quinta-feira, 31 de maio de 2018

Parentes na Moda


Querido blog:

No dia 5 de abril passado, fiz uma postagem aqui. Eu reclamava da prisão de Lula naquela farsa de julgamento em que surgiu uma acusação esdrúxula baseada em delações e testemunhas de ocasião. Mas não era apenas isto. Tratei também do casuísmo criado há poucos anos precisamente para os juízes poderem enquadrar os políticos de esquerda envolvidos nas delações das empresas líderes do setor de construção no Brasil.

Meu ponto de vista é simples:

. um ex-presidente da república deve ter regalias, deferências precisamente pelo simbolismo representado pelo cargo: o homem presidiu a república!

. um tribunal colegiado de 11 juízes que toma decisões por escores de 6x5 prova que não se está falando de conhecimento objetivo (no sentido de Karl Popper). Se os juízes de cortes elevadas não podem garantir sua objetividade, que dizer de um juiz de primeira instância, emulando sentenças que ouvi serem chamadas de monocrátivas? [Mono - um juíz e cratos, o poder].

. Lula poderia perfeitamente estar em liberdade até alcançar o reconhecimento de sua inocência ainda em duas ou até mais instâncias de poder. A discricionaridade do juiz Sérgio Moro é flagrante. Este tipo de prisão sem culpa formada reconhecida é mais punição do que penalização. Ele quis humilhar nosso presidente. E tem gente que gosta disto.

Penso que um dos que considera razoável esta -para mim- perseguição a Lula. Pois olha aqui o que meu amigo de Facebook, que também leva meu sobrenome, sr. Ermínio Mauro Berni disse em resposta a argumentos similares que exerci naquelas bandas:

Como ficam todos os outros que tb estão presos e que poderiam beneficiar-se com a não prisão em 2 instancia? Ou haveria o uma terceira, uma quarta ou talvez até uma quinta instancia, alias muito bem lembrada por José Neumane ontem na Cultura, então fica a pergunta a lei tb é para todos? Ou apenas a quem tem dinheiro para pagar poupudos valores a advogados? Que alias segundo o proprio Lula não tem dinheiro algum? Bem fica no aguardo de tua elucidativa resposta, entretanto se o socialismo é tão adorado e amado pq não morar na Russia por exemplo?

Pelo que argumentei anteriormente, a primeira pergunta de Ermínio tem resposta fácil: não estamos falando de todos, apelas de Lula. Lula, ex-presidente da república não é qualquer um. Ele não está acima da lei, claro, mas não é disto que estamos falando. O juiz Moro tem a prerrogativa de manter a prisão, como também tem a de manter Lula em liberdade, enquanto o processo segue seu curso.

A pergunta número 2 de Ermínio, claro, é de brincadeira. Mas, para falar sério, entendo que essas quatro instâncias da justiça (justiça?) brasileira são excessivas. Não há razão para que não se reduzam a duas. Se assim fosse, é possível que não houvesse 100 milhões de processos encalhados nas mangas do judiciário. Então: duas instâncias, caro Ermínio, mas em ambas as decisões devem ser tomadas por colegiados de juízes e não por um único e enviesado juiz.

Na terceira pergunta de Ermínio, fica evidente que os polpudos valores pagos por Lula ou por terceiros mostram apenas que a justiça deste país é um caso de polícia... Na verdade não dá para deixar nem nas mãos da polícia, pois todo o sistema judiciário, do guarda de rua ao mais empolado juiz de Brasília incidem no mais desastroso grau de incompetência. Precisamos de uma reforma radical em todo o sistema judiciário, o que já irá contribuir para o surgimento da sociedade igualitária.

A última pergunta de Ermínio me parece de uma enorme má vontade com relação a mim e a outros esquerdistas. Por que não morar na Rússia? Talvez Ermínio não saiba que este exemplo da Rússia caiu da moda, pois este país não tem nada de esquerdista e nem de leve pode-se referir a ele como socialista. De minha parte -surprise, Ermínio- sou o primeiro a considerar que "não queremos socialismo, mas reformas democráticas que conduzam a ele", como me ensinou Gerônimo Machado e vivo repetindo. E agora vem a parte mais refinada de meu argumento: a humanidade em seu presente estágio evolucionário não está preparada para o socialismo. As instituições humanas que regem a superestrutura e a ideologia ainda não criaram mecanismos que tornem o homem amigo do homem a ponto de todos se unirem para construir uma formação econômico-social que supere o capitalismo.

Pois bem, eu prometera voltar ao tema e responder ao amigo do Facebook. Vou para lá propagandear o que coloquei por cá e avisá-lo para o caso de ele desejar replicar. E garanto que postarei sua resposta por aqui mesmo.

DdAB
A propósito, devemos encampar novamente o uso das cores do Brasil, eliminando os maus brasileiros que pedem a ditadura, os militares, o extermínio de minorias e tantas outras tropelias que nem vale a pena listá-las.
Do Facebook: Até agora, andei meio afastado daqui e nada pude falar sobre a greve dos caminhoneiros. E claro que sou a favor dela. Como disse um eminente filósifo: na alma de uma greve sempre estará guardada a mais potente fagulha da revolução! Seja como for, enfim dou uma resposta lá no blog a umas críticas um tanto primárias de meu parente -ou o que seja- Ermínio Mauro Berni (pois não estou achando forma de ver o algoritmo chamá-lo. Vou fazê-lo no inbox. 

terça-feira, 22 de maio de 2018

Narcisismo e Escolha Pública


Querido blog:

Não faz muito tempo que falei em categorias classificatórias de debilidade mental, pois andei me defrontando com comportamentos compatíveis no Facebook (no blog aqui). Pensando no ocorrido, pude observar espantoso aumento da amostra que eu estava estudando (hehehe) e cheguei à conclusão que precisava também falar no narcisismo, uma possível explicação para o uso tão corrente do 38o. estratagema delineado por Arthur Schopenhauer para "vencer um debate mesmo sem ter razão". Reproduzo-o para facilidade do leitor:

Nº 38. Parta para o ataque pessoal, insultando grosseiramente, tão logo perceba que seu oponente está com a vantagem. Partindo para o ataque pessoal você abandona o assunto por completo, passando a concentrar o seu ataque na pessoa, fazendo uso de observações ofensivas e malevolentes. Esta é uma técnica muito popular, porque requer pouca habilidade para ser colocada em prática.

Comoveu-me especificamente aquela parte do "fazendo observações ofensivas e malevolentes". De onde se originam as observações ofensivas e malevolentes? Não tenho dúvida de que um dos tipos mais perniciosos para a modelagem da escolha social é o comportamento narcisístico. E não tenho dúvida de que a mudança tecnológica e comportamental que levou à criação do smartphone potencializou esse comportamento. Uma vez que nem todos podem ou querem defender-se ou polemizar sobre maus termos, ofensas e malevolências, fiquei pensando na natureza psicológica daqueles que apelam para ridicularizar postagens ou comentários de pessoas portadoras de visões de mundo diversas das suas.

Pensando neste tipo de manifestação, que vejo às mancheias no Facebook e até em outras mídias, achei oportuno associar este tipo de tentativa de modelagem do "mundo lá fora", em que pessoas de diferentes níveis culturais, educacionais ou sociais emitem opiniões mais ou menos fundamentadas sobre os diversos temas que lhes tangencia a individualidade. E fiquei imaginando que algumas dessas pessoas -de acentuado grau de narcisismo, ou seja, donas da verdade, amantes de suas próprias crenças e opiniões- poderiam estar propensas a invalidar votos nas eleições de quem não consideram qualificados para se pronunciar em sentido contrário à visão de mundo do, a seu ver, cretino, estúpido, idiota, imbecil e oligofrênico.

Então evoquei o trabalho de Paulo Trigo Pereira (baixa direto o PDF clicando aqui), que volta e meia cito e recomendo a leitura para quem deseja ter uma visão interessante num texto curtinho, digamos, de 25 páginas, se a memória ajuda. Estamos no mundo da escolha pública em que se está aplicando o teorema do eleitor mediano adaptado a um de dimensões de escolha maior que um. Trigo, na verdade, fala em duas dimensões. Mas, claro, uma eleição real, com eleitores reais, uns narcisistas e outros, não, há múltiplas dimensões a serem consideradas. No exemplo do autor, fala-se em duas, convenientes sob o ponto de vista da pedagogia voltada a transmitir a beleza do modelo.

Pois o que é o teorema do eleitor mediano? Trata-se de um teorema tomado de empréstimo pela ciência política à ciência econômica. Harold Hotteling, tentando modelar a formação de preços num oligopólio, imaginou a situação, digamos, de um sorveteiro atendendo numa praia gaúcha (ou seja, praias traçadas com régua não-rombuda, quer dizer, linhas retas perfeitas). E sua demanda é bastante boa, de sorte que ele fica pensando em abrir nova carrocinha. A realidade mostra-se ao sorveteiro com um concorrente situado a, digamos 1km de distância de outro. Parece intuitivo que cada um deles, sob certas condições de contorno, vão tentar colocar a nova carrocinha bem na metade da distância que os separa. Na política, ocorrerá a mesma solução, expandindo-se para a captura de todos os eleitores de certo ponto de vista, chegando no eleitor mediano e mais um voto. Quem o fizer estará eleito.

Então temos a representação deste modelo ao longo de uma linha (a praia, algo assim). Mas o Paulo Trigo Pereira tratou de duas dimensões, facilmente capturáveis em um gráfico cartesiano: no eixo horizontal, coloca-se a questão de mais ou menos estado e no vertical mais ou menos federalismo (o modelo foi feito pensando na União Europeia). Então pode-se ser, digamos, a favor de maior interferência do estado na economia e nada de federalismo. Ou muito estado e total federalismo, e por aí vai o voto. Claro que, se -além destas duas questões- houver dezenas de outras, renda básica, voto facultativo, reforma tributária distribucionista, gasto público em educação e saúde, apenas o narcisista estará em condição de dizer o que deve ser feito.

Moraleja: se impedirmos o eleitor mediano de explicitar suas posições sobre todas as dimensões de uma disputa eleitoral, exigindo diplomas específicos para cada uma delas, os astrólogos, os barbeiros, os cachaceiros, os diáfanos, e assim por diante, até os zeugmatizadores, poucos sobrarão com direito ao voto, cabendo ao narcisista a responsabilidade de decidir quem vencerá a eleição, a contenda, o debate, o exame, etc. Em resumo, narcismo é um inimigo não apenas dos escolares americanos, mas principalmente da democracia!

DdAB
Lá a nos ilustrar temos um trechinho do artigo de Harold Hotelling que li nos tempos em que lecionava economia industrial no PPGE/UFRGS (e até microeconomia na graduação, que eu dava um monte de modelos prévios à teoria dos jogos, especialmente Cournot e Bertrand, para o estudo da formação do preço nos oligopólios). Claro que minha cópia já dançou, com a aposentadoria. Mas a fonte do que publico hoje é um interessante artigo alcançável ao se clicar aqui. E com uma referência fácil de campear.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Estúpidos, Imbecis, Idiotas (sem falar em políticos)


Querido blog:

É sabido que temos mais amigos inteligentes que menos. Mas também há uma plêiade composta por gente próxima que desfruta de pelo menos um dos três graus da debilidade mental que marca o título desta postagem. Eu mesmo, que tento evadir-me das três classificações, volta e meia preciso voltar ao dicionário para relembrar o alcance de cada uma. E hoje em dia sempre recorro ao dicio.com.br. E, quando este falha ou não me satisfaz, corro à Wikipedia. Então aqui vai em tipo normal o Dicio e em itálico + negrito a Wiki.

Estúpido - desprovido de inteligência; que expressa estupidez, ignorância: tarefa estúpida; sujeito estúpido; opinião estúpida.Aborrecido; que provoca tédio: filme estúpido. A estupidez é a qualidade ou condição de ser estúpido, ou a falta de inteligência, ao contrário de ser meramente ignorante ou inculto. Esta qualidade pode ser atribuída às ações do indivíduo, palavras ou crenças. O termo assim também pode se referir ao uso inadequado do juízo, ou insensibilidade a nuanças por uma pessoa que se julga inteligente.

Imbecil - desprovido de inteligência; que é tolo ou idiota [epa!]. Que expressa imbecilidade; que não tem sentido; banal. Imbecilidade é, na psiquiatria, o grau intermediário da tríade oligofrênica. Imbecilidade é um termo em desuso especialmente pela conotação ofensiva que adquiriu e vem sendo substituído por deficiência intelectual de grau moderado.

Idiota - pessoa sem inteligência, discernimento ou bom senso; ignorante.Quem diz tolices ou coisas sem nexo; tolo, estúpido.Quem é muito pretensioso ou demonstra uma vaidade excessiva; vaidoso. uma forma grave de dano cerebral que deixa o indivíduo com comportamentos equivalentes a o de uma criança com dois anos (idade mental), situando-se na escala de Q.I. com valores iguais ou inferiores a 20. [Já estamos no mundo da oligofrenia, também adjetivação que lembra certas posições de certas pessoas em certas discussões].

Pois li agora e não gostei. Parece haver uma hierarquia entre eles. Não lembro bem a ordem. Aqui vemos sinônimos entre uns e outros. Parece que meu velho Webster (de quem estou afastado por razões nobres) é que tem as respostas da melhor qualidade. O mais amargo da debilidade mental, especialmente os imbecis, é aquela adquirida, digamos, por excesso de inteligência (?), por desrespeito à opinião alheia, por incidir em vários estratagemas de Schopenhauer. No estratagema 8, no 27, no 30, no 32 e o último, o n. 38, de que andei sendo vítima nas eruditas redes sociais. E fiquei imaginando se a macacada do título indaga se Chopp En'hauer será mais uma das marcas do novo e festejado chope caseiro criado em 2018.

DdAB
O que segue foi recolhido daqui. Trata-se de um lindo resumo divulgado por Gloria Tellez (Mestre em Ciências Sociais pela UFBA/UESC, e Licenciada em Sociologia pela Universidade de Habana. Tem Certificação Internacional em Coaching, pela Lambent do Brasil e em Psicanálise pelo Psychoanalytic Center of California.)

Em “A Arte de Ter Razão”, Schopenhauer traçou 38 estratagemas para vencer qualquer discussão, mesmo quando se está errado. Nelas descreve estratégias para defender suas crenças, ridicularizar seus rivais e manipular as pessoas. São técnicas que têm efeito de curto prazo, uma vez que você consegue o seu objetivo no momento (convencer alguém a fazer/aceitar algo que não deseja) mas algum tempo depois, a vitória pode se voltar contra nós, quando a pessoa descobrir que foi manipulada. Achei na net este ótimo resumo dos 38 estratagemas. Conheça-os para se proteger daqueles que fazem uso deles.
Nº 1. Leve a proposição do seu oponente além dos seus limites naturais; exagere-a. Quanto mais geral a declaração do seu oponente se torna, mais objeções você pode encontrar contra ela. Quanto mais restritas as suas próprias proposições permanecem, mais fáceis elas são de defender.
Nº 2. Use significados diferentes das palavras do seu oponente para refutar a argumentação dele. Exemplo: a pessoa A diz: “Você não entende os mistérios da filosofia de Kant”. A pessoa B replica: “Ah, se é de mistérios que estamos falando, não tenho como participar dessa conversa”.
Nº 3. Ignore a proposição do seu oponente, destinada a referir-se a alguma coisa em particular. Ao invés disso, compreenda-a num sentido muito diverso, e em seguida refute-a. Ataque algo diferente do que foi dito.
Nº 4. Oculte a sua conclusão do seu oponente até o último momento. Semeie suas premissas aqui e ali durante a conversa. Faça com que o seu oponente concorde com elas em nenhuma ordem definida. Por essa rota oblíqua você oculta o seu objetivo até que tenha obtido do oponente todas as admissões necessárias para atingir o seu objetivo.
Nº 5. Use as crenças do seu oponente contra ele. Se o seu oponente recusa-se a aceitar as suas premissas, use as próprias premissas dele em seu favor. Por exemplo, se o seu oponente é membro de uma organização ou seita religiosa a que você não pertence, você pode empregar as opiniões declaradas desse grupo contra o oponente.
Nº 6. Deixe a questão confusa mudando as palavras do seu oponente ou aquilo que ele está procurando provar. Chame uma coisa por um nome diferente: diga “boa reputação” ao invés de “honra”, “virtude” ao invés de “virgindade”, “animais de sangue quente” ao invés de “vertebrados”.
Nº 7. Declare a sua proposição e demonstre a verdade dela fazendo ao oponente uma longa lista de perguntas. Fazendo muitas perguntas abrangentes ao mesmo tempo, você pode ocultar aquilo que está tentando fazer com que o seu oponente admita. Você em seguida avança o argumento a partir de uma admissão do oponente.
Nº 8. Deixe o seu oponente furioso. Uma pessoa enfurecida é menos capaz de usar o seu julgamento ou de perceber onde residem as suas vantagens.
Nº 9. Use as respostas que o seu oponente dá à sua pergunta de modo a alcançar conclusões diferentes ou opostas.
Nº 10. Se o seu oponente responde a todas as suas perguntas negativamente e recusa-se a ceder em qualquer ponto, peça que ele concorde com a versão oposta das suas premissas. Isso pode confundir o seu oponente quanto ao ponto em particular a respeito do qual você está tentando fazer com que ele ceda. Pois a natureza humana é tal que, se “A” e “B” estão refletindo em conjunto, e comunicando as suas opiniões um ao outro a respeito de qualquer assunto, e “A” percebe que os pensamentos de “B” sobre o mesmo assunto não são os mesmos que os seus, ele não começa revisando o seu próprio processo de raciocínio, a fim de descobrir qualquer erro que possa ter cometido, mas pressupõe que o erro tenha ocorrido no raciocínio de “B”.
Nº 11. Se o seu oponente admite a verdade de algumas de suas premissas, abstenha-se de pedir que ele concorde com a sua conclusão. Mais tarde introduza suas conclusões na conversa como coisa resolvida ou admitida por ele. O seu oponente e outros na assistência poderão ser levados a acreditar que foi de fato com a sua conclusão que ele concordou.
Nº 12. Se o argumento move-se para o terreno de idéias gerais que não têm nomes particulares, você deve usar uma linguagem ou metáfora que seja favorável à sua proposição. Exemplo: O que uma pessoa imparcial chamaria de “fé pessoal” ou “opção religiosa” é descrito pelo seu partidário como “santidade” ou “devoção”, e pelo seu oponente como “preconceito” ou “superstição”.
Nº 13. A fim de fazer com que o seu oponente aceite a sua proposição, apresente também uma contra-proposição oposta. Se o contraste for acentuado, seu oponente acabará aceitando a sua proposição para evitar parecer controverso. Exemplo: Se você quer que ele admita que um rapaz deve fazer absolutamente qualquer coisa que o seu pai manda que ele faça, pergunte se o seu adversário acredita que “devemos em tudo desobedecer aos nossos pais”. É como colocar o cinza ao lado do preto e chamá-lo de branco, ou colocar o cinza perto do branco e chamá-lo de preto.
Nº 14. Tente lograr o seu oponente. Se ele respondeu diversas de suas perguntas sem que as respostas inclinem-se em favor da sua conclusão, avance a sua conclusão triunfantemente, mesmo se não procede. Se o seu oponente for tímido ou estúpido, e se você possuir uma grande dose de descaramento e uma boa voz, essa técnica pode funcionar.
Nº 15. Se você quer apresentar uma proposição que é difícil de provar, coloque-a de lado por um momento. Ao invés disso, peça que o seu oponente aceite ou rejeite alguma proposição verdadeira, como se fosse através disso que você fosse extrair a sua prova. Se o seu oponente rejeitá-la suspeitando de alguma armadilha, você obtém o seu triunfo demonstrando o quão absurdo é o seu oponente rejeitar uma proposição que é obviamente verdadeira. Se o seu oponente aceitá-la, a razão permanece com você pelo momento. Você pode então ou tentar demonstrar a sua proposição original ou, como no Nº 14, agir como se a sua proposição original tivesse sido provada pelo que o seu oponente admitiu. Essa técnica requer um grau extremo de descaramento para que funcione, mas a experiência já comprovou inúmeras vezes a sua eficácia. A Controvérsia Dialética é a arte de debater, e debater de modo a sair por cima, quer você esteja certo ou não.
Nº 16. Quando o seu oponente apresenta uma proposição, considere-a inconsistente com as declarações, crenças, ações ou omissões do oponente. Exemplo: Se o seu oponente defende o suicídio, pergunte imediatamente: “Então porque você não se enforca?” Se ele observar que a sua cidade não é um lugar bom para se viver, pergunte: “Então por que você não parte no primeiro avião?”
Nº 17. Se o seu oponente pressioná-lo com uma evidência contrária, você pode com freqüência safar-se defendendo alguma distinção sutil. Tente encontrar algum significado subjacente ou ambigüidade na idéia do seu oponente.
Nº 18. Se o seu oponente abriu uma linha de argumentação que acabará levando inevitavelmente à sua derrota, não permita que ele a leve até a sua conclusão. Interrompa o debate, retire-se imediatamente ou leve o seu oponente a mudar de assunto.
Nº 19. Se o seu oponente desafiá-lo expressamente a apresentar uma objeção a algum ponto definido da sua argumentação e você não tem mais nada a dizer, tente fazer o argumento dele menos específico. Exemplo: Se ele pedir algum motivo pelo qual determinada hipótese não deva ser aceita, fale da falibilidade do conhecimento humano e ilustre com vários exemplos.
Nº 20. Se o seu oponente aceitou todas ou a maior parte das suas premissas, não peça que ele concorde diretamente com a sua conclusão. Ao contrário, exponha a conclusão você mesmo como se ela também tivesse sido admitida. Uma pessoa pode estar objetivamente com a razão, e mesmo assim sair por baixo na opinião dos observadores (e algumas vezes na sua própria opinião). Por exemplo, suponha que eu apresente uma prova para demonstrar uma afirmação minha. Se o meu adversário refutar a prova, dará a impressão de estar refutando também a afirmação – para a qual podem, no entanto, haver outras provas. Nesse caso, é claro, meu adversário e eu trocamos de posição: ele sai por cima quando, na verdade, está errado.
Nº 21. Quando o seu oponente utilizar um argumento superficial e você enxergar essa falsidade, refute-o estabelecendo a natureza superficial desse argumento. Melhor ainda é rebater o oponente com um contra-argumento tão superficial quanto o dele, só para vencê-lo – afinal de contas é em ganhar que você está interessado, não na verdade. Exemplo: Se o seu oponente apelar para o preconceito, para a emoção ou para ataques pessoais, devolva o ataque na mesma moeda.
Nº 22. Se o seu oponente pedir que você admita alguma coisa a partir da qual o ponto em discussão pode ser concluído, recuse-se a fazê-lo, declarando que ele incorre em petição de princípio.
Nº 23. Contradição e contenciosidade irritam a pessoa de modo a fazê-la exagerar suas declarações. Contradizer o seu oponente pode levá-lo a estender a sua declaração além dos limites, e quando você contradiz essa manifestação exagerada parece estar refutando a declaração original. Do modo correspondente, se o seu oponente tentar estender a sua própria declaração mais do que você tencionou, redefina os limites da sua declaração e afirme: “foi isso que eu disse, e não mais do que isso”.
Nº 24. Recorra a um falso silogismo (Silogismo: A=B e B=C, então A=C). Seu oponente faz uma declaração, e você por falsa inferência e distorção das idéias dele extrai à força proposições não-tencionadas e absurdas da afirmação original. Fica parecendo assim que a proposição do seu oponente trouxe à luz essas inconsistências, restando a impressão de que ela mesma foi indiretamente refutada.
Nº 25. Se o seu oponente está fazendo uma generalização, encontre uma instância que demonstre o contrário. Basta uma contradição válida para derrubar a proposição do seu oponente. Exemplo: “Todos os ruminantes tem chifres” é generalização que pode ser subvertida pela instância única do camelo.
Nº 26. Uma manobra brilhante é virar a mesa e utilizar os argumentos do seu oponente contra ele mesmo. Exemplo: Seu oponente declara: “fulano é ainda uma criança, você deve fazer-lhe uma concessão”. Você retruca: “justamente porque ele é criança devo corrigi-lo, caso contrário ele persistirá em seus maus hábitos”.
Nº 27. Se o seu oponente surpreender você ficando particularmente indignado diante de um argumento seu, insista nesse argumento com ainda maior zelo. Isso não apenas deixará o seu oponente furioso, mas vai deixar a impressão de que você tocou um ponto frágil na argumentação dele, e de que seu oponente está mais suscetível a um ataque no que diz respeito a esse ponto do que você esperava.
Nº 28. Quando a audiência consistir de indivíduos (ou uma pessoa) que não sejam autoridade no assunto, você pode levantar uma objeção inválida e o seu oponente parecerá ter sido derrotado aos olhos da sua audiência. Esta estratégia é particularmente efetiva quando a sua objeção faz o seu oponente parecer ridículo, ou quando a audiência ri. Se o seu oponente tiver de fazer uma longa, prolixa e complicada explicação para corrigi-lo, a audiência não estará disposta a ouvi-lo.
Nº 29. Se você perceber que está sendo vencido na argumentação, crie uma diversão – isto é, comece de repente a falar sobre outra coisa, como se isso tivesse importância na matéria em questão. Isso pode ser feito sem medo se a diversão mostrar ter alguma relação mesmo que genérica com a questão.
Nº 30. Apele para a autoridade ao invés de para a razão. Se o seu oponente respeita determinada autoridade ou especialista, cite essa autoridade para avançar o seu argumento. Se necessário, cite o que essa autoridade disse em outro sentido ou circunstância. Autoridades que o seu oponente não chegou a entender são em geral às que ele admira mais. Você pode, se necessário, não apenas distorcer as autoridades citadas em seu favor, mas também falsificá-las, citando algo inteiramente inventado por você. Falam sem pensar, e mesmo que depois percebam que estão errados, querem parecer o contrário. O interesse da verdade dá lugar aos interesses da vaidade: assim, por causa da vaidade, o que é verdadeiro deve parecer falso, e o falso verdadeiro.
Nº 31. Se sabe não ter uma resposta para os argumentos apresentados pelo seu oponente, você pode num golpe de ironia declarar-se um juiz incompetente. Exemplo: “O que você diz ultrapassa os meus pobres poderes de compreensão. Pode muito bem ser verdade, mas não sou capaz de entender, por isso abstenho-me de expressar qualquer opinião sobre o assunto”. Desta maneira você insinua à sua audiência, diante da qual permanece com uma boa imagem, de que o que seu oponente está dizendo é um contra-senso.
Nº 32. Um método rápido de livrar-se da declaração de um oponente, ou de colocá-la sob suspeita, é classificá-la debaixo de uma categoria odiosa. Exemplo: Você pode dizer: “Isso é fascismo”, ou “ateísmo”, ou “nazismo”, ou “superstição”. Fazendo essa objeção você está pressupondo tacitamente que: 1) a declaração em questão é idêntica à categoria mencionada ou está pelo menos contida nela; e 2) o sistema mencionado foi inteiramente rejeitado pela presente audiência.
Nº 33. Admita as premissas do seu oponente mas negue a sua conclusão. Exemplo: “Isso é muito bom na teoria, mas na prática não funciona”.
Nº 34. Se você apresenta uma pergunta ou um argumento e seu oponente não lhe dá uma resposta direta, contorna-os com outra pergunta ou tenta mudar de assunto, é sinal claro de que você atingiu um ponto fraco, por vezes de forma não intencional. Você, por assim dizer, reduziu seu oponente ao silêncio. Insista, portanto, ainda mais no ponto em questão, e não deixe que seu oponente o evite, mesmo quando você não sabe ainda em que consiste a fraqueza que acaba de descobrir. Ao seguirmos estas regras com esta finalidade, não devemos nos preocupar em qualquer sentido com a verdade objetiva, porque normalmente não sabemos onde está a verdade.
Nº 35. Ao invés de concentrar-se no intelecto do seu oponente ou no rigor de seus argumentos, concentre-se nos motivos dele. Se você conseguir fazer com que a opinião do seu oponente, caso se mostre verdadeira, pareça distintamente prejudicial ao seu próprio interesse, ele a abandonará imediatamente. Exemplo: Um clérigo está defendendo algum dogma filosófico. Demonstre que sua proposição contradiz alguma doutrina fundamental da sua igreja, e ele se verá forçado a abandonar o argumento.
Nº 36. Você pode também confundir e desconcertar seu oponente através de grandiloqüência pura e simples. Se seu adversário é fraco ou se não deseja aparentar não ter idéia sobre o que está falando, você pode impor facilmente sobre ele algum argumento que pareça profundo e erudito, ou soe como inquestionável.
Nº 37. Se seu oponente estiver certo mas, felizmente para você, apresentar uma prova deficiente, você pode com facilidade refutar a prova e em seguida alegar que refutou a posição inteira. É dessa forma que maus advogados perdem boas causas. Se seu oponente for incapaz de produzir uma prova irrefutável, você ganhou o dia.
Nº 38. Parta para o ataque pessoal, insultando grosseiramente, tão logo perceba que seu oponente está com a vantagem. Partindo para o ataque pessoal você abandona o assunto por completo, passando a concentrar o seu ataque na pessoa, fazendo uso de observações ofensivas e malevolentes. Esta é uma técnica muito popular, porque requer pouca habilidade para ser colocada em prática.
abcz

sábado, 19 de maio de 2018

Modelos Preditivos e Falta de Vergonha na Cara


Querido blog:

Dias atrás, vi duas fotos nas redes sociais e decidi reuni-las no que nos antecede. Primeiro era a revista IstoÉ, um lixo nacional que abandonei há muito tempo e que, para certificar-me de que não faliu, dou uma olhada nos consultórios médicos que, episodicamente, frequento. Segundo era a Míriam Leitão, comentarista da Rede Globo, parece que economista, sei lá. Fala sobre economia.

A figura que engendrei fala que IstoÉ está no clube dos que não acertam uma... Ou seja, só previsão errada. No caso, vemos o engajamento da revista na escolha de péssimos palpites para a sagração de um candidato de direita para as próximas eleições presidenciais. Da baixaria de vermos "a ofensiva de Aécio", o que podemos lembrar é aquela gravação em que, consciente de completa impunidade, ele discutia subornos e assassinatos. Quer dizer, se formos depender da IstoÉ para ungirmos um bom candidato a quebrar o imbroglio institucional que toma conta do Brasil, estamos -como se diz por aqui- mal-entaipados.

E a Míriam Leitão, prevendo sucesso no programa econômico da Argentina, sob a égide da "macroeconomia neoliberal", também nos deixa desconfortáveis, pois deu tudo errado. E mesmo no Brasil, que tem alguma semelhança ideológica e orloffiana com os vizinhos, parece que o abalo local e mundial vai mostrar que essa mesmíssima macroeconomia é um fracasso.

Falei sobre a falta de vergonha, mas pode ser exagero meu, pois é bem possível que os capistas da IstoÉ ou a própria Míriam nada tenham a ver com o método científico. Se tivessem/tiverem, precisarão cuidar de suas previsões e testar os resultados delas, confrontando-os com o que verdadeiramente aconteceu no mundo. Mas, desolado, reconheço que este tipo de comportamento não é compatível com as ações mesmo de uma plêiade de rematados economistas acadêmicos. Tem gente que não consegue ver que a desigualdade é perniciosa para a sociedade, que não consegue ver que sempre deve indagar-se sobre os reflexos de tais ou quais medidas de política econômica sobre a desigualdade.

DdAB

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Sartori e... Milhares de Outros Defensores de Asssaltos

Resultado de imagem para um milhão de empregos
Querido blog:

Vida mansa é ter uma cozinheira que vem em tua casa, faz gostosuras, lava a louça, essas coisas e vai embora. Pois hoje ela chegou afogueada: foi assaltada. Novamente. Eram pouco mais de 7h00, ela estava na parada de ônibus perto de casa. Dois rapazes, sem máscara, sem nada, andando em uma moto, pegaram tudo de uma turminha de trabalhadores.

Quando em 1994 Olívio Dutra foi candidato a governador do Rio Grande do Sul e perdeu para Antonio Brito, recomendei a pessoas de bem que o primeiro criasse um milhão de empregos na Brigada Militar, nossa força pública. Não criou, talvez tenha criado meia dúzia. Anos depois, mais afinado com a nomenklatura, sugeri ao futuro secretário da fazenda de Yeda Crisius (minha professora e colega), o prof. Aod Cunha, que criasse os mesmíssimos um milhão de empregos. Não criou.

É inconcebível que, governo após governo, os problemas permaneçam, roubos de pequenos, médios e grandes. Ladrões de todos os calibres. Uma tragédia, uma vida difícil, populares assaltando populares. Incompetência generalizada hoje e sempre. Não dá para aliviar os governadores, prefeitos e presidentes de esquerda: não dá para aliviar ninguém. Trata-se de um bando de irresponsáveis que não conseguem estabelecer prioridades para aquilo que realmente castiga o povo, ou seja, sua liberdade de sair à rua sem ser assaltado.

DdAB
Aquela foto que colhi do Google Images é uma homenagem à sem-vergonhice nacional epitomada pelo fato de que faltaram R$ 230 milhões para completar as obras da copa do mundo de 2014 na cidade do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que Sérgio Cabral, governador da época, ao invés de pensar no milhão de empregos no sul, afanou -ele mesmo- R$ 220 milhões.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Desindustrialização e Desigualdade

Resultado de imagem para abstracionismo


Querido blog:

O problema com o Brasil contemporâneo não é a desindustrialização, mas a desigualdade. Se apenas voltar a "industrializar" pode ser que a desigualdade fique "apenas" onde sempre esteve! Por contraste, caso o governo comece a gastar onde sempre deveu, é possível que se comece um novo estilo de estrutura econômica em que se formará capital fixo e capital humano: bens públicos e bens de mérito.

DdAB

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Os Intelectuais e a Prática

Querido blog:

Há tempos estou para fazer uma postagem sobre um número da revista Cult, o n.9 ano 21, edição especial de janeiro do ano corrente, especial, pois traz uma coletânea de textos publicados em vários números pretéritos na própria Cult sobre Hannah Arendt. Na página 48, fisguei um trechinho do artigo de Eduardo Jardim, intitulado Tensão entre a teoria e a prática.

[...]
A noção de que a teoria deve servir para uma intervenção transformadora na realidade marcou a compreensão que os cientistas sociais tiveram da sua vocação. Essa convicção se sustentava na aceitação de um dualismo de teoria e prática, presente ao longo da nossa tradição de pensamento, que, iniciada com os antigos, pretendeu impor à teoria a tarefa de produzir critérios para atuar na realidade - do que resultou uma compreensão instrumental da atividade intelectual. Hannah Arendt, por sua vez, propôs tratar da relação entre teoria e prática fora dos marcos tradicionais, o que a conduziu a tomar distância da solução 'ativista' adotada pela orientação dominante nas ciências sociais. Para ela, na atualidade, importa considerar o estatuto próprio da teoria, independentemente das tarefas que lhe são atribuídas, o pensamento sendo visto como a mais desinteressada das atividades espirituais.

E tenho sempre presente uma lição que aprendi há menos de um ano ao ver o filme argentino "Cidadão Ilustre". Essa personagem que enriqueceu na Espanha como escritor, ao visitar a cidade de nascença na Argentina, começou a ser requisitado a contribuir pecuniariamente para diversos e estrambóticos projetos. Um deles era um pai de um adolescente (?) excepcional pedindo que o escritor pagasse ao filho uma cadeira de rodas mais moderna do que a que se vê na tela. O escritor, negando-se a atender o pedido, disse apenas: "Não pense que não me preocupo com as questões sociais de meu tempo. Ocorre que escolhi outras frentes de combate e não esta da caridade cheek-to-cheek."

Não que isto seja um consolo para mim, que faço o que de melhor posso para mudar o mundo. Mas associo as duas passagens que me marcaram. Confronto-as com uma frase que aprendi com Jean Paul Sartre, na orelha daquele velho livro de sua própria autoria intitulado "Furacão sobre Cuba". Dizia-nos Sartre: "Quem não fizer tudo aquilo que pode, e mesmo mais do que pode, é como se não tivesse feito absolutamente nada". Quando li isto, fiquei pensando em como poderia eu fazer mais do que posso. Meu papel como intelectual e professor aposentado é fazer exatamente o que faço que posso chamar de "ligeiramente menos do que posso"... Afinal um heptagenário precisa aplicar-se em atividades individuais precisamente para manter essa condição e até ampliá-la para octogenário.

DdAB
P.S. Acabo de descobrir que o www.dicio.com.br não fala em heptagenário, mas em septuagenário.
P.S.S. Tá confirmado que o nome é septuagenário, como indica aquele rapaz de 70 anos que se dedica a atividades pouco edificantes, de acordo com a internet. Espero que seja fake-news.
P.S.S.S. Ali atrás declarei-me intelectual, pois:
.a uso óculos
.b tenho mais de 1.000 livros
.c tenho péssima caligrafia.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Carbono versus Silício


Querido diário:

Todos sabemos que uma das minhas leituras literárias preferidas é a ficção científica. Não sei se meu primeiro tutor no assunto foi meu genial amigo Mauro Nogueira Oliveira, talvez tenha sido ele mesmo. O fato é que ele me emprestou alguns livros, entre eles a trilogia da Fundação, de Isaac Azimov que li precisamente no ano de 1979, outono. Eu era do hoje chamado PPGE/UFRGS e morava na Cidade Jardim, bairro Nonoai ou Teresópolis, quem sabe?

Mas o que passou a interessar-me desde meus anos de doutorado na aprazível cidade de Oxford foi a divulgação científica. Volta e meia faço estrambóticos elogios a Richard Dawkins e o livro "O Relojoeiro Cego". Depois li algumas outras obras de sua autoria, sempre com enlevo, até que ele tornou-se chato e repetitivo e até assustador em seu proselitismo contra a religião. Não que eu seja a favor da religião, ao contrário. Sou há anos da campanha "Ateus, saiam do armário", tema sobre o qual já publiquei alguma coisa neste very blog.

Em compensação, hoje vou fazer uma transcrição de um trecho de um livro que li entre 5 e 21 de fevereiro de 1996. Eu era professor do PPGE/UFSC, quando estava iniciando-se o mestrado em economia industrial. Geralmente não leio um livro em tão pouco tempo, ao contrário. Leio vários ao mesmo tempo, como já listei aqui no próprio blog. Pois então:

ATKINS, Peter (1995) The periodic kingdom; a journey into the land of the chemical elements. London: Weidenfeld and Nicholson. (Science Masters)

E na página 17, naturalmente, seguimos falando na Tabela Periódica de Mendeleiev. Então, se bem entendo a encrenca lá do alto, temos o carbono na posição que chamarei de (2,14) e imediatamente abaixo dele, o (3,14), nosso objeto de estudo, o silício (silicon para tradutores apressados...). Então o carbono é um não-metal e o silício é um semi-metal. Então, dããã, praticamente tudo é metal... E aí vem o Atkins:

Immediately to the south of carbon lies silicon. As is so often the case with neigbors, it is an uneasily ambiguous adjacency. Like carbon, but to a lesser degree, silicon is capable of forming some of the long-chain molecules needed in any process as complex as life, but it has not achieved a life of its own. It may be a sleeper in this regard, however. Carbon's principal products, living organisms, have struggled over a few billion years to establish mechanisms for the accumulation and dispersal of information (an austere distillation and definition of what we mean by "life"), and silicon has lain in wait. The recent alliance of the two regions, in which carbon-based organisms have developed the use of silicon-based artifacts for information technology, has resulted in the enslavement of silicon. However, such is the precocity of carbon's organisms that they are steadily developing silicon's latent powers, and one day silicon may well overturn the suzerainty of its northern neighbor and assume the dominant role. It certainly has long-term potential, for its metabolism and replication need not be as messy as its metabolism and replicaton need not be as messy as carbon's. Here we may see one of the most subtle interplays of alliances anywere in the kingdom, for silicon will not realize its potencial without the burden of development being carried out by carbon.

Então olha só. Não é impossível que aquela negadinha chamada por alguns de neo-malthusiana que deseja parar o desenvolvimento científico e tecnológico, sob a alegação de que o Terceiro Planeta de Sol não aguenta migre para um planeta retrógrado (com trocadilho...) e lá fique eternamente fazendo sua quimicazinha metabólica na base do carbono. Nós, os da esquerda progressista, vamos acelerar o desenvolvimento do atual sistema econômico, bater a escassez e criar naves que nos levem adiante, adiante, adiante. Num desses momentos, começaremos a fazer implantes cada vez mais íntimos, cada vez mais na base do silício. E esses implantes começarão a gerar nossos sucessores siderais. Mas permanece um probleminha: que fazer se o universo durar mesmo apenas uns 14 bilhões de anos? A solução, como ensinou-me Isaac Azimov será domesticar buracos negros e neles navegar, pulando de um universo a outro que nem uma guariba. Talvez então sejamos seres carbono-silício ou apenas silício, ou uma cruza entre eles, e não mais nos chamaríamos de humanos, mas adotaríamos um nome que um dia destes divulgarei.

DdAB
P.S. Dado meu desabotinado grau de ignorância sobre as implicações de tudo isto, achei oportuno colocar aqui o link que originou a figura que nos encima.

P.S.S.: Tradução do Google Tradutor (com pequena ajuda minha):
Imediatamente ao sul do carbono está o silício. Como tantas vezes acontece com os vizinhos, é uma adjacência desconfortável e ambígua. Como o carbono, mas em menor grau, o silício é capaz de formar algumas das moléculas de cadeia longa necessárias em qualquer processo tão complexo quanto a vida, mas não alcançou vida própria. Pode ser um dorminhoco a este respeito, no entanto. Os principais produtos do carbono, os organismos vivos, lutaram por alguns bilhões de anos para estabelecer mecanismos para o acúmulo e a dispersão de informações (uma destilação austera e definição do que entendemos por "vida"), e o silício ficou à espreita. A recente aliança das duas regiões, na qual os organismos baseados em carbono desenvolveram o uso de artefatos baseados em silício para a tecnologia da informação, resultou na escravização do silício. Contudo, tal é a precocidade dos organismos de carbono que eles estão constantemente desenvolvendo os poderes latentes do silício, e um dia este pode muito bem derrubar a suserania de seu vizinho do norte e assumir o papel dominante. Certamente ele tem um potencial de longo prazo, pois seu metabolismo e replicação não precisam ser tão confusos quanto o carbono. Aqui podemos ver um dos mais sutis arranjos de alianças no reino, pois o silício não realizará seu potencial sem o ônus do desenvolvimento ser realizado pelo carbono.

P.S.S. Lula presidente! E cadê o vice-presidente da chapa dele?

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Talo, Marcos e a Pegada do Processo Eleitoral


Querido diário:

Estou acompanhando cada vez com mais interesse as manifestações do Facebook sobre o futuro da candidatura Lula para a presidência da república. Selecionei dois textos que falam por si mesmos:

Talo Pereyra
7 de maio às 20:06 ·
Sou dos que acreditam que o PT está certo em defender Lula até as últimas consequências. Todavia, devo dizer que a tática petista, correta no essencial, não precisa de comentários emocionais em que se ataque o Ciro Gomes, como os proferidos por Gleisi Hoffmann "nem com reza brava" e reproduzidos à exaustão pelos setores mais despolitizados do PT (refiro-me aos da turma do "Lula ou nada"). Não deposito nenhuma confiança no judiciário. Mesmo que nos próximos dias Lula recupere a sua liberdade, posto que a sua prisão é uma das muitas arbitrariedades que temos visto no processo do famigerado triplex, desmascarado em ação ousada e brilhante pelo MTST de Boulos que mostrou que não havia "espaço gourmet" nem "elevador privativo" escancarando a farsa, haverá ainda que superar dificuldades enormes (quase que intransponíveis) para que o PT possa homologar a almejada candidatura do Lula. Isso posto, parece-me um profundo equívoco de Gleisi e outros dirigentes petistas isolar o PT das complexidades do atual processo eleitoral. Moro e a Globo não vão soltar facilmente sua "presa". Prenderam Lula para tirá-lo da disputa. E para eles não há "plano B" porque sabem que se Lula concorre vence. Levar ao Planalto um direitista, legitimado pelo voto (!) é o sonho da Globo! Querem um Macri. Se isso ocorrer, as consequências serão catastróficas. Vejam só o que está ocorrendo na Argentina... Não é momento para destruir pontes proferindo (ou reproduzindo) comentários irresponsáveis.


Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo citando Marcos Rolim (aqui)
10 de maio (tipo) às 18h

"O PT é, hoje, o principal obstáculo a uma política de Frente Ampla capaz de viabilizar uma candidatura competitiva de unidade entre os democratas, em um campo que vai do centro à esquerda (uma distância que, ao contrário do que imaginam os fiéis, é muito pequena no Brasil). A tática de insistir com o nome de Lula como candidato e de se dedicar efetivamente a derrotar a Lava Jato, dificulta a unidade possível e assinala um desses momentos históricos de falência da razão em que décadas inteiras tendem a se definir."

Já falei no outro dia: o mínimo que Lula já deveria ter feito, antes que as eleições comecem, isto é, antes que a TV comece a dar prioridade ao tema, ou melhor, antes que o horário político (criado pelos políticos para seu bem-estar e manutenção de seu encastelamento nos cargos eletivos), era ter negociado seu candidato a vice-presidente. E, antes dele, o programa que iria cimentar a coalizão de partidos de esquerda.

Candidato a vice-presidente é que não falta: Boulos, Manoela, Haddad, Olívio, e tanta gente mais. Ciro, why not?

Também indiquei uma backward induction para a modelagem estratégica do caso:
.a haverá ou não eleições
.b em havendo, Lula se elege
.c em havendo, Lula não se elege
.d em havendo, Lula não se elegeu pois os golpistas, os íncubos, os sei-lá-quê-mais impediram
.e em havendo, Lula influi nos rumos eleitorais
.f em havendo, Lula -que já havia indicado um vice-presidente em uma coalizão de esquerda- vê seu vice transformado em candidato a presidente e tendo como vice-presidente outra pessoa chave da coalizão
.g segue...

DdAB
A imagem é a dialética eleitoral: o impedimento da candidatura de Lula não é o fim. A terra seguirá dando suas voltas a cada 24 horas, o povo seguirá penando, se não houver uma frente de esquerda vencendo as eleições, inclusive compondo um congresso nacional decente.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Talo, Ciro, Moisés, Lula e Myself...


Querido blog:

Tipo as 21h00 de 5 de maio corrente, Talo Pereyra escreveu um comentário a outro comentário sobre sua postagem elogiando a possibilidade eleitoral de Ciro Gomes para encaminhar a solução do imbroglio político-eleitoral em que vivemos. Eu acompanho o Facebook com mais zelo com que o faço com relação a Zerro Herra, por razões óbvias. E disse isto, pois não posso deixar de registrar haver opiniões contrárias, no próprio Facebook a este encaminhamento de Talo.

Ocorre-me em particular a posição de Moisés Mendes, que já se declarou capaz de ser candidato a deputado, caso o PT assim o sugira. E volta e meia insiste na ardente defesa de nosso presidente Lula, que ainda não abriu mão da crença na possibilidade de ser candidato a presidente, cabendo-lhe, neste caso, suceder o velho Michel (Fora) Temer. Moisés acha que encaminhar alternativas petistas à candidatura de Lula é ser conivente com o golpe que afastou do poder a presidenta Dilma e trancafiou Lula, com base em um julgamento pueril.

Pois eu sou mais a posição de Talo, com mediações. A justificativa de Talo é boa e, por isto, a reproduzo no que segue. De minha parte, não digo que já esteja decidido a votar em Ciro, que tem lá sua história de inteligências e burradas. Mas já revelei considerar que Lula tem, há muito tempo, perdido a oportunidade de mostrar-se útil para as esquerdas. Ele devia ter escolhido o candidato a vice-presidente em sua chapa e, com isto, se fosse impedido, já saberíamos qual seria o candidato ao cargo de presidente.

Pois então. Tá aqui o que diz Talo:

[...] Às vezes é preciso (um partido) dar um passo para o lado. O perigo da direita vencer é real. Penso que Ciro, se vencer, poderia pacificar um pouco as coisas. Haveria então 4 anos para reorganizar, depurar o corrompido e voltar em melhores condições. Companheiros do PT mais "de esquerda" declaram preferir Manuela ou Boulos. Assim ficam (de um ponto de vista ideológico) com suas consciências tranquilas. Mas creio que, na remota hipótese de uma vitória eleitoral de Boulos ou Manuela, o "baixo clero" os devoraria em dois toques. Não durariam seis meses. Mas o Ciro não seria moleza... Tem culhão e experiência para enfrentar essa patuleia. O fiel da balança (mesmo preso) continua sendo Lula, que deve estar refletindo profundamente. Gleice, Linderbergh, e outros, tem dado declarações emocionais. Mas na hora do "pega pra capar", a racionalidade irá prevalecer. E Lula sabe que se a direita vencer, as chances de um indulto ou absolvição são nulas. Sobre o assunto de que se houver uma brecha o exílio no Uruguay pode ser uma alternativa, concordo inteiramente. A nos cabe não permitir que chegue ao poder um oportunista ou aventureiro ou coisa pior. Não devemos errar, pois nesse caso nos entubam por 20 anos.

Minha posição segue sendo baseada numa pueril árvore de eventos do "jogo da eleição e Lula". Parece óbvio que um processo de indução para trás terá, já que não sabemos o final possível, algumas possibilidades de desfecho:
.a Lula foi eleito presidente da república
.b Lula não foi eleito presidente da república.
.c Lula teve aliados dando um golpe de estado e o empossando como presidente da república
.d não se realizaram eleições
.e etc.
Não é difícil pensar um pouco mais e exaurir todas as possibilidades. Olhando de volta para cada uma delas, vai ficando mais fácil entender o que deve ser feito hoje em dia. Por exemplo, se a hipótese "a" ocorreu, então saberemos o nome do candidato a vice-presidente eleito com ele. No caso de "b", abre-se novo ramo da árvore original, com candidato apoiado por Lula ou contra sua preferência. E assim por diante.

É fácil entender que no mínimo aquela ideia de Lula já ter, há muito tempo, indicado o candidato a vice-presidente em sua chapa já devia ter sido implantada há muito tempo...

DdAB
P.S. O que espero jamais ocorra é uma chapa Ciro-Requião. Já ouvi falar e tenho simpatia por outra Ciro-Haddad. Também têm pedigree as candidaturas de Boulos (entrou no partido errado) e Manuela (tá num partido estranho).

P.S.S. E tem o artigo intitulado "PT: construindo uma nova derrota?" de autoria de Aldo Fornazieri e publicado aqui.
abcz

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Marx: 200 + 2

Querido blog:

Sigo entusiasmado com várias matérias que tenho encontrado pelas remessas de amigos do Facebook.  Então hoje estou comemorando os 200 anos do nascimento de Karl Marx e mais dois dias. Agora vou falar de um artigo de intitulado "A atualidade de Marx" publicado no site "JornalistasLivres.org", de autoria de Slavoj Žižek (e que diz em caixa alta mesmo: ARTIGO ENVIADO PELO AUTOR DIRETAMENTE PARA SUA COLUNA NO BLOG DA BOITEMPO. A TRADUÇÃO É DE ARTUR RENZ".

Ou melhor, não vou falar muito. Primeiramente, lemos um parágrafo assim em caixa alta e entre aspas:

“É UM PRECONCEITO MARXISTA – OU MELHOR, MODERNISTA – QUE O CAPITALISMO ENQUANTO ÉPOCA HISTÓRIA SOMENTE IRÁ SE ENCERRAR NO MOMENTO EM QUE UMA SOCIEDADE NOVA E MELHOR ESTIVER À VISTA, E EM QUE HOUVER UM SUJEITO REVOLUCIONÁRIO DISPOSTO PARA IMPLEMENTÁ-LA PARA FAZER AVANÇAR A HUMANIDADE. ISSO PRESSUPÕE UM GRAU DE CONTROLE POLÍTICO SOBRE NOSSO DESTINO COMUM COM O QUAL NÃO PODEMOS NEM SONHAR DEPOIS DA DESTRUIÇÃO DA AUTONOMIA COLETIVA (E INCLUSIVE DA ESPERANÇA POR ELA) REALIZADA NA REVOLUÇÃO NEOLIBERAL-GLOBALISTA."

Pois então: ontem mesmo aqui no blog mesmo escrevi algo contra esta ideia:

Destaco, especialmente, a questão sobre se devemos implantar o socialismo já, como a implantação da ditadura do proletariado, ou se isto é indesejável, pois nenhum modo de produção (o capitalismo, no caso) termina sem ter desenvolvido todas suas potencialidades. Depois de tudo o que viemos a saber do mundo soviético e do mundo maoísta, acho brabo forçar a barra.

Tentando amenizar a crítica à rapaziada que deseja a crise final -el derrumbre- procuro dizer que isto não é mais necessário, pois o capitalismo acabou há mais de 15 dias. Falando mais sério, entendo que a lei geral da acumulação capitalista encapsulada na consigna de "substituir trabalho vivo por trabalho morto" mostra-se agora em toda sua plenitude: a terceira revolução industrial tem potencial transformador maior até que o controle da energia atômica. E praticamente encontra-se em seus alvores. Nem podemos imaginar um mundo em que "o algoritmo" dará consultas médicas, psicológicas, aulas de dialética, aulas de equações diferenciais, sentenças judiciais, estratégias decisórias, o que mais imaginarei eu? Penso em Richard Rorty: devemos pensar o impensável! Em resumo: é ou não um preconceito marxista? Acho que é um preconceito do Zizek, sei lá.

Mas talvez meu principal argumento em favor da contenção dos "termocéfalos" que desejam acabar com o capitalismo pelo uso da força esteja associado a minha crença de que as instituições criadas pela humanidade, mesmo no norte da Europa, mesmo nos Estados Unidos ou Alemanha, em qualquer lugar, ainda não são capazes de sustentar um novo modo de produção. Nossas instituições -nem falemos no Brasil, Bolívia e Burundi- precisam evoluir num sentido que ainda somos incapazes de intuir e, menos ainda, apressar o surgimento.

DdAB
P.S. Cheguei ao artigo de Zizek por meio de uma postagem no mural de Rosemary Fritsch Brum.

domingo, 6 de maio de 2018

Marx: 200 + 1


Querido diário:

200 + 1 = 200 anos mais um dia!

Ontem o mundo inteiro -exceto o jornal Zerro Herra- comemorou o bicentenário do nascimento de Karl Marx. De minha parte, como vinha fazendo há cinco anos -completando-se o sexto ontem mesmo- fiz uma montagem com sucessivas postagens. Usei-a para ilustrar a publicação do dia e homenagear o filósofo e cientista social que marcou o desenvolvimento do conhecimento humano desde então. Aliás, a obra de Marx-Engels marcou também a política universal e até hoje há controvérsias sobre quem foi bom entendedor das mensagens deixadas por eles. Destaco, especialmente, a questão sobre se devemos implantar o socialismo já, como a implantação da ditadura do proletariado, ou se isto é indesejável, pois nenhum modo de produção (o capitalismo, no caso) termina sem ter desenvolvido todas suas potencialidades. Depois de tudo o que viemos a saber do mundo soviético e do mundo maoísta, acho brabo forçar a barra.

Naturalmente declaro-me um arguto comentador, pois entendo que tem muita gente que não compreendeu sequer o significado e relevância da teoria do valor. Na verdade, digamos que tenha sido no ano de 1987, ministrei no curso de graduação em economia da UFRGS uma disciplina intitulada "Economia Marxista", quando André Contri foi meu aluno. Já estudante de doutorado, um dia falávamos no tema e ele disse-me uma verdade absoluta: "o problema da transformação dos valores em preços está resolvido precisamente no final da seção 3 do primeiro capítulo do primeiro volume d'"O Capital", quando o valor alcança a forma preço da mercadoria. E aí o valor virou preço e aí... acabou. No volume 3, Marx (ou eu deveria dizer Engels?) tem em vista outros propósitos que não tratar precipuamente da forma do valor, mas refere-se a fenômenos ocorridos no mundo industrial que estava emergindo e fazendo-o praticamente testemunha do nascimento e consolidação. Era outra coisa.

De minha parte, no dia de ontem, fiz alguma propaganda do bicentenário em comentários apostos a uma meia dúzia de postagens de amigas e amigos no Facebook. Numa delas, adicionei a imagem que nos encima. Podemos ler: "Workers of all lands, unite!", trabalhadores de todos os países, uni-vos!, na forma e tradução que me chegaram ao ouvido, digamos, em 1966.

Pois agora, ao rever tudinho que fiz ontem, achei estranha aquela tradução para o inglês, eu -myself- que visitei o túmulo de Marx no Cemitério de Highgate (descer no metrô em Aldwich), pois a memória retinha apenas algo parecido: "Workers of all countries, unite!". Troquei "lands" para "countries". Logo eu que tenho presente a lição de Ana Barros que desgosta do nome da ONU, pois não queria ver falar em nações (e nem mesmo 'terras'), mas em Organização dos Povos Unidos.

Então fui para a internet/Google, buscando em inglês. Achei a cita do Manifesto aqui. E tem algumas notas finais muito interessantes para animar (ou acabar) a controvérsia:

The famous final phrase of the Manifesto, “Working Men of All Countries, Unite!”, in the original German is: “Proletarier aller Länder, vereinigt euch!” Thus, a more correct translation would be “Proletarians of all countries, Unite!”
“Workers of the World, Unite. You have nothing to lose but your chains!” is a popularisation of the last three sentences, and is not found in any official translation. Since this English translation was approved by Engels, we have kept the original intact.

Agora não tenho em mãos a edição brasileira do Manifesto. Há pouco tempo, em nova tentativa de reter essa pérola político-literária, adquiri a edição da BoiTempo (aquela editora que fez a barbaridade de escrever "mais-valor", ao invés de "mais-valia". Ou seja, nem lembro como a Boitempo traduziu, mas tenho na cabeça "Trabalhadores de todos os países: uni-vos!"

Para benefício da preguiça, pedi a tradução do Google Tradutor:

A famosa frase final do Manifesto “Trabalhadores de Todos os Países, Unam-se!”, No original alemão é: “Proletarier aller Länder, vereinigt euch!” Assim, uma tradução mais correta seria “Proletários de todos os países, unam-se! "
"Trabalhadores do mundo uni-vos. Você não tem nada a perder além de suas correntes! ”É uma popularização das três últimas frases, e não é encontrada em nenhuma tradução oficial. Desde que esta tradução inglesa foi aprovada por Engels, mantivemos o original intacto.


Ok, bye.
DdAB
P.S. Da mesma fonte que usei para conferir o finale do "Manifesto", com a frase famosa, capturei o sumário da parte relevante do "capítulo 1":
Section 3 - The Form of Value or Exchange-Value
A. Elementary or Accidental Form of Value
1. The Two Poles of the Expression of Value: Relative Form and Equivalent Form
2. The Relative Form of Value
a. The Nature and Import of this Form
b. Quantitative Determination of Relative Value
3. The Equivalent Form of Value
4. The Elementary Form of Value Considered as a Whole
B. Total or Expanded Form of Value
1. The Expanded Relative Form of Value
2. The Particular Equivalent Form
3. Defects of the Total or Expanded Form of Value
C. The General Form of Value
1. The Altered Character of the Form of Value
2. The Interdependent Development of the Relative Form of Value, and of the Equivalent Form
3. Transition from the General Form of Value to the Money-Form
D. The Money-Form
abcz
P.S.S. E já que estamos metidos com os britânicos (ainda bem que não metidos em tumbas de Highgate...) e traduções, que tal elogiar aquela de "Grã-Bretanha". Eu, distraído, traduziria a Great Britain por Grande Britânia, claro que a maior das ilhas do arquipélago das Ilhas Britânicas.

sábado, 5 de maio de 2018

Marx 200: trabalhadores do mundo: uni-vos!


Querido diário:

Há tempos dei-me conta de que é fácil gravar a data de nascimento de Karl Heinrich Marx. É maio, é cinco: 05.05. E é século 19, ou seja, 1800 e mais: 18. Então seria, para facilitar, o ano 18 do século. Ou seja, 1818. Ou melhor: 05.05.1818.

E hoje completam-se 200 anos desse dia. O nascimento de um dos cérebros mais privilegiados que a humanidade já produziu. Digo-o não tanto por conhecer todos os demais cérebros, mas por entender que a simples ação de transcrever em manuscrito ou digitando suas obras completas de 56 volumes em parceria com Friedrich Engels já dá mais tempo de que posso dispor a partir de hoje.

E há uns cinco ou seis anos resgatei aquela foto que tiramos em Berlim. E cheguei hoje ao final do experimento. A menos que isto tenha-se transformado em um TOC e nunca mais possa livrar-me.

DdAB
P.S. Todos sabemos o fervor com que leio o jornal porto-alegrense Zero Hora que me apronta tantas e boas que cognomino-o de Zerro Herra. Pois hoje, pelo que li até agora, na página 2 -Túlio Millmann- temos uma aproximação como homenagem a Marx: fala-se no Instituto Max Plank. Não é coisa da Zerro Herra, trocar Plank por Karl e omitir o "r" no Max?
Max, digo, mas não é só isso. Na página 58, onde se o Almanaque Gaúcho, temos a seção
DIA 5 NA HISTÓRIA
\ Em 1818, nasce o filósofo Karl Marx, fundador da doutrina comunista moderna.
\ Preso e exilado, Napoleão Bonaparte morre na ilha de Santa Helena, em 1821.
\ Nasce, em 1946, a cantora e compositora Beth Carvalho.
E acrescento: também nasceu neste dia, meu querido ex-aluno Cássio Silva Moreira.

P.S.S. 2013: Domingo, 05 de maio: aqui.


P.S.S.S. 2014 : Segunda-feira, 05 de maio: aqui.

P.S.S.S.S. 2015: Terça-feira, 05 de maio: aqui.

P.S.S.S.S. 2016: Quinta-feira, 05 de maio: aqui. (Pulou um dia da semana, por ser ano bissexto).

P.S.S.S.S.S. 2017: Sexta-feira, 05 de maio: aqui.

P.S.S.S.S.S.S. 2018: Hoje: aqui mesmo.

P.S.S.S.S.S.S.S. E coloquei isto no Facebook:
Hoje completam-se 200 anos do nascimento de Karl Marx. Venho brincando com o momento deste bicentenário há vários anos. Quem sabe terá sido mesmo desde que fomos a Berlim pela primeira vez, o que conta-se como maio de 1990, quando o comunismo da Alemanha Democrática havia caído mas nem todos tinham-se dado conta. Há poucos anos comecei a viajação em meu blog:

P.S.S.S.S.S.S.S.S. Uma postagem de Jorge Ussan (sempre ele...) no Facebook suscitou estas reflexões de minha parte:

Acredito que um erro de Lula foi não implementar a Lei 10,835/2004 que instituiu a renda básica da cidadania (ergo sancionada por ele). E se meu segmento da esquerda assumir o poder em janeiro/2019, vou recomendar a implantação gradativa:
.a concessão da RBC a todas as mulheres que detêm a bolsa família
.b concessão às demais mulheres pobres nordestinas
.c concessão às demais mulheres do país
.d concessão aos pobres nordestinos
.e concessão aos demais pobres
.f concessão aos ricos.
Que faz um rico ao empalmar os ganhos da RBC? Por exemplo, desconta do imposto de renda. Ou até, com muita cautela, pode doar a um pobre de sua confiança (quero dizer, pobre deve ser impedido de doar a traficantes, malfeitores, políticos).