domingo, 28 de outubro de 2018

As Duas Derrotas de Lula

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Querido diário:

Parece óbvio que Lula foi derrotado em certo sentido, mas de outra forma -mais séria-, se ele tivesse sido candidato, seu carisma teria impedido que pobre (ou seja, gente que ganha menos de R$ 2.000 por mês) votasse no vencedor desta eleição malhada.

Parece evidente que deu-se um lawfare há anos contra Lula, especificamente 2016 com aquela decisão de prisão mesmo antes de ter todas as chances de defesa. Assim, o lawfare foi contra Lula, contra a candidatura de Lula, contra novo mandato presidencial de Lula. A tristeza do espetáculo é que o que vemos é tão mais desprezível precisamente por ter partido do poder judiciário, essa excrescência brasileira fornida nos últimos 30 ou 40 anos no mais desatobinado corporativismo cúmplice do poder legislativo, pois o salário de uns é indexado ao salário dos outros.

Mas não basta. Lula também foi derrotado na eleição, naquela estratégia -sabendo-se preso- de não ter iniciado a campanha eleitoral muito antes dos prazos legais. Na linguagem da teoria dos jogos, o superjogo era participar ou não da eleição. Ao decidir participar, obviamente, Lula estava aceitando as regras vigentes. O mínimo que andei querendo dele era que ele tivesse indicado Fernando Haddad lá atrás. Ainda assim, antes disto, eu desejei que ele tivesse ajudado a formar um frente de esquerda liderada por alguém alheio ao PT. Mas nem seria Ciro Gomes, alguém mágico, alguém tipo Renato Janine Ribeiro.

Agora Lula foi derrotado duas vezes. De pirraça, nós também derrubamos o rei das peças brancas!

DdAB
P.S. E aquele cavalo bem equilibrado do tabuleiro lá de cima representa os burros que, investidos da mais aguda falsa consciência, votaram em Jair Bolsonaro.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Apoio Final a Haddad: Bertold Brecht

Querido diário:

Mais um apoio insuspeito a Fernando Haddad para o cargo de presidente do Brasil. Agora, vem-nos da Alemanha: Bertold Brecht (*10.fev.1898; +14.ago.1956). Trata-se do extraordinário poema "Aos que Vão Nascer", com tradução de Geir Campos. Penso tê-lo ouvido recitado numa daquelas peças de teatro político dos anos 1960 e também mantido contato com essa tradução publicada na Revista Civilização Brasileira daqueles tempos.

Aos que Vão Nascer
(Bertold Brecht)
I
Realmente, eu vivo num tempo sombrio.
A inocente palavra é um despropósito. Uma fronte sem ruga
denota insensibilidade. Quem está rindo
é só porque não recebeu ainda
a notícia terrível.

Que tempo é este em que
uma conversa sobre árvores chega a ser falta,
pois implica silenciar sobre tantos crimes?
Esse que vai cruzando a rua, calmamente,
então já não está ao alcance dos amigos
necessitados?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Porém, acreditai-me: é puro acaso. Nada
do que faço me dá direito a isso, de comer a fartar-me.
Por acaso me poupam. (Se minha sorte acaba,
estou perdido.)

Dizem-me: – Vai comendo e vai bebendo! Alegra-te com o que tens!
Mas como hei de comer e beber, se
o que eu como é tirado a quem tem fome, e
meu copo d’água falta a quem tem sede?
Contudo eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser um sábio.
Nos velhos livros consta o que é sabedoria:
manter-se longe das lidas do mundo e o tempo breve
deixar correr sem medo.
Também saber passar sem violência,
pagar o mal com o bem,
os próprios desejos não realizar e sim esquecer,
conta-se como sabedoria.
Não posso nada disso:
realmente, eu vivo num tempo sombrio!

II
Às cidades cheguei em tempo de desordem,
com a fome imperando.
Junto aos homens cheguei em tempo de tumulto
e me rebelei com eles.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

Minha comida mastiguei entre refregas.
Para dormir deitei-me entre assassinos.
O amor eu exercia sem cuidado
e olhava sem paciência a natureza.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

As ruas do meu tempo iam dar no atoleiro.
A fala denunciava-me ao carrasco.
Bem pouco podia eu, mas os mandões
sem mim sentiam-se mais garantidos, eu esperava.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

Minguadas eram as forças. E a meta
ficava a grande distância;
claramente visível, conquanto para mim
difícil de alcançar.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

III
Vós, que vireis na crista da maré
em que nos afogamos,
pensai,
quando falardes em nossas fraquezas,
também no tempo sombrio
a que escapastes.

Vínhamos nós então mudando de país mais do que de sapatos,
em meio às lutas de classes, desesperados,
enquanto apenas injustiça havia e revolta nenhuma.

E entretanto sabíamos:
também o ódio à baixeza
endurece as feições,
também a raiva contra a injustiça
torna mais rouca a voz. Ah, e nós,
que pretendíamos preparar o terreno para a amizade,
nem bons amigos nós mesmos pudemos ser.
Mas vós, quando chegar a ocasião
de ser o homem um parceiro para o homem,
pensai em nós
com simpatia.


Não fica óbvio que Brecht também apoia Haddad?

DdAB

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Também Drummond Apoia Haddad

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Querido diário:

Carlos Drummond de Andrade (*31.out.1902; +17.ago.1987) escreveu tantos poemas que a gente até fica espantada com a coerência poética e política. Entre as mensagens que venho recebendo de apoio à candidatura que protagoniza a maior onda vermelha de todos os tempos, nomeadamente, a de Fernando Haddad à presidência da república do Brasil, destaca-se a que hoje vemos. O maior poeta. Mas não é apenas ele. Lá no P.S. vemos outro poema dele, desta vez, transmitido por Manoela d'Ávila, a candidata a vice-presidente, transmitido, repito, por ela a Luiz Inácio Lula da Silva. Por ora temos aqueles versos que me fazem rir e chorar: a canção que faça acordar os homens (os dorminhocos que já elegeram Jânio Quadros, Fernando Collor e votaram expressivamente em Aécio Neves) e adormecer a criançada, esses milhões de meninos de rua, cujo sono sempre tem sobressaltos, dado o ambiente aziago em que entram em vigília.

Canção Amiga
Carlos Drummond de Andrade

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me veem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Pois é isto: eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. Confirma-se a força da onda vermelha.

DdAB
P.S. Diz-se aqui que Manoela d"Ávila recitou o seguinte poema para Lula:

Mãos dadas
Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista pela janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Mais Apoios a Haddad: Antonio Callado


Querido diário:

Antônio Callado (*26.jan.1917; +28.jan.1997) foi um grande jornalista e romancista brasileiro. Conheci-o ao ler o romance "Quarup", que virou uma espécie de cult de minha geração lá dos anos finais da década dos 1960s. E depois veio o "Bar Don Juan", agora já mais claramente postado contra a ditadura militar, o que me leva a entender que ele apoia incondicionalmente a candidatura de Fernando Haddad à presidência da república dos estados unidos do brazil.

Pois foi em algum lugar que a memória não retrata que li em alguma entrevista ou matéria sobre o Pantanal Mato-grossense. Conta-nos ele que descia de barco um afluente do Rio Paraguay e, all of a sudden, todos viram um jacaré postado à margem do rio, observando o movimento de sobe-desce de canoas e animais de diferentes espécies. Um dos passageiros da canoa que transportava Antônio Callado, mal viu o réptil, puxou de sua espingarda e -mestre em caçadas, pelo que podemos depreender- deu um tiro precisamente na metade do caminho que une os dois olhos do bichinho, matando-o instantaneamente. Callado, estupefato, apenas balbuciou: "Mas o que é isto? Que fizeste, infeliz cidadão?" E relata que o indigitado cidadão disse apenas: "Ué, ele estava olhando pra cá."

Moral da história: dê arma para um animal e ele só pode dar um tiro na cara do outro.

DdAB

domingo, 21 de outubro de 2018

Bandeira Reforça Apoio a Haddad

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Querido diário:
Como sabemos, no outro dia, o grande poeta pernambucano Manuel Bandeira (*19.abr.1886, +13.out.1968) manifestou-se neste blog. Hipotecando solidariedade à candidatura de Fernando Haddad à presidência da república, recomendava-nos sufragá-la no próximo domingo. Tantas foram as manifestações de apreço que recebi que voltei a preocupar-me com o tema e vemos nova mensagem:

O Bicho
Manuel Bandeira

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

É óbvio, não é mesmo?, que um cara que escreveu um poema destes, numa denúncia desesperada com os maus tratos infligidos a outros seres humanos, só poderia votar em Haddad neste segundo turno.

DdAB

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Poeta Manuel Bandeira Declara Voto em Haddad


Querido diário:

Mesmo não sendo espírita, às vezes fico tangido por manifestações "do alto". Olha agora o que me foi permitido entender. No poema "Irene no Céu", Manuel Bandeira (*19.abr.1886, +13.out.1968)

Irene no Céu
(Manuel Bandeira)

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Parece óbvio que Bandeira entende que Irene era negra e não é preciso um cérebro arguto (como o meu, hahaha) para entender que Irene era empregada doméstica. Odiando o racismo, Bandeira hoje dá o maior apoio à candidatura de Fernando Haddad à presidência da república. Diz Bandeira: "Não dá pra votar em quem odeia negros e negras. E, a propósito, não vão achar nunca os culpados pelo assassinato da vereadora Marielle?"

Imagino Manuel Bandeira dirigindo-se à urna: "Os home não querem o Homem então é agora mesmo que eu voto nele."

DdAB
P.S. Se Irene de Tal era mesmo cozinheira, nada melhor para homenageá-la que esta pintura de Niko Pirosmanashvili (ver aqui).

sábado, 13 de outubro de 2018

Haddad é Vítima de uma Vulgar Sinédoque


Querido diário:

Sinédoque, lembra? Em meu caso, "tomar a parte pelo todo". Tem uma lição ligeira aqui. E uma refinada abordagem está aqui. Já começa que tomar Fernando Haddad por Lula é encrenca certa. Mas o principal é que muita gente toma uma banda podre do PT, um grupo responsável pelos "mal-feitos" do partido em seus anos de governo federal, como sendo o partido inteiro e especialmente seus melhores quadros. Meu ponto é que, embora o PT não seja mais aquela brastempe dos tempos antigos, seu projeto ainda é bom para a social-democracia brasileira, o que está mais perto, dadas as escolhas eleitorais que nos desafiam.

De outra parte, o problema em não escolher Haddad e sua coalizão neste segundo turno é uma aposta que os eleitores do candidato antagonista fazem. Eles confiam que, daqui a quatro anos, haverá novas eleições, tudo normal. Meu medo é que a adesão democrática do candidato antagonista é ralíssima. E que a maior chance de termos mesmo eleições para suceder o presidente que está para ser eleito é ver Haddad no poder.

E não posso deixar de ficar pasmo com a incapacidade generalizada de ouvir argumentos racionais sobre essas probabilidades subjetivas de golpe militar, ameaça à liberdade pessoal e efeitos de uma administração governamental sobre a desigualdade.

DdAB
Apêndice:
synecdochesynecdoche
 si-nek'-do-keeGk. "to take with something else"
Also sp. syndoche
intellectio, subintellectio, pars pro toto
intelleccion, figure of quick conceite

A whole is represented by naming one of its parts (genus named for species), or vice versa (species named for genus).
Examples
The rustler bragged he'd absconded with five hundred head of longhorns.
Both "head" and "longhorns" are parts of cattle that represent them as wholesListen, you've got to come take a look at my new set of wheels.
One refers to a vehicle in terms of some of its parts, "wheels"
"He shall think differently," the musketeer threatened, "when he feels the point of my steel."
A sword, the species, is represented by referring to its genus, "steel"
Related Figures

Related Topics of Invention
Sources:Ad Herennium 4.33.44-45 ("intellectio"); Quintilian 8.6.19-22; Trebizond 61r ("intellectio"); Susenbrotus (1540) 7-8 ("synecdoche," "intellectio"; Sherry (1550) 42 ("synecdoche," "intellectio," "intelleccion"); Peacham (1577) C3r; Fraunce (1588) 1.8-11; Putt. (1589) 196, 205 ("synecdoche," "figure of quick conceite"); Day 1599 78; Hoskins 1599 11; Melanchthon (1531) b1r


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Gideon O. Burton, Brigham Young University
Please cite "Silva Rhetoricae" (rhetoric.byu.edu) 
abcz

sábado, 6 de outubro de 2018

Haddad dará na Desigualdade


Querido diário:
Véspera da eleição para escolher entre Haddad e pistas para a sociedade igualitária e Bolsonaro, o fascismo de mercado...
DdAB