sábado, 19 de outubro de 2019

Estarrecedor, inimaginável e repugnante

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Acabo de ler no mural de Marino Boeira [lá do Facebook] a seleção de um texto do vazamento desta madrugada divulgado pelo site The Intercept Brasil, entrei na dança escrevendo por lá.
Marino e Intercept:
"Estarrecedor, inimaginável e repugnante" Estes foram adjetivos que a defesa do presidente Lula usou para classificar os novos vazamentos da Intercept sobre as ações de Moro na Lava Jato. Moro não somente conspirou com os procuradores e comandou a força-tarefa da Lava Jato, mas também, desde o começo da operação, capitaneou operações da Polícia Federal. Chats de grupos da Lava Jato no Telegram, indicam que ele ordenou busca e apreensão na casa de suspeitos sem provocação do Ministério Público, o que é irregular. 'Russo [id est, Sérgio Moro] deferiu uma busca que não foi pedida por ninguém…hahahah. Kkkkk', escreveu Luciano Flores, delegado da PF alocado na Lava Jato, em fevereiro de 2016, no grupo Amigo Secreto — se referindo a Moro pelo apelido usado pelos procuradores e delegados."
Então vi-me estarrecido, incapaz de imaginar e repugnado. E declarei-me tudo isto ao quadrado, chegando a: Estarrecedor x estarrecedor + 2 x estarrecedor x inimaginável + 2 x estarrecedor x repugnante + 2 x inimaginável x repugnante + Inimaginável x inimaginável + Repugnante x repugnante. Ou seja, estarrecedor, inimaginável e repugnante elevados ao quadrado.

DdAB
Imagem: Google-Images deu'ma quando lhe pedi: estarrecedor, inimaginável, repugnante.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Sobre a Frente Única de Esquerda - UM

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Tenho lido no entorno que frequento o Facebook manifestações a favor do impeachment de Jair Bolsonaro. Nada me desagrada mais que essa mania de portadores de "mentes cansadas" acharem que impeachment é uma saída para qualquer atropelo ao bom-senso que o governante faz. Nunca esquecerei que Tarso Genro, se bem lembro era presidente do PT à época, queria o impeachment de Fernando Henrique Cardoso no quarto dia do mandato. Ora, ora, cá entre nós...

Quando leio este tipo de -digo apenas aqui- delírio que nem podemos chamar de esquerdizante, pois seria então esquerdizante remover Dilma do poder, tenho redarguido com a proposta da formação de uma frente única de esquerda. Por outras vias, volta e meia, propagandeio aqui neste blog o que considero os principais pontos de um programa político da Frente de Esquerda:

.a luta pela implantação do governo mundial
.b voto universal, secreto, facultativo, periódico e distrital
.c república parlamentarista.


Pelo que também tenho visto em meu entorno, não vai ter frente nenhuma, pois a esquerda arcaica jamais toparia um programa desta natureza. Mas vou mudar minha abordagem. Vou falar topicamente nos próximos tempos sobre outros pontos que podem unir e ungir uma frente progressista. Penso que a palavra que nos pode, assim, unir é igualitarismo.

Por que governo mundial?
Por um lado, já temos diversas instituições tentando a ação e a política internacionais. A primeira é a velha Liga das Nações, transformada em Organização das Nações Unidas após a II Guerra Mundial. Na mão da União Europeia, estão a Comunidade Econômica Europeia e sua antecessora Comunidade do Carvão e do Aço (de 1951) e a Comunidade Europeia da Energia Atômica (de 1957), culminando com a adoção de uma moeda única em 1997. Na contramão, temos o Reino Unido, que começa que não entrou na união monetária e depois pediu desligamento da Comunidade Europeia. Uma tristeza. E até hoje estão brigando dentro do próprio reino e os dirigentes conservadores com as lideranças "de Bruxelas".
Mas o verdadeiro "outro lado" do "por um lado" é que já existem instituições internacionais, nem todas eivadas de bom-mocismo. O bom-mocismo é visto na ONU, claro, nas organizações dentro da ONU para a agricultura, a educação, a saúde, a indústria, etc.. Também o é o Banco Central Mundial, e seu germe, pelo menos, no Bank of International Settlements. Mas aí começam os fatores de baixaria: tráfico internacional de pessoas, de armas, de drogas, de dinheiro.

Por que voto universal, secreto, facultativo, periódico e distrital?
A universalidade do voto
é o cerne da vida democrática: cada homem um voto, diz a consigna antiga. Ao falarmos em "voto universal", estamos contemplando as mulheres, os negros, os brancos, os LGBT+, e por aí vai. Certamente não é voto universal o existente em sociedades de castas, ou o que já existiu no Brasil, garantindo a representação política apenas a cidadãos portadores de fortuna superior a certo valor.
O voto secreto deve garantir a maior liberdade possível ao eleitor, impedindo-o de ser identificado por políticos de maus bofes que desejariam comprar sua cumplicidade ou persegui-lo por não votar "no gunverno".
O voto facultativo é o modo dominante no mundo e, em particular, o voto obrigatório não é mais que outra manifestação da tragédia nacional: eleitores desengajados e políticos oportunistas. Fazer do voto um instrumento de uso facultativo é estratégia dominante, pois quem quiser votar vota, ou seja, ninguém é impedido de votar, e vota quem quiser. Já o voto obrigatório obriga os que querem votar a fazê-lo, mas também obriga quem, pelas mais variadas razões, não quer nem saber de política. E obrigar quem não quer nem saber a querer é de um autoritarismo absolutamente atroz.
O voto periódico é fundamental para que os eleitores possam avaliar o desempenho dos eleitos para cargos públicos e, se for o caso, os retire do cargo mal-desempenhado. Há sistemas que falam em eleição com "recall", ou seja, na metade do mandato (ou menos), os eleitores reavaliam seus votos, confirmando ou demitindo os anteriormente eleitos.
O voto distrital serve para acabar com o oportunismo de alguns candidatos ou dirigentes partidários que procuram celebridades (jogadores de futebol, radialistas, jornalistas, cantores) sem o menos compromisso com ideologia ou partido político a eleger-se e "levar consigo" outros apaniguados do partido. O "recall" de que acabei de falar faz sentido apenas no sistema de voto distrital, no qual a proximidade entre o eleitor e o eleito é enorme. A prática brasileira (gaúcha apenas?) deixa claro que, informalmente, há voto distrital, pois fala-se no "deputado de Caxias", no "deputado da soja", etc. Ademais, como os deputados não estão disputando o mesmo espaço eleitoral, é bem possível que a cooperação entre eles ocorra, em benefício da celeridade nas decisões políticas por eles adotadas.

Por que república parlamentarista?Num regime presidencialista, as crises entre a sociedade e o presidente ou entre o presidente e seus controladores legislativos podem ser gravíssimas, alcançando mesmo o impeachment do presidente. Numa república parlamentarista, as crises se resolvem com a dissolução do governo (demissão do primeiro ministro pelo congresso legislativo) ou do congresso pelo primeiro ministro. É proverbial o caso italiano de ter tido em média mais de um governo por ano nos longos anos posteriores ao final da II Guerra Mundial. E também é conhecido o caso da Bolívia que também teve em média mais de um golpe de estado por ano.

Que mais?Temos que criar uma imprensa de marca esquerdista melhor do que praticamente tudo que conheço no Brasil. Já falei ter lido con gusto a Carta Capital. Mas ela e as dezenas de sites que frequento na internet, Facebook etc., não são capazes de separar fato de opinião. É doido dizermos que, num país que já possui quase 40 partidos políticos, a solução é a criação de um novo que consiga tornar-se um verdadeiro partido de massa. E também é doido dizermos que precisamos criar mais um site de esquerda, este sim, representando os princípios gerais que discuti nesta postagem.

DdAB

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Preocupações Generalizadas: Olga Paulo e eu


Testemunhei (e até participei) uma troca de ideias muito criativa entre Olga Veiga e Paulo Baptista no Facebook, a partir de uma postagem da primeira. Fiquei particularmente tocado ao ver a matéria da Carta Capital (que não li, pois a revista não foi capaz de me prender como assinante) em que a turma do Capital dos Carta prenuncia a queda de Bolsonaro. Já falei aqui no blog ter recebido uma enorme lição de democracia do prof. Eugênio Cánepa ao falar que a maior motivação para o golpe militar de 1964 foi o medo que Leonel Brizola fosse alçado à presidência da república. Cánepa voltou a exibir  sua proverbial sensatez: se a ordem democrática for mantida, e se efetivamente Brizola fosse eleito, ele teria seus quatro anos de presidente da república e então se retiraria, pois nem se falava em reeleição, como a que ungiu Fernando Henrique a seu segundo mandato. O país veria novas eleições sem quebrar a ordem institucional. O preço pago naquela vintena de anos de repressão jamais poderá ser avaliado. Da mesma forma, felizmente, portador de menos violência, o impeachment da presidenta Dilma voltou a jogar o país nas barras da quebra institucional. E até hoje estamos pagando, agora com Jair Bolsonaro aterrorizando as pessoas de boa vontade com sandices e um programa promotor de ainda maior desigualdade no Brasil. Dito isto, vamos ao Facebook:

OLGA VEIGA:
E [a pergunta] que não quer calar..."Volta a pergunta: o que explica que Bolsonaro aí fique, apesar de tudo? Se não é por apreço à estabilidade institucional, se, em seu caso, a 'legitimidade das urnas' é amplamente questionável, se exprime um sentimento minoritário e se, além disso, é um presidente de péssima qualidade, por que permanece no cargo?"

PAULO BAPTISTA:
O que explica Bolsonaro no poder é a mediocridade da oposição a ele se organizar manifestada nas eleições...

DdAB (entrei na conversa):
Estão pensando em impeachment? Sou contra! Sobre a legitimidade das eleições, lembro que o voto obrigatório corrompeu e corromperá todos os processos eleitorais neste país. Mesmo porque imagino que, se Lula tivesse sido o candidato do PT (com rala frente de esquerda apoiando-o), não é impossível que seu coeficiente de rejeição durante todas as pesquisas eleitorais o tivessem condenado à derrota.

Obviamente não apoio o Sérgio Moro, algoz da democracia e do direito no Brasil.


OLGA:
Não, tbm sou contra. O custo é muito alto e quem paga é o povo. O que me espanta é o apoio, o voto. Acho que eles (oposição/eleitores) não entenderam que pior que perder uma eleição é perder a democracia. É 'como as democracias morrem'.... Faltou percepção.

PAULO BAPTISTA:
Olga, esta percepção faltou não foi por parte do eleitor, foi por parte de quem estava em condições de encaminhar o processo de forma a não se correr o risco que se antevia. O que ocorreu, conforme dito por alguns (talvez possam identificar) foi a chamada 'dança à beira do abismo'. Os líderes que são seguidos cegamente frequentemente levam a isto.

OLGA:
Desse ponto de vista, concordo que foi essa 'dança a beira do abismo' que levou à cegueira aqueles que seriam os 'guardiões da democracia' e, que ao serem confrontados com extremistas e demagogos deveriam fazer um esforço orquestrado para derrotá-los.
Por outro lado, também cabe aos eleitores estarem atentos aos sinais de alerta que podem ajudar a reconhecer um autoritário que poderá colocar a democracia em risco (do livro “Como as democracias morrem”)...lendo hehehe:
1) Rejeitam, em palavras ou ações, as regras democráticas do jogo;
2) Negam a legitimidade de oponentes;
3) Toleram ou encorajam a violência;
4) Dão indicações de disposição para restringir liberdades civis de oponentes, inclusive a mídia.
Coincidência....


PAULO BAPTISTA:
Olga, talvez seja exigir muito dos eleitores. As lideranças estão muito empenhadas em demarcar cada qual o seu espaço de poder, espaço que devem dividir com os seguidores. Se for necessário levam ao extremo a disputa para não cederem nem um pouco desse espaço. E não faltam seguidores que os impulsionem a agir assim. Neste momento a política se torna uma paixão. Campo fértil para os que sobem aos palanques para discursos inflamados. Exemplos como o de Mujica e Mandela que , embora extremamente populares, reconhecem o momento de deixar o processo avançar sem eles, são poucos. Para isto é necessário humildade e um sentido da história que está muito escasso.

OLGA VEIGA:
Pois é, tudo é um risco, se os eleitores fossem engajados com valores democráticos, a democracia estaria salva? Não, a história já mostrou que não. Ao contrário, também não saberíamos o que viria pela frente. Por isso é que eles devem estar atentos. Não creio que seria 'exigir muito'.
Quanto a essas lideranças empenhadas em demarcar espaços e levar o poder ao extremo, aí que é que mora o perigo e, é aí que entram os eleitores, que devem avaliar os riscos para “impor limites” e não 'impulsionar' os tiranos.
Agora, comparativamente, Mujica e Mandela tiveram um processo de saída naturalmente, se é que entendi tua colocação. Mas, considerando as circunstâncias, aqui no caso, nossas lideranças deveriam ter, além de humildade, sabedoria de que o país está à frente do partido e que é de vital importância colocar seus interesses partidários de lado quando a democracia está em risco.


PAULO BAPTISTA:
Mujica e Mandela abriram mão de manter candidaturas de reeleição. Em nenhum momento parecem ter nutrido a expectativa de se tornarem estrelas mundiais da política. Mujica está, no entanto, bem presente e atuante na política conforme se pode constatar em intervenção recente em evento na Argentina. Argentina na qual, aliás, de forma inteligente a oposição evitou de acirrar o radicalismo e candidatar Cristina Kirchner. Tudo indica , no entanto, que ganha a eleição. Acredito que talvez Cristina possa não ter gostado mas, pelo menos, entendeu que era necessário sair da linha de frente. https://ametadesul.blogspot.com/.../ustedes-son...

OLGA VEIGA:
Sim, Mandela já era uma estrela e saiu por questões de saúde. Mujica não tinha mais o apoio do povo, agiram certo na hora certa. Aqui alguns poderiam ter feito o mesmo e Bolsonaro não teria sido eleito.

OLGA VEIGA (novamente):
Sim, Mandela já era uma estrela e saiu por questões de saúde. Mujica não tinha mais o apoio do povo, agiram certo na hora certa. Aqui alguns poderiam ter feito o mesmo e Bolsonaro não teria sido eleito.

PAULO BAPTISTA
Segundo o Ciro o que tem?

OLGA VEIGA:
o resultado das eleições não seria alterado.

A conversa acabou por aí. E eu fiquei pensando mais ardentemente ainda na lição dada pela Argentina com a legislação eleitoral que permite/induz a uma prévia entre todos os candidatos no primeiro turno, levando apenas os dois mais votados ao segundo. Lá a esquerda ingressou unida e dizem os estudiosos do tema que sua eleição ainda este mês é super provável.

Aqui, a "sabedoria da natureza" nos dá uma chance, um ensaio geral: as eleições municipais de 2020. Imagino que uma linha de argumentação deveria ser:
.a que é esquerda
.b quem são os partidos de esquerda
.c não fazer alianças com partidos da não-esquerda.

Dos 5 mil municípios do país não serei capaz de indicar candidatos a prefeitos e vereadores para todos. Mas do Brasil tenho meu candidato que deve quebrar a cabeça para escolher (se é que não o fez) um partido de esquerda para ingressar e concorrer à presidência: Renato Janine Ribeiro.

DdAB

sábado, 12 de outubro de 2019

Mais Novidades: o governo é importante...


Nenhuma descrição de foto disponível.

Do mural do Facebook de minha amiga Rosemary Fritsch Brum, copiei este quadro supermaneiro. De sua parte, ela copiou do mural de Ane Arduin (11/out/2019, tipo 14h00. Aeee, eu peguei esses dados e os coloquei lado a lado com o índice de Gini da distribuição da renda dos países correspondentes.


Não fiz nenhum cálculo nem gráfico, mas parece que temos uma regularidade. Esse exame perfunctório leva-me a crer que, como na postagem à qual remeto no rodapé, a correlação entre o emprego no setor público como fração da população e o índice de desigualdade de Gini da distribuição da renda é imponente.

Claro que ficam pendentes muitas clarificações, como é o caso do período a que se referem as duas variáveis, o que é emprego público, se a renda capturada pelo Gini é a mesma, tipo, depois de correções para o gasto público e a tributação, essas coisas.

DdAB
P.S. Eu já trabalhara  com uma amostra um tanto maior aqui.
P.S.S. O título é de uma obviedade constrangedora. No Brasil, a malta que assaltou o poder (pudera, 57 milhões de votos) é ignorante em matéria da teoria da escolha pública e não tem qualquer apreço pela promoção da sociedade igualitária. Ou seja, despreza o emprego público e tudo o mais que diga respeito aos "de baixo".

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Ordem alfabética: Argentina, Bolsonaro, Brasil, Romênia, Trump



Além da notícia de que um desembargador do tribunal de justiça do Rio Grande do Sul ganhou R$ 118.084,39 num mês e mais R$ 82.829,01 no mês seguinte, o jornal Zero Hora deixou-me estupefaciente na manhã de hoje. Sua principal manchete diz: "EUA indicam Argentina e Romênia para grupo de nações ricas e frustram Brasil".

Naturalmente a pergunta é "quem o desembargador pensa que é para retirar esses estupefacientes montantes de dinheiro de um estado que é incapaz de prover esgotos a sua pacífica população ou o salário mínimo do magistério?" A resposta veio rápida, mal a formulei: o desembargador, claro. Fosse eu o secretário da receita federal ou mesmo da estadual, propugnaria pela elevação da alíquota do imposto de renda para quem recebe mais de R$ 35.000 (parece que o teto -furado- pelo jeito) mensais. Só para ilustrar e calcular algo, imagina que os R$ 35 mil são o montante da isenção, ou seja, todos os brasileiros nada pagam se receberem 35 paus por mês. Então, essa diferença entre os 118 mil e os 35, ou seja, os 83 paus que igualam o do mês seguinte, teriam 40,15 retidos. Ainda assim o desembargador seguiria classificado na categoria dos apaniguados maiúsculos, mas o estouro nas combalidas contas estaduais seria menos indecente.

-Começou bem, pensei.

Mas voltei à capa: então Argentina e Romênia, sim, mas Brasil, não. A Romênia, nem mesmo forneceu os ancestrais da presidenta Dilma. Aí fui ver o embasamento econômico da recusa americana em aceitar um país que não manja de tecnologia para fazer esgotos cloacais. Não achei os dados cloacais, por assim dizer, mas peguei alguma coisa dos verbetes dos nomes dos trẽs países, já recebendo alguns bits de esclarecimento. Primeiro, o Brasil, com seu vasto e rico território e sua grande e vibrante população é o terceiro (segue no pódio...) em renda per capita. Ou seja, um pobretão, status compatível com a falta de esgotos, falta de policiais, professores e enfermeiros et tutti quanti.

Mas bem sabemos que a renda per capita corrigida pela paridade do poder de compra não é tudo. Afinal, a felicidade não é comprada com dinheiro. (Ou é? De acordo com Richard Layard, é...). Mas tem indicadores de que a vidinha de cá não é tão enobrecedora como a dos vizinhos do sul e os amigos do norte. Nossos índices de Gini da desigualdade na distribuição da renda são:

Argentina - 0,41
Romênia - 0,35
Brasil - 0,53.

Bem assim: 0,53. Falta emprego, faltam professores, enfermeiros, policiais, motoristas, aviadores, ascensoristas, engenheiros, garçons, 20 milhões de faltas.
E quando ao que mais interessa para deixar-nos de vez no grupo dos mais felizes do mundo? Vejamos o IDH:

Argentina - 0,83
Romênia - 0,81
Brasil - 0,76.

Epa, talvez tampouco sejamos o país de maior coeficiente de felicidade nacional bruta. Uns brutos. Um país que abandona sistematicamente sua infância (desde aqueles "capitães da areia" até os meninos e meninas de rua dos tempos atuais). E seus adultos, ignorantes, deseducados, beberrões. Claro que não estou falando dos desembargadores. Mas provavelmente eles têm em comum com todos os demais brasileiros natos ou naturalizados a inconformidade com seus ganhos, com planos de gastar mais, se lhes derem novo aumento.

Argentina
Population
• 2019 estimate
44,938,712
• 2010 census
40,117,096[13] (32nd)
• Density
14.4/km2 (37.3/sq mi)[13] (214th)
GDP (PPP)2019 estimate
• Total
$920.209 billion[14] (25th)
• Per capita
$20,425[14] (56th)
GDP (nominal)2019 estimate
• Total
$477.743 billion[14] (30th)
• Per capita
$10,604[14] (53rd)
Gini (2017)Positive decrease 40.6[15]
medium
HDI (2017)Increase 0.825[16]
very high · 47th
Romênia
Population
• 2019 estimate
Decrease 19,401,658[4] (59th)
• 2011 census
20,121,641[3] (58th)
• Density
84.4/km2 (218.6/sq mi) (117th)
GDP (PPP)2019 estimate
• Total
$541.807 billion[5] (40th)
• Per capita
$27,753[5] (54th)
GDP (nominal)2019 estimate
• Total
$244.158 billion[5] (46th)
• Per capita
$12,506[5] (57th)
Gini (2018)Negative increase 35.1[6]
medium
HDI (2017)Increase 0.811[7]
Brasil
Population
• 2019 estimate
210,147,125[5] (5th)
• Density
25/km2 (64.7/sq mi) (200th)
GDP (PPP)2019 estimate
• Total
$3.495 trillion[6] (8th)
• Per capita
$16,662[6] (80th)
GDP (nominal)2019 estimate
• Total
$1.960 trillion[6] (9th)
• Per capita
$9,343[6] (73rd)
Gini (2017)Positive decrease 53.3[7]
high · 10th
HDI (2017)Increase 0.759[8]
high · 79th

Desde o tempo dos militares, os presidentes da república do Brasil têm sonhos fenomenais, um deles é ter assento no conselho de segurança da ONU. Sempre fui a favor não desta posição, mas de mais conforto emblematizado por mais esgotos. Naturalmente nosso atual presidente é um militar. E que tem a ver esta peroração com o apoio americano à Argentina e à Romênia, deixando o Brasil, por assim dizer, mascando o freio?

Zero Hora, na página 10, explica tudim tintim por tintim:

Qual a contrapartida em troca do apoio americano?
Em março, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu fazer esforços para ajudar o Brasil a ingressar no bloco, foram exigidas contrapartidas. [...] Em troca do apoio de Trump, o Brasil também permitiu a entrada de americanos no país sem necessidade de visto. A permissão para uso da Base de Alcântara, no Maranhão, e a isenção de tarifas de importação de trigo dos Estados Unidos completaram a lista de medidas oferecidas por Bolsonaro.

Três belas contrapartidas. Um presidente da república ungido ao cargo por 57 milhões de brasileiros. Uma tragédia, duas tragédias, pilhas e pilhas de tragédias. Outro 7x1.

DdAB
Imagem: tão abisurado fiquei com o grau de debilidade mental da diplomacia brasileira e do presidente da república que, eu mesmo, fiquei um tanto debilizado e fiz propaganda para uma loja que me vendeu aqueles copos de R$ 9,90 por cada, como diriam os suinocultores. E os literatos da entourage presidencial.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Provérbios Portugueses+ CINCO

Resultado de imagem para O filho da tua vizinha tira-lhe o ranho e casa-o com a tua filha.
Vamos a nossos 10 provérbios portugueses que selecionei para hoje. Ou melhor, nove do livro de Deolinda Milhano e mais o de número 50, que eu mesmo inseri no livro.

41. A abóbada celeste é órbita sem fim. [Parece anti terraplanistas, né?]
42. A abóbora e o nabo enganam o Diabo.
43. Lenha dourada, pão queimado.
44. Mãos generosas, mãos poderosas.
45. Muitas vezes paga o justo pelo pecador.
46. Muito barulho para nada.
47. O filho da tua vizinha tira-lhe o ranho e casa-o com a tua filha.
48. O que é moda não incomoda.
49. Paixões não pagam dívidas.
50. [Isto, estes] são outros quinhentos. [Não sei quais seriam quantos e quais são os quinhentos anteriores]

DdAB
P.S. A imagem é a antítese do provérbio 47.

P.S.S. Leis da dialética:
. transformação da quantidade em qualidade
. interpenetração dos contrários
. negação da negação

P.SS.S. Fonte: MILHANO, Deolinda (2017) Dicionário de Ditados (Provérbios) e Frases Feitas. Lisboa: Colibri.

sábado, 5 de outubro de 2019

Bom Humor Brasileiro (de quem conta as histórias)

Resultado de imagem para dilamar schoeninger

No outro dia, dona Dila (Dilamar Schoingele), nossa admirável cozinheira estava preparando a carne para produzir uns bifes enrolados, daqueles com recheio de bacon e cenoura, tudo espetadinho com palitos. Eu, em louvável atitude de reformador (preocupado em salvar o mundo), lia meu jornal calmamente à mesa da sala. Casa de pobre, sala contígua à cozinha...

Uma história a contar sobre as batidas do bife é que eu nem notei, mas pessoas próximas o fizeram, no passado remoto, havia uma reforma na cozinha e no banheiro de minha velha morada à Rua Demétrio Ribeiro, em Porto Alegre, certamente no ano de 1993. Eu, para minha própria tristeza e decepção de amigos, não defendera a tese de doutorado nos dias finais de Oxford, tendo que fazer muita edição ainda, até receber o O.K. de meu finado orientador, o inesquecível mr. Andrew Glyn. Pois foi exatamente naqueles tempos que a bateção de martelo e chispar de lixas tornou-se -dizem- mais invasiva, só que eu nada ouvia.

Pois então. D. Dila em sua faina esmerava-se em deixar aquela carne de segunda com a maciez da de primeira. Eu nem ouvia, pois estava, como disse, lendo o jornal e amaldiçoando os tempos que me foram dados para viver sobre a terra. Epa, agora Brecht (tá aqui o poema). Mas, de repente, ela adentrou porta da sala, com o avental todo sujo de ovo (epa, agora não dei a origem desta expressão. Alguém não sabe?) e, percebendo que eu segui concentrado na leitura do jornal, contou-me a seguinte história. Muitos anos atrás, ela própria trabalhava numa casa em que a patroa era uma chata. E, chata oficial, certo dia, ouviu a d. Dila em sua esmerada bateção de bifes, dirigiu-se a ela, em bons termos e pediu: "Por favor, nunca mais bata bifes em minha casa, pois os vizinhos vão pensar que estamos comprando carne de segunda e, ipso facto, pensar que somos pobres."

Pois então II. Li, juro que li, lá por aqueles tempos ou oxfordianos ou no imediato retorno ao Brasil:

BUARQUE, Cristóvão (1991) A desordem do progresso ; o fim da era dos economistas e a construção do futuro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

Agora não sei onde está o livro, de sorte que não citarei a página. Mas consta em minha memória que Cristóvão visitava Manaus, um calor de assar pinhão nas calçadas do afamado teatro. Ele andava, digamos, com seu anfitrião local num automóvel de ar condicionado ligado. O anfitrião viu um táxi-fusca todo fechado, vidros, claro. E disse a Cristóvão: "Sabe por que aquele táxi tem os vidros fechados?" Para abreviar a história, Cristóvão respondeu: "Não." E seu amigo explicou: "Com os vidros abertos, todos verão que o motorista está passando um calor dos diabos, mas com os vidros fechados, vão pensar que ele está com o ar condicionado ligado." Cristóvão teria pensado: "Não!" Se ele não fosse pernambucano, mas gaúcho, a exclamação muda seria: "Capaz!", com o mesmíssimo ponto de exclamação.

Pois então III. Uma história de fusca puxa outra e aí me lembrei de outra delas, que me foi contada pelo meu líder na Sociedade de Economia e ex-prefeito de Porto Alegre, o já falecido prof. João Acyr Verle. Na busca de conseguir "instrumentar" a sociedade civil, especialmente frente a um grupo de economistas definitivamente da velha geração que controlavam a Sociedade de Economia do Rio Grande do Sul, Verle associou-se à entidade e chegou a fazer parte da diretoria quando -agora não lembro se testemunhou ou apenas ouviu falar- fizeram um jantar de arrecadação de fundos e os convites falavam que seria sorteado umfuscanovinho. Deu-se o jantar, deu-se o sorteio, deram-se os discursos laudatórios e deu-se a confusão. Digamos que o econ. Fulano de Tal viu seu convite ter o número sorteado, credenciando-o a tal mimo. Mais discursos e o brinde vai ser entregue: um autinho de plástico em formato de fusca dentro de uma jarra de vinho: um fusca no vinho.

Dizem que até hoje o econ. de Tal está reclamando, querendo processar os dirigentes da instituição da qual naquela mesma oportunidade demitiu-se.

DdAB
P.S. O combo do restaurante Dilamar é apenas ilustrativo. E pode ser acompanhado por um vinho sem fusca.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

1872: mais um ano que terminou...



A tabela (ou o que seja, poderia ser chamada de "quadro" por algum revisor de textos escalafobéticos, ou revisor escalafobético de textos) que nos encima foi construída por mim mesmo, com base no PDF do censo de 1872 hoje disponível no site do IBGE. Clicando sobre a figura, pode-se aumentá-la um tanto e conseguir melhores resultados na leitura. Bem enquadradinhos, temos: Raças, dos homens, das mulheres, brancos, pardos, pretos, caboclos, brancas, pardas, pretas e caboclas.

Cabocla, se bem lembro, era Iracema, a virgem de ouro dos lábios de mel. E não pretendo discutir mais os termos nem suas definições que devem localizar-se em algum lugar do PDF propriamente. Mas algo interessante, chamando-me a atenção, é uma espécie de hierarquia nos estados naturais e sociais. Explico-me: o que me interessava era ver a origem racial, surpreendendo-me ao ver que aquelas classificações ainda são usadas, nada de negro, mas "brancos, pardos, pretos e caboclos", parecendo referir-se a um estado imutável, tanto é que na linha do estado civil, vemos solteiros que são promovidos a casados e depois alcançam o status final que é o de viúvo.

Minha preocupação era comparar a situação atual com a d'antanho, como se dizia no antanho. Éramos (éreis?) 4,8 milhões de habitantes, contra os hoje mais de 200 milhões. Destes, 51,7% de homens 47,3% de mulheres. Hoje em dia, esta composição por gênero é majoritariamente feminina. Em 2010, para cada 100 mulheres, há 96 homens, vitória de 51x49 para o rosa contra o azul. Este escore deve dilatar-se com o passar do tempo. Tá na cara que tem mais viúva que viúvo nos dias que correm e, como sabemos, as mulheres são mais adoecedoras que morredoras...

Em 2010 a composição "por grupos étnicos" era:

Brancos = 47,5%
Pardos = 43,4%
Pretos = 7,5%
Outros = 1,6%

Os caboclos sumiram, devendo, se bem adivinho, declarar-se brancos, talvez novos tempos, talvez apenas tendenciosidade do informante. A propósito de tendenciosidade do informante, sabemos que fui entrevistador no censo demográfico de 1970. E visitei uma casa em que, sob meu critério, a população era parda. Mas o dono da casa foi logo afirmando tratar-se de uma família branca. O entrevistador, claro, deu a palavra ao informante.

As cifras de 2010 eram de meu conhecimento, curiosidade que surgiu com as eleições de 2018, quando ficou claro que o candidato acolherado com a misoginia, homofobia e racismo recebeu maciça votação de mulheres, HGTB+ e pretos+pardos. E fui olhar nos Estados Unidos. Marcou-me (chocou-me) o contraste entre as proporções cá e lá. Pelo que lembro, brancos são 72%, pretos e pardos, mais 12,6% e os demais perfazem os faltantes 15%.

DdAB
P.S. O inteligentíssimo título da postagem se deve ao fato de que, alguns dias atrás, usei um assemelhado: "2017, o ano que terminou".
P.S.S. Dedico esta postagem a minhas amigas Gislaine Teixeira, Leda Guidotti Dillmann e Mary Setalip, além de sua aparentada Paula Setalip.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Ulysses: que pensará Stephen de Leopold?


Em compensação, Paul Prescott, falando de Hamlet, nominou 20 características que um ator, para representar essa legenda do teatro shakespeariano, deve apresentar. Já falei das características físicas de Leopold Bloom que, em minha opinião, foram incorporadas por James Joyce como sua figure du rôle a partir da aparência de seu crescentemente amigo e colega literato durante os tempos de Trieste. Falo de Italo Svevo, pseudônimo de Hector Schmitz. Talvez estejamos vendo precisamente a foto de seu aluno de inglês.

Segue-se logicamente que tomei para minha descrição de Leopold Bloom não apenas a foto que nos encima, mas também essas 19 características do ator shakespeariano, a saber:

anger, arrogance, charm, classicism, colloquialism, cruelty, discontinuity, excessive subjectivity, generosity, inconsistency, irony, lunacy, melancholy, mercurial shifts, stamina, variety, vocal technique, vulnearabitily, wit.

Desta lista, vemos quão latina é a língua inglesa. Olha os cognatos mais óbvios: 
arrogance, classicism, colloquialism, cruelty, discontinuity, excessive subjectivity, generosity, inconsistency, irony, melancholy, stamina, variety, vocal technique, vulnearabitily. Total, entre as 20, dá-nos 15 expressões (inclusive a dupla vocal technique). Ou seja, ficam fora do latinório do inglês apenas cinco: anger (raiva), charm (charme...), lunacy (demência), mercurial shifts (crises de raiva) e wit (sagacidade).

E por quê dei no título da postagem os possíveis pensamentos de Stephen (alias de Telêmaco) sobre Leopold (alias de Ulysses) e não o contrário? É que Stephen é sabidamente, por declarações do autor do romance, um especialista em Shakespeare. Jamais Leopold poderia ter-se tornado um leitor de Shakespeare além do que um judeu culto era capaz de fazer. Nada de especialização, por contraste a Stephen..

DdAB

P.S. A foto dali de cima retirei-a da Wikipedia no verbete Italo Svevo, que é o pseudônimo de Ettore Schmitz). Esta mesmíssima foto consta da página 428/23 (ou seja, depois da 
página 428, a 23a. página com lâminas de fotos de pessoas, desenhos e coisas) do livro 

ELLMAN, Richard (1982) James Joyce. 2ed. Barcelona: Anagrama.

Em outro momento, queixei-me de que os editores da Espanha não colocaram um índice analítico. Mas tem, e me foi útil para checar coisas de Svevo, um índice onomástico.

P.S.S.  Andei falando pelas postagens cujos títulos iniciam com "Ulysses" que Svevo foi professor de italiano de Joyce. O fato é que até agora voltei a consultar Richard Elllman (ver o rodapé anterior) que, na página 298, fala o que Svevo foi é aluno de inglês de Jim. Além disso, Joyce também foi professor da Berlitz School de Trieste. Parece que eu confundia coruja pelada na praia com com a cuja enfarpelada na Baía da Coruja... Dei umas espiadas aqui e ali e não encontrei referência a essas aulas de italiano. Aliás, duvido que Joyce tivesse dinheiro para pagá-las, o que, aliás, não impediria que algum de seus amigos e admiradores as ministrasse "de grátis". O que vi a respeito é que provavelmente ele já chegou à Itália com o domínio parlante da língua de Dante...

P.S.S. Depois da viajação, deu uma olhada neste site aqui e achei as viajações do próprio James Joyce:

Dia 02 de fevereiro de 1882 nasce James Joyce (1882 – 1941) em Dublin.
Depois de estudar num colégio jesuíta, muda-se para Paris em 1902 com a intenção de cursar medicina, mas vive como professor de língua e literatura inglesa.
Volta a Dublin em 1903 por causa da morte de sua mãe.
Em 1904, conhece Nora Barnacle, com quem se casa no mesmo ano.
Em 1905 muda-se com a esposa para Trieste, onde leciona na escola Berlitz de línguas e onde nascem seus filhos Giorgio (em 1905) e Lucia (1907).
Volta a Dublin em 1912. Em 1914 publica Dublinenses. Durante a Primeira Guerra Mundial, refugia-se em Zurique (Suíça).Muda-se para Paris em 1920, onde conhece Sylvia Beach (proprietária da livraria Shakespeare & Co.).Publica Ulisses em 1922 pela Shakespeare & Co. Em 1923, começa a ter um problema nos olhos que o acompanhará até o fim da vida.Começa a escrever Finnegans wake – que será publicado em 1939. Em 1940, vai para Zurique, onde morre em 13 de janeiro de 1941.

domingo, 29 de setembro de 2019

Neomalthusiano. Quem, eu?

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Zero Hora, sempre ela. Não, nem sempre: muitas vezes é a Zerro Herra. Na Zero Hora deste fim-de-semana, estampa-se uma entrevista com Werner Herzog. Eu nem sabia tanto sobre o pensamento deste maravilhoso intelectual, além de seus filmes sempre impactantes e me deliciei com a entrevista do Caderno DOC.

Vou me ater a um comentário que reforça minha visão construída a partir de uma constatação da infância e, décadas depois, a ser burilada com leituras abalizadas. Garantidamente, antes de 1960, fiquei a me perguntar se, com aquelas exportações de toneladas e mais toneladas de café, não haveria buracos abertos por toda a nacionalidade. A resposta é que, talvez todo mundo sempre tenha sabido, sim, essas exportações causaram e causam erosão. Já formado em economia em 1972, falou-se um tanto mais sobre o "meio-ambiente", termo incorporado a empurrões no vernáculo brasileiro. Environment.

A degradação do subsolo provocada pela extração de, tá na moda, minério de ferro deve ser ainda mais perigosa que os lagos formados por dejetos, subprodutos dos processos da extração. Um dia, dias atrás, atrevi-me a fazer uns cálculos sobre os volumes estocados naqueles "lagos", aqueles mingaus nauseabundos. Pensei que, se do barro nascem os tijolos, com subsídios adequados, aquele lodaçal mortífero poderia ser transformado em tijolões. Com eles, se poderia promover aquela meta que o prof. Adalmir Marquetti acenava como saída para a economia brasileira desde os tempos imemoriais: habitação, 20 milhões delas, para a população desabitada.

Mas a escala do saque ao meio-ambiente com o café, com a mineração, com o gado, os frangos, praticamente com toda a atividade produtiva na agropecuária, os dejetos industriais e os insumos para prestação de serviços, ou seja, tudo, tudinho é realmente escandalosa.

Um autor de respeito que me foi indicado pelo econ. Eugênio Cánepa é

BOULDING, Kenneth (1966 [1964]) O significado do Século XX; a grande transição. São Paulo: Fundo de Cultura.

Boulding, buscando explicar o significado do século que nos antecedeu, fala que, para alcançar aqueles horizontes luzidios tão enfaticamente prometidos, a humanidade precisaria enfrentar e vencer três ameaças devastadoras:

.a a guerra nuclear (era o tempo da guerra fria, agora reinaugurada por Jair Bolsonaro)
.b a degradação do meio-ambiente
.c a explosão demográfica.

Pois, além disto, ao trabalhar na editoração do livro

BÊRNI, Duilio de Avila & LAUTERT, Vladimir (2011) MESOECONOMIA: lições de contabilidade social; a mensuração do esforço produtivo da sociedade. Porto Alegre: Bookman.

vim a entrar em contato com o conceito de capacidade de carga do planeta, ou de qualquer sistema contemplando vida. É como um fusca: não dá, com razoáveis padrões de conforto, para carregar mais de oito pessoas [feito de que fiz parte em passado um tanto remoto].

Quer dizer, tá na cara que o Terceiro Planeta de Sol está com sua capacidade de carga esgotada. Parece que, como disse o conjunto The Youngsters, "havia gente demais". Naturalmente sou favorável ao uso de métodos pacíficos para estancar este churrio demográfico, como a educação e a renda básica universal paga às mulheres (depois vamos pensar em pagar para os marmanjos). Como sabemos, dadas as atuais sobredeterminações demográficas, rico tem menos filho que pobre, o que me leva a crer que, enriquecendo os pobres, eles tampouco terão manadas de filhos.

Pois agora chegou a hora de retomar a conversa sobre a entrevista de Werner Herzog. Selecionei trechos que li no jornal de papel, mas coletei aqui:
O senhor é um visitante constante não apenas do Brasil, mas já esteve muitas vezes na Amazônia. Como tem visto as recentes notícias sobre o aumento das queimadas?
Vejo sob duas perspectivas diferentes. Por uma perspectiva global é catastrófico. Mas há uma segunda perspectiva, histórica. Por que nós, como europeus e norte-americanos, fazemos um barulho tão grande a respeito disso quando nós queimamos nossas florestas há muito tempo? Na Idade Média, a maior parte da Europa ocidental era de florestas, destruídas para criar pastagens para o gado e campos para a produção agrícola. Nós fizemos a mesma coisa, por uma perspectiva histórica, e por isso consigo entender que algumas vozes no Brasil digam: “Qual o direito de europeus ou nova-iorquinos gritarem tanto sobre isso?”.

O senhor já declarou que um dos grandes problemas ambientais hoje é que nossa sociedade baseada no consumo não é sustentável. há alguma mudança no horizonte?
Tende a ocorrer. É escandaloso, é um ultraje que a civilização ocidental como os Estados Unidos ou as nações europeias, ou outras civilizações, como o Japão, joguem fora 40% de sua comida. É um ultraje. Reduzindo nosso consumo, teremos um impacto gigantesco no ambiente. Para apenas um quilo de carne, imagine o impacto de quanto pasto você precisa, quanta água, quanto trabalho no matadouro e no transporte até o supermercado para vendê-lo embalado em plástico. E aí, jogamos fora 40% disso. Se você começar a organizar bem sua geladeira para não jogar comida fora, já estará fazendo algo importante. Se todos os que tivessem carros reduzissem seu tempo dirigindo. Se você pensar de modo mais estratégico em como usar seu carro, você pode facilmente reduzir a necessidade dele em 20%, o que faz muita diferença.

Como isso pode se contrapor a políticas que vão em sentido contrário?
Não é preciso esperar pelos políticos. O mundo político é incapaz de entrar em acordos. Foi feito um acordo climático, mas a China não está nele, os Estados Unidos idem. Nós temos de ser a política. Acho que os jovens que protestam contra o aquecimento global estão certos, mas eles precisam começar pela própria casa, pela própria geladeira. Outro problema é que há gente demais no planeta. A explosão populacional é o mais profundo dos nossos problemas.

Mas há muitas nações em que a curva populacional está em queda. na própria Europa, por exemplo.
São poucos países. A China, mesmo com sua brutal política do filho único, hoje mais flexível, tem visto um aumento populacional contínuo. A Etiópia cresceu nos últimos 20 de anos de 40 milhões para 89 milhões de habitantes. É um problema.

Podemos ver que a frase Outro problema é que há gente demais no planeta. foi mesmo influenciada pelas audições que Herzog fez dos The Youngsters. Mas o interessante é que ele não fala nada sobre os 40 partidos políticos brasileiros, não lhes dá qualquer crédito como expectativa para resolver problemas alheios à formação de seus patrimônios. Ao mesmo tempo, apenas a educação é que poderia ajudar os atuais 7,5 bilhões de poluidores a cuidarem de reduzir seu consumo supérfluo. Quem sou eu para dizer o que é supérfluo? Primeiro, sou o autor do blog. Segundo, tenho em mente essas questões da capacidade de carga do planeta.
Tem muita coisa envolvida nessa questão do desenvolvimento sustentável. Tenho insistido que o primeiro problema ambiental do Brasil, e ao mesmo tempo ramo condutor do desenvolvimento sustentável é formar uma boa rede de esgotos, saneamento, serviços industriais de utilidade pública. Mas, sem a educação da mãe, suas barrigas seguirão ingerindo seres vivos e, como output, jogando hijitos no mundo. Neomaltusianos Herzog e eu? Et vous?
DdAB

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Provérbios Portugueses+ QUATRO


No outro dia, chegou-me aos ouvidos um provérbio (dito) português que não consta do livro que estou usando para esta série de postagens:

MILHANO, Deolinda (2017) Dicionário de Ditados (Provérbios) e Frases Feitas. Lisboa: Colibri.

Diz ele:

31. A abelha procura a parelha.
32. A abelha tem a doçura do mel mas também o aguilhão que pica (prov. africano)
33. Enquanto disputam os cães, come o lobo a ovelha.
34. Meus filhos criados, meus males dobrados; meus filhos casados meus males triplicados.
35. Mulher, ainda que rica seja, se é pedida mais deseja.
36. Não cortes o que puderes desatar.
37. Ovos e juras são para quebrar. [Este dito lembra as razões para a criação de regras: economizar em processo decisório e quebrá-las assim que conveniente...]
38. Quantas vezes a fortuna que buscamos fica atrás.
39. Tudo vale a pena se a alma não é pequena. [Vejo esta frase atribuída a Fernando Pessoa e Mário Quintana, neste último caso, falsamente]
40. Minha Vó Tem Muitas Jóias, Só Usa No Pescoço [enigma que me foi passado por uma assistente da Casa do Papel da Rua Marcílio Dias, em Porto Alegre. E sua solução mostra que se trata de um recurso mnemônico para a criança decorar os nomes dos planetas do sistema solar: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Maneiro, não?]

DdAB
P.S. Tá aqui o famosíssimo e lindississíssemo poema de Fernando Pessoa do dito 39:

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

P.S.S. Ilustrei esta postagem com um mapa tirado da Wikipedia brasileira em que vemos a localização do Cabo Bojador. Bem lá pra baixo, tá o Cabo da Boa Esperança.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

O Grupo, Meu Grupo: lições abruptas


Pois então. E apenas pois então. Tipo em 1968, algo assim, li o livro

McCARTHY, Mary (1967) O grupo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 3ed. Trad. Fernando de Castro Ferro. Capa de Eugenio Hirsch. A primeira edição americana é de 1963.

E a história rola em torno de 1933, ou seja, seis anos antes da II Guerra Mundial enquanto projeto exclusivamente europeu, uma vez que -como sabemos- os Estados Unidos nela ingressaram em 1941. E, vamos ver em seguida, repé dos "processos de Moscou". Esse 1933 é evocativo da autora que se graduou em Vassar precisamente naquele ano. De minha parte, talvez até aquela estimativa de que li "O Grupo" em 1968 esteja errada. O certo é que, no máximo, no primeiro semestre de 1968, eu falava tanto em ler este livro que meu colega Ubiratan Silveira sugeriu que eu estava mesmo era anunciando a vontade de entrar num processo de psicoterapia de grupo.

Ocorre que, semanas atrás, li novamente o iluminado romance de Mary McCarthy, que me pareceu fruto de uma intelectual de porte, dona de seu tempo. Buscava rememorar a história e a minha história. Reconheço apenas traços de ambas. De minha parte, tinha presente que lera acerbas críticas ao mundo soviético, com referências aos "processos de Moscou", aquela inominável vergonha protagonizada pelo stalinismo e que tanto marcou as dissidências nos partidos comunistas do mundo inteiro. Hoje penso que os que tomaram contato com a violência que serviu como arremedo de justiça, com boas razões abandonaram o ideal de que a União Soviética poderia oferecer algum progresso moral para a humanidade.

Hoje em dia, costumo dizer que o socialismo ainda não é viável no planeta, pois a humanidade ainda não é capaz de gerar instituições que lhe deem suporte. Quando vejo amigos falando em algo estrutural que destruiria o capitalismo, exigindo de nós que tratemos de substituir esta formação econômico-social, penso que eles estão enganados, como eu estive. E estive mesmo muito enganado, pois foi só em meados dos anos 1990 que deixei de acreditar nas possibilidades do socialismo no planeta tão cedo, com implantação tão abrupta como o foi a Revolução Russa e outras revoluções de similar espectro (trocadilho intencional).

No que segue, vou citar algumas alusões aos julgamentos de Moscou, o problema da venda de sangue e, por fim, a crítica feita pela autora ao conceito de progresso, tema que tornou-se bastante em destaque na virada do milênio.

JULGAMENTOS DE MOSCOU
Página 252
Gus [que fora socialista e depois comunista] jamais tomou conhecimento dos pequenos grupos dissidentes, como os trotskistas, por exemplo, aos quais pertencia o Sr. Schneider, vizinho de Polly, ou os lovestonistas [oposição americana aos trotskistas] ou os misteístas (quem? perdidos?) - todo grande movimento, costumava ele dizer, tem sua cota de malucos,. Contudo, não ingressou no no partido ao voltar para a América.
:: nada mais normal para um americano daquele tempo ter suas simpatias pela União Soviética. Afinal não tinham-se ido nem 20 anos desde a revolução. Certos requebros ainda podiam ser considerados apenas ajustes temporários, em busca da construção do "homem novo". Mas já tinha rolado o massacre de Kronstaadt.

Página 253
[Gus] não mantinha polêmica com os infiéis, inclusive ela e, na verdade, pouco se importava em difundir suas ideias, ao contrário do pobre Sr. Schneider, que vivia tentando convertê-la ao trotskismo e, agora mesmo, andava excitadíssimo por causa dos grandes julgamentos de Moscou, os quais citava toda vez que encontrava Gus na escada. Estavam por demais longe do cenário, comentava Gus, para poderem julgar quem estava certo e quem estava errado - a história é que decidiria. Particularmente, achava aquilo tudo insignificante em comparação com a guerra da Espanha, algo que o excitava profundamente.
:: então estavam na parada os processos de Moscou e a Guerra Civil Espanhola, a antessala da II Guerra Mundial.

Página 266
[novamente a dupla Sr. Schneider e Gus em ação} Se não fosse sobre os julgamentos de Moscou, a conversa versaria sobre a guerra na Espanha. O Sr. Schneider estava ligado  um grupo chamado Poum [sic] e era também favorável aos anarquistas, e ambos, na opinião de Gus, estavam sabotando a guerra.
:: e a dupla de assuntos também... E o Poum era, se bem lembro (vou conferir na Wikipedia) o Partido Operário de Unificação Marxista. E, se naqueles tempos, podia-se pensar na unificação marxista, por que hoje, a exemplo do Uruguay, as esquerdas brasileñas não podem unir-se para enfrentar a direita nas eleições municipais?

Página 273
[Polly, garota envolvida com Gus falando:] Acho que você devia ter prestado mais atenção às conversas do Sr. Schneider sobre os julgamentos de Moscou.
:: E conclui, o que parece tornar-se uma maldição jogada sobre uma pilha de esquerdistas: "Alguns minutos antes, repentinamente, chegara a uma conclusão que explicava tudo: Gus era um ordinário. Essa era a lamentável verdade."

Página 282
O responsável [pela conversão do pai de Polly ao trotskismo] foi o Sr. Schneider, é claro. Uma vez terminado o [consertos e reformas] apartamento [de Polly], o Sr. Andrews ficou com muito tempo para matar enquanto Polly trabalhava no hospital e, aproveitando a situação pelas suas costas, Schneider fornecera-lhe pilhas de livrose de panfletos sobre os julgamentos de Moscou. 

VENDA DE SANGUE
Página 292
[Polly, agora abrigando o pai em sua casa, estava apertada de dinheiro] Naquela semana vendeu sangue ao laboratório, o mesmo fazendo nas duas semanas seguintes.
:: Então, hein? Compra e venda de sangue? Um bem altamente meritório? É, isto mesmo, este é o depoimento de Mary McCarthy. E meus leitores lembram da viagem do Reino Unido, nos anos 1950, quando a venda de sangue tornou-se oficial e a oferta caiu? Mercado também serve para desmotivar os doadores voluntários. No caso britânico, dizem que a turma que doava por puro altruísmo, empatia com os doentes, achou que poderia furtar-se desta ação, pois agora haveria pessoas interessadas no comércio. Mas a oferta teria caído, vendedores de sangue não conseguiram bater a quantidade anteriormente provista pelos bons cidadãos.

CRÍTICA AO CONCEITO DE PROGRESSO
Página 344
"Você ainda acredita no progresso?", indagou [Norine] gentilmente. "Já tinha esquecido que há gente que acredita nisso. É uma espécie de sucedâneo para a religião. Para vocês, o deus familiar são as vantagens oferecidas pelo progresso. Mas acontece que já ultrapassamos tudo isso. Uma mentalidade de primeira classe não pode mais aceitar o conceito de progresso." "Você sempre foi muito radical". protestou Priss. "Não tem admiração por certas coisas que Roosevelt está fazendo? A eletrificação rural, a administração da Redistribuição de Terras, o controle das colheitas, salários e horas de trabalho. Lógico que incorre em alguns erros...". "Eu ainda sou radical", interrompeu Norine, "mas agora sondo o significado das coisas, penetro até às raízes. E o New Deal [sic] não tem raízes, é superficial. Não tem nem mesmo o dinamismo do fascismo."
:: Olha só: com aquele pano de fundo dos grandes acontecimentos dos anos 1930, guerra civil na Espanha e guerra mundial, os processos de Moscou chegaram a colocar-se em segundo plano. Mas agora Norine joga de mão e dá as cartas: que diabos é este de progresso?, como falar em progresso com aquele pano de fundo? Mas sobrou para os liberais contemporâneos: a política econômica implementada por Roosevelt para combater a grande depressão e, depois, sua manutenção e ampliação para vencer a guerra. Obviamente, Norine ou Priss nada sabiam sobre as eleições brasileiras de 2018, ou sobre a dupla Reagan-Tatcher, com a revolução neo-liberal e seus libelos contra a social-democracia.

Quando li o livro, o Brasil vivia sob uma ditadura militar que se enfeitava de laivos de apoio da sociedade civil, a classe política puxa-saca e corrupta, bem como alguns idealistas de direita.

DdAB
P.S. ontem o jornalista Moisés Mendes escreveu o que segue em sua página no Facebook:
JORNALISTAS BOLSONARISTAS
Alguns colegas têm notado um fenômeno que exige acompanhamento: o crescimento do bolsonarismo no jornalismo.
Logo depois da eleição, os jornalistas de direita mais cuidadosos com a própria imagem se protegeram como isentões. Alguns até se afastaram de Bolsonaro como forma de sobrevivência.
Outros [jornalistas isentões] faziam jogo duplo, atacando Bolsonaro, mas ao mesmo tempo, em qualquer fala ou texto, sempre fazendo referências [desabonadoras] a Lula e Dilma. Bolsonaro isso, mas Lula aquilo.
O que se vê hoje é que muitos correm de volta para os braços da extrema direita, num movimento aparentemente suicida, porque Bolsonaro está em baixa.
O que aconteceu? O que eles ganham com isso? Os patrões determinaram? Tem algum acordo, alguma trégua?
Precisamos saber mais. Nenhum jornalista é bolsonarista impunemente.
abcz