sexta-feira, 31 de agosto de 2018

A Tolice da Inteligência do Amoêdo


Querido diário:

Melhor votar num ser humano do que num rinoceronte? Hoje em dia, rinocerontes não mais podem ser candidatos a cargos eletivos no Brasil (mas aqui podiam, sabidamente o rinoceronte Cacareco, que inspirou até canção de carnaval). Mas tem muito bicho muito louco que ainda pode, como é o caso de Jair Bolsonaro. Costumo sugerir que os candidatos a tais cargos sejam obrigados a fazer um curso de teoria da escolha pública. Se esta lei já estivesse em vigor, tenho certeza de que João Amoêdo fugiria do tribunal eleitoral, fazendo-se acompanhar de Jair Bolsonaro.

E de onde me vem o título da postagem? Quem me lê sabe que estou falando do livro

SOUZA, Jessé (2015) A tolice da inteligência brasileira; ou como o país se deixa manipular pela elite. São Paulo: LeYa.

A palavra "inteligência" é usada por Jessé no sentido do latim ao russo de intelligentsia. E sua visão da cultura brasileira é que os intelectuais em geral são tolos, pois não conseguem entender que o verdadeiro problema do Brasil é a desigualdade. Eu sempre me esmero em tentar explicar que a chave da sociedade igualitária é o emprego. E, como não há a menor chance de se criarem empregos do setor privado para todos, a solução para se chegar ao igualitarismo é a criação de empregos públicos. Neste mundo, costumo dizer que o emprego do guarda de trânsito ao rapaz que poderia ter caído no tráfico de drogas não apenas pode ter-lhe salvo a vida, mas também ajudou a educar seu filho que tinha um talento extraordinário para o clarinete. O professor do clarinete, por seu turno, colocou seu pimpolho no curso de direção defensiva que emprega uma garota cuja filha estuda balé, e assim por diante, com a professora de balé e seu filho caçula...

Em compensação, nem falo de Bolsonaro. Mas falo de Amoêdo. Aqui o indigitado candidato a presidente da república diz:

O que queremos combater: combater a pobreza e não necessariamente a desigualdade. Somos, felizmente, diferentes por natureza. O combate à pobreza se faz com o crescimento e com a criação de riqueza, e não com sua distribuição.

Realmente imagino que nem ele acredita nessa ladainha. Na verdade, sei que há muitos economistas que nela acreditam e até há gente que vai votar nele precisamente por este tipo de visão do desenvolvimento econômico nos países de desenvolvimento institucional precário, como é o caso do Brasil contemporâneo. Quero dizer, tem gente que acha que, em combatendo a pobreza, então a distribuição da renda não carece de políticas públicas voltadas a redistribuições (como é o caso do gasto público em educação e saúde e da tributação progressiva). Por um instante, imaginemos que um governo neo-liberal conseguisse acabar com a pobreza no Brasil e deixasse as demais variáveis, como as que referi e tantas outras que têm esse viés de desigualdade: mais presos pobres que ricos proporcionalmente à população, mais doentes, mais analfabetos, tudo que é mazela é enviesada contra os pobres. Ainda assim, as medidas de desigualdade acusariam, reduzindo-se um tantinho. Claro que isto não iria adiantar absolutamente nada, um juiz seguindo ganhando 50 ou 100 vezes mais que um salário mínimo.

Ainda assim, nada melhor para acabar com a pobreza que a implantação da renda básica da cidadania de que nos fala a lei 10.835/2004, do segundo ano do primeiro governo Lula, que nem começou a ser implementada, pois houve um cochilo da macacada governante de então.

Aquela conversa de que "somos diferentes por natureza" lembra-me aquela manjadíssima comparação entre os sexos, o que modernamente nos permite falar na turma LGTBI+. Obviamente quem é da esquerda moderna adora a diferença, mas não os escandalosos desníveis na distribuição da renda. E qual é a legitimidade de retirar renda daqueles a quem o mercado ou o governo destinaram estipêndios escandalosos? É que, como já mostrei, quem gera renda  (valor adicionado) não é o trabalho, nem o capital, nem os insumos. Quem o faz é a população: quanto maior a população, tanto maior são o PIB, a renda e a demanda final.

Aquela última frase tem um conteúdo normativo odiento, mas positivamente ela revela apenas desconhecimento da operação aritmética de adição: imagina que um pé-de-chinelo recebe R$ 200 por mês. Se distribuirmos para ele mais oito notas de R$ 100, que acontece com sua situação? Beneficia-se com a distribuição, pois ele prefere R$ 1.000 a R$ 200.

Entendo, para concluir, que as próximas eleições vão testemunhar o maior confronto esquerda-direita dos tempos modernos. Nunca a direita esteve tão articulada. Se a esquerda perder esta eleição, que poderei dizer? Apelarei à explicação da falsa consciência e, num brado ainda mais forte, apelarei por mais education, education, education. Apenas com educação é que poderemos quebrar um tanto a inércia provocada na vida social por uma estrutura moldada com instituições deficientes.

DdAB
P.S. Dei umas editadinhas aqui e ali às 16h00 de 5 de setembro de 2018.
P.S.S. A notícia central inspiradora de meu comentário veio do The Intercept (aqui).

domingo, 26 de agosto de 2018

A Corrupção e o Futuro Governo Lula


Querido diário:

Comecei lá no Facebook:

Minha amiga Iara Ussan indagou em seu mural o que o futuro governo Lula fará de sorte a combater a corrupção. Lá escrevi o que segue:
Nas páginas 6-7 do plano de governo de Lula, lemos:
"Será preciso avançar na Reforma do Estado, desprivatizando e combatendo privilégios patrimonialistas ainda presentes em todos os Poderes e instituições públicas, e na Reforma do Sistema de Justiça, democratizando as estruturas do Poder Judiciário e do Ministério Público, impedindo abusos e aumentando o acesso à Justiça a todas as parcelas da população, em particular os mais pobres."

Página 14: "Vamos aperfeiçoar as leis e procedimentos que garantam cada vez maior transparência e prevenção à corrupção, bem como aprimorar os mecanismos de gestão e as boas práticas regulatórias dos órgãos públicos. Enfrentar a corrupção exige combate permanente à impunidade de corruptores e corruptos e enfrentar uma cultura histórica de apropriação do público pelos interesses privados, como os governos Lula e Dilma vinham fazendo, com medidas de fortalecimento dos órgãos de controle e de maior transparência da gestão pública. No entanto, a pauta do combate à corrupção não pode servir à criminalização da política: ela não legitima a adoção de julgamentos de exceção, o atropelamento dos direitos e garantias fundamentais ou a imposição de uma agenda programática que visa privatizar os serviços e o patrimônio público."

E na página 31, o que acho fundamental: a relação entre a política de drogas e a destruição da polícia e do judiciário:
"É premente alterar a política de drogas, para combater o que de fato é prioritário, o poder local armado despótico exercido sobre territórios e comunidades vulneráveis. É preciso enfrentar a rede de negócios ilegais que o tráfico internacional promove. O dinheiro decorrente do tráfico alimenta várias esferas da economia, viabiliza o acesso a armas em grande quantidade – que favorecem a violência letal – e financia a
corrupção e outras atividades criminosas."

Mas não é apenas isto. Minha antipatia pelo chavismo é grande, por entender que o que ocorre na Venezuela é absolutamente o antônimo de minha concepção de esquerda moderna.

-o-

Homenageando a corrupção que será combatida em nosso próximo governo, ia colocar por aqui um post da Deutsche Welle em que diz-se que os afilhados do presidente da Venezuela roubaram US$ 1,2 bilhões depositados na Suíça, conforme denuncia nos Estados Unidos um banqueiro em delação premiada.

DdAB
P.S. Naqueles tempos antigos, uma vez ou outra, li que Érico Veríssimo declarava-se totalmente contrário a "todas as ditaduras, de direita ou de esquerda". Eu vacilava, pois não via sinais de existência de uma ditadura de esquerda. Claro que, usando novas lentes, passei a entender que ainda hoje no mundo restam ditaduras de esquerda aqui e ali. Entendo que, se o truculento Nicolás Maduro (nem lembrava que o truculento se chama Nicolás) fosse mesmo decente, ele seria o primeiro a abdicar do poder e deixar o congresso venezuelano dialogar a fim de montar um governo de união nacional. Aquilo não é esquerda, mas um sindicato de ladrões.

sábado, 25 de agosto de 2018

Wendy e Maynard: a jornada de trabalho


Querido diário:

Todos sabem que Wendy Carlin é a viúva de meu querido orientador, o Mr. Andrew Glyn? E que ela e dezenas de associados escreveram um livro cujo objetivo é recolocar a ciência econômica ensinada nas faculdades de todo o mundo numa trilha de relevância na busca de explicações para os fenômenos econômicos da realidade realmente real? Tá aqui o livro:

CARLIN, Wendy & BOWLES, Samuel, eds. (2017) The economy; economics for a changing world. Oxford: Oxford University.

Eu cheguei a anunciar lá no Facebook minha intenção de ver a obra inovadora traduzida para o português, pensando em traduzir um ou dois capítulos myself. E uma plêiade formada por amigos e interessados manifestou interesse em juntar-se a mim naquele projeto. E Jorge Ussan aquiesceu em ser o editor de toda a parada. Escrevi para a Wendy, que recebeu o e-mail com galhardia desejando-me "all best". Mas disse haver um grupo de brasileiros já tratando do tema e que a iniciativa facebookiana não iria prosperar. Até hoje não ouvi falar nada sobre a tradução brasileira.

O que fiz foi decidir ler todo o livro, que também está disponível em papel, e o adquiri de uma livraria oficial. Pois bem. É mais fácil que falar: estou lendo-o muito lentamente. Mas hoje, nada mais que hoje, estou lendo a sexta seção do capítulo 3 - Hours of work and economic growth. E, mal entrei na seção, vi a citação de Maynard Keynes no artigo que era leitura obrigatória da disciplina de Introdução à Economia que lecionei durante uns bons anos:

Em 1930, John Maynard Keynes, um economista britânico, publicou um ensaio intitulado "Possibilidades econômicas para nossos netos", no qual sugeriu que, nos próximos 100 anos, a melhoria tecnológica nos tornaria, em média, cerca de oito vezes mais ricos. O que ele chamou de 'problema econômico', 'a luta pela subsistência', seria resolvido, e não teríamos que trabalhar mais do que, digamos, 15 horas por semana para satisfazer nossas necessidades econômicas. A questão que ele levantou foi: como vamos lidar com todo o tempo de lazer adicional?
A previsão de Keynes para a taxa de progresso tecnológico em países como o Reino Unido e os EUA tem sido aproximadamente correta, e as horas de trabalho caíram de fato. embora muito menos do que ele esperava - parece improvável que a jornada média de trabalho seja de 15 horas por semana até 2030.
(página 108 do livro citado; tradução do Google Tradutor revisada por mim; original depois de minha assinatura)

Primeiro, quem lê a lapela deste blog nos dias que correm (pode mudar, como já mudou) verá que falo no projeto de renda básica universal e seu complemento serviço municipal em que a negadinha deverá trabalhar três, precisamente três, horas por dia. Tirei daqui...

Pois foi o finado marido da Wendy que me levou a entender novas dimensões do igualitarismo numa sociedade e também incorporar a defesa da social-democracia como instrumento para chegar o mais perto possível da sociedade justa. Hoje anseio pela implantação do governo mundial e a simultânea criação da renda básica universal e do serviço municipal. A primeira garante que pessoas que não desejam trabalhar ainda assim devem participar da distribuição do produto (ver aqui uma propaganda da concepção de David Harvey de sociedade justa). Cito a primeira - Desigualdade intrínseca: todos têm direito ao resultado do esforço produtivo, independentemente da contribuição.

Motivado pela formulação que David Harvey apresenta e diz estar influenciada por (David?) Runciman, criei o mais atrevido modelo de minha carreira:

Y = (H)

isto é a renda total de um país é função de seu número de habitantes, conforme demonstro aqui. Para abreviar, naquela postagem, mostrei um cálculo elementar do coeficiente de determinação entre essas variáveis em um cross section mundial do ano de 2014 (e aproximados) e encontrei o animador número de 0,61 para 181 países. Para quem não sabe, as variações na população explicam 61% das variações no valor adicionado.

Voltando: sou até mais radical que aquela cláusula da inclusão de todos na distribuição da renda, dado que não são apenas os fatores de produção que contribuem para a produção: bebezinhos e velhotes também induzem o crescimento da renda. Por tudo isto, entendo que a jornada de trabalho de três horas diárias é a chave do igualitarismo, pois haverá emprego para todos, haverá escassez de empregos e, com ela, clamores por mais progresso tecnológico, isto é, clamores por maior produtividade do trabalho. Se os governantes aceitarem a proposta de lei que fiz ontem voltada à fixação do máximo de oito alunos por turma em todos os níveis de ensino e se os professores trabalharem suas três horas diárias, o emprego no magistério de todos os níveis deve ser multiplicado por cerca de 12 vezes. Une belèze, como diz um amigo brincalhão. E que faremos com tanto tempo livre? O que os ricos já fazem hoje em dia: produzir e consumir arte e praticar e presenciar a prática de esportes.

DdAB
P.S. A imagem lá de cima saiu-me ao pedir "vagabundagem". Não autentico sua procedência. Mas selecionei-a, pois ela me faz lembrar a piada do capitalista e o caipira. O primeiro vê o segundo com uma palhinha palitando os dentes, deitado com a cabeça no cangote de uma senhora, na maior vagabundagem. Enfurecido, o capitalista indaga, em tom moralista: "Você não se cansa de não fazer nada?" O proletário redargui: "Obeviamente nóis cansemo." Um tanto dono da situação com aquela resposta, o capitalista volta ao ataque: "E que vocês fazem quando cansam?" O proletário dá sua resposta final, a fim de acabar esta piada: "Então nóis discansemo".

P.S.S. Citação original da página 108 do livro-papel:
   In 1930, John Maynard Keynes, a British economist, published an essay entitled 'Economic possibilities for our grandchildren', in which he suggested that in the 100 years that would follow, technological improvement would make us, on average, about eight times better off. What he called 'the economic problem', 'the struggle for subsistence' would be solved, and we would not have to work more than, say, 15 hours per week to satisfy our economic needs. The question he raised was: how would we cope with all of the aditional leisure time?
   Keynes's prediction for the rate of technological progress in countries such as UK and US has been aproximately right, and working hours have indeed fallen. although much less than he expected - it seems unlikely that the average working hours will be 15 hours per week by 2030.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Educação é 2 ao Cubo, isto é, 8


Querido diário:

Educação é 2^3, dois ao cubo. A figura mostra a forma oficial da operação com potências. Quem sabe se esse 2^3 é 2 x 2 x 2 = 8? Quem sabe que 2^3 é o mesmíssimo dois ao cubo na linguagem Fortran? Quem sabe se aquela convenção de escrever o trezinho acima do 2 é que o número 3 é o expoente do número 2? Quem sabe que "quem" é pronome? Quem sabe que os advérbios de lugar não têm plural? E nem singular? E que todos os demais advérbios tampouco têm singular ou plural?

Acabei de ler no jornal Zero Hora (nem sempre o epíteto é Zerro Herra), em sua página 12, uma entrevista da sra. Priscila Cruz, presidente-executiva do movimento de líderes empresariais voltado a promover a elevação da qualidade do ensino. O jornal fala em "aprendizagem", mas - como sabemos- educação = ensino + aprendizagem. A gentil senhora dá uma entrevista que ocupa quatro colunas em cinco. Li diagonalmente, mas achei que a chamada feita para o restante da entrevista diz: "Precisamos de governos que tenham obsessão pelos resultados da educação". Eu diria que existe um absoluto consenso mundial que a educação está em primeiro lugar. Para um social-democrata/igualitarista de meu porte, os três níveis da educação chamados de ensino fundamental, ensino médio e ensino superior, além do estudo de pós-graduação strictu e latu sensu, devem ser gratuitos. A universidade: gratuita, a creche, a pós-creche, o ensino de adultos, crianças e meia-idade. Tudo tudinho deve ser gratuito. Um fundo nacional de educação, criado na linha do que já ouvi Cristóvão Buarque falando: tudo federalizado, tudo na conta do tesouro nacional.

Parece que foi no mural ou no blog de Flávio Comim que li um contrafactual pavoroso. Em minhas palavras, digamos que essa turma decidiu fazer um projeto piloto de educação decente na Vila Cruzeiro de Porto Alegre (que seus habitantes não se ofendam). Então começa pelos tênis das crianças ou as pias dos banheiros ou o salário decente aos professores, ou a pavimentação dos passeios e ruas, ou os assistentes sociais daquela criançada, também atendendo os familiares, psicólogos, dentistas, e por aí vai.

É matemático: dadas as propriedades do número oito (um vezes dois na três, a unidade, a dualidade e a filosofia platônica), recomendo que façam uma lei proibindo que as turmas tenham mais de oito alunos!

DdAB

domingo, 19 de agosto de 2018

Raízes de Meu Igualitarismo

Querido diário:

Estamos vivendo um momento crítico do Brasil e no mundo. Claro que me interessa mais o mundo, pois tenho bem claro que o destino do Brasil está intimamente ligado ao do mundo. O governo mundial é uma necessidade e juro que ele será implantado antes do final do século XXI. Tenho claro que a missão fundamental dele -governo mundial- é multivariada, se lembro de todo meu programa:

.a combate à deterioração ambiental
.b combate à explosão demográfica orientada pela pobreza
.c combate ao tráfico de pessoas
.d combate à lavagem de dinheiro
.e combate ao tráfico de armas
.f combato ao tráfico de drogas.

Pois então. Na sexta-feira fui a uma festa de despedida de meu querido amigo Antonio Albano de Freitas, doutor em economia pela UFRJ e que ruma para a New School for Social Research University para um programa de pós-doutorado. Antonio foi um dos mais diletos discípulos do prof. Adalmir Marquetti e muito me alegra declarar-me amigo de ambos, aliás, Adalmir Antonio Marquetti: são parentes... Na festa, conheci Julian, um inglês residente no Brasil que foi professor de sua língua nativa a ambos os dois e mais o prof. Henrique Morrone, que -bem entendi- já se encontra precisamente nessa mesma universidade também em programa de pós-doutorado.

Por circunstâncias da festa, falei ao prof. Julian que minha redação em inglês, embora portanto alguns erros gramaticais, recebeu elogios daqui e dali relativa a sua elegância. E rapidamente entendi que essa elegância nada mais era que a pobreza de meu vocabulário "em inglês", pois eu usei carradas de expressões latinas, ou seja, de meu português. E por outras circunstâncias festivas, conversei com meu querido ex-aluno César Conceição, um dos economistas de maior pedigree que conheço, pois filho de pai e mãe economistas. Conversa vai, conversa vem, César disse que gostaria de ler minha tese de doutorado, um calhamaço com quase 30 anos de idade. Que posso dizer, desaconselhá-lo de lê-la? Claro que não. E que fiz? Dei uma olhada nela, antes de remeter para ele (e já o fiz). E achei uma dessas palavras que caracterizam meu inglês. A certa altura, escrevi a palavra "palpable". É possível que eu a tivesse lido aqui ou ali, mas o certo é que palpável é português, possivelmente de origem latina e certamente incorporada a nosso português contemporâneo. Naquele tempo em que eu idolatrava o editor de texto WordPerfect, às vezes eu escrevia uma palavra no meio de meu texto em inglês, como se inglês fosse, ia ao dicionário do programa e constatava que ela existia mesmo. Cheguei mesmo a escrever a palavra "nitid" que foi glosada por alguém de respeito, o que foi um erro, pois meu dicionário Webster a consigna.

Olha daqui, olha dali, cheguei a este trechinho que apresento aqui com a tradução do Google e pequenas edições de myself. A palavra chave é o igualitarismo, a injustiça das sociedades em que crianças já nascem marcadas para sofrer, para lutar e para morrer. E dos velhos abandonados. E cada vez mais fico estupefato ao entender que este tipo de raciocínio não é comum a todos, especialmente economistas que tiveram boa carga de leitura na área da economia do desenvolvimento. Então tá aqui o começo de meu apreço pelas teses igualitaristas, da social-democracia e da criação-manutenção de um estado de bem-estar social

A partir da década de 1940, tornou-se cada vez mais claro que alguns países alcançaram padrões de vida muito altos, enquanto muitos outros permaneceram no nível de corresponder, na melhor das hipóteses, às necessidades vitais de suas populações. Duas ou três décadas de debate acadêmico foram responsáveis por uma mudança de ênfase na compreensão do desenvolvimento econômico. Em vez de enfatizar o crescimento de valor agregado, a nova concepção derivou das famosas três perguntas de Dudley Seers, citadas por Hunt (1989: 260): "[...] o que vem acontecendo com a pobreza? O que vem acontecendo com o desemprego? "O que tem acontecido com a desigualdade?" Este tipo de mudança na abordagem do desenvolvimento concentrou-se numa definição profundamente preocupada com as possibilidades dadas a cada indivíduo: vida longa com boa saúde e educação, bem como respeito pelos direitos e liberdade individuais.

Resumindo:

.a o que vem acontecendo com a pobreza?
.b o que vem acontecendo com o desemprego?
.c o que tem acontecido com a desigualdade?

É por este tipo de abordagem que vivo elogiando o conceito de sociedade justa delineado por John Rawls:

1. Todos têm igual direito à mais ampla liberdade compatível com a dos demais indivíduos
2. A desigualdade social e econômica deve ser organizada de modo a
a) permitir que as oportunidades de emprego sejam abertas a todos
b) gerar o maior benefício aos detentores de menos posses

DdAB
P. S. Ali em cima, temos a tradução do Google com minha revisão. Aqui está o original.

From the 1940s onwards, it became increasingly clear that some countries achieved very high standards of living, while many others remained at the level of matching, at best, the vital needs of their populations. Two or three decades of academic debate were responsible for a change of emphasis in the understanding of economic development. Instead of emphasizing value added growth, the new conception was derived from the famous three questions of Dudley Seers, as quoted by Hunt (1989:260): " [...] what has been happening to poverty? What has been happening to unemployment? What has been happening to inequality?" This type of shift in the approach to development focused on a definition deeply concerned with the possibilities given to each individual: long life with good health and education as well as respect for the individual rights and freedom.

P.S.S. Peguei aquela imagem lá de cima, retratando uma reunião do ministério do governo Temer, ao pedir ao Google Images a expressão: "virtudes do igualitarismo". E, para minha surpresa, vi imagens de críticos desta filosofia política. Acho que eles não entendem o que é igualitarismo. Um dia meu livro vai mostrar-lhes o que temos em vista. E o leitor do blog já viu esta exposição em inúmeras postagens: o emprego do varredor de rua permite-lhe colocar o filho no curso de violino e o professor de violino levar seu rebento ao dentista, que levará seu filho ao Beto Carreiro, que emprega dezenas de pessoas e seus filhos irão...

P.S.S.S. Além do mais, escrevi no mural do Facebook de Paulo de Tarso Pinheiro Machado:
Entendo que o Brasil e suas cidades só irão para frente se:
.a o governo central implementar a Lei 10.835/2004 que institui a renda básica da cidadania
.b as prefeituras criarem o "serviço municipal", voltado à prestação de serviços pessoais (cuidados com crianças e velhos) e ambientais.

.c uma coalizão social-democrata for capaz de financiar estes gastos com maior arrecadação do imposto de renda.

sábado, 18 de agosto de 2018

Haddad Dará de Dez

Resultado de imagem para haddad dá de dez
Querido diário:

Primeiro devemos notar que, a partir das eleições de 2014, não ficou claro qual é a percentagem que um candidato a presidente da república deve alcançar, a fim de ser declarado vencedor da eleição e, como tal, ser deixado em paz, a fim de cumprir seu mandato. Eu pensava que 50% + 1 voto daria a vitória a um deles e consagraria a derrota do outro. Ledo engano, pois o play-boy Aécio Neves alcançou a cifra de 48,36% e foi declarado vencedor. A presidenta Dilma Rousseff enfrentou oposição dele e -lamento sugerir- do próprio PT e, como tal, a república entrou num surto autoritário que a tornou acéfala, pois Aécio não foi empossado e Dilma o foi, mas ninguém levou esta investidura a sério.

Segundo, hoje entendo que, depois de ser preso em um processo que as gerações futuras vão estudar nos livros de história do Brasil como uma farsa, Lula acedeu às ideias defendidas neste blog de lançar seu candidato a vice-presidente (em sua chapa) e mostrar à sociedade seu plano de governo. O candidato, finalmente, veio a responder pelo nome de Fernando Haddad. E que esperar dos resultados eleitorais, comparando a votação de Fernando Haddad no segundo turno com a de Dilma? Será: Haddad deu de dez!

Terceiro: não nos iludamos. O Brasil não tem partidos políticos, termo usado na teoria política tradicional. Aqui há, como em tudo o mais, adaptações do mundo ligado na decência para este mundo perdido, eivado de desigualdade e, como tal, injustiça, injustiças. E o PT, o Haddad, o Presidente Lula? Não poderemos falar em decência decente, enquanto não passar meu medo de que um aliado importante na eleição que se avizinha for o Renan Calheiros (cheguei a temer que ele fosse o candidato a vice-presidente, ao invés de Fernando Haddad). O jornal Zero Hora, na edição de 18 e 19 de agosto, em sua página 9, mostra um grafo devastador. Dando-lhe a forma de tabela, chegamos à que segue:

Alianças entre os cinco maiores partidos políticos do Brasil para as eleições de governador de 2018









Partidos PDT PP PSDB MDB

PP 10 -



PSDB 0 11 -


MDB 0 9 5 -

PT 9 8 0 4








O que magoou-me como "faca me escavacando" (é o velho Drummond) foi observar que o PP é aliado do PT em oito (eu disse OITO) estados. Conforma-se a tese de que nossos partidos não existem, ou melhor, nossos partidos são deles. Nossos partidos não têm coerência ideológica. Para não falar nos ladrões que estão infiltrados em todos, todinhos, os partidos nacionais.

Em compensação, Zerro Herra, sempre ela, tem mais um atentado à lógica divertido, pois mostra o ódio a Lula, num nanico de R$ 3,50. Uma vez que Haddad dará de dez, essas incoerências lógicas dos inimigos do povo são mais divertidas. É que a cronista Rosane de Oliveira tem mais ideologia do que coerência inter e intra-artigos. No caso de hoje, pelo menos uma incoerência ideológica, numa nota com foto da manifestação popular em Brasília pressionando para Lula ser candidato. Citemos trechos da página 10 do jornal de 16.ago.2018:

BARULHO DE TAMBOR
  Na prática, o PT fez o primeiro comício da campanha, um dia antes do prazo legal, a pretexto de marcar o registro da candidatura de Lula a presidente da República.
[...]
   Faz parte dessa estratégia começar a campanha com Haddad circulando pelo Nordeste, território onde Lula ainda é rei.
[...]

Segue-se logicamente se houve um comício, o primeiro, na prática então também houve um começo que é o pri-primeiro, pré-primeiro, ou o bi-primeiro, tenho que pensar um pouco mais antes de definir.

Eppur si muove.

DdAB

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Emprego Público e Desigualdade

Querido diário:
Caíram-me nas mãos por meio do amigo do amigo do Facebook os dados da primeira coluna da tabela que nos encima. Por aqui, com a ajuda do prof. Adalmir Marquetti, fiz um gráfico mostrando a correlação entre as variáveis:

.a participação do emprego público no emprego total
.b índice de Gini da desigualdade na distribuição da renda.

Pois os tais dados que nos encimam mostram o número de funcionários públicos por 1.000 habitantes da população (ou alguma outra unidade que não capturei) e o mesmíssimo índice de Gini da distribuição da renda. Tive um pouco de vergonha de pedir novamente ao prof. Adalmir para colocar no gráfico e além de não saber fazer gráficos no Libre Office, agora também desaprendi de calcular o coeficiente de correlação.

Mas a moral da história não foge aos olhos: também tá na cara que essas duas colunas têm um razoável coeficiente de correlação. Meus leitores podem checar por si mesmos e, se forem gentis, podem enviar-me os resultados: gráfico e coeficiente de correlação.

A moral da história é que

.a tá na cara que os países em que o estado de bem-estar (social-democracia) não foi suficientemente desmantelado são mais igualitários que os demais

.b tá na cara que é melhor que um país abrace a social-democracia, em detrimento do chamado neo-liberalismo.

.c tá na cara que, na linha de Kenneth Boulding, as ameaças à sobrevivência da humanidade dadas pela

.a explosão demográfica
.b deterioração ambiental

(que é mais ou menos a mesma coisa) vão concretizar-se mesmo, caso o mundo não institucionalize o governo mundial orientado por um programa social-democrata.

Conclusão: parece evidente que o emprego público é fundamental para o igualitarismo. Parece evidente que o setor privado (dada a relação produto/capital vigente no mundo moderno) jamais poderá absorver toda a população em idade ativa. Dada esta escassez de empregos congênita do capitalismo mundial, falar em reduzir o emprego público é atentado ao bom-senso e ao igualitarismo.

DdAB
P.S. aquele unzinho do lado dos dados da Alemanha é para ressaltar que aquele índice de Gini foi retirado de outra fonte diversa da Wikipedia (que agora não lembro, é a idade...).
P.S.S. aproveito para dizer que ainda não vi um número suficiente de autocríticas daqueles que consideravam que o Brasil iria melhorar com o impeachment da presidenta Dilma. Agora parece óbvio que a manutenção dela no cargo teria exibido menos problemas do que o indigitado governo Temer. Estamos chegando no final do ano, no final do mandato roubado por uma interpretação capciosa da lei, uma vergonha judiciária, e as autocríticas devem começar a aparecer.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Sabedoria que Herra


Querido diário:

Burrinho sabido. Às vezes finjo-me de algo que não sei definir. Mas vim a aprender algo interessante nesses últimos dias. De minha parte, quanto mais estudo economia política, mais aguço minha percepção de que as instituições humanas (óbvio que tem instituições de abelhas, lobos, etc.) são o elemento fundamental da vida societária, condicionando seu passado e seu futuro. Boas instituições geram bons prospectos para a vida boa, para a qualidade de vida, para a social-democracia e, como tal, para a salvação do planeta das ameaças demográficas e ambientais.

Não faz muito tempo que aprendi, ao ler aqui e ali, que aquela democracia emergente do iluminismo, do século XIX, do pós-II Guerra Mundial, tudo aquilo, toda aquela social-democracia europeia e seus transbordamentos para a periferia do capitalismo, ou melhor, para a periferia das conquistas humanas e humanitárias do capitalismo desenvolvido, tudo aquilo viram-se crescentemente fadados ao fracasso precisamente por falta de aprofundamento:

. com a criação do governo mundial
. com a busca desenfreada pela criação de instituições democráticas universais.

Por isso mesmo, li con gusto o pensamento do dia do Almanaque Gaúcho, hoje na página 44 do jornal Zero Hora:

Um país não muda pela sua economia, pela sua política, nem mesmo pela sua ciência. Muda, sim, pela cultura. 
(Herbert José de Souza - 1935-1997, sociólogo brasileiro cuja morte completa 21 anos hoje).

Ou seja, Herbert José de Souza fala em cultura e eu entendo que ele fala em instituições. Então associo-o aos achados de Acemoglu e Robinson no livro "Por que as nações fracassam": países portadores de instituições extrativistas implantadas num mundo eivado de desigualdade, como este em que vimos os 16% de aumento que os juízes acabam de se auto-conceder, são condenados a viver péssimas vidas, sem esgotos, sem justiça, sem as bases de conforto que a vida moderna, numa sociedade social-democrata poderia oferecer.

Falar em desigualdade exige-me falar em Jessé de Souza com a sacada de que a tolice da intelligentsia brasileira é não entender que nosso verdadeiro problema é este e não a incipiente industrialização de hoje, a exagerada industrialização de ontem. Na sociedade desigual, todos são desiguais com relação aos serviços industriais de utilidade pública, como é o caso do saneamento: esgoto para todos, uma rede nacional de esgotos, vale mais que a reindustrialização e o delírio local da construção da indústria 4.0. Sem a cultura de que fala Herbert de Souza, sem a escola técnica, sem o domínio da leitura, da língua portuguesa e da matemática pré-universitária, não há salvação.

Em resumo, àquela litania do "get the prices right", não estamos sendo capazes de conseguir mudá-la para "get the institutions right", daí que até hoje tem economista querendo a reindustrialização.

Pois bem. E que tem a ver o que falei com a sabedoria de Herra, o jornal Zerro Herra, que leio diuturnamente? Tem a ver que o lado ridículo do exemplar de hoje encontra-se na coluna do velho Cláudio Moreno. Ele, volta e meia, diz ofensas a seus leitores. Hoje temos, em sua crônica quinzenal, na página 32 do veio principal:

[...]

Outra consequência do descaso com os provérbios foi o esquecimento de seu significado. Campeiam na internet várias 'releituras' [sic] em que idiotas pró-ativos tiram, das unhas dos pés, a interpretação 'verdadeira' [sic]. Dizia um desses animais: [...]


Nem preciso dizer o que diziam os animais, pois nosso burro lá de cima deixa bem claro: "Às vezes finjo-me de burro para não ser incomodado [ofendido] pelos que fingem ser inteligentes." E que posso dizer de um professor, do porte do Moreno, que desfere esses coices em sua crônica de resto educativa? Só posso concluir que a sabedoria de Zero Hora é marcada por desabotinadas tonteiras.

DdAB