sexta-feira, 11 de maio de 2018

Carbono versus Silício


Querido diário:

Todos sabemos que uma das minhas leituras literárias preferidas é a ficção científica. Não sei se meu primeiro tutor no assunto foi meu genial amigo Mauro Nogueira Oliveira, talvez tenha sido ele mesmo. O fato é que ele me emprestou alguns livros, entre eles a trilogia da Fundação, de Isaac Azimov que li precisamente no ano de 1979, outono. Eu era do hoje chamado PPGE/UFRGS e morava na Cidade Jardim, bairro Nonoai ou Teresópolis, quem sabe?

Mas o que passou a interessar-me desde meus anos de doutorado na aprazível cidade de Oxford foi a divulgação científica. Volta e meia faço estrambóticos elogios a Richard Dawkins e o livro "O Relojoeiro Cego". Depois li algumas outras obras de sua autoria, sempre com enlevo, até que ele tornou-se chato e repetitivo e até assustador em seu proselitismo contra a religião. Não que eu seja a favor da religião, ao contrário. Sou há anos da campanha "Ateus, saiam do armário", tema sobre o qual já publiquei alguma coisa neste very blog.

Em compensação, hoje vou fazer uma transcrição de um trecho de um livro que li entre 5 e 21 de fevereiro de 1996. Eu era professor do PPGE/UFSC, quando estava iniciando-se o mestrado em economia industrial. Geralmente não leio um livro em tão pouco tempo, ao contrário. Leio vários ao mesmo tempo, como já listei aqui no próprio blog. Pois então:

ATKINS, Peter (1995) The periodic kingdom; a journey into the land of the chemical elements. London: Weidenfeld and Nicholson. (Science Masters)

E na página 17, naturalmente, seguimos falando na Tabela Periódica de Mendeleiev. Então, se bem entendo a encrenca lá do alto, temos o carbono na posição que chamarei de (2,14) e imediatamente abaixo dele, o (3,14), nosso objeto de estudo, o silício (silicon para tradutores apressados...). Então o carbono é um não-metal e o silício é um semi-metal. Então, dããã, praticamente tudo é metal... E aí vem o Atkins:

Immediately to the south of carbon lies silicon. As is so often the case with neigbors, it is an uneasily ambiguous adjacency. Like carbon, but to a lesser degree, silicon is capable of forming some of the long-chain molecules needed in any process as complex as life, but it has not achieved a life of its own. It may be a sleeper in this regard, however. Carbon's principal products, living organisms, have struggled over a few billion years to establish mechanisms for the accumulation and dispersal of information (an austere distillation and definition of what we mean by "life"), and silicon has lain in wait. The recent alliance of the two regions, in which carbon-based organisms have developed the use of silicon-based artifacts for information technology, has resulted in the enslavement of silicon. However, such is the precocity of carbon's organisms that they are steadily developing silicon's latent powers, and one day silicon may well overturn the suzerainty of its northern neighbor and assume the dominant role. It certainly has long-term potential, for its metabolism and replication need not be as messy as its metabolism and replicaton need not be as messy as carbon's. Here we may see one of the most subtle interplays of alliances anywere in the kingdom, for silicon will not realize its potencial without the burden of development being carried out by carbon.

Então olha só. Não é impossível que aquela negadinha chamada por alguns de neo-malthusiana que deseja parar o desenvolvimento científico e tecnológico, sob a alegação de que o Terceiro Planeta de Sol não aguenta migre para um planeta retrógrado (com trocadilho...) e lá fique eternamente fazendo sua quimicazinha metabólica na base do carbono. Nós, os da esquerda progressista, vamos acelerar o desenvolvimento do atual sistema econômico, bater a escassez e criar naves que nos levem adiante, adiante, adiante. Num desses momentos, começaremos a fazer implantes cada vez mais íntimos, cada vez mais na base do silício. E esses implantes começarão a gerar nossos sucessores siderais. Mas permanece um probleminha: que fazer se o universo durar mesmo apenas uns 14 bilhões de anos? A solução, como ensinou-me Isaac Azimov será domesticar buracos negros e neles navegar, pulando de um universo a outro que nem uma guariba. Talvez então sejamos seres carbono-silício ou apenas silício, ou uma cruza entre eles, e não mais nos chamaríamos de humanos, mas adotaríamos um nome que um dia destes divulgarei.

DdAB
P.S. Dado meu desabotinado grau de ignorância sobre as implicações de tudo isto, achei oportuno colocar aqui o link que originou a figura que nos encima.

P.S.S.: Tradução do Google Tradutor (com pequena ajuda minha):
Imediatamente ao sul do carbono está o silício. Como tantas vezes acontece com os vizinhos, é uma adjacência desconfortável e ambígua. Como o carbono, mas em menor grau, o silício é capaz de formar algumas das moléculas de cadeia longa necessárias em qualquer processo tão complexo quanto a vida, mas não alcançou vida própria. Pode ser um dorminhoco a este respeito, no entanto. Os principais produtos do carbono, os organismos vivos, lutaram por alguns bilhões de anos para estabelecer mecanismos para o acúmulo e a dispersão de informações (uma destilação austera e definição do que entendemos por "vida"), e o silício ficou à espreita. A recente aliança das duas regiões, na qual os organismos baseados em carbono desenvolveram o uso de artefatos baseados em silício para a tecnologia da informação, resultou na escravização do silício. Contudo, tal é a precocidade dos organismos de carbono que eles estão constantemente desenvolvendo os poderes latentes do silício, e um dia este pode muito bem derrubar a suserania de seu vizinho do norte e assumir o papel dominante. Certamente ele tem um potencial de longo prazo, pois seu metabolismo e replicação não precisam ser tão confusos quanto o carbono. Aqui podemos ver um dos mais sutis arranjos de alianças no reino, pois o silício não realizará seu potencial sem o ônus do desenvolvimento ser realizado pelo carbono.

P.S.S. Lula presidente! E cadê o vice-presidente da chapa dele?

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