sem estudo não há inovação. E sem inovação não existe progresso perene. O Brasil é uma prova de até onde a sociedade desigual pode levar: 30 ou 40 anos de crescimento rastejante.

Em muito enorme boa parte, eles têm razão. Uma das virtudes do capitalismo é mesmo a destruição criadora de que nos falou Joseph Alois Schumpeter, a criação e incorporação de progresso técnico voltado a criar novos produtos e novos processos. Os processos, inclusive organizacionais, são poupadores, via de regra, de mão-de-obra, ou seja, de trabalho vivo. Um programa que faz a contabilidade de uma sorveteria pode não estar tirando o emprego de um contador, mas certamente este poderá fazer, digamos, mais 10 empresas. E aí, sim, estaremos vendo um trabalhador destruir o emprego de outros nove. Sabe-se lá.

E Charade? Tem uma cena num metrô parisiense, parece-me que numa estação da linha Porte de Clignancourt. O que me chamou a atenção é que, naquele filme rodado, talvez, em 1962, havia uma boa meia-dúzia de funcionários na estação subterrânea, entre vendedores dos bilhetes, um ou outro guarda de plataforma, e por aí vai. E que, na última vez que vi Paris (isto também é título de filme velho), havia apenas máquinas, gente que era bom, apenas os pagantes/passageiros. Pensei: assim não vai dar. Não haverá demanda efetiva: para quem vender os bens produzidos? Parece que eles seguem inventando compradores. Mas, sabedores que o emprego é a expressão máxima da sociedade igualitária, que podemos esperar?

DdAB
P.S. A propósito, Acemoglu e Robinson sugerem que o crescimento da China é limitado, por se tratar de uma sociedade constituída por um expressivo número de instituições extrativistas, como -digo lá eu agora- é o caso do Partido Comunista itself e das guanxi (aqui).

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Mundo 0 x -3 Zerro Herra




A encrenca é tão canina que, tendo o dia 5 de abril (sexta-feira) como o mais agitado de minha vida, não consegui postar o que quero, esses menos três gols na isenção jornalística, mas vou fazê-lo agora: antes tarde do que nunca. É o jornal Zero Hora, é minha tradicional Zerro Herra. É evidente que não dou pouca importância a Zerro Herra, pois a escolhi para ser minha pauta daquilo que a Art Filmes daqueles tempos chamava de "O Que Vai pelo Mundo". E já vi cada uma, até aquela do morto em Soledade, com três tiros, ou seja, duas facadas na barriga... E dessa Art Filmes nada vi no Youtube.

Em compensação, a página 2 tem aquele "Informe Especial" de autoria do jornalista Tulio Milman. Pois pior em compensação, ele tem a reflexão do dia -se assim posso chamar- intitulada "O que a palavra Tchucuca diz":

Muito se fala sobre a explosão do ministro da Economia, Paulo Guedes, que saiu dos trilhos na quarta-feira, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, ao ser chamado de "tchutchuca" pelo deputado Zeca Dirceu (PT-RJ), filho do ex-presidiário José Dirceu. [...]

Pirei, despirei, tornei a pirar: fiquei pensando que, neste caso, também deveríamos dizer o nome da mãe do indigitado deputado... Vim a ler na Wikipedia tratar-se de Clara Becker. Mas e daí? E daí, e daí, e daí? Que teria a ascendência do deputado a ver com a insatisfação do estridente jornalista com os rumos que o humor do ministro da economia escalou naquela tarde/noite memorável? O cara é mau ministro, o cara é mau jornalista. No mesmo parágrafo que trunquei com [...], Túlio prometeu: "Pode-se analisar o episódio, no mínimo, sob duas óticas." Pois, aprendiz de epistemologia que me declaro, agucei o espírito para ver quais seriam essas duas óticas analíticas do jornalista.

Primeira decepção: não há aquelas afamadas entradas paralelas que tanto me ajudaram a galgar alguns degraus nas escadarias os porões do conhecimento, se me faço vulgar... Demonstração: ele começa falando na primeira dessas duas óticas. E, no parágrafo seguinte, terminada a -assim dizendo- análise da primeira, segue dizendo "Feita a ressalva, [...]", cabendo a seu sofrido leitor dar-se conta de que aquela ressalva era da primeira ótica, que tratou do "descontrole do ministro".

A segunda ótica teria, claro, que compensar aquele "descontrole do ministro", pois -em caso diverso- poderiam classificar Túlio no armário dos comunistas. E, para deixar mesmo no opróbio essa sua -digamos- análise, parece óbvio que, ou muito me engano, ou ressalvas não fazem parte a parte central da análise. Vou dar um exemplo. Quando dizemos: "vou analisar o efeito preço", estamos rumando para decompô-lo, analisá-lo. Aí defino o efeito preço: variação na quantidade demandada de uma mercadoria em resposta à variação de seu preço". A análise seguiria com a divisão desse efeito preço em efeito renda e efeito substituição. Neste caso, deveria ser proibido que eu, fazendo uma ressalva, chegasse aos efeitos renda e substituição. Na verdade, isto não é ressalva nenhuma, mas a própria análise. Além do mais, feita a ressalva analítica, mais da metade restante da reflexão sobre o substantivo feminino tchutchuca, transformando-a (à resssalva) em cavalo de batalha para lancetar a esquerda. Chega!

Em compensação, o quarto superior da página 8 diz: "Histeria da oposição ajuda o governo Bolsonaro". Fiquei encafifado. É? Era Rosane de Oliveira, a tradicional porta-voz do reacionarismo sul-riograndense, naquele carimbadíssimo jornal. Farei apenas uma ligeira "análise" (hahaha), citando o primeiro parágrafo da jaculatória da profissional:

Um dia depois do longo depoimento do ministro Paulo Guedes à Comissão de Constituição e Justiça, o que ficou daquela sessão de mais de seis horas? O assunto mais comentado é a falta de educação do deputado Zeca Dirceu (PT-PR), dizendo que o ministro é 'tigrão' com os pobres e 'tchutchuca' com os privilegiados. Um citação totalmente inadequada, que irritou Guedes mais do que todas as provações anteriores e levou ao encerramento da sessão. O ministro, que já estava pelas tabelas, desceu ao nível do Zeca Dirceu e disse que 'tchutchuca' eram a mãe e a avó dele.

Segue a lista de críticas à esquerda que já nos é familiar, e até mais violenta: histeria e catarse. E a defesa do status quo: "O ministro mostrou que tinha estudado os argumentos de quem acha que a reforma da Previdência é desnecessária e tentou desmontá-los, mas a gritaria impediu que as respostas fossem ouvidas e que mitos raciocínios fossem concluídos. [...]"

Em compensação, sempre tem o contraponto com episódicas concessões ao que pensam ser a opinião central da esquerda. Agora pulamos para a página 25. Carolina Bahia tem um quarto de página e começa com uma nota longa intitulada "Caiu a ficha de Bolsonaro", no caso, o presidente teria entendido que "precisa mergulhar em negociações", dizendo como prólogo:

[...] Zeca Dirceu (PT-PR) faltou com o respeito ao chamar o ministro [Paulo Guedes] de tigrão e tchuchuca. Foi baixo. Os governistas também erraram. [...]

E por que considero que minha... análise faz parte de minha inserção naquele mundo da economia política moderna? Um jornalismo isento (que não se resume a, digamos, criticar uma posição errada da esquerda e imediatamente fazer uma concessão com crítica para a direita) jamais faria este tipo de abordagem, abordagem, abordagem, isto é, três jornalistas enviesados com uma notícia banal. Essa de falar apenas no pai do deputado e não referir a sra. Clara Becker é, digamos, machista...

DdAB
Editei uma foto cujo resumo coloquei lá em cima. É para deixar claro que houve sapatadas pra tudo que é lado, cabendo-nos inocentar o que parece um parzinho de sapatos for ladies.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Esquemas e Modelos na Economia Marxista

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Esquema para criação de modelos de vista no Revit. 


Duas frases que me fizeram sentir no topo do mundo. Ambas foram retiradas do artigo:

REUTEN, Geert (2002) Marxian Macroeconomics: an overview.
Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/242481432_Marxian_Macroeconomics_an_overview. Acesso em 29 de junho de 2018.

Primeira frase:
Central to the [Marxian] paradigm is that the capitalist system is a historically specific mode of production, allocation and distribution. Capitalism is not merely an allocating and distributing market economy; more than that, each historically specific economic system necessarily operates through a specific ‘social form’ as the dominant criterion and measure of production. For capitalism this is the monetary value-form; it not merely dominates market exchange but also the process of production. Hence techniques of production and technological trajectories are not ‘naturalistic’ phenomena; for capitalism, they are determined by the value-form (see Murray 2002 [referência no original]). [negrito e itálico são meus]

Topo do mundo por causa da primeira frase:
 Tem, claro, muita coisa, mas o que italicizei e negritei é que me interessa comentar. Volta e meia, em vários contextos, especialmente aquele tentando ajudar críticos severos do capitalismo a moderar suas posições, refiro precisamente essas -agora falo eu e não o Reuten- três principais dimensões da eficiência econômica: produtiva, alocativa e distributiva. Teremos eficiência produtiva quando a produção estiver no nível em que o custo médio é mínimo. Vim a entender que eficiência alocativa é inalcançável, exceto no esquema, epa, modelo..., de concorrência pura. E que é eficiência alocativa? é quando o preço é igual ao custo marginal: a sociedade paga pela unidade adicional de um bem ou serviço (preço) precisamente aqueles recursos indispensáveis para produzi-lo (custo marginal). Quanto à eficiência distributiva, que ocorre quando o preço é igual à custo médio, esta, então, tá na cara que jamais vai ocorrer, pois este não é um requisito fundamental para a sobrevivência do sistema capitalista.

Segunda frase:
The second main building block [of the Marxian paradigm] is a Reproduction Schema of the capitalist economy (Marx 1885, Part Three). In modern terms it would be called a dynamic two-sector macroeconomic model of production and realisation (Marx was the first economist to develop such a model; up to about 1950 the term ‘model’ was not used in economics; ‘schema’ was a name adopted from Marx, e.g. Tinbergen). [SIC]

Topo do mundo da segunda frase:
O comentário aqui é mais curto. Eu nunca lera que foi a partir dos anos 1950 que aquilo que, na economia marxista, se designava como "esquemas de reprodução" passou, talvez por não-marxistas, a ser chamado de modelo. Quer dizer, parece que eu já nasci sabendo o que é um modelo, mas foi depois de meu nascimento que se começou a usar o termo em sua aplicação econômica.

Ok, ok. Fiquemos com esta informação, aceitando-a provisoriamente, até obter mais evidência a favor ou contra o que diz nosso amigo Reuten.

DdAB
A imagem que selecionei veio do Google Images, quando pedi, por engano, "esqyiena e modelo".

domingo, 7 de abril de 2019

Altruísmo na Política da Venezuela


Estou longe de poder generalizar o que falarei em seguida, pois não sou familiarizado no assunto. E estou trabalhando com uma amostra de tamanho 3 e sei que a primeira observação seria: aumentar o tamanho da amostra. Tudo começou quando comprei um livro de filosofia que já mencionei e cujo nome agora me foge. Pois, ao olhar mais vagarosamente tal livro, dei-me conta de que ele é uma droga, ou talvez apenas droguinha. Ao mesmo tempo, fiquei tão furioso comigo por cometer o que a turma da economia industrial chamava de "erro de compra" que decidi lê-lo de cabo-a-rabo (ou, como sinônimo, de fio a pavio). E o fiz há tão bons tempos que apenas se voltar a cheirá-lo é que lembrarei a autoria, por enquanto só posso falar numa capa com um desenho esverdeado...

Pois repeti o dito erro ao comprar o livro

HART, Michael H. (2002) As 100 maiores personalidades da história. Rio de Janeiro: DIFEL. Tradução de Antonio Canavarro Pereira, com original possivelmente de 1982.

Parênteses: ao escrever aquele "as 100 maiores", lembrei, evoquei, que possivelmente aquele livro que li por retaliação poderia chamar-se "Os 100 maiores filósofos..." Tal é minha estupefação por ter praticado o mesmo erro duas vezes que evoquei ninguém mais ninguém menos que Julio Iglesias, com a canção "Con la misma piedra":

Tropecé de nuevo y con la misma piedra
en cuestión de amores nunca aprenderé
yo que había jurado no jugar con ella
tropecé de nuevo y con el mismo pie.

Resumo, dei dois tropicões (talvez mais...), talvez havendo segredos em minhas anotações no primeiro. Há várias no livro de Hart, mas desejo destacar uma que diz respeito ao mais elevado altruísmo sentido/praticado por políticos. Vou citar dois nomes antes de chegar à Venezuela. O primeiro é Amador Bueno, um paulista que não quis ser rei do Brasil. Quis seguir com sua vidinha talvez intuindo que o egoísmo predador, a ladroagem seriam um saco sem fundo na sociedade brasileira. Segundo nome: João Goulart que, tenho razões para crer, por ler, que decidiu entregar o poder aos militares em 1964 a correr o risco de ver deflagrada uma guerra civil nestas plagas. Admiro os dois.

E desprezo mais dois: Hugo Chavez e Nicolás Maduro. Esses dois senhores não se deram conta de que aquela cantilena sobre a influência contra-revolucionária dos Estados Unidos, da Colômbia, sei lá mais de quem, é que foi a responsável por tanta gente ser "contra", do contra. Eles não estudaram introdução à filosofia, quando aprenderiam o princípio da navalha de Occam: as explicações mais simples devem substituir as mais sofisticadas, quando os modelos têm o mesmo poder preditivo. Previsão possível: enormes dificuldades de fazer um governo de esquerda, honesto sem muita cautela para não fazer com que os comandos de defesa da revolução começassem a ditar até qual a marca do cachorro que deveria tomar conta da casa. Pode ser mentira, mas ouvi dizer que um cidadão que morara na capital dos Estados Unidos batizou seu cão como Washington D. C. E a tal brigada do bairro achou que aquilo era apologia a George Washington acrescida de um "Derrubemos Chavez".

Para concluir e mostrar que meu desprezo relativamente aos dois chefes venezuelanos, cito mais um compatriota: Simón Bolívar. Então: o Hart inseriu Bolívar entre os 100 maiores personagens da história. E, lá pelas tantas, lá na página 295 (por pirraça ainda vou ler até a página 610), diz-nos:

[...] em lugar de outras nações se juntarem à Grande Colômbia (criada e presidida por Simón Bolívar), a própria república começou a se desintegrar. Estourou a guerra civil, e, em 1828, houve uma tentativa de assassinar Bolívar. Em 1830, a Venezuela e o Equador já se haviam separado, e Bolívar, percebendo que ele próprio era um obstáculo para a paz, renunciou em abril desse ano. [...]

Pois não é que, ao ler este trecho, garrei de pensar: se um gigante do porte de Simón Bolívar entendeu ter-se convertido em um empecilho para a paz, que poderíamos esperar de pigmeus políticos da contemporaneidade e do porte de Hugo Chávez e Nicolás Maduro? Obviamente que se agarrassem ao poder, jogando seu país num longo prazo de maus bofes.

DdAB
Imagem da Wikipedia. E que acharam daquela tirada tirada do "gigante Bolívar e dos pigmeus Chávez e Maduro"? O original é "gigante como Aristóteles e pigmeu como -não lembro bem- digamos Jeremy Benthan", de autoria de Karl Henrich Marx...

terça-feira, 2 de abril de 2019

Diálogo não divulgado


O da camisa verde escura prestando continência: cumé que é, achas que eu devo retornar ao Brasil?

O da camisa verde clarinha coçando a mufa em gesto desesperado: cumé que a pessoa ainda não pediu asilo para Israel?

DdAB
P.S. É a Crefisa, minha gente. É um jogador. É o Capitão e Político Jair Bolsonaro, presidente do Brasil.