quinta-feira, 16 de maio de 2019

Ontem, Hoje e Amanhã: o voto, a filosofia e o Bolsonaro


Talvez seja a idade (isto que nem fiz aniversário...) que, se não me dá mais sabedoria, brinda-me com mais tolerância. Na verdade, de repente, vim a entender que há duas maneiras irreconciliáveis de pensar a macroeconomia: com estado regulador ou com estado mínimo. Da mesma forma, haverá duas maneiras de classificar as pessoas em termos de sua adesão (consciente ou não) a diferentes filosofias políticas. Neste caso, entendo que estamos falando dos igualitaristas, por oposição aos neo-liberais.

Depois de entender essas divisões perenes no tempo e que também se fazem presentes nos diferentes espaços de nossas vidas profissionais, sociais e familiares, vim a entender -entender, entendeu?- que não sou tão tolerante assim. A verità é que considero que o governo deve implementar políticas econômicas voltadas à promoção do bem comum (empregador de última instância, imposto sobre o cigarro, subsídio à educação, etc.), ou seja, sou um adepto do estado regulador. Da mesma forma, tenho posição clara em favor da sociedade igualitária, considerando ser vital para o futuro da humanidade (obviamente passando pela gestão do meio-ambiente) o rompimento com as posições que defendem o estado mínimo. E vejo dissidências importantes entre colegas de trabalho, nossos vizinhos de rua e nossos familiares.

Nos dias que correm, temo que a posição dominante no Brasil, no Menino Deus e no mundo seja mais favorável àquilo que uns falam em liberalismo na economia e conservadorismo nos costumes. Dada a intolerância a que o que expus anteriormente me lançou, só posso dizer que condeno veementemente essas pessoas, as pessoas que esposam este tipo de posição John Rawls e eu (!) consideramos que o mais importante valor humano é a liberdade ("Todos têm igual direito à mais ampla liberdade compatível com a dos demais indivíduos."). Chego mesmo a esposar a ojeriza ao totalitarismo anunciada por Karl Popper (ver aqui): não podemos transigir com os intolerantes que usam a democracia precisamente para acabar com ela.

Tá na cara que estou falando em geral e especialmente no Brasil contemporâneo e seu bolsonarismo. Ilustro o absurdo da situação com duas referências ao jornal Zero Hora:

No exemplar de ontem, 16 de maio de 2019, li uma carta de leitor na página 4:

VERBAS PARA INSTITUIÇÕES
   Concordo com o corte de verbas para as universidades (ZH, 7/5) [sic], pois as instituições, ao contrário do que afirmam, estão mais preocupadas com suas agendas corporativas do que com a sociedade.
Luiz Serpa
Aposentado - Novo Hamburgo

Gelei, degelei e tornei a gelar. Então o senhor Luiz Serpa pensa mesmo isso? E fiquei imaginando o que ocorrerá se os cortes de verbas forem confirmados. Talvez ele espere mesmo que as preocupações corporativas venham a se desvanecer, em resposta à futura penúria. Por simetria, poderíamos pensar que, se as verbas forem aumentadas, acaba-se a agenda corporativa. Naturalmente, esta visão ácida que confiro à filosofia política (talvez praticada apenas no nível inconsciente) não é nada coerente com minha tolerância com relação à opinião de outrem. Gelei...

Pois a própria capa da Zero Hora de hoje, 16 de maio de 2019, não precisou de mais de 12 palavras para fazer-me degelar e, rapidamente, gelar de novo:

'São uns idiotas úteis que estão sendo usados como massa de manobra.'
JAIR BOLSONARO
Presidente, sobre a manifestação

Pero que si, pero que no. As manifestações de ontem foram, claramente contra o governo, "tudo isso que aí está" com atropelos de vários naipes e, lamento dizer, com o apoio de gente do feitio do sr. Luiz Serpa. E, eu que sou lá daquele grupo de filosofia política e economia política, fiquei feliz em ver que a sociedade tem um segmento, o mais promissor, o mais interessado num futuro luzidio, que diz "não", "Ele não!". E que fazer com um cara que venceu as eleições com o voto de 57 milhões de brasileiros? Sou contra o impeachment, esculacho da ordem institucional de que o Brasil é tão carente. E se há esperança de criação de instituições inclusivas mais afeitas à modernidade, esta reside apenas e exclusivamente na educação do povo.

E até lembrei de minha biografia antiga: andei sendo chamado de inocente útil, o que hoje representa um elogio, comparado com a condição de idiota útil, que me parece precisamente o caso do presidente da república: que pensarão as elites pensantes dos países amigos quando essa figura medíocre e mal-assessorada expressa tal opinião sobre a geração futura que hoje está em formação?

Gelei, degelei, tornei a gelar!

DdAB
Peguei a imagem que nos encima do corpo de uma postagem que fiz aqui.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Finnegans Wake: não dá pra ler...


Querido diário:

No livro de Donaldo Schüller intitulado "Joyce era louco?", fui levado a retirar o ponto de interrogação: claro que era louco, muito louco. De minha parte, comecei a esposar esta manière de voir digamos que em 1970, quando adquiri a primeira tradução do "Ulysses" para o português perpetrada por Antônio Houaiss. Trata-se daquele "Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan...". (olhar rodapé ou no motor de busca do próprio blog).

Desde então, venho tomando muitas precauções para não endoidar -myself- com o monte de follies que nosso amigo Jim praticou. Pois, depois de ler o livro de Caetano Galindo intitulado "Sim, eu disse sim..." (lá no rodapé) é que decidi que, além do trio "Dublinenses", "Um Retrato do Artista quando Jovem" e do próprio "Ulysses", eu não leria mais nada escrito diretamente por James Joyce. Pensei em transitar a um mundo formado apenas pelos comentários e comentadores de qualquer obra, mas em particular do "Finnegans Wake", o último romance publicado em 1939. Então estabeleci um programa de trabalho, ou programa de lazer, sabe-se lá:

.1 ler o verbete da Wikipedia (aqui em inglês e um verbetinho em português)
.2 ler os trechos pertinentes aos anos da composição do romance ("Finnegans Wake", por supuesto) na biografia escrita por
ELLMAN, Richard (1982) James Joyce. 2 ed. Barcelona: Anagrama. [Por razões antibibliográficas, a macacada barceloneta não traduziu o índice analítico do original em inglês].
.3 ler o livro
AMARANTE, Dirce Waltrick (2018) Finnegans Wake (por um fio). São Paulo: Iluminuras.
.4 ler o livro
AMARANTE, Dirce Waltrick (2009) Para ler Finnegans Wake. Sâo Paulo: Iluminuras.
.5 declarar-me livre para ler o que bem entender nesta linha de perkiza [e, pelo jeito, já fui contagiado pelas loucuragens do irlandês, pois acabo de inventar a palavra perkiza, que é, como sabemos, derivada de perquirir e pesquisar].

Nesta linha de influência rebelde, voltei a escrever na língua do JLM (de "Joyce era louco mesmo"): jistoleler é repetunterpretar, ou seja, ler é interpretar, mas, interpretei mal?, ouvir também é interpretar.

Em continuação, vou revelando meu desagrado com o título usado na tradução dos irmãos Campos publicada em 1962 intitulada "Finnicius Revém" que terminou na tradução de Donaldo Schüller intitulado "Finnegans Wake/Finnicius Revém". Pois não fui longe e logo nas primeiras páginas do primeiro capítulo da vida em Paris de James Joyce e família, achei por bem (ou acharam que eu achasse) traduzir a encrenca como "Os Rastros da Família Finnegan", que também poderia ser "O Despertar da Família Finnegan" ou, ao contrário, "O Velório dos Finnegans". Escolhi "O Despertar dos Finnegans". E por que o plural? A respeito dos Finnegans e não os Finnegan, reporto-me a Érico Veríssimo, que falava nos Silvas, nos Souzas, e por aí vai. Primeiro, declarei Érico um vassalo do imperialismo americano. Mas depois então entendi que o adjetivo concorda com o substantivo: se o artigo está no plural, então é porque o substantivo é que estava.

De onde veio o Finnegan? Sabemos que, nas páginas 605-6 do livro de Ellman que acabo de referenciar,

[...] Quando o escultor August Suter lhe perguntou o que estava escrevendo [depois de verem o Ulysses publicado], respondeu com sinceridade 'É difícil dizer'. 'Pois então qual é o título?'. 'Não sei. É como uma montanha  em que estou fazendo túneis em todas as direções, sem saber o que vou encontrar'. Na verdade, ele já sabia o título, e o contara a Nora [esposa de James] como um segredo [e nesse período se referiam ao livro como "Work in Progress"]. Seria Finnegan's Wake, com o apóstrofo entre o 'n' e o 's' suprimido porque significava , de sua parte, a morte de Finnegan e o ressurgimento dos Finnegan. O título era o de uma balada falando de um homem que carrega uma vasilha e que cai de uma escada. Supõe-se que morre em consequência da queda, mas no velório o cheiro do whisky o ressuscita, Sob esse tipo de pedreiro [?] irlandês, tinha um protótipo irlandês mais velho, Finn MacCumhal, o herói e sábio legendário. Joyce informou posteriormente a um amigo que concebia o livro como o sonho do velho Finn que encontra-se morto ao lado do rio Liffey e vê a história da Irlanda e a do mundo fluir -passado e futuro- por sua mente como se se tratasse de destroços [?] flutuando no rio da vida. Mas isto talvez tenha sido apenas para indicar que não era o sonho de nenhum dos personagens centrais do livro, [...]

Então: antes do livro de Joyce já havia uma canção (balada) intitulada Finnegan's Wake. O carinha que morre e ressuscita se chama Timothy (Tim) Finnegan. A certa altura do original citado por Ellman, lemos "[...] So they carried him home his corpse to wake [...]". Ou seja, se o neguinho morra de uma queda, quebrando o quengo, aquele corpse estava sendo velado e não acordado. Claro que uma das razões que minha psicanálise do velho Joyce aponta como responsável pela escolha daquele título é precisamente o fato de que "wake" é um termo equívoco, isto é, tem mais de um significado.

Dada a arbitrariedade que percola toda a obra e biografia dele, Joyce, dos comentadores e a minha própria, decidi-me por "O Despertar dos Finnegans", tendo bem claro, dado o que não li, tratar-se da família formada pelo casal Humphrey Chimpden Earwicker e Anna Livia Plurabelle e seus filhos Schem, Shaun e Isobel (Issy). De minha parte, sigo me atrevendo a ousadias novelescas. Parece-me que o nome Humphrey está tudo normal, mas aquele Chimpden cheira-me a um chimp, um chimpanzé e aquele Earwicker também me parece com um ouvido doentio, algo assim. Anna está ok, Lívia, também. E aquele Plurabelle não parece uma ode às belezas plurais da ragazza?

A tradução daquele 'wake' como velório ainda esbarra no que acabo de aprender ao dar umas olhadas no livro de 2018 de Dirce Waltrick do Amarante. O livro dela tem uma introdução assinada por Patrick O'Neill (who?) que, na página 13, diz:

[...] Se a palavra francesa fin significa 'fim', o termo latino negans, entretanto, significa 'negando', e isso sugere que o que pode parecer um fim pode também na verdade ser um novo começo. As referências cruzadas nas duas palavras do título, a findar e começar, a morte e ressurreição, a adormecer e despertar, a heróis do passado e urgências atuais são geradas por um conjunto de trocadilhos interligados - uma forma de jogo de palavras cômico considerado por críticos sérios de uma geração anterior como uma das formas mais baixas de humor. 

Pois então: mais razões para não pensarmos que Joyce estava inequivocamente rememorando o velório. E, sendo mesmo verdade, que o próprio Joyce falava no livro como expressão de sonhos, tá na cara que morto não sonha, velório não abriga sonhos do do caixão... Ao mesmo tempo, ele concebeu o título do livro tanto tempo antes da publicação que não posso descartar a hipótese de que ele se valeu precisamente do duplo sentido daquele wake para valorizar a desventura e reaventura de Tim Finnegan, parodiando-o com a família Earwicker.

Alonguei-me. Alongo-me um tanto mais a fim de concluir. Em mais de uma postagem deste blog, comparo a primeira sentença do Ulysses entre as diferentes traduções que constituem minha coleção dessa obra. Parece evidente que devo fazer o mesmo com o Finnegans Wake, o que, a rigor, pelo que agora sei, parece impossível. Então voltemos a olhar a imagem que nos ilustra hoje. Retirei-a da Wikipedia brasileira, tratando-se da primeira frase. Mas, diferentemente do Ulysses, cuja primeira sentença é meu objeto de estudos, aqui no Finnegans Wake vou ater-me apenas à primeira palavra (se é que aquilo é palavra...): riverrun. A melhor tradução pareceu-me ser a de Dirce Waltrick do Amarante. E foi a partir daí que decidi ler os dois livros dela. Com efeito, entre aqueles portentosos intelectuais tradutores, preferi a da professora da UFSC: correorrio. Em outras palavras, já li o suficiente: Joyce era mesmo louco! Com isto, declaro-me integrando o grupo de comentadores que se recusam a ler a crux of the matter. E, em breve, retornarei a ela (a matter...), sem prejuízo de novas reflexões sobre o Ulysses, outras tantas sobre notícias boas ou más do jornal Zero Hora, repercussões de publicações de amigos no Facebook e, finalmente, motto próprio.

DdAB
P.S. Página 9 do Houaiss, primeira sentença: Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha..
P.S.S. GALINDO, Caetano W. (2016) Sim, eu digo sim; uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce. São Paulo: Companhia das Letras.
P.S.S.S. E a referência do livro do Donaldo está aqui:
SCHÜLLER, Donaldo (2017) Joyce era louco? Cotia: Atelier,

segunda-feira, 13 de maio de 2019

O Ministro Moro é Mimimi


Então era mesmo golpe!

O Presidente Bolsonaro declarou, e o jornal ZH de hoje publicou, que o Ministro Sérgio Moro está cotado para receber -dele, Bolsonaro- uma indicação para a primeira vaga que surgir no supremo tribunal federal (o das lagostas e champanhas). Talvez fosse apenas mimimi, mas já sabíamos que "Juiz Moro é oximoro". Agora sabemos que foi golpe, que Moro foi aconchavado para ajudar a derrubar Dilma, para prender e arrebentar nas vésperas da eleição de 2018, o que favoreceu a eleição do velho Pocket.

Diz Zero Hora na capa da edição de hoje:

Capa:
COMPROMISSO PRESIDENCIAL - Moro irá para o STF na 'primeira vaga que tiver', diz Bolsonaro. Titular da Justiça e da Segurança deve ser indicado para o lugar do decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Celso de Mello, que, em novembro de 2020, completa 75 anos, idade de sua aposentadoria compulsória.

Página 9:
Bolsonaro afirma que irá indicar Moro ao Supremo. MINISTRO DA JUSTIÇ assumiria vaga na Corte no finaldo próximo ano, quando o decano Celso de Mello atinge idade de aposentadoria obrigatória
Em entrevista ontem à Rádio Bandeirantes, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que assumiu compromisso com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, de indicá-lo para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).
-Fiz um compromisso com ele, ele abriu mão de 22 anos de magistratura. A primeira vaga que tiver lá (no STF) [sic], estará à disposição. A primeira vaga que tiver, eu tenho esse compromisso e, se Deus quiser, cumpriremos esse compromisso. O Brasil inteiro vai aplaudir - disse Bolsonaro em entrevista ao program do jornalista Milton Neves.
[...]
Moro fui anunciado como ministro da Justiça no início de novembro do ano passado, poucos dias depois de confirmada a vitória de Bolsonaro no segundo turno das eleições.
[...]

Pois agora é que começa. No mural do Facebook de Jorge Ussan, lemos:

Até as carpas do lago do Palácio do Planalto já sabiam, mas agora é oficial: a recompensa do Moro é uma vaga no STF.
Foi Golpe sim.

Houve diversos comentários, inclusive de um finado amigo... Destaco o meu:

-Foi golpe!

Também destaco -tem tudo a ver com meu tema desta postagem- o da sempre vigilante Aniger de Oliveira:

-E crime.

E ela -Aniger- justificou seu julgamento sobre a seriedade do assunto reproduzindo o comentário de Robson Leite:

A imagem pode conter: 2 pessoas, pessoas sorrindo, texto

Que podemos dizer? Aquele senador de então, o sr. Romero Jucá, disse a frase que virou provérbio. Iniciou dizendo ser necessário "estancar a sangria" provocada no patrimônio dos políticos pela operação Lava-Jato, coordenada -você já andou adivinhando por quem, né?- pelo mesmíssimo juiz Moro! E mais ainda: vemos no site G1.Globo (aqui):

Na sequência, Machado destaca que é preciso "botar o Michel num grande acordo nacional".
"Com o Supremo, com tudo", enfatiza o ministro.
"Com tudo, aí parava tudo", concorda Machado.

Que fiz eu sobre o artigo que meteria o jovem Moro na cadeia por, em média, 4,5 anos? Procurei no prosaico Google: "código penal art. 317". E que achei? Um site de respeito: aqui. Eu disse "meteria", pois seria mais fácil eu ganhar aqueles R$ 285 milhões da mega-sena de ante-ontem do que o Moro ir para o xilindró...

Foi golpe, sim!!!

DdAB
P.S. Tal qual mala de louco, pulei entre o blog e o Facebook. Acabo de escrever isto lá:  Ao ler o jornal hoje cedinho, fiquei estupefato com a notícia. Minha previsão sempre foi que Sérgio Moro nem termina o mandato como ministro. E, no caso, não viraria ministro... ou seja, ministro do executivo e ministro do judiciário (o das lagostas e champanhotas). E o que viraria o indigitado? Acho que vai direto para uma universidade média americana contratado como professor.
Mas apenas decidi documentar minha estupefação depois de ler a postagem de Jorge Maia Ussan (Foi golpe, sim!)e o comentário (E crime.) de Aniger de Oliveira. Moral da história, Moro não é totalmente moral e "juiz Moro" sempre foi, é e será mesmo um oximoro...

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Imperialismo Reverso: memórias deletáveis

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Querido diário:

Há instantes lembrei de um episódio ocorrido nos primórdios da FEE (Fundação de Economia e Estatística, criminosamente fechada no governo de José Ivo Sartori, coadjuvado que foi pelo trio de detentores de cargos em comissão oslt: Carlos Búrigo, Cleber Benvegnú, Márcio Biolchi).

Eram bons tempos, digamos que 1974, tempos inseridos no período militar, mas ainda assim comparado com a perseguição hoje encetada pelo governo, parece que aqueles tempos eram culturalmente menos sombrios que os da negadinha bolsonarista. Se não exagero, o que é provável, pois acabo de denunciar o obscurantismo do governo Sartori (2015-2018). Em 1974 governava o estado sulino o sr. Euclides Triches e a FEE dava seus primeiros passos.

Nesta linha foi contratado um, se bem lembro, geógrafo americano, um coroa, digamos, de seus 55 anos de idade, para desenvolver algum trabalho, digamos, geográfico. Pois certo dia, o dr. Brian estava precisando fazer uns cálculos nas raras máquinas modernas do acervo da FEE. Originário do centro do imperialismo mundial, ele era menos versado nos cálculos de uma Toshiba, Sharp, sei lá. E pediu instruções: "como faço para limpar o visor?" Numa adaptação/reversão do conhecimento importado, a então srta. Ana Altmayer disse-lhe: "aperte aquela tecla CE/C". E ele disse: "ah, clear". E o fez e deu tudo certo em suas contas e no desenvolvimento do capitalismo nos trópicos.

DdAB

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Um Governo Fraturado (e um jornal também)

Resultado de imagem para A gradual deterioração [do governo Bolsonaro] se origina na percepção de que o presidente ainda não tem noção da envergadura, dimensão e responsabilidade de seu cargo.

O jornal que, por razões as mais variadas, chamo de Zerro Herra tem em seu editorial de hoje precisamente o título de minha postagem: um governo fraturado. E sua chamada para o texto é:

A gradual deterioração [do governo Bolsonaro] se origina na percepção de que o presidente ainda não tem noção da envergadura, dimensão e responsabilidade de seu cargo.

Fiquei pensando:

.a o presidente é mesmo um sem noção

.b a percepção de que ele atende ao preceito do item .a. é que não precisava ser gradual, pois eu avisei há anos. E o jornal -e boa parte de seus jornalistas- fez escandalosa campanha pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff e outra também razoavelmente desabotinada apoiando a candidatura desse rapaz que não avaliou (não dimensionaram, diria eu, dada o volume da negadinha que o apoiou na eleição e mesmo no crédito daqueles tradicionais primeiros 100 dias) a envergadura, a dimensão e a responsabilidade.

DdAB

domingo, 5 de maio de 2019

Marx e Certas Datas Comemorativas


O texto "Segue-se logicamente que hoje se completam 201 anos do nascimento de Karl Marx!" publiquei-o hoje no Facebook. Karl Heinrich Marx, que faleceu em 18 de março de 1883.

Então temos:

1818 - nascimento de Karl Marx, criando precedentes numerológicos para o número 18 e seu final 8

1838 - Auguste Cournot publicou seu paper sobre a formação do preço (e da quantidade) num duopólio de custo marginal nulo. Como bem lembramos, a turma costuma chamar o equilíbrio de Nash de Cournot-Nash, pois dizem que tá tudo explicadinho no artigo de 1838. A este arrazoado, prometi no bar levar uma obra (inédita?) de Aristóteles em que mostra exatamente o que é o equilíbrio de Nash num dilema de prisioneiro. O ajuste se dá por meio das reações com as quantidades vendidas.

1883 - falecimento de Marx, como acabei de referir. E também o ano em que Joseph Bertrand publicou seu artigo de resenha bibliográfica em que mostra a solução de equilíbrio (de Nash) em outro duopólio em que o ajuste se dá por meio da reação nos preços.

Em resumo, eu conhecia de cor essas datas de 1838 e 1883 por causa dos teoremas de Cournot e Bertrand. Ao associar aquele 1883 com o passamento de Marx e o nascimento naquele 05.05, então pulei direto ao 18 18 e vi que tudo fazia o maior sentido. Segue-se logicamente...

DdAB

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Ovo e Galinha: treinamento ou legislação

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A economia brasileira é um desastre. E isto não é de hoje, não é do governo Bolsonaro, que os diabos o traguem, é governo plural, todos os governos, todos os cargos em comissão dos governos recentes. É desde sempre, um país de analfabetos. Vivemos num país de iletrados, num país em que as inovações produtivas e organizacionais voltadas a elevar a produtividade do trabalho, a renda per capita e todo o resto rastejam. Destaco especialmente a sideral escassez na provisão de bens públicos (esgotos [sempre eles, hehehe] e segurança) e bens meritórios (educação, saúde).

E o entendimento de um número expressivo de economistas, turma dividida, é -por pirraça vou citar- a ilusão de que a indústria 4.0 pode anteceder os serviços industriais de utilidade pública (destacando os esgotos)- que a legislação trabalhista é entrave aos ganhos de produtividade. Há anos venho dizendo que, num país de analfabetos, os verdadeiros vilões de um crescimento da renda não mais que rastejante é mesmo a incapacidade de implantação de inovações produtivas, organizacionais e financeiras.

Pois, contrariamente ao que penso, li hoje na Zero Hora a manchete desdobrando o título do editorial:

UM NOVO DIA DO TRABALHO
O grande desafio para as instituições brasileiras é entender e se adaptar a esta nova realidade, em flagrante contraste com um modelo trabalhista erguido no século passado

Claro que parei de ler, ao pensar: que poderia eu aprender com essa macacada? A rigor o que aprendo é mesmo pensar criticamente em tudo o que eles falam, naquele mundo em que dar provas de estar à direita é a ambição fundamental dos jornalistas contratados. E imagino que o editorialista não chegou nem mesmo perto do livro de Acemoglu e Robinson, que citei e comentei no outro dia:

ACEMOGLU, Daron e ROBINSON, James (2012) Por que as nações fracassam; as origens do poder, da prosperidade e da riqueza. Rio de Janeiro: Elsevier Campus.

Como sabemos, esses dois professores falam das instituições inclusivas e das extrativistas e da presença de inovação na economia nacional. Claro que o Brasil é lotado por instituições extrativistas, que comportam um ideário anti-igualitarista e de baixa adesão aos padrões de honestidade e alta impunidade. País que não tem educação (e, antes dela, precisaria ter esgotos...) jamais poderá criticar as instituições existentes e, menos ainda, criar novas, mais afeitas ao progresso e à democracia. Sem estudo não há inovação. E sem inovação não existe progresso perene. O Brasil é uma prova de até onde a sociedade desigual pode levar: 30 ou 40 anos de crescimento rastejante.

DdAB
A imagem lá de cima é minha homenagem neste dia do trabalho aos injustiçados migrantes italianos para os Estados Unidos Ferdinando Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti .
P.S. quando os rapazes do jornal querem mudanças nas leis, eu sigo propugnando pelo treinamento, não é isto?

terça-feira, 30 de abril de 2019

Ulysses: fotografando um bem de Giffen

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Tenho uma coleção de traduções do livro "Ulysses", que leva a assinatura de James Joyce e publicado no dia do aniversário do autor, ou seja, 2.2.22, ou melhor, dois de fevereiro de 1922. Leio-o por pirraça, pois leio e mais leio e mais leio e nada entendo. Lembra-me aquela piada de, parece, de Woody Allen, ao dar o relato do resultado de um curso de leitura dinâmica em que o objeto do estudo era "Guerra e Paz": no caso, tinha a ver com dezenas de irlandeses.

Quando leio os comentadores, cada vez menos entendo, cada vez menos me entendo e cada vez mais me acho estranho por prolongar essa aventura que está muito, muito longe de terminar. É que cada vez aparecem mais comentadores e minha desiderata já tem uma centena de livros e artigos sobre o tema.

Por uma questão de razões estranhas, decidi ler a tradução da editora Relógio D'Água, de Portugal, isto que a primeira que li foi a de Bernardina da Silveira Pinheiro, brasileira. Por quê estranha? Simplesmente é que a leio apenas nas salas de espera daqueles locais em que ainda dão boa acolhida a seres humanos, como consultórios médicos, filas de acesso às repartições públicas e, em breve, na espera de comida nos restaurantes mais procuradinhos.

Então: na página 159 da versão de:

JOYCE, James (2014) Ulisses. Lisboa: Relógio D'Água. Tradução de Jorge Vaz de Carvalho.

podemos ler, sem disfarces:

   Bom Deus, o vestido dessa pobre criança está em farrapos. Parece subnutrida também. Batatas com margarina, margarina com batatas. É depois que se ressentem. Prova dos nove. Mina-lhes a constituição.

O romance foi publicado em 1922, retratando o dia 16 de junho de 1904, uma quinta-feira. 1904 ou 1922, vemos o bem de Giffen ali retratado precisamente com a dupla batata-manteira. Sabemos que aquela turma da pobreza irlandesa era tão pobre que precisava basear sua alimentação na batata. Quando tinha alguma melhoria na renda, abandonava a batata e passava a comer pão. Mas quando o preço da batata subia, a negadinha que já era pobre torna-se paupérrima e aquele pãozinho do dia do aniversário de algum membro da família, ao invés do pão, vinham mais batatas.

O único elemento consolador dessa tragédia lá daqueles tempos é que, hoje, a renda per capita da Irlanda é de US$ 53,570, ao passo que a do Reino Unido é de US$ 40,600, tudo corrigidinho pela paridade do poder de compra. Ao mesmo tempo, o que vemos é Joyce fazendo uma apologia da sociedade igualitária: desigualdade gera pouca renda para os pobres, pouca disponibilidade de ingerir uma dieta saudável e, assim, trabalhadores fracotes, como é o caso dos brasileiros contemporâneos. Tudo cheio de batata frita e pouco hamburguer.

DdAB
P.S. Decidi copiar aqui o verbete da Wikipedia. No tradicional plano (q, p), isto é, a quantidade desejada no eixo horizontal e o preço correspondente no eixo vertical, vemos uma curva de demanda (procura) positivamente inclinada, ou seja, quanto maior o preço, maior será a quantidade consumida de... batatas. O interessante do verbete da Wikipedia é que ele fala exatamente o que Alfred Marshall pensava do caso: quanto maior a renda, menor seu consumo. A outra peculiaridade é que não é nada peculiar ao bem de Giffen, pois todos os bens e serviços, quando o preço sobe, mostram uma queda na quantidade de consumo planejada. É, parece, da natureza humana. É, parece, pelo menos, das economias monetárias.

Bem de Giffen

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
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Em economia, um bem de Giffen é um bem inferior, ao qual grande parte da renda é destinada, e para o qual uma redução do preço faz diminuir a sua quantidade demandada. Este comportamento é diferente dos da maioria dos produtos, que são mais consumidos (ou comprados) à medida que seu preço cai. Em termos microeconômicos, sua curva de demanda é crescente e, por isso, sua elasticidade-preço da demanda é positiva. Outra repercussão microeconômica é que seu efeito rendaé maior que o efeito substituição.
As provas da existência de Bens de Giffen são debatidas. Um exemplo de uma situação em que pode ter existido um Bem de Giffen foi o pão na Irlanda do século XIX.[carece de fontes] Uma elevação moderada dos preços de pão levou a um maior consumo de pão, principalmente em famílias pobres, pois não havia outro bem barato e acessível capaz de substituir o pão na dieta das pessoas. Desta forma, maiores gastos no consumo de pão levaram a uma redução do consumo de outros produtos alimentícios, o que obrigou os mais pobres a consumir mais pão para sobreviver.

Descoberta[editar | editar código-fonte]

Essa classe de bens recebe esse nome em homenagem a Sir Robert Giffen, que foi citado no século XIX por Alfred Marshall como o criador da ideia.
Giffen imaginou uma família muito pobre, em que a sua renda seria de 100 unidades monetárias, sendo suficiente apenas para consumir arroz durante o mês. Havendo uma queda no preço da polenta, por exemplo, faria com que esta família não consumisse mais arroz, pois eles já estavam saturados deste produto e dariam preferência ao outro produto. Sendo assim, a variação da demanda é diretamente proporcional à variação do preço, e não inversamente, como no caso dos bens comuns.
abcz

domingo, 28 de abril de 2019

Nem Tudo que Herra é Zerro

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Um momento marcante do cenário político brasileiro foi a vitória do senso comum com a decisão do supremo tribunal federal (precisava subir tanto para conceder (conceder?) uma obviedade, que foi a entrevista trancada há sete meses que Lula deu e deveria ter dado aos jornais Folha de São Paulo e El País. Se bem entendi, a melhor maneira de lê-la é clicar aqui.

Mas clicando lá, lemos uma esfaimada, escabelada tolice:

Se le ve fuerte. Decidido a cambiar su destino. La idea de que la cárcel, con el tiempo, iba a debilitar a Luiz Inácio Lula de Silva no se corresponde con la realidad. El expresidente de Brasil (Caetés, 1945), preso desde abril de 2018 en dependencias de la Policía Federal de la ciudad de Curitiba, ha decidido romper su silencio en una entrevista con EL PAÍS y el diario Folha de São Paulo desde la cárcel. Durante la conversación, que se prolonga durante dos horas, el líder del Partido de los Trabajadores (PT) confiesa que está obsesionado con probar que es víctima de una farsa y no descarta volver a la política si logra salir en libertad.

Lá mais adiante, o próprio site dá a real:

FIN DE LA CENSURA

La entrevista de EL PAÍS y Folha de São Paulo con el ex-presidente Lula pone fin a un intento de censura que duraba ya siete meses, y que dejó en suspenso si este diario lograría conversar con él hasta el último momento. En Brasil, la Constitución permite a los presos conceder entrevistas. El jueves, 25, un día antes de la fecha marcada para el encuentro de Lula con los periodistas de los dos medios, delegados de la Policía Federal de Curitiba, donde el expresidente está preso, nos avisaron de que la entrevista solo sería realizada en la presencia de otros periodistas que querían participar en la charla de dos horas con Lula. Transformarían la exclusiva en una rueda de prensa, sin consultar al entrevistado, aunque dejaran que el expresidente respondiera a las preguntas que él quisiera, según nos explicaron. Llamaba la atención que la presión por abrir la entrevista de Lula a otros periódicos fuera hecha por medios que tienen una postura editorial radical contra el expresidente; algunos de ellos se refieren a Lula en sus noticias como “presidiario”. El abogado de EL PAÍS presentó un recurso al Supremo el mismo jueves para que se respetara la exclusividad – y la voluntad de Lula que aceptó la entrevista para hablar por primera vez desde que fue preso con estos dos periódicos— y la Corte lo aceptó. Si el Supremo no se hubiera manifestado, la entrevista no se habría realizado porque Lula se negaría a hablar en una rueda de prensa en este momento.

Pois que dizer? Acho que a primeira coisa é que a entrevista é emocionante. A segunda é que a prisão de Lula foi de um oportunismo vulgar, preparada desde um ou dois anos antes com aquela farsa da prisão em segunda instância. Ele não foi o primeiro, mas a decisão era direcionada para ele. E, cá entre nós, essas acusações da posse do apartamento e do sítio são verdadeiramente infantis. Ainda assim, não posso deixar de dizer que Lula pisou na bola, naqueles tempos, ao omitir-se de indicar o candidato a vice-presidente em sua chapa. Quando isto foi feito, já não havia tempo para saber-se de uma frente liderada por Fernando Haddad e para desfazer a campanha de robôs com as fake news. Nossa esquerda precisa de uma injeção de coramina, se não sou antigo...

DdAB

quinta-feira, 25 de abril de 2019

"Amanhã Começo a Fumar"

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No outro dia, falei de umas leituras recentes, o livro de obras em co-autoria de Jorge Luis Borges. E citei uma passagem exaltando o princípio máximo da divisão e especialização do trabalho. No caso, achei exagerado ver o juiz, digo, ministro, Moro fazendo inquérito policial, fazendo inquérito judiciário, fazendo julgamentos, encaminhando negociações junto a instâncias superiores à sua, e tudo o mais. Ao passar pelo texto que citei, não me contive e associei aquelas chuveiradas que os bombeiros podem dar em quem se arvora à posição de combater o fogo.

Em compensação, não foi leitura de páscoa, mas uma leitura que fiz há uns bons 35 anos. Li o livro "Morangos Mofados", de autoria de Caio Fernando Abreu. Pouco lembro, mas não me foge da memória um dos contos em que -eita memória...- parece que um soldadinho, depois de algumas refregas com o mundo civil, aquele em que vivemos, termina sua última reflexão, que também é o fim do conto: "Amanhã começo a fumar".

À época não havia nada que me exigisse maiores esforços do que tentar deixar de fumar. Tentei diversas vezes, sempre rindo da tirada de Mark Twain ("parar de fumar é fácil, eu mesmo já o fiz dezenas de vezes"), pois era-me efetivamente fácil. E voltar também era fácil, até, penso hoje, mais fácil. Então achei interessantíssimo o -digamos- soldadinho estar planejando ingressar naquele mundo de praticantes daquilo que meu ex-chefe sr. Dorvalino Panassolo considerara "um vício maldito", ele que -se bem entendo- também afanosamente tentava deixar o cigarro.

Pois um número expressivo de pessoas já marcou data para deixar de fumar e eu nunca ouvira nem lera alguém planejando começar a fumar. Mas, pensando melhor, parece que, digamos, um rapaz brasileiro contemporâneo que levou um balaço no pulmão e que fez tratamento hospitalar, ao ter alta, na véspera da alta hospitalar, começa a dizer "amanhã começo a fumar".

DdAB

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Moro Carece de Chuveirada: usurpando funções


Título um tanto enigmático, admito. É que andei lendo (e já não mais aguentei, relegando/delegando para um certo futuro) dois contos do livro "Duas Fantasias Memoráveis", de autoria de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, enfeixados no primeiro volume das "Obras em Colaboração" de Jorge Luis Borges, Rio de Mouro: Teorema, 2002. Tradução de Serafim Ferreira. Aí achei um trechinho que rima esplendorosamente com as manias do ministro Sérgio Moro, cujo cachorro, bem sabemos, tem uma carteirinha do PSDB com sua foto, do bicho e não do apoliticado ex-juiz

Então na página 103, li:

[...] finalmente, vi o mago, que depois de ajudar Nemirovsky, correu até à casinha do fundo e salvou Fang She, cuja felicidade nessa noite não era total por obra e graça da febre dos fenos. Esse salvamento revela-se mais admirável se minuciosamente indicarmos as vinte e oito circunstâncias que o distinguem, e delas só exporei quatro, em virtude da mesquinha brevidade [e eu apenas referirei a quarta delas]:

"d) Assim como no corpo do homem o dente não vê, o olho não arranha e a pata não mastiga, no corpo que por convenção chamamos de 'país' não é decente que um indivíduo usurpe a função dos outros. O imperador não abusa nunca do seu poder e fecha as ruas; o presidiário não compete com o andarilho e desloca-se em todas as direções. Tai An, ao resgatar Fang She, usurpou as funções dos bombeiros, com grave risco de os ofender e de eles o encharcarem com suas caudalosas mangueiras.

Parece óbvio que as analogias são gritantes. A primeira é que havia mais de 28 circunstâncias atenuantes para os conspiradores não trancafiarem Lula. Mas eles, com aquela balela que alguns consideram saber jurídico, negaram-se a considerar o princípio da gradação das penas. Tá na cara que Lula "não é qualquer um", ele é um ex-presidente da república e bem que -mantendo a farsa- poderia ser condenado a cumprir a pena a que -injustamente- o condenaram em velocidade sideral em casa, uma prisão domiciliar. Mas, não. Não poderiam deixá-lo na prisão domiciliar, sob pena de serem declarados isentos. E eles não queriam isto. Queriam mostrar-se subservientes às ordens do imperador, seja ele quem quer que seja. Em resumo, eu diria haver pelo menos 56 circunstâncias e não apenas 28. Ou 580. Uns doidos.

Depois, Moro, ao exercer o papel desde o chefe de polícia ao juiz compenetrado (?), julgando, acusando, defendendo, condenando, vendo agravantes, agravando visões, estava usurpando funções até dos bombeiros, merecendo uma chuveirada. Esta inegavelmente iria fazer-lhe bem, pois aura cheia de nódoas como ele só mesmo o cachorro peessedebista.

DdAB
P.S. Na imagem que recolhi de um filminho do YouTube, temos um bilhetinho para o juiz ou seu cachorro, que se encontra escondidinho, de sorte que não podemos ver seu crachá do PSDB.

domingo, 14 de abril de 2019

Charade (em itálico) e o Mercado de Trabalbo

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Acabo de rever o filme "Charade", em itálico. Charada, em português. E acabo de ouvir falar em sugestões sobre a reforma da previdência para evitar a substituição do trabalho humano pelo de robôs na economia monetária em que vivemos. Decidi ligar pontos desses dois bordados (hehehe) e colocar aqui o resultado de algumas reflexões. Dou por pacífico que todos sabemos o que é um robô, que obedece integralmente aquela definição que Umberto Eco (Somewhere) deu para máquina: um macaco da natureza, que lhe imita a função, mas não retém a forma.

E que é uma charada? Tem várias interpretações, inclusive o problema da tradução. Vejamos:

dicio.com.br:
Substantivo feminino: enigma que consiste em compor uma palavra em tantas sílabas ou partes quantas possam ter uma significação determinada, dando-se a cada uma dessas partes a definição em termos mais ou menos vagos, e acrescentando uma alusão à significação da palavra inteira.[Figurado] Conversa ou discurso ininteligível.Matar uma charada, adivinhar a palavra sobre a qual ela é feita.

Wikipedia:
A charade is an informal composition wherein a word is broken into its component syllables and presented as a series of punning clues to the identity of each part and the whole. From the poor acting usually involved in its dramatic form charades, it has also come to mean any farce or poorly-executed deception.

Wikidictionary:
From French charade, charrade (“prattle, idle conversation; a kind of riddle”), probably from Occitan charrada (“conversation; chatter”), from charrar (“to chat; to chatter”) + -ada. As a round of the game, originally a clipping of acting charade but now usually understood and formed as a back-formation from charades.

Voltando a falar em macacos da natureza, naquela imagem lá de cima, vemos (e podemos ampliar clicando sobre a imagem) um moinho d'água, como seu operador, possivelmente, enviando mensagem de amor em seu celular. Mas também podemos ver um "ladrão", ou seja, a roda dentada parece não estar recebendo a água corrente, levando a crer que o operador do moinho desviou seu curso, a fim de completar sua mensagem... Olhando para a direita da roda vertical, observamos uma ponta de eixo. Presumo que, do outro lado desse eixo, aquela energia cinética que veio da água que move a roda é transformada em energia mecânica, fazendo algum movimento que culmina por moer o cereal, ou o que seja.

E aquele filetezinho d'água que já referimos ao vê-lo desviado, ele é eterno? Eterno, eterno mesmo, nem os prótons... Mas fico mais preocupado com o perigo de seca e ociosidade do moinho do que a decadência do universo. Só que a turma bolou a solução: transformar aquela fonte de energia dependente daquele curso d'água em uma fonte mais confiável. Digamos que inventaram a máquina a vapor, que recebe a energia da queima de um pedaço de madeira (ou hulha), ou o que seja, e o transforma na mesmíssima energia mecânica.

E será que houve "queima" de milhares de empregos, quando a máquina mais moderna substitui a mais antiga? Parece óbvio que houve. E isto foi bom? E, em tendo sido bom, cui bono? (quem se beneficiou?). E aí as opiniões se dividem. Tem gente até que considera ser melhor que a tecnologia do moinho d'água devia ter sido mantida, proibidas as máquinas a vapor e aquelas a explosão e as elétricas, para preservar os empregos. Eu, olimpicamente, acho que quanto mais trabalho vivo der lugar para o trabalho morto, melhor para a humanidade. Sideralmente, considero que o problema, o verdadeiro problema, do capitalismo é a eficiência distributiva, ou seja, a definição contemporânea daqueles que se beneficiam.

A social-democracia tem dado respostas interessantes ao problema distributivo, desde a cobrança de impostos maiores sobre bens de demérito, à criação do seguro desemprego e, mais recentemente, o pagamento da renda básica (incondicional) universal. Mas seria adequado que se cobrasse um imposto sobre cada robô incorporado à fábrica e que substitui um trabalhador? Se a encrenca apenas imita a função e não a forma da natureza, é difícil sabermos o que é um robô. Em minha definição, o primeiro deles foi um simples e genial termostato. E o programa que faz análise de crédito? E aquele outro que faz cirurgias, com cada vez menor controle do cirurgião formado pela faculdade de medicina?

E a dupla Acemoglu e Robinson e seu livro sobre as comunalidades entre as nações incapazes de acompanhar o progresso técnico das demais?

ACEMOGLU, Daron e ROBINSON, James (2012) Por que as nações fracassam; as origens do poder, da prosperidade e da riqueza. Rio de Janeiro: Elsevier Campus.

Como sabemos, esses dois professores falam das instituições inclusivas e das extrativistas e da presença de inovação na economia nacional. Claro que o Brasil é lotado por instituições extrativistas, que comportam um ideário anti-igualitarista e de baixa adesão aos padrões de honestidade e alta impunidade. País que não tem educação (e, antes dela, precisaria ter esgotos...) jamais poderá criticar as instituições existentes e, menos ainda, criar novas, mais afeitas ao progresso e à democracia. Sem estudo não há inovação. E sem inovação não existe progresso perene. O Brasil é uma prova de até onde a sociedade desigual pode levar: 30 ou 40 anos de crescimento rastejante.

Em muito enorme boa parte, eles têm razão. Uma das virtudes do capitalismo é mesmo a destruição criadora de que nos falou Joseph Alois Schumpeter, a criação e incorporação de progresso técnico voltado a criar novos produtos e novos processos. Os processos, inclusive organizacionais, são poupadores, via de regra, de mão-de-obra, ou seja, de trabalho vivo. Um programa que faz a contabilidade de uma sorveteria pode não estar tirando o emprego de um contador, mas certamente este poderá fazer, digamos, mais 10 empresas. E aí, sim, estaremos vendo um trabalhador destruir o emprego de outros nove. Sabe-se lá.

E Charade? Tem uma cena num metrô parisiense, parece-me que numa estação da linha Porte de Clignancourt. O que me chamou a atenção é que, naquele filme rodado, talvez, em 1962, havia uma boa meia-dúzia de funcionários na estação subterrânea, entre vendedores dos bilhetes, um ou outro guarda de plataforma, e por aí vai. E que, na última vez que vi Paris (isto também é título de filme velho), havia apenas máquinas, gente que era bom, apenas os pagantes/passageiros. Pensei: assim não vai dar. Não haverá demanda efetiva: para quem vender os bens produzidos? Parece que eles seguem inventando compradores. Mas, sabedores que o emprego é a expressão máxima da sociedade igualitária, que podemos esperar?

DdAB
P.S. A propósito, Acemoglu e Robinson sugerem que o crescimento da China é limitado, por se tratar de uma sociedade constituída por um expressivo número de instituições extrativistas, como -digo lá eu agora- é o caso do Partido Comunista itself e das guanxi (aqui).

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Mundo 0 x -3 Zerro Herra




A encrenca é tão canina que, tendo o dia 5 de abril (sexta-feira) como o mais agitado de minha vida, não consegui postar o que quero, esses menos três gols na isenção jornalística, mas vou fazê-lo agora: antes tarde do que nunca. É o jornal Zero Hora, é minha tradicional Zerro Herra. É evidente que não dou pouca importância a Zerro Herra, pois a escolhi para ser minha pauta daquilo que a Art Filmes daqueles tempos chamava de "O Que Vai pelo Mundo". E já vi cada uma, até aquela do morto em Soledade, com três tiros, ou seja, duas facadas na barriga... E dessa Art Filmes nada vi no Youtube.

Em compensação, a página 2 tem aquele "Informe Especial" de autoria do jornalista Tulio Milman. Pois pior em compensação, ele tem a reflexão do dia -se assim posso chamar- intitulada "O que a palavra Tchucuca diz":

Muito se fala sobre a explosão do ministro da Economia, Paulo Guedes, que saiu dos trilhos na quarta-feira, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, ao ser chamado de "tchutchuca" pelo deputado Zeca Dirceu (PT-RJ), filho do ex-presidiário José Dirceu. [...]

Pirei, despirei, tornei a pirar: fiquei pensando que, neste caso, também deveríamos dizer o nome da mãe do indigitado deputado... Vim a ler na Wikipedia tratar-se de Clara Becker. Mas e daí? E daí, e daí, e daí? Que teria a ascendência do deputado a ver com a insatisfação do estridente jornalista com os rumos que o humor do ministro da economia escalou naquela tarde/noite memorável? O cara é mau ministro, o cara é mau jornalista. No mesmo parágrafo que trunquei com [...], Túlio prometeu: "Pode-se analisar o episódio, no mínimo, sob duas óticas." Pois, aprendiz de epistemologia que me declaro, agucei o espírito para ver quais seriam essas duas óticas analíticas do jornalista.

Primeira decepção: não há aquelas afamadas entradas paralelas que tanto me ajudaram a galgar alguns degraus nas escadarias os porões do conhecimento, se me faço vulgar... Demonstração: ele começa falando na primeira dessas duas óticas. E, no parágrafo seguinte, terminada a -assim dizendo- análise da primeira, segue dizendo "Feita a ressalva, [...]", cabendo a seu sofrido leitor dar-se conta de que aquela ressalva era da primeira ótica, que tratou do "descontrole do ministro".

A segunda ótica teria, claro, que compensar aquele "descontrole do ministro", pois -em caso diverso- poderiam classificar Túlio no armário dos comunistas. E, para deixar mesmo no opróbio essa sua -digamos- análise, parece óbvio que, ou muito me engano, ou ressalvas não fazem parte a parte central da análise. Vou dar um exemplo. Quando dizemos: "vou analisar o efeito preço", estamos rumando para decompô-lo, analisá-lo. Aí defino o efeito preço: variação na quantidade demandada de uma mercadoria em resposta à variação de seu preço". A análise seguiria com a divisão desse efeito preço em efeito renda e efeito substituição. Neste caso, deveria ser proibido que eu, fazendo uma ressalva, chegasse aos efeitos renda e substituição. Na verdade, isto não é ressalva nenhuma, mas a própria análise. Além do mais, feita a ressalva analítica, mais da metade restante da reflexão sobre o substantivo feminino tchutchuca, transformando-a (à resssalva) em cavalo de batalha para lancetar a esquerda. Chega!

Em compensação, o quarto superior da página 8 diz: "Histeria da oposição ajuda o governo Bolsonaro". Fiquei encafifado. É? Era Rosane de Oliveira, a tradicional porta-voz do reacionarismo sul-riograndense, naquele carimbadíssimo jornal. Farei apenas uma ligeira "análise" (hahaha), citando o primeiro parágrafo da jaculatória da profissional:

Um dia depois do longo depoimento do ministro Paulo Guedes à Comissão de Constituição e Justiça, o que ficou daquela sessão de mais de seis horas? O assunto mais comentado é a falta de educação do deputado Zeca Dirceu (PT-PR), dizendo que o ministro é 'tigrão' com os pobres e 'tchutchuca' com os privilegiados. Um citação totalmente inadequada, que irritou Guedes mais do que todas as provações anteriores e levou ao encerramento da sessão. O ministro, que já estava pelas tabelas, desceu ao nível do Zeca Dirceu e disse que 'tchutchuca' eram a mãe e a avó dele.

Segue a lista de críticas à esquerda que já nos é familiar, e até mais violenta: histeria e catarse. E a defesa do status quo: "O ministro mostrou que tinha estudado os argumentos de quem acha que a reforma da Previdência é desnecessária e tentou desmontá-los, mas a gritaria impediu que as respostas fossem ouvidas e que mitos raciocínios fossem concluídos. [...]"

Em compensação, sempre tem o contraponto com episódicas concessões ao que pensam ser a opinião central da esquerda. Agora pulamos para a página 25. Carolina Bahia tem um quarto de página e começa com uma nota longa intitulada "Caiu a ficha de Bolsonaro", no caso, o presidente teria entendido que "precisa mergulhar em negociações", dizendo como prólogo:

[...] Zeca Dirceu (PT-PR) faltou com o respeito ao chamar o ministro [Paulo Guedes] de tigrão e tchuchuca. Foi baixo. Os governistas também erraram. [...]

E por que considero que minha... análise faz parte de minha inserção naquele mundo da economia política moderna? Um jornalismo isento (que não se resume a, digamos, criticar uma posição errada da esquerda e imediatamente fazer uma concessão com crítica para a direita) jamais faria este tipo de abordagem, abordagem, abordagem, isto é, três jornalistas enviesados com uma notícia banal. Essa de falar apenas no pai do deputado e não referir a sra. Clara Becker é, digamos, machista...

DdAB
Editei uma foto cujo resumo coloquei lá em cima. É para deixar claro que houve sapatadas pra tudo que é lado, cabendo-nos inocentar o que parece um parzinho de sapatos for ladies.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Esquemas e Modelos na Economia Marxista

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Esquema para criação de modelos de vista no Revit. 


Duas frases que me fizeram sentir no topo do mundo. Ambas foram retiradas do artigo:

REUTEN, Geert (2002) Marxian Macroeconomics: an overview.
Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/242481432_Marxian_Macroeconomics_an_overview. Acesso em 29 de junho de 2018.

Primeira frase:
Central to the [Marxian] paradigm is that the capitalist system is a historically specific mode of production, allocation and distribution. Capitalism is not merely an allocating and distributing market economy; more than that, each historically specific economic system necessarily operates through a specific ‘social form’ as the dominant criterion and measure of production. For capitalism this is the monetary value-form; it not merely dominates market exchange but also the process of production. Hence techniques of production and technological trajectories are not ‘naturalistic’ phenomena; for capitalism, they are determined by the value-form (see Murray 2002 [referência no original]). [negrito e itálico são meus]

Topo do mundo por causa da primeira frase:
 Tem, claro, muita coisa, mas o que italicizei e negritei é que me interessa comentar. Volta e meia, em vários contextos, especialmente aquele tentando ajudar críticos severos do capitalismo a moderar suas posições, refiro precisamente essas -agora falo eu e não o Reuten- três principais dimensões da eficiência econômica: produtiva, alocativa e distributiva. Teremos eficiência produtiva quando a produção estiver no nível em que o custo médio é mínimo. Vim a entender que eficiência alocativa é inalcançável, exceto no esquema, epa, modelo..., de concorrência pura. E que é eficiência alocativa? é quando o preço é igual ao custo marginal: a sociedade paga pela unidade adicional de um bem ou serviço (preço) precisamente aqueles recursos indispensáveis para produzi-lo (custo marginal). Quanto à eficiência distributiva, que ocorre quando o preço é igual à custo médio, esta, então, tá na cara que jamais vai ocorrer, pois este não é um requisito fundamental para a sobrevivência do sistema capitalista.

Segunda frase:
The second main building block [of the Marxian paradigm] is a Reproduction Schema of the capitalist economy (Marx 1885, Part Three). In modern terms it would be called a dynamic two-sector macroeconomic model of production and realisation (Marx was the first economist to develop such a model; up to about 1950 the term ‘model’ was not used in economics; ‘schema’ was a name adopted from Marx, e.g. Tinbergen). [SIC]

Topo do mundo da segunda frase:
O comentário aqui é mais curto. Eu nunca lera que foi a partir dos anos 1950 que aquilo que, na economia marxista, se designava como "esquemas de reprodução" passou, talvez por não-marxistas, a ser chamado de modelo. Quer dizer, parece que eu já nasci sabendo o que é um modelo, mas foi depois de meu nascimento que se começou a usar o termo em sua aplicação econômica.

Ok, ok. Fiquemos com esta informação, aceitando-a provisoriamente, até obter mais evidência a favor ou contra o que diz nosso amigo Reuten.

DdAB
A imagem que selecionei veio do Google Images, quando pedi, por engano, "esqyiena e modelo".

domingo, 7 de abril de 2019

Altruísmo na Política da Venezuela


Estou longe de poder generalizar o que falarei em seguida, pois não sou familiarizado no assunto. E estou trabalhando com uma amostra de tamanho 3 e sei que a primeira observação seria: aumentar o tamanho da amostra. Tudo começou quando comprei um livro de filosofia que já mencionei e cujo nome agora me foge. Pois, ao olhar mais vagarosamente tal livro, dei-me conta de que ele é uma droga, ou talvez apenas droguinha. Ao mesmo tempo, fiquei tão furioso comigo por cometer o que a turma da economia industrial chamava de "erro de compra" que decidi lê-lo de cabo-a-rabo (ou, como sinônimo, de fio a pavio). E o fiz há tão bons tempos que apenas se voltar a cheirá-lo é que lembrarei a autoria, por enquanto só posso falar numa capa com um desenho esverdeado...

Pois repeti o dito erro ao comprar o livro

HART, Michael H. (2002) As 100 maiores personalidades da história. Rio de Janeiro: DIFEL. Tradução de Antonio Canavarro Pereira, com original possivelmente de 1982.

Parênteses: ao escrever aquele "as 100 maiores", lembrei, evoquei, que possivelmente aquele livro que li por retaliação poderia chamar-se "Os 100 maiores filósofos..." Tal é minha estupefação por ter praticado o mesmo erro duas vezes que evoquei ninguém mais ninguém menos que Julio Iglesias, com a canção "Con la misma piedra":

Tropecé de nuevo y con la misma piedra
en cuestión de amores nunca aprenderé
yo que había jurado no jugar con ella
tropecé de nuevo y con el mismo pie.

Resumo, dei dois tropicões (talvez mais...), talvez havendo segredos em minhas anotações no primeiro. Há várias no livro de Hart, mas desejo destacar uma que diz respeito ao mais elevado altruísmo sentido/praticado por políticos. Vou citar dois nomes antes de chegar à Venezuela. O primeiro é Amador Bueno, um paulista que não quis ser rei do Brasil. Quis seguir com sua vidinha talvez intuindo que o egoísmo predador, a ladroagem seriam um saco sem fundo na sociedade brasileira. Segundo nome: João Goulart que, tenho razões para crer, por ler, que decidiu entregar o poder aos militares em 1964 a correr o risco de ver deflagrada uma guerra civil nestas plagas. Admiro os dois.

E desprezo mais dois: Hugo Chavez e Nicolás Maduro. Esses dois senhores não se deram conta de que aquela cantilena sobre a influência contra-revolucionária dos Estados Unidos, da Colômbia, sei lá mais de quem, é que foi a responsável por tanta gente ser "contra", do contra. Eles não estudaram introdução à filosofia, quando aprenderiam o princípio da navalha de Occam: as explicações mais simples devem substituir as mais sofisticadas, quando os modelos têm o mesmo poder preditivo. Previsão possível: enormes dificuldades de fazer um governo de esquerda, honesto sem muita cautela para não fazer com que os comandos de defesa da revolução começassem a ditar até qual a marca do cachorro que deveria tomar conta da casa. Pode ser mentira, mas ouvi dizer que um cidadão que morara na capital dos Estados Unidos batizou seu cão como Washington D. C. E a tal brigada do bairro achou que aquilo era apologia a George Washington acrescida de um "Derrubemos Chavez".

Para concluir e mostrar que meu desprezo relativamente aos dois chefes venezuelanos, cito mais um compatriota: Simón Bolívar. Então: o Hart inseriu Bolívar entre os 100 maiores personagens da história. E, lá pelas tantas, lá na página 295 (por pirraça ainda vou ler até a página 610), diz-nos:

[...] em lugar de outras nações se juntarem à Grande Colômbia (criada e presidida por Simón Bolívar), a própria república começou a se desintegrar. Estourou a guerra civil, e, em 1828, houve uma tentativa de assassinar Bolívar. Em 1830, a Venezuela e o Equador já se haviam separado, e Bolívar, percebendo que ele próprio era um obstáculo para a paz, renunciou em abril desse ano. [...]

Pois não é que, ao ler este trecho, garrei de pensar: se um gigante do porte de Simón Bolívar entendeu ter-se convertido em um empecilho para a paz, que poderíamos esperar de pigmeus políticos da contemporaneidade e do porte de Hugo Chávez e Nicolás Maduro? Obviamente que se agarrassem ao poder, jogando seu país num longo prazo de maus bofes.

DdAB
Imagem da Wikipedia. E que acharam daquela tirada tirada do "gigante Bolívar e dos pigmeus Chávez e Maduro"? O original é "gigante como Aristóteles e pigmeu como -não lembro bem- digamos Jeremy Benthan", de autoria de Karl Henrich Marx...

terça-feira, 2 de abril de 2019

Diálogo não divulgado


O da camisa verde escura prestando continência: cumé que é, achas que eu devo retornar ao Brasil?

O da camisa verde clarinha coçando a mufa em gesto desesperado: cumé que a pessoa ainda não pediu asilo para Israel?

DdAB
P.S. É a Crefisa, minha gente. É um jogador. É o Capitão e Político Jair Bolsonaro, presidente do Brasil.

sábado, 30 de março de 2019

Eu e Marx sobre o "Plusvalor" (e Brody e até Walras)

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Saberei eu dizer como é que vim parar neste artigo aqui?

La “Nueva Solución” al problema de la transformación: Una crítica solidaria * Fred Moseley ** Traducido por A. Sebastián Hdez. Solorza. [E disponível aqui]

Pois Moseley diz:

Marx le escribió a Engels en 1868 (es decir, después de la publicación del Volumen 1 en 1867 y después de escribir el borrador del Volumen 3 en 1864-65), que consideró su análisis de la cantidad total de plusvalor previo a su división en partes individuales uno de los tres aspectos 'fundamentalmente nuevos' de El Capital: 

   'En contraste con toda la economía política previa, que desde los mismos inicios trata los diferentes fragmentos del plusvalor con sus formas fijas de renta, ganancia e interés como previamente dados, yo primero trato con la forma general del plusvalor en la que todos estos fragmentos aun están indiferenciados – como solución por decirlo de alguna manera.' (Marx y Engels 1975: 186, énfasis añadido, ver también 180 y Marx, 1963: 40 y 92). [e eu coloquei o itálico de acordo com meu PDF]

Sorprendentemente en contraste a esto, la interpretación Sraffiana de la teoría de Marx asume esencialmente el orden de determinación opuesto entre magnitudes agregadas y magnitudes individuales. En lugar de la determinación previa de las magnitudes agregadas, la interpretación Sraffiana asume la determinación previa de magnitudes individuales. En la interpretación Sraffiana, así como en la teoría de producción lineal en
general, las magnitudes agregadas, en general no tienen un rol esencial. Las variables que se determinan en la teoría son los precios de las mercancías individuales y la tasa de ganancia. La tasa de ganancia no se determina por el cociente entre plusvalor total y capital total invertido, sino al contrario se determina simultáneamente con los precios como solución a un sistema de ecuaciones simultáneas. Si uno quisiera definir y determinar las
variables agregadas, tales como el precio total y el plusvalor total (o ganancia) con base en esta teoría, entonces uno podría hacerlo multiplicando tantas veces el precio por la cantidad producida como industrias hubiera y después sumando estos totales por industria. En otras palabras, los agregados totales estarían determinados por la suma de sus partes individuales, que es lo opuesto al método de Marx con la determinación previa de las
magnitudes agregadas.

Primeiro e mais breve: aprendi na faculdade e passei a vida ensinando e até publicando haver quatro fatores de produção (na realidade, publiquei haver quatro locatários de fatores de produção) e que recebem remunerações chamadas de salários, aluguéis, lucros e juros (pra citar na mesma ordem da obra prima de 1867, antecipando-a pelos salários). Ou seja, uma coisa é dizer que, digamos, o lucro é determinado antes dos, digamos, juros, o que não faço. E outra bem diferente é dizer que não podemos aproveitar alguma coisa aprendida na faculdade, especialmente aquela por mim ensinada (e publicada). Como sabemos, minha formulação mais radical é que o valor adicionado (seria lá o capital variável mais plusvalor lá dele, deles, nossas quatro remunerações) é uma função da população. Ok, não nego que sem trabalho não há nem produção nem valor, mas é que fiz uma correlação entre a renda per capita dos diferentes países como função da população e achei r^2 = 0,63, ou seja, as variações na população em meu cross section de 181 países explicam as variações em suas rendas per capita (aqui). Claro que Marx ficaria entusiasmado com as implicações políticas para a sociedade igualitária destes achados.

Segundo: indo mais diretamente ao espírito do texto do Moseley e da citação que ele recolheu d'O Capital, especificamente no que diz respeito à forma de acordo com a qual surge a mais valia: se primeiro surge o total e depois é distribuído ou, ao contrário, se primeiro surge, digamos, o salário (na luta entre trabalhadores e capitalistas) e depois o lucro (na luta entre capitalistas), e assim por diante... Para mim é óbvio que primeiro surge tudo, pois, sem população, não tem valor adicionado nenhum, não tem exploração, não tem bíblias nem garrafas de cachaça (para brincar com uma irreverência do capítulo 1). E, depois de ver os preços relativos determinados pela concorrência (Walras), trata-se de sua distribuição de acordo com os afamados preços de produção (que, na linguagem de András Bródy, nada mais são do que as proporções que dão título a seu livro).

Confesso não ser lá tão versado na economia sraffiana e, assim, nada vou falar além desses meus dois pontos.

DdAB
E a imagem veio daqui. By the way, eu nunca disse, pelo menos não recentemente, ser marxista. A rigor sou um baita dum eclético. Costumo dizer que, para mim é tão difícil aprender o que quer que seja que, quando o faço, nunca mais esqueço e procuro integrar no resto do que já, com esforços sobre-humanos, aprendi.

P.S. E olha que o Moseley fala em micro e macro: "tanto en el análisis macro del plusvalor en el Volumen 1 como en el análisis micro de precios de producción del Volumen 3".

P.S.S. E ainda tem soberania monetária no conceito de Wassili Leontief de quantidades monetárias, que nada mais são do que valores a preços correntes das mercadorias.

domingo, 24 de março de 2019

Pão e Rosas: a desigualdade não para de aumentar



Tem muita intermediação para eu chegar onde pretendo: mais lições sobre a falta de racionalidade que envolve as sociedades em que impera a desigualdade econômica e social.

Primeiro: pão e rosas é o slogan de inúmeros movimentos anti-establishment dos EUA.

Segundo: "no capitalismo, tudo vira mercadoria, inclusive a honra". Não duvido, mas parece que meu poder de chocar-me não é suficiente para me ajudar a dar sugestões concretas para acabar com a desigualdade. No caso, os dois frascos que já contiveram água ou refrigerante viraram a base de construção de uma "sandália havaiana". Ao lado esquerdo a foto recente que colhi do mural do Facebook do prof. Jorge Ussan. É incrível que aquele chinelo do lado direito da montagem que fiz virou mercadoria, de alguma forma chegou às mãos daquele menino e serve para simular possivelmente um telefone celular setado para imortalizar um selfie do grupo.

Terceiro: depois de muito sofrer tentando entender o drama daqueles jovenzinhos que todos, todinhos, parecem muito felizes com a brincadeira inventada. Lembrei de brinquedos imitando telefones celulares de verdade e da alegria que provocam em crianças de certa idade.

Quarto: não consigo entender como é que neo-liberais e mesmo muitos libertarianos acham possível dar um jeito no planeta sem políticas igualitárias, sem o emprego público, sem fake-jobs, sem o gasto público em educação e saúde, segurança e cuidados ambientais, e mais outros bens de mérito e públicos. Em outras palavras, imagino que todos desejemos ver um mundo melhor em que essas duas fotos que colhi daqui e dali sejam apenas cena de filme ou caricatura de uns tempos sombrios, já superados.

DdAB
P.S. Eles dizem: "bread for all, and roses too".

A imagem pode conter: 5 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas em pé e atividades ao ar livre