terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Mino Carta, da Carta Capital

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Querido diário:

Comecei a escrever o que segue, podemos ver, ainda em outubro passado. Por razões que eu próprio desconheço, não o fiz... Então lá vai:

Na Carta Capital -que, por razões óbvias- designo como Capital dos Carta- de quarta-feira dia 24 de outubro, ou seja, data de circulação de capa, mas a mim chegou no dia 20 de outubro, sábado, oito dias antes da eleição que nos derrotou, Mino Carta disse impropérios que eu poderia jurar que ajudou a derrotar nosso candidato. SQN. A tiragem de sua revista é relativamente reduzida, de sorte que seu ódio ficou apenas entre os leitores.

Que disse o senhor Carta? Seu tradicional editorial às vezes ultrapassa uma página inteira e desta vez tem mais caráter de artigo assinado. As páginas 16 e 17 contêm suas diatribes, já anunciadas numa chamadinha de canto da capa da revista. Seleciono duas ou três passagens.

MC: [...] Estivemos com o velho e caríssimo amigo [Lula] sem a intenção de entrevistá-lo para evitar um novo processo, este por desobediência, conforme a ameaçadora determinação do supremo presidente dos golpistas de toga, aquele Toffoli que o próprio Lula indicou para o STF. Nem por isso deixamos de falar da situação na perspectiva do segundo turno e ele queixou-se do tom menor da campanha de Fernando Haddad.

Eu: queixou-se? E autorizou a publicação de seu descontentamento com o candidato que foi seu ministro da educação e, por sua -de Lula- indicação, eleito para prefeito de São Paulo, como sabemos? Queixou-se e mandou Mino publicar? OK, sigamos com Mino Carta:

MC:    Nada é pior que Bolsonaro e nada é mais desolador do que encontrar o grande líder popular brasileiro encarcerado. Pessoalmente, concordo não ser hora de autocríticas, mas também me parece não ser hora das vaias petistas que levaram Cid Gomes, no dia 15 [de outubro] ao destempero no decorrer de uma reunião entre presumíveis aliados. Assim se demolem as pontes lançadas pelo projeto de uma frente democrática. Muitos erros foram cometidos pelo caminho, sem perceber as pedras ou as ignorando.
   No pior momento de nossa deplorável história, o PT mostra toda a sua visceral incapacidade de ser o partido de esquerda de que o país necessita, no sentido, digamos assim, contemporâneo de pensamento de Norberto Bobbio, a agremiação determinada a defender a igualdade neste Brasil brutalmente desigual. Os últimos movimentos do petismo fracassado estão na censura praticada apressadamente em relação ao programa eleitoral, ao retirar as demandas que mais incomodavam a casa-grande, como remate de extrema covardia do candidato Fernando Haddad, disposto a elogiar um dos principais responsáveis pelo desgaste atual, o reles inquisidor Sergio Moro, torquemadazinho tão representativo da nossa Idade Média. E a traição cometida contra o próprio líder e fundador do partido, mesmo que Lula não se dê conta disso e da patética inutilidade de seu sacrifício.

Eu: Data da capa da revista: 24 de outubro. A eleição ainda não ocorrera, pois veríamos a derrota do lulismo e algumas parcas adjacências no dia 28. A eleição estava por ser definida. Mas Mino deu de presente a Bolsonaro as palavras "[...] como remate de extrema covardia do candidato Fernando Haddad [...]".  O pior é que há afirmações do sr. Mino com as quais sempre concordei. Mas nunca lhe/s neguei o caráter retrógrado dos defensores do nacionalismo, do nacional-desenvolvimentismo, essas coisas. Agora que somos grotescamente desiguais e a isto nos acostumamos desde a primeira infância, lá isto somos. E mais: aquela queixa contra os petistas que vaiaram Cid Gomes naquela oportunidade, o que levou seu irmão, irado, a viajar para a Europa, espairecendo pela conquista de apenas cerca de 10% dos votos do primeiro turno, aquela queixa, repito, está coberta de razão. E mais, o PT é um fracasso como partido articulador da esquerda brasileira, não foi, mas agora é. E mais ainda, se Lula tivesse sido candidato a presidente, estou certo de que teria vencido a eleição. Quase dois meses depois de ter lido esta tenebrosa afirmação de Mino Carta, ela ainda me dói nos olhos e, na época, fiquei imaginando se o autor não teria ficado louco, inclusive delirando sobre ler os pensamentos de Lula. Chega!

DdAB
Imagem: será fake news, dado o que disse sobre o signatário da foto o Mino?
E fiz a seguinte propaganda no Facebook:


Sou vingativo: li afirmações intoleráveis feitas por Mino Carta na sua revista (que apelidei de Capital dos Carta) em 20 de outubro, antevésperas do segundo turno das eleições. Vingança: divulgar na postagem daqui. E lá [aqui, no blog] se encontra a figura de que reclamo no quadradinho que segue.
A imagem pode conter: texto

domingo, 16 de dezembro de 2018

Desenvolvimento e Subdesenvolvimento: Arruda Jr. e eu

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Querido diário:

Tão perto, tão longe... Fazia dias que não te via... Decidi escrever para relatar que acabo de ler:

SAMPAIO JR., Plínio de Arruda. Desenvolvimentismo e neodesenvolvimentismo:
tragédia e farsa. Serviço social e sociedade. São Paulo, n. 112, p. 672-688, out./dez. 2012

Ele tem um parágrafo que me permite desdobrá-lo em forma de lista que é um verdadeiro be-a-bá da crítica ao modelo desenvolvimento-subdesenvolvimento:

[...] 
Reduzida à relação entre acumulação de capital e modernização dos padrões de consumo, a problemática do desenvolvimento transforma‐se em problemática do desenvolvimento capitalista. Antes de superar as insuficiências do desenvolvimentismo, o movimento revisionista negava a própria realidade do subdesenvolvimento. A relação necessária de condicionamento mútuo entre industrialização e formação da economia nacional estava definitivamente rompida. Enfim,
impugnava‐se a própria noção de subdesenvolvimento como uma realidade composta pela totalidade de nexos orgânicos entre: 

.1 controle da economia pelo capital internacional, 
.2 latifúndio, 
.3 desemprego estrutural, 
.4 marginalidade social, 
.5 inadequação tecnológica, 
.6 heterogeneidade estrutural, 
.7 estreiteza e precariedade do mercado interno, 
.8 controle do Estado por burguesias aculturadas,
.9 modernização dos padrões de consumo, 
10 posição subalterna na divisão internacional do trabalho, 
11 transferência de recursos ao exterior, 
12 tendência estrutural a concentração do progresso técnico, 
13 colonialismo interno, 
14 instabilidade monetária, 
15 tendência estrutural à estagnação, 
16 fragilidade fiscal, 
17 deterioração dos termos de troca, 
18 tendência estrutural a desequilíbrios externos, 
19 irracionalidade econômica, 
20 dependência tecnológica, financeira e cultural, 
21 precariedade dos centros internos de decisão, 
22 ameaça permanente de crises de reversão estrutural.

Insisto: a listagem em forma de lista fui eu que fiz apenas copiando as características de uma economia subdesenvolvida negadas pelo "movimento revisionista". Não vou me aprofundar. Mas declaro controverso o item 17, pois conheço evidências de longo prazo que sugerem que esta deterioração é cíclica. E o 6 - heterogeneidade estrutural - a meu ver abarca praticamente todas as demais. Como não queria dizer, mas disse Chico de Oliveira lá na minha amada "Crítica da razão dualista", o moderno se nutre do atrasado e o alimenta (mutatis mutandis).

DdAB
Gostei daquele mapa mundi fazendo o corte norte-sul. Mas não devemos esquecer que meu ideário de promoção do desenvolvimento tem:
.a governo mundial
.b implantação da renda básica universal
.c social-democracia capitalista com o imposto de Tobin de 5% do volume total de transações financeiras financiando a renda básica
.d gasto universal regressivo, isto é, primeiro água para todos, depois alimentos, depois esgotos, depois, etc., depois escolas, depois financiamento da pequena empresa, e por aí vai.