segunda-feira, 25 de junho de 2018

Besteirol: passado e presente


Querido blog:

PASSADO: ouvi falar que, trabalhando com os dados malhados pela FIPE sobre o PIB sul-riograndense de 2017 (alijando-se a metodologia da FEE/IBGE), deu uma variação real de 104% (até 4% já seria um exagero), acompanhada de uma queda nominal de 25%.

PRESENTE: se essas cifras desabotinadas são verdadeiras, isto é, se os indigitados consultores da FIPE (liderados por  Eduardo Zylberstajn, LATTES ) disseram mesmo isto, podemos recorrer à propriedade da circularidade dos fatores de um número índice e clamar que os preços do Rio Grande do Sul tiveram um tombo estrambótico, capaz de deixar fora de combate qualquer economista de formação decente, de botar no corner os economistas de formação adequada, de meter pra baixo do tapete os economistas da... FIPE.

Pois senão vejamos. Os índices econômicos agregativos podem ou não gozar da propriedade da circularidade dos fatores:

IV = IP * IQ

onde IV é o índice de valor, dado pela razão entre o PIB calculado aos preços correntes de um ano t e o PIB calculado aos preços do ano anterior, t-1, IP é o índice de preços articulado de acordo com algum dos critérios considerados saudáveis, como é o caso dos índices referidos na nota (1), e IQ é o índice de quantidades (ou volume), caso também seja declarado saudável por observadores qualificados.

Neste caso, misturando ficção e realidade, ou seja, misturando o pesadelo do governo Sartori com a realidade da teoria dos números índices, temos

0,75 = IP x 1,04

permitindo-nos jurar (descontadas as burradas da FIPE) que o PIB do façanhudo estado mais meridional do Brasil caiu em 28% entre o ano t-1 e o ano t, ou seja, os indigitados anos de 2016 e 2017.

Caindo de volta na realidade crítica de ações tomadas no passado por políticos irresponsáveis, como os do executivo e legislativo estaduais, é claro que não pode ser. Tá na cara que uma queda de 28% no PIB seria sentida por todo mundo. E que ganhamos com este exercício contrafactual, se contrafactual foi? Vimos, primeiro, a desfaçatez deste governo e, segundo, vimos a ação oportunística da FIPE, que entrou numa bola dividida, recebendo um atestado de fundação dos professores do IPE de extração política de direita.

DdAB
P.S. Sabemos que os índices mais próximos ao mundo real, e por isso mesmo, não coincidentes com os índices teóricos (ou verdadeiros), são os índices de Laspeyres, Paasche e Törnqvist, sendo este último o de maior pedigree, pois deriva-se de funções de demanda e de custos teoricamente saudáveis. Mas, em nosso caso, dado o bíblico mistério mantido pela FIPE quando a sua metodologia de cálculo, podemos intuir tratar-se de índices de Fischer (que nada mais são que as médias geométricas não-ponderadas entre, por exemplo, IPL (índice de preços de Laspeyres) e IPP (índice de preços de Paasche), para os índices de preços e IQL (índice de quantidades de Laspeyres) e IQP (índice de quantidades de Paasche), para os índices do volume produzido.
P.S.S. Tirei a imagem que nos ilustra daqui. E aqui postei algumas considerações relevantes sobre meu "estar no mundo" e os resultados daquele teste lá de cima que eu mesmo fiz. Reproduzo aqui um blim-blim-blim que escrevi após ter digitado minha assinatura na postagem:
Aqui fui direcionado ao site de onde recolhi a imagem e vi o artigo que ela ilustra. E fui atrás da listagem classificatória, descobrindo que ela já se encontra em português aqui. Pedem-se asserções de: .a. discordo plenamente, .b. discordo, .c. concordo e .d. concordo plenamente. A figura acima resulta de meu próprio teste.
Aqui vai uma ideia de situações embaraçosas:
Pergunta: As mães podem ter carreiras profissionais, mas seu principal dever é o de ser donas de casa.
Resposta: concordo.[agora não lembro, mas imagina quais eram as alternativas...]
Nem vou explicar, inclusive por não ser mãe.
E tem mais: quem não sabe, e o autor do teste e mesmo o articulista da imagem, o que é teorema do eleitor mediano pode reportar-se a minhas milhares de postagens falando no tema.
Moral da história: sou de esquerda e sou pela liberdade, na verdade, coloco a liberdade em primeiro lugar. Mas, obviamente, minha posição pessoal não obedece apenas a estes dois eixos.
P.S.S.S. Então: classificando minha ideologia apenas de acordo com dois eixos (esquerda, direita; libertário, autoritário) caí nas coordenadas tipo (6; 5), ou seja, até sou mais de esquerda que libertário, mas olha bem a moral da história: sou mesmo é pela liberdade em primeiro e indiscutível lugar (e contra o relativismo cultural que joga-a para baixo do tapete). Pois bem, tive enormes dificuldades em classificar o velho Sartori e seus quatro asseclas nesse sistema de dois eixos (e os milhares de deputados que votaram pela extinção da FEE). Em minha opinião, esses rapazes são verdadeiramente de última... Claramente, essa turma é de direita e autoritária! Gente deste porte, dentro do MDB, PMDB e MDB', só pode mesmo é atender pelo nome de bigorrilho. 

sábado, 23 de junho de 2018

Refundação da FEE: pela contabilidade social regional

Querido blog:

A FEE faz muito mais que contabilidade social regional, faz, por exemplo, demografia e coleta outros indicadores econômicos, sócio-demográficos e ambientais. A lei que determinou seu fechamento -e de outras congêneres importantes para a vida societária gaúcha- foi uma vitória da má política sobre o bom planejamento governamental. Esta irresponsabilidade praticada por governantes e políticos da ocasião terá consequências que vão-se estender por, pelo menos, um lustro.

No presente momento, ao acompanhar a constatação de que a burrada governamental já encontrou sua primeira barreira com a divulgação do PIB de 2017, achei que seria oportuno falar alguma coisa mais sobre os demais capítulos da contabilidade social. Primeiro, pois foi praticamente por "essa ponta" que comecei minha vida profissional na FEE e em suas precursoras. Graças a esta experiência, um bom tempo depois, passei a lecionar contabilidade social no curso de graduação e graças ao material que fui compilando e processando para benefício dos alunos, criei um núcleo de capítulos que iriam integrar-se a outros temas e outros autores, gerando-se o livro

Mesoeconomia - Lições de Contabilidade Social A Mensuração do Esforço Produtivo da Sociedade. Duilio de Avila Bêrni; Vladimir Lautert (e colaboradores).

Pois nele, em sua página 75, vemos o quadro que segue. O título é informativo: existe uma nova contabilidade social envolvendo a referida contabilidade social regional. Essa visão não excessivamente pessoal mostra uma listagem de 14 capítulos que requerem esforços além das habilidades técnicas de uma instituição específica (se a FEE requeria ajuda e gastou décadas para montar sua rede, só imagina o que a FIPE poderá fazer, especialmente se considerarmos que em 2019 poderá ocorrer a refundação da FEE).

No primeiro dos 14 itens do Quadro 2.2, já temos alguma contribuição para entender o grau de irresponsabilidade da parte do governo de José Ivo Sartori em -primeiro- fechar a FEE e -segundo- ater-se ao chamado jornalístico de oferecer detalhes apenas para o PIB, o produto interno bruto (calculado -nova terminologia- a preços de consumidor). O Rio Grande do Sul precisa de uma instituição voltada à produção de estatísticas e que se incumba de calcular o valor adicionado anualmente pela sociedade local. Com este agregado econômico, pode-se avaliar o grau de eficiência com que os recursos da sociedade foram utilizados.

A grande questão, portanto, é que a contabilidade social calcula diversos agregados muito além do valor adicionado. Mas, de sua parte, ele próprio não se atém exclusivamente ao PIB. Naquela primeira linha do Quadro 2.2, vemos que se fala nas óticas do produto, da renda e da despesa. E na figura que segue vemos uma exposição didática da forma como esses três agregados se relacionam por meio da matriz de contabilidade social.
Pedagogicamente falando, o painel (a) mostra o que vemos como um empate no jogo da velha, mas aqueles cinco "x" estão demarcando um espaço sinalizado no painel (b). Trata-se de uma matriz quadrada que exibe nas linhas as contas dos produtores, dos (serviços dos) fatores e a das instituições. A convenção contábil adotada nesse contexto mostra que a cifra de 1.000 que lemos na célula c13 - primeira linha, terceira coluna - informa que os produtores venderam bens e serviços de uso intermediário às instituições (que, obviamente, os compraram). No painel (c), vemos o significado dessas cinco cifras. Cabe destacar o conteúdo da célula c33, em que observamos o registro das relações institucionais, que distingue a matriz de contabilidade social. Também merece destaque a constatação de que as células c11, c13 e c21 constituem a matriz de insumo-produto.

Na Tabela 3,5 vemos um desdobramento parcial das componentes das três óticas de cálculo do valor adicionado. Na ótica do produto, vemos o registro das remunerações dos fatores de produção de acordo com os setores econômicos que os pagam. Na ótica da renda, vemos como essas remunerações são transferidas às instituições que -de acordo com o modelo- autorizaram seus integrantes (as famílias e as pessoas que as constituem) a levar sua capacidade produtiva ao mercado de trabalho e aos demais mercados de fatores de produção. Por fim, na ótica da despesa, vemos como os setores econômicos (agricultura, indústria e serviços, no quadro e grandes desdobramentos nos cálculos concretos do IBGE e anteriormente à lei que a fechou da FEE) proveem as necessidades das instituições, fornecendo-lhes bens e serviços de uso final. Na tabela que segue, a ótica da despesa tem uma peculiaridade, mostrando os valores das transações feitas entre produtores e instituições líquidos de impostos indiretos e também líquidos de importações.
De volta ao Quadro 2.2, olhando suas demais linhas, observamos o registro de um programa de trabalho ainda não integralmente cumprido nem para o nível nacional nem para o estadual. E, se o estado do Rio Grande do Sul tem-se visto incapaz de calcular o mais simples, dado o fechamento da FEE, que dizer da possibilidade de completar o programa inteiro?

Farei um registro final da linha 4, nomeadamente, fazer comparações intertemporais entre agregados econômicos. Naturalmente, o grande desafio no cálculo do valor adicionado e suas três óticas de cálculo alcança sua plena relevância quando se dispõe de uma série construída com a mesma metodologia para fazer as comparações no valor nominal (isto é, aquele valor calculado aos preços correntes, podendo carregar, portanto, o resultado de processos inflacionários) de diferentes períodos. Esta comparação entre valores nominais é hábil para observar-se a mudança estrutural da economia, por exemplo, saber se a indústria de transformação está aumentando, reduzindo ou mantendo constante sua participação no produto interno bruto (1). Mas a comparação do total e de seus componentes do valor adicionado calculado a preços constantes é fundamental para eliminar dos cálculos o efeito dos aumentos dos preços das diferentes mercadorias e, com essas novas cifras, também o sendo para a avaliação do dinamismo dos diferentes componentes.

Na verdade, mesmo que não houvesse inflação, mas apenas alguma flutuação de preços respondendo a mudanças relativas na escassez de uns poucos produtos, enfrentaríamos o problema da correção, pois o que desejamos obter é a variação real, ou seja, variação na quantidade produzida, ou melhor, num índice da quantidade produzida. E aí entramos no mundo dos números índices, um dos capítulos mais interessantes da estatística econômica e também da teoria econômica, que inspira a construção de um índice chamado de índice verdadeiro.

DdAB
P.S. Uma visão objetiva dos custos sociais do fechamento da FEE encontra-se aqui.
P.S.S. E aqui a lista dos coautores:
Adalberto Alves Maia Neto, Adalmir Marquetti, Adelar Fochezatto, Ademir Barbosa Koucher, Adriana Nunes Ferreira, Alexandre Alves Porsse, André Moreira Cunha, Ani Reni Ew, Cássio Calvete, Daniela Magalhães Prates, Duilio de Avila Bêrni, Eduardo Finamore, Eduardo Grijó, Fernando Salgueiro Perobelli, Flávio Tosi Feijó, Gláucia Michel de Oliva, Henrique Morrone, João Rogério Sanson, Liderau dos Santos Marques Jr., Luciano Moraes Braga, Paulo de Andrade Jacinto, Riovaldo Mesquita, Ubaldino de Almeida Conceição, Vania Alberton, Vladimir Lautert. Agradecimento especial: David Pedroso Corrêa e Arlei Fachinello.
(1) Notar que, uma vez que o valor adicionado tem três óticas de cálculo, se estamos falando em participação dos setores em sua composição, podemos falar nas óticas do produto ou da despesa. Em geral essas participações serão diferentes, dando alguma indicação sobre a especialização setorial. Uma vez que a oferta total é igual à demanda total, temos PIB + Insumos Comprados = DF + Insumos Vendidos. Se o PIB é maior que a DF, segue-se que os insumos comprados são menores que os vendidos por setor. Isto significa que o setor é menos especializado que a média da economia em matéria de insumos intermediários.

    terça-feira, 19 de junho de 2018

    A Copa do Mundo e a Vocação Estelar do Brasil


    Querido blog:

    Quando eu estava de saída de meu emprego no Programa de Pós-Graduação em Economia da PUCRS, estava entrando, migrando para o Rio Grande do Sul o professor Cadu Lobo. Passaram-se os anos e, em 24 de junho de 2017, ele escreveu esta bela crônica em seu mural no FaceBook. Há dois dias, vi este escrito. E o guardo aqui, para minha posteridade. Para as demais copas do mundo que me foram dadas a ver. Para eu reler quando abater-me aquele pessimismo que às vezes toca a todos os corações dos brasileiros que se declararão também responsáveis pela vitória, pelo hexacampeonato. Por sinal, sou campeão desde 1958, ouvindo o jogo -final, presumo- em pleno rádio, talvez a Rádio Bandeirantes ou uma repetidora local, em Campo Grande do Matto Grosso. Depois, voltei a ser campeão em 1962, e mais uma vez em 1966, outra em 1970, outra em 1974, mais uma em 1978 e outra em 1982. Depois venci novamente em 1986 e 1990, além de 1994. Veio o 1998, nova e retumbante vitória, seguindo-se de 2002: vitória. Aí rapidamente acumularam-se vitórias em 2006, 2010, 2014 e agora já vou-me declarando vitorioso.

    A derrota de 7x1 para a Alemanha, em pleno Minerão, é vista pelos brasileiros como uma grande vergonha nacional. Não me parece ser o caso.
    Qual o grande campeão da história? Não há dúvida em lugar nenhum do mundo: no futebol, o Brasil é o maior vitorioso do planeta. Os títulos provam a nossa superioridade. O Pelé também prova.
    Mas não paramos por aí: o Brasil é o líder do futebol mundial nas vitórias e nas derrotas! Sim: ninguém perdeu de maneira tão espetacular quanto o Brasil. Arrisco a dizer que em todos – ou em quase todos – os grandes momentos da história do futebol, a seleção brasileira estava lá, vencendo ou perdendo de forma espetacular.
    O futebol sem o Brasil se tornaria quase tão sem graça quanto o cricket.
    O feito de perder de 7 a 1 diante de sua torcida em uma semifinal de Copa do Mundo só poderia ser do mesmo país que, contando com um escrete mágico, super favorito, tomou uma virada em pleno Maracanã em uma final de Copa inacreditável, que marcou o futebol e fez chorar uma geração inteira por décadas. O Maracanazo não ganhou um nome atoa. Talvez estejam ali os 45 minutos mais dramáticos da história do futebol.
    Sofremos uma goleada arrebatadora em outra final de Copa, e que não veio sozinha, mas acompanhada de uma tragédia, um drama sem precedentes: o melhor jogador do mundo teria sofrido uma convulsão horas antes da peleja. Se drama pouco é bobagem, escalaram o craque convulsionado, e todos os nossos jogadores olhavam a bola e Ronaldo, que poderia cair a qualquer momento, tremendo e babando na grande área do adversário. Em plena final de Copa do Mundo.
    Será que alguma seleção encantou tanto o planeta sem ter chegado a uma semifinal? A nossa de 82 caminhava em direção à glória eterna. Nossos jogadores encantavam e pareciam acreditar que gol feio não valia. Mas um único adversário, um único indivíduo mudou o destino de um elenco, uma filosofia, uma geração - fez três gols nos mágicos canarinhos. Enterrou a glória e criou o drama. O mundo, até hoje, venera o Brasil de 82. Mas venera também justamente pelo drama.
    Sem dizer da luta incansável do Zico, quatro anos depois, para ajudar o Brasil, apesar do grave problema no joelho. Chegou à Copa como um herói do talento e da dedicação. Entrava durante as partidas - pela metade - e resolvia! Nosso craque, nosso ídolo, nossa esperança. Assim que entrou em campo, durante o difícil jogo contra a França, fez um lançamento primoroso para o Branco, que foi derrubado dentro da área. Em poucos minutos, Zico criou o caminho da vitória. O mesmo caminho que, minutos depois, marcaria dramaticamente a sua carreira.
    Imaginem o futebol apenas com Argentina, Rússia e Nova Zelândia. Com todo respeito, imaginem as Copas com Alemanha, Dinamarca e Estados Unidos.
    Desculpem, mas a beleza das Copas se apoia no Brasil. Uma seleção que encanta, que vence como ninguém, com brilho e espetáculo. Que vence mais do que qualquer outra. E que, a cada derrota, enriquece a galeria dos grandes momentos do esporte, com drama e passionalidade.
    Os 7 a 1 apenas confirmam o óbvio: sem o Brasil, o mundo estaria assistindo à NBA.
    Rumo a mais um espetáculo em 2018!
    Isso foi o que nos disse Cadu. Vejamos agora o que diremos, pois a bola de futebol está em nossas mãos. Eu alerto, de qualquer jeito, que "seleção brasileira" não é sinônimo de "República Federativa do Brasil, nem mesmo de Estados Unidos do Brazil".

    DdAB

    segunda-feira, 18 de junho de 2018

    Testes de Memória e Ênfase


    Querido blog:

    Existem duas posições muito bem estabelecidas sobre o que fazer com aqueles lapsos de memória que volta-e-meia ocorrem a todos. Estudos feitos informalmente por mim levam a crer que a correlação entre os lapsos e a idade é unitária. Sendo r = 1, elevando ao quadrado, temos r^2 = 1, o que nos permite explicar o comportamento dos lapsos pela idade. As variações na idade explicam 100% das variações nos lapsos. Ou seja, quanto mais velho, garantidamente, maior será o número  de lapsos de memória por unidade de tempo.

    O primeiro grupo de agentes que recomenda determinada estratégia para combater lapsos de memória afirma que, quando um deles nos bombardeia, por exemplo, se agora não sei dizer se "à reviria" se escreve com crase, fiquemos pensando, de tudo que é jeito e posição na banquetinha do piano, sobre se a encrenca tem ou não tem crase, lembremos as regras da crase, busquemos na gramática mais próxima, telefonemos aos amigos, clamemos pela ajuda celeste, até que um lampejo de vitória surja em nossa mente e cheguemos ao conclusão correta: podia ter crase...

    O segundo grupo. ao qual me filiei, assim que ouvi falar na dissidência dos doutos e burroutos do primeiro, diz que, quando pinta a dúvida -burroutos é com f ou g, por exemplo- esqueçamos a questão e não nos recriminemos por tê-la mandado ao olvido.

    Mas aí começou novo drama, na verdade, aí é que iniciou o drama que resultou na presente postagem. Estava eu circulando por uma rua perto de minha moradia, quando vi um automóvel parado sobre a calçada e uma otoridade dirigindo-se ao motorista, mandando-o embora e falando: "É que aqui é só caminhão, aqui." Quer dizer, o advérbio de lugar "aqui" foi repetido apenas para enfatizar que não se pode estacionar naquele trecho da calçada.

    E aí é que a memória foi acionada, creio que com zelo. Lembrei de uma canção, oh, memória, de Paulinho da Viola que tem um caquinho oslt dizendo "A gente tá fazendo um sambinha, ". E tornei-me filosófico, do jeito que costumo ser ao usar o marcador "Besteirol" na postagem: é uma ênfase colocada em algo: aqui é o lugar que não pode, é que é apenas um sambinha, sem cachaça ou mesmo sem mulher...

    DdAB
    Errata: Aqui tá cheio de erros propositais e outros despropositados.

    P.S. Aquela encrenca de que 2 = 1 pode ser verdade que selecionei para nos ilustrar. Mas aqui postei uma viajação que mostra um caso em que ela é um sofisma: erro com aparência de verdade. Que é simétrico ao paradoxo: verdade com aparência de erro. Na postagem cujo link acabei de dar, cheguei à conclusão de que a = 2a. Então agora precisamos de mais uma operação antes de revelar um dos absurdos que pode ocorrer quando dividimos uma equação por zero: a/a = 2a/a ou seja 1 = 2.

    P.S.S. Fui ao Facebook e lá escrevi: O Face indagou-me no que eu tava pensando. E pensei que não me lembro. Mas lembrei que acabei de postar algo no blog sobre memória e esquecimento. Muito filosófico, tanto é que recebeu um dos marcadores como "Besteirol".

    P.S.S.S. Aquela frase sobre o primeiro grupo é um teste de memória ela própria.

    sexta-feira, 15 de junho de 2018

    Quando a Justiça, que é Falha, Falha Estrondosamente


    Querido blog:

    Há anos, quando eu ainda achava que ouvir futebol no domingo era mais importante que vencer as cargas de leitura que me eram dadas durante o mestrado em economia da UFRGS (isto é, 1975), falava-se em "bandeirinhas patriotas", que eram auxiliares do árbitro da partida que, por serem torcedores animados de um dos clubes levados à disputa, interpretavam as situações obscuras de modo a proteger seu clube amadamente enrustido.

    Hoje, a postagem de Rodrigo Ghiringhelli no Facebook levou-me a evocar aqueles tempos, pois tudo leva a crer que hoje no alto do poder judiciário nacional reside a mesma ideia de "juiz patriota", que julga tudo baseado em sua ideologia, em sua maneira de ver o que é melhor para a sociedade e não o que lhe manda a constituição no sentido de defendê-la, interpretá-la sem mudá-la.

    Quantas vezes já citei meu amado (finado) prof. Haralambos Simionidis, que disse entender que o verdadeiro problema do Brasil é a incompetência do poder judiciário? E quantas vezes já sugeri que qualquer decisão dos juízes que vença por maioria de 6x5 deveria ser motivo para demitir os cinco perdedores e trazer sangue novo.

    Tá aqui ela, e a própria ilustração que ele -Rodrigo- escolheu:



    Justiça?
    Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo
    A posse de Lula como Ministro da Casa Civil de Dilma foi barrada pelo STF (leia-se Gilmar Mendes). Depois disso, o precedente foi esquecido, e políticos respondendo a processo na justiça foram nomeados ministros por Temer.
    Lula começou a cumprir sua pena sem o trânsito em julgado do processo, mesmo que já haja uma maioria declarada no STF no sentido de que a execução antecipada da pena é inconstitucional. Aguardam um momento mais tranquilo para consolidar este entendimento, que nunca deveria ter mudado.
    O processo contra Lula tramitou em tempo recorde no TRF4. Depois o ritmo dos julgamentos voltou ao padrão tradicional de morosidade judicial.
    Lula, como outros acusados na Lava Jato, foi conduzido coercitivamente para prestar depoimento, mesmo não tendo se negado a depor. Agora o STF decide acertadamente que a condução coercitiva é inconstitucional.
    Não há como negar que Lula foi cobaia de tudo o que não pode ser feito em matéria processual penal. Antes e depois dele, o Supremo cumpre seu papel de guardião da Constituição.
    Sem esquecer que o grupo de ministros ativistas em matéria penal se mantém impávido na lógica de que os fins justificam os meios, e as favas com a Constituição. Mas são minoria. Já Gilmar é sempre o fiel da balança. Sempre contra Lula, sempre pelas garantias constitucionais.
    E siga la pelota!

    DdAB
    Ok, ok, não esqueci que Jessé Souza diz que a tolice da intelligentsia brasileira é não entender que o verdadeiro problema do Brasil é a desigualdade. Não acho que contradiga o velho Haralambos, pois o traço leniente e retardatário do sistema judiciário (do policial de rua ao ministro do chamado poder judiciário) não é outra coisa que atestado de desigualdade, tanto é que raramente um juiz daquela macacada recebe menos de 100 salários mínimos por mês.

    quarta-feira, 6 de junho de 2018

    Lições Regionais de Pedro Parente (pro velho Sartori)


    Querido blog:

    O sr. Pedro Parente já morou em Porto Alegre. Parece-me que uma dessas vezes foi uma espécie de interventor no jornal Zero Hora, a mando do Banco Safra, algo assim. Antes e depois exerceu cargos governamentais e do setor privado. Era um homem perfeito para a Petrobrás, ou salvá-la ou derrubá-la. E fez uma combinação entre essas duas opções extremas.

    E uma grande derrota deflagrada por ele foi a política de preços de ajustes frequentes, acompanhando a cotação do dólar (mau, mau, contagiando os preços internos de um jeito irreversível) e o preço do barril de petróleo (mau, mau, contagiando os preços internos pela mais política de todas as comóditis já inventada pelos dinossauros.

    Então essa política de preços de Parente, com reajustes quase instantâneos, não poderia deixar de infectar todos os preços da economia, numa indexação de dar inveja a Mário Henrique Simonsen, em suas loas à política salarial dos governos militares ("trocar a luta de classes por uma regrinha aritmética"). E isto lá é pouco?

    Mas tem ainda mais: ele perorou sobre a importância de elevar os lucros da Petrobrás para dar uma satisfação aos acionistas da empresa. E aí reside a piadinha: o maior acionista é mesmo o Tesouro Nacional, ou seja, o governo brasileiro, ou  seja, o povo brasileiro. Mas o maior acionista viveria bem com uma política de preços que lhe desse mais segurança em seu dia-a-dia.

    E o velho Sartori? Seu governo tem uma escancarada neurose de privatizar tudo o que pode de propriedade governamental no Rio Grande do Sul. E aí temos dois problemas:

    .a o maior acionista das empresas governamentais é, noblesse oblige, o povo. Este provavelmente não está nem aí para as privatizações

    .b segundo, o povo que não está nem aí para as privatizações, não tem a menor chance de trocar essa propriedade nominal por uma propriedade real.

    Moraleja: num país em que os 10% mais ricos detêm mais da metade da renda nacional, qual é o sentido de "privatizar"? Não é privatizar, é elitizar, é passar a propriedade para os mais ricos, aqueles para quem o índice de Gini da desigualdade na distribuição da riqueza é possivelmente de 0,8.

    Moral da moraleja: volta e meia sugiro a solução para reduzir o tamanho econômico do estado na produção de bens regulares ou de demérito: criar um fundo nacional de desenvolvimento (com a Petrobrás, o Banco do Brasil, a Cia Nacional de Álcalis e outras que já se foram ou ainda virão ou irão) do qual cada brasileiro, ao nascer, será dotado, digamos, com 1000 ações das quais não poderá desfazer-se nem deixar de herança, mas poderá alugar.

    Conclusão: parente é serpente. E o governo Sartori é um escárnio. Os intelectuais orgânicos do MDB gaúcho: Carlos Búrigo, Cleber Benvegnú, Márcio Biolchi, Fábio Branco.

    DdAB

    domingo, 3 de junho de 2018

    Sina e Escolhas


    Querido blog:

    Num livro que li recentemente (1, rodapé), ganhei uma atualização nas minhas milenares leituras daquele clube da psicanálise, psicologia, psiquiatria, astrologia mental e algumas outras seitas estranhas. E tem um recorte que talvez não tenha entendido direito e que talvez mais talvez ainda nem estivesse por lá escrito. Mas sigo procurando tão afanosamente quanto procurei a paz de espírito depois do rebaixamento do Grêmio.

    Pelo que li e pelo que não li e pelo que menti que li e pelo que imagino que li, cheguei àaspiRAdor de pó conclusão que uma forma de entender como a doença mental compromete as escolhas feitas pelo agente é fazermos uma analogia com uma doença como a enxaqueca ou mesmo, digamos, um defeito num braço. Mas a enxaqueca é mais "cerebral" e pode ajudar-nos a entender a questão. Como não é meu caso, não reconheço sofrer dessa condição, falo com base em, por assim dizer, experimentos mentais.

    Talvez até baseado em minhas adaptações a essa realidade mental e planejamento da vida, imagino que todos vamos aprendendo com nosso próprio sofrimento - da enxaqueca, da mania de perseguição, da preguiça - e começamos a valorizar os pródromos dos ataques dessas incomodações. E também aprendemos a computar as perdas de capacidades verificadas quando a crise se instala. Penso, em resumo, que é uma sina terrível, seguindo no exemplo, ser acossado periodicamente por enxaqueca e que esta fatalidade contribui para reduzir nosso leque de escolhas.

    Moraleja: parece que naquela linha de que a educação nos oferece as condições de estabelecermos nossos objetivos na vida e a energia para lutar por eles, agora estamos vendo que uma mente aberta -pela educação, claro- terá mais chance de alcançar mais compreensão pessoal, mais liberdade para fazer escolhas a partir de seu legado de sinas e, assim, mais felicidade.

    DdAB
    (1) BURNS, Tom (2014) Our necessary shadow; the nature and meaning of psychiatry. London: Penguin.
    Psiquiatria. Psicologia. Psicanálise.