quarta-feira, 28 de março de 2018

Altruísmo, Egoísmo, Autoritarismo

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Querido diário:

No outro dia, filosofava eu em pleno Facebook, quando vi-me anunciando que iria fazer um comentário sobre uma das polaridades que considero mais interessantes na busca de explicações para o comportamento humano: os indivíduos agem motivados pelo auto-interesse ou pelo interesse nos destinos da comunidade que o envolve: egoísmo ou altruísmo. A teoria da escolha racional diz que os indivíduos escolhem cestas de bens e serviços que lhes garantam a maior satisfação possível com seu consumo. Numa visão muito simplificada, alguns economistas entendem que "maior satisfação possível" implica que o agente é egoísta, ou seja, coloca seus interesses absolutamente em primeiro lugar e tentará alcançar esse objetivo mesmo que à custa de reduzir o bem-estar de seus pares.

Há muito tempo vim a entender que, naquela estrada da microeconomia que percorri durante tantos anos de minha vida profissional (professoral...), que uma visão estritamente convencional diz que o bem-estar (a utilidade) de um indivíduo depende de Q, a cesta de bens e serviços que ele consegue consumir. Na matemática, U = f(Q). Eu disse "ele consegue". Mas nada impede que mudemos essa função U e a escrevamos como U = g(Q, R), onde Q é a mesmíssima cesta de bens e serviços da função f(.) e a novidade é que R é a cesta de bens e serviços absorvida por seus pares, seus parentes, seus co-cidadãos, seus parceiros do snooker, do futebol ou do cineminha.

Quero dizer que não existe nenhuma dificuldade em entendermos que a ação altruística do indivíduo pode elevar-lhe o nível de bem-estar. E a ação egoística? Claro que ela pode existir, mas ainda assim deveremos diferenciar um egoísta predador de um egoísta racional. O primeiro já vai logo matando a vaca e churrasqueando-a, ao passo que o homem que pensa em si, mas age racionalmente, alimenta sua vaquinha e regularmente retira o leitinho que transformará em queijinho, cria seus bezerrinhos, e assim por diante.

Que podemos dizer do egoísta predador? Que devemos ter muito cuidado com ele, pois o encontramos em inúmeras situações de nosso cotidiano. Parece que este tipo de gente é a que fura filas, que dá cambas no imposto de renda, que faz a coleta de dinheiro de empresas inescrupulosas, como é o caso das construtoras e das indústrias de alimentos brasileiras, e o transfere às mãos sujas dos políticos de mãos sujas, sujíssimas. De nossa parte, temos solidariedade relativamente aos menos favorecidos, aos menos aquinhoados, aos mais fracos. A maior parte da turma também tem. Os egoístas predadores, os psicopatas e os narcisistas, são minorias dentro de qualquer comunidade.

Por isso é que Joan Robinson em seu livro "Filosofia Econômica" disse que a desonestidade compensa apenas em terras de gente honesta. Muitos anos depois é que vim a entender que ela estava baseando-se em Thomas Hobbes: "E a vida do homem, solitária, pobre, sórdida, brutal e curta". Leviatã (1651), Parte I, capítulo 13. " www.oocities.org/athens/4539/hobbes.html

Claro que, ante esse prospecto de poder ser morto por um daqueles dá-lá-aquela-palha, diz-se que o homem ingressou numa troca voluntária: cede espaço em sua liberdade pessoal, mas tem a garantia de não ser morto por seus assemelhados. No mundo moderno, em que desejamos ver o convencimento valendo mais que a força, podemos mudar comportamentos de terceiros usando diferentes ardis não agressivos. Um que muito me chamou a atenção li-o num livro de psicologia: o lápis na boca faz as pessoas acharem a piada mais engraçada do que aqueles que não o portavam.

Outro experimento, referido por Peter Ordershook, sobre o grau de altruísmo falava em dilema do voluntariado: oferece-se uma recompensa, digamos, lanche pago durante toda a duração do curso de microeconomia. Mas a cláusula é que eu só pagaria se apenas 10% dos alunos a escolhessem (e com isto se credenciariam ao prêmio). Se mais de 10% o fizessem, ninguém ganharia nada. Nessa escala microscópica, pode-se constatar que dois terços são altruístas e apenas um terço é egoísta.

Entendo que a ação altruísta, a exemplo da solução do paradoxo eleitoral, é muito comum, pois ela aumenta o pay-off de seu autor. Quer ser visto votando, quer ser visto fazendo o bem. As pessoas que me sabem do bem sentem-se à vontade em desenvolver parcerias comigo. Só que tem o lado das pessoas que desejam identificar as benfazejas, com o intuito de explorá-las. Não é por outra razão que vim a entender que a sociedade deve-se precaver contra a ação de caroneiros, mesmo que estes não se manifestem: a ocasião faz o ladrão, como sabemos.

Mas temos o lado perverso da vida em sociedade, uma sociedade afeita à violência. Um exemplo é o filme "One flew over the cucko's nest", em que Jack Nickolson é um cara tão fora da curva que a turma do hospital psiquiátrico tira-o de cena, aplicando-lhe uma lobotomia. E cena parecida encontra-se no filme "Clockwork Orange", onde o ator Malcom McDowell é submetido a um tratamento que, ao lado de reduzir-lhe os impulsos agressivos, torna-o fácil presa de outros predadores lá de seu estilo prévio ao tratamento.

Moral da história:
.a o altruísta ajuda os outros: quanto mais felizes os demais forem, maior será o bem-estar do próprio altruísta
.b o egoísta predador é um estropício que só presta para ajudar a sociedade a se proteger de predadores em geral e dele em particular
.c o egoísta racional usa a máxima "ajuda que os céus te ajudarão", tirando o pronome... Neste caso, ele ajuda sabendo que, se este comportamento se generalizar, ele também será ajudado.
.d autoritarismo: é a ação que obriga os outros a adotarem comportamentos que convêm ao impositor e não ao praticante. Difere do modelo de punição-recompensa especialmente porque este baseia-se no voluntariado: ninguém é obrigado a aceitar o lápis na boca para ver filmes divertidos.

Imoral da história:
Naturalmente os políticos e os juízes.

DdAB
Volta e meia retorno a estes temas. Tenho pelo menos duas referências a postagens anteriores. Numa vemos -avant la lettre- coisas sobre o que vim a escutar chamarem de paradoxo de Abilene (aqui). Quero dizer este avant la lettre, pois é um trecho das "Memórias do Cárcere", de Graciliano Ramos em que em plena cadeia, vê-se o paradoxo em ação durante uma votação para greve de fome.
Em outra postagem, falo mais alongadamente sobre o dilema dos prisioneiros (aqui), onde também falo do tal paradoxo bíblico.
A imagem homenageia as sinucas de bico que vive a humanidade há milhares de anos ao enfrentar problemas de escolha coletiva.

Propagandeei no Facebook: Tinha um filme de bang-bang com um personagem chamado de "Bob Maldade". O filme foi muito apreciado e o personagem fez escola no Brasil, especialmente entre políticos e juízes. Mas também entre gente inculta de todos os coturnos. Acredito que, quanto mais culto, mais humanizado (quase tautologia). Olha minhas reflexões aqui sobre a sinuca bico em que se convertem muitos (mas não todos) os processos de escolha social.

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