sexta-feira, 30 de março de 2018

Um Dicionário Mnemônico e Internacionalista


Querido blog:

Tenho um monte de coisas divididas em três partes. Não são muitos os meus amigos que gostam do jornal Zero Hora - que eu leio regularmente. Mas há um subconjunto de bípedes pensantes que não gosta de quem lê Zero Hora, o que dá assunto para uma postagem inteira, o que -after all- não farei (E alguns odeiam meus anglicismos).

Eu sou um leitor voraz (ver glossário na terceira parte), preparando-me para uma postagem listando as dezenas de livros que estou lendo simultaneamente. Já fiz tal balanço aqui e aqui. Quando nada tenho para ler -por sugestão da profa. Iracema de Alencar em 1965- leio até bulas de remédio: dimetil-fenilamina-dimetil-pirasolona.

Circunstâncias aziagas (ver glossário) de minha vida familiar distanciaram-me de minha estante real. E, onde me encontro, encontrei-me com

HAILEY, Arthur (c.1962) O primeiro ministro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Título original: In high places, mesma segunda parte do livro de Jeremy Paxman's Friends in high places.[Estante Virtual aqui],

que ficou provado que agora apenas o "reli" e não foi "li". E falo nele por causa da observação da segunda parte. Mas, pela ordem alfabética, primeiro vem em primeiro, segundo vem em segundo e apenas em terceiro é que encontramos terceiro. Então vamos ao primeiro.

PRIMEIRO
A prova que reli o que já lera está na seguinte passagem, presente em minha memória, diferentemente das demais páginas do livro. Na p. 133, lemos:

-O senhor apanhou uma gripe feia- disse Alan.
-Atchim! É o país de vocês... úmido e frio. Na minha pátria, na Suécia, faz frio também, mas o ar é afiado como uma faca. [...]

Tá provado: sempre pensei no Canadá como um país frio e úmido e na Suécia como frio e seco.

SEGUNDO
E na página 248 tem um "não obstante" internacionalista:

-Não obstante - observou o Presidente, - o curso da história será mudado, quer o dirijamos ou não. As fronteiras não são imutáveis, Arthur, nunca foram na história da humanidade. Tôda fronteira que conhecemos mudará ou desaparecerá com o tempo, tanto a do Canadá como a nossa própria, quer aprecemos o processo ou não. As nações podem durar um século ou dois e até mais; mas no fim deixarão de existir para sempre.

Não obstante tá cheio de gente que não consegue entender isto nem 50 anos depois da redação do livro. Quando eu digo que a esquerda deve começar sua declaração de princípios com a "luta pela implantação do governo mundial" redarguem que não sou patriota, o que, obviamente, é verdade. Nem reacionário!

TERCEIRO
Tenho o glossário retirado do dicio.com.br. A maior parte das palavras não era nem é de meu domínio, mas se origina do livro, como é o caso de "abeto". Um número menor originou-se de ideias sobre palavras que me foram ocorrendo à medida que a leitura ia avançando, como é o caso de premonitório, já que o livro fala na até então desconhecida admonitório. Por fim, enxertei algumas outras que sempre me intrigaram, como é o caso de gelosia. Onde me encontro não tenho disponível meu Webster de cinco quilos, que me faz falta, pois nossas palavras de origem latina em bom número encontram-se na língua inglesa (meio alemão, meio francês e meio latim), e o Webster dá o radical latino e até o ano de ingresso na língua de William Shakespeare e James Meade. E como vim parar neste trabalhão para fazer esta postagem? É que, desde os tempos antigos de 1942, circula no Brasil a revista "Seleções do Reader's Digest", que me parecia um tanto direitosa e que não leio há 30 anos. Nos tempos em que li e que Aurélio Buarque de Hollanda estava vivo, ele produzia uma seção chamada de "Enriqueça seu Vocabulário". Re-a-der di-ges-te era a pronúncia infantil e menos ainda sabíamos que era o digestivo (resumo) do digestivo, pois deveria existir um Reader's Digest e suas seleções seriam a crème de la crème.

Abeto - Árvores coníferas da família das pináceas, de folhagem sempre verde. # Esse negócio de pinácea só pode ter a ver com pinheiro. Até escrever esta frase, não olhara no Dicio. Olha agora: 
Admonitório - Admoestação. # não sabia e evoquei premonitório, que diz o Dicio ser Sensação ou sonho daquilo que ainda pode acontecer; suposta visão do que pode ocorrer; palpite ou pressentimento.
Algaravia - Modo de falar dos árabes da Península Ibérica.Confusão de vozes.Qualquer coisa dita ou escrita confusamente. # sempre soube que algaravia era isto mesmo, mas agora, ao lê-la, pensei que um número expressivo de palavras de nossa língua começado com "al" tem origem no árabe. É o caso de almanaque.
Anete - O arganéu da âncora, onde se fixam as amarras, viradores etc. # Araganéu? É "argola ou anel da âncora, onde se amarra o cabo; argola em que se prendem as cordas da artilharia." Pois então: artilharia: "Uma das armas principais dos exércitos de terra e mar, encarregada da manipulação dos projéteis e de seus meios de lançamento."
Apodo - s.m. Alcunha; comparação ridícula. Zombaria, mofa. # Tem também "apôdo" com o mesmo significado. E "ápodo" que, digo eu, na linguagem de hoje é "zoar".
Avuncular - adjetivo Que se pode referir tanto à tia quanto ao tio; que possui qualquer tipo de relação com o tio ou tia: poder avuncular. # Parece que eu já conhecia esta palavra, mas não lembrava do significado. Parece que a encontrei há poucos dias, ao ler o iniciozinho do "Solo de Clarineta". Não sei por que lembrou-me de "nepote" em italiano, que é sobrinho e neto, tudo junto... No Dicio, lemos: "Sobrinho do papa. Valido, favorito, protegido de alguém." No Brasil, claro que "nepotismo" tem tudo a ver com a ladroagem pregada como virtude pelos políticos e juízes.
Aziago - adjetivo Que anuncia ou faz recear calamidade, azar. De mau agouro, infausto. # Esta palavra eu sempre a soube, só que agora fui ao Dicio...
Baldaquino - s.m. O mesmo que baldaquim. Espécie de pálio ou dossel.Obra de arquitetura ou de marcenaria, que serve de coroa a um trono, a um altar. # Pois faltaram pálio e dossel. Pálio: "s.m. Capa; veste colocada sobre a roupa; manto grande. Religião. Tipo de faixa, branca de lã, bordada com cruzes negras,..." e Dossel: "substantivo masculino Construção e armação saliente, forrada, franjada, que se coloca como enfeite sobre altares, tronos, camas etc.; sobrecéu, baldaquim.Lençol suspenso, preso à parede ou sustentado pelos pés da cama.Qualquer cobertura ornamental constituída de verdura, flores etc.[Figurado] Cobertura que se forma pelo encontro das copas das árvores.[Arquitetura] Proteção de estátuas colocada no interior de igrejas ou para salvaguardar o púlpito.Parte traseira de uma cadeira, um banco ou de uma cama; espaldar." B * A = Bah!
Caixilho - substantivo masculino. Moldura, geralmente de madeira, para vidros: os caixilhos de uma janela.A moldura de um quadro. #Lá adiante, creio agora que inspirado por esta moldura (hehehe), pensei em gelosia, que transcrevi no que segue. Depois que li, pareceu óbvio que já conhecia.
Cavilha - substantivo feminino Espécie de pino, de madeira ou metal, que serve para tapar orifícios ou prender chapas ou peças de madeira. Zoologia Apêndice ósseo de cada lado dos temporais dos animais cavicórneos, no qual se inserem os cornos. # e dá como sinônimo de "tarraxa", de meu conhecimento, atarraxar, que nunca tinha pensado ser com "x" ou "ch".E lá no Dicio tem "cavilar":
"verbo intransitivo Fazer uso de subterfúgio; utilizar sofismas etc.: o prefeito vive a cavilar.Atribuir uma falsa significação às palavras, deturpando-as de modo malicioso.verbo transitivo indireto. Zombar (de algo ou alguém) através do uso de sofismas: sempre preferiu cavilar das regras morais." Este sentido de cavilar como maldade eu já conhecia.
Contumélia - substantivo feminino Injúria, afronta, insulto. Fam. Mesura afetada, exagerada; salamaleque, ademanes. # Ademanes eu já conhecia, sinônimo de mesura afetada (hehehe). Mesura, bem sabemos, é fazer uma reverência. Salamaleque sei que vem do árabe e é parente do salamalan. Diz o dicio -e eu sabia e não lembrava- que quer dizer "a paz esteja contigo". Então este salamalan que não está nem no dicionário interno do blog (está sublinhado em vermelho) nem no Dicio juro ser "e contigo também".
Cordite - substantivo feminino Uma das primeiras pólvoras sem fumaça usadas para a propulsão de projéteis de artilharia. O nome origina-se da forma em cordel como é apresentada. Compõe-se de 30% de nitroglicerina, 65% de niatrocelulose e 5% de geléia de petróleo. O governo britânico adotou a fórmula original da cordite em 1887; ardia tão intensamente que o calor danificava os canos das armas. # Pensei que cordite fosse inflação das cordas, mas não errei  tão feio, pois fala-se em cordel...
Cornija - substantivo feminino [Arquitetura] Moldura que remata o entablamento de uma coluna. Ornatos salientes na parte superior de parede, porta, pedestal. # Preciso dizer mais? Só que me lembrei de "coluna salomônica", que ilustra a postagem de hoje e que tem a ver com um enigmático (para mim) galpão...
Gaiúta - substantivo feminino Náut. Cúpula, que cobre uma escotilha redonda. Cf.substantivo masculino De Aguiar, Diccion. de Marinha. Ext. Parte externa e accessória dos edifícios modernos, com a qual se resguardam as latrinas ou urinoes. # Eu jurara, antes de ler no Dicio, ser um termo náutico. Afinal, o romance de Arthur Hailey conta a história de um passageiro clandestino num navio. O livro é de cerca de 1962 ou mais, mas super antes das duas mudanças ortográficas que testemunhei em minha triste vida de residente num país de baixo zelo pelas instituições. Como já andei afirmando: o que me impede de ler Camões não é a grafia arrevesada daqueles poetas de antanho, mas a semântica.
Gelosia - substantivo feminino Rótula de fasquias de madeira com que se tapa o vão de uma janela; rótula, janela de rótula. # Só o Chico Buarque (aqui) para falar em "janela sem gelosia" na canção "Flor da idade". E tem até rótula e as fasquias. Vejamos. Rótula: "s.f. Grade de madeira de certas janelas e portas que deixa entrar luz e ar pelo intervalo das ripas entrecruzadas de que é feita;..." Fasquia - fasquias. f. Tira de madeira, estreita e comprida; ripa. Lasca fina e alongada tirada de um tronco. fasquías. f. Tira de madeira, estreita e comprida; ripa. Lasca fina e alongada tirada de um tronco. fasquiar v.t.d. Colocar tiras de madeiras em; aplicar fasquias em; ripar. Edificar ou construir com fasquias (tiras de madeira). Serrar... fasquio sm (der regressiva de fasquiar) 1 Porção de fasquias. 2 Madeira serrada em fasquias. # Acho que nunca vi, só "ripa".
Guano - substantivo masculino Adubo rico em fosfato e nitrogênio, proveniente de excrementos de aves, morcegos, ou fabricado com resíduos de peixes. Constitui um valioso fertilizante por ser rico em nitratos e fosfatos. Grandes colônias de aves como pelicanos, pinguins, procelárias, corvos-marinhos e alcatrazes deixam enormes depósitos desse material. # E eu que tenho uma amiga chamada Procelina. Então vejamos Procelária: Diciosubstantivo feminino Zoologia Gênero de aves palmípedes que, em bandos, prenunciam tempestade." E os palmípedes? Dicio: "adjetivo Que tem os dedos dos pés ligados por uma membrana." E tem Procélico no Dicio: "adjetivo[Zoologia] Diz-se da vértebra cujo corpo é côncavo adiante e convexo atrás."
Láscara - Lascara vem do verbo lascar. O mesmo que: falhara, quebrara, rachara, rascara.
Significado de lascar. Quebrar em lascas; tirar lascas de.[Brasil] Pop. Dar, aplicar: lascar uma bofetada. Fender-se. # Vemos que o Dicio não registra como proparoxítona.
Mnemômico - adjetivo Que se refere à memória; mnêmico.Que está em concordância ou de acordo com os princípios da mnemônica: trabalho mnemônico.Que pode ser utilizado para aumentar ou ampliar a memória; que facilita a memorização; diz-se dos mecanismos utilizados para desenvolver a memória (exercícios).Fácil de ser memorizado: sequência mnemônica. # Quando aprendi o significado desta palavra, dei urras, e urros, pois pensei que eu é que inventara  o método. Não lembro de tentativas da tenra infância, mas no terno primeiro semestre da faculdade, aprendi que os quatro fatores da produção listam-se como: salários, lucros, juros e aluguéis. Então pensei em JASL, meu cunhado José Antonio de Souza Leão. Depois tinha aquele OPP (que parece que era a sigla de "organização para-partidária", e o CCC (indigitado comando de caça aos comunistas), que traduzi como os seis itens de Henri Fayol: prever, planejar, organizar, comandar, coordenar e controlar. Tá faltando Fayol no Brasil. Também pudera, se a lei do orçamento fosse cumprida, acabariam os roubos praticados pelos políticos e juízes.
Oca - # Não tá no Dicio, mas no Wikcionário: "cabana rústica construída por índios (brasileiros)". Eu sempre soube disto, mas não acreditava...
Padroado - substantivo masculino Direito de servir de protetor, adquirido por quem funda ou dota uma igreja. Direito de conferir benefícios eclesiásticos.Território onde se exercia esse direito.
Prímula - substantivo feminino Gênero de plantas herbáceas, da família das primuláceas, também denominada primavera. # Primavera? Aqui na Wiktionary temos a primula (paroxítona) vulgaris, uma belezinha.
Rabugento - adjetivo Que possui rabugem (sarna).[Figurado] Que demonstra mau humor; que não tem tolerância; que vive implicando ou se queixando de tudo; que é irritado ou ranzinza. # Rabugem = sarna? Olha Sarna no Dicio: "... sinônimo de: acariase, rabugem, gafa, morrinha, gafeira, pira, guloso, comilão, comichão,coceira, prurido, pereba, jereré, escabiose, curuba, coruba, ronha. Pira? Olha o que escrevi sobre "piroso" aqui. Ali eu falei em "azia", que até que é um tanto melhor que "sarna", não é? E agora, com esta de "gafa". Em espanhol é um sinônimo de "ante-ojos", óculos. No Dicio aqui, nada a ver. Claro que todo mundo achava que "rabugento" tinha a ver com quem tem rabo...
Rafeiro - adjetivo Diz-se de uma casta de cães próprios para a guarda de gado.substantivo masculino Esse cão. adjetivo Diz-se do indivíduo que acompanha sempre outro, vigiando-o e defendendo-o; capanga, guarda-costa. substantivo masculino Fam e pej Diz-se do que sempre acompanha outro, como o cão segue o dono.adjetivo e substantivo masculino Bajulador. # Eu pensava ser simplesmente sinônimo de cão. Cão, como sabemos, é a raça dos políticos e juízes.
Rancho - substantivo masculino Grupo de pessoas reunidas para determinado fim, especialmente em jornada: rancho de peregrinos.Grupo de soldados ou marinheiros que comem em comum. [Por Extensão] A alimentação que lhes é distribuída. Porção da comida de cada um. Abrigo à beira da estrada. Habitação pobre. Grupo de pessoas em festa. Conjunto carnavalesco, ou folclórico. Fazenda no Oeste americano. # As primeiras acepções eu as desconhecia, mas desconfiei pelo contexto do parágrafo que a mencionava no livro.
Rebuço - substantivo masculino Parte da capa destinada a cobrir o rosto. Parte do casaco, lapela.[Figurado] Falta de sinceridade, dissimulação, disfarce. Sem rebuço, sem rodeios, francamente. # Ao ler isto no Dicio, não estranhei.
Ruma - substantivo feminino Pilha, montão, rima. # E esta que "rima" é sinônimo de "pilha"... Pensei que pilha rimasse com filha... Fui lá de novo e vi que tem a ver com "arrimar", aquele negócio de muro de arrimo, muro de rima, então.
Saburro - s.f. Crosta esbranquiçada que recobre a parte superior da língua, como sintoma de certas doenças.
Sanefa - substantivo feminino Tira larga de tecido que se estende sobre a parte superior de uma cortina. # Acho que eu sempre soube isto de sanefa, só que quis hoje conferir.
Sienito - substantivo masculino Mineralogia Rocha eruptiva, de textura granular, formada de feldspatos alcalinos e anfibólios, com nenhuma ou pequena quantidade de quartzo.
Socapa - substantivo feminino Disfarce. Dissimulação. locução adverbial À socapa, disfarçadamente, dissimuladamente. # Também tenho na cabeça, mas não tem no Dicio a palavra "sucapa", neste mesmo sentido.
Supedâneo - substantivo masculino Banco pequeno utilizado para apoiar os pés; escabelo. Tipo de estrutura plana (de madeira) sobre a qual o padre fica de pé ao rezar missa. [Por Extensão] Que pode ser utilizado como suporte; pedestal. [Popular] Tipo de medicamento natural colocado sobre a sola do pé.
Tarimba - substantivo feminino Estrado de madeira em que dormem os soldados nos quartéis. [Por Extensão] Qualquer cama dura, inconfortável. [Figurado] Vida dos quartéis. [Brasil: Sul] Ter tarimba, ter muita experiência. #Estou com o Brasil: Sul: era o sentido de tarimba que eu conhecia e usava.
Voraz - adjetivo Que é capaz de devorar apressadamente e mastigando mal para engolir a maior quantidade possível; que não se sacia com facilidade; devorador: animal voraz. [Por Extensão] Que come de modo exagerado; comilão. [Figurado] Que acaba por arruinar ou destruir; destruidor: temporal voraz; doença voraz. [Figurado] Que demonstra muita ambição; ambicioso: o comportamento voraz do prefeito prejudica o município.substantivo masculino Uso Regional. Designação comum da abelha preta (Trigona clavipes) cujo corpo possui desenhos em amarelo, chegando a possuir até 6mm de comprimento; vorá. # Gostei de ver que "devorar" tem a ver com voraz, como é o que penso dos políticos e juízes.
Vuvuzela, vuvuleza - # Não tá no Dicio. Botei esta agora, pesaroso de estar terminando esta postagem. Aquelas terríveis cornetas usadas durante a copa do mundo da África do Sul. E que tem certa manha em minha cabeça: eu lia "vuvulêsa", até que ouvi "vuvuzéla" e, ao ler certo, a pronúncia de abrir o "e" tornou-se óbvio. Esta requer explicação do prof. Conrado de Abreu Chagas.
Zovidos - como é que será que eram todas essas coisas, se ouvidas no original em inglês do livro de 1961?

DdAB
P.S. Lição de Davi Chiaradia Freitas (do Facebook) para mim e para o resto do universo U* (o conjunto de todos os universos), com pequenas edições minhas baseadas na internet:
Uso de por que, por quê, porque e porquê (são apenas quatro formas: tudo junto: porque e porquê; separado: por que e por quê)
Porque (junto e sem acento) é utilizado em respostas.
Por que (separado e sem acento) se utiliza no início e meio das perguntas.
Exemplo: Por que você fez isso? Porque eu quis.
Por quê (separado e com acento) é utilizado apenas final da oração (pergunta).
Porquê (junto e com acento) é um substantivo masculino, sinônimo de motivo, razão, causa.
Exemplo: Você não está indo embora hoje por quê? Dê-me um porquê para eu me ir embora agora.

Olhei aqui:
VILARINHO, Sabrina. "Por que / Por quê / Porque ou Porquê?"; Brasil Escola. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/gramatica/por-que.htm>. Acesso em 30 de marco de 2018.
Existem várias formas de diferenciar a maneira exata de utilizar os porquês. Entenda em quais situações utilizar cada uma.
Por que, por quê, porque ou porquê: qual utilizar?
O uso dos porquês é um assunto muito discutido e traz muitas dúvidas. Com a análise a seguir, pretendemos esclarecer o emprego dos porquês para que não haja mais imprecisão a respeito desse assunto.
Por que
O por que tem dois empregos diferenciados:
Quando for a junção da preposição por + pronome interrogativo ou indefinido que, possuirá o significado de “por qual razão” ou “por qual motivo”:
Exemplos: Por que você não vai ao cinema? (por qual razão)
Não sei por que não quero ir. (por qual motivo)
Quando for a junção da preposição por + pronome relativo que, possuirá o significado de “pelo qual” e poderá ter as flexões: pela qual, pelos quais, pelas quais.
Exemplo: Os lugares por que passamos eram encantadores. (pelos quais)
Por quê
Quando vier antes de um ponto (final, interrogativo, exclamação), o por quê deverá vir acentuado e continuará com o significado de “por qual motivo”, “por qual razão”.
Exemplos: Vocês não comeram tudo? Por quê?
Andar cinco quilômetros, por quê? Vamos de carro.
Porque
É conjunção causal ou explicativa, com valor aproximado de “pois”, “uma vez que”, “para que”.
Exemplos: Não fui ao cinema porque tenho que estudar para a prova. (pois)
Não vá fazer intrigas porque prejudicará você mesmo. (uma vez que)
Porquê
É substantivo e tem significado de “o motivo”, “a razão”. Vem acompanhado de artigo, pronome, adjetivo ou numeral.
Exemplos: O porquê de não estar conversando é porque quero estar concentrada. (motivo)
Diga-me um porquê para não fazer o que devo. (uma razão).
E também aqui:https://revisaoparaque.com/blog/uso-dos-porques/
São quatro os porquês e podemos, para lembrar, organizá-los em duas duplas.
Uma dupla de "separados": por que e por quê.
Uma dupla de "grudados": porque e o porquê.
Memorizados quais são os porquês, vamos entender qual é o uso de cada um deles. Comecemos do mais difícil, que nem é tão difícil. Os outros são moleza.
POR QUE
1) O "separado e sem acento": por que. Ele tem três usos:
Para iniciar frase interrogativa. Sempre que estiver iniciando uma pergunta, faça com o "por que".
Por que ele veio?
Quando puder ser substituído por "por qual razão/ por qual motivo".
Não sei por que ele veio.
Quando puder ser substituído por "pelo qual" ou suas flexões (pela qual, pelos quais, pelas quais).
Ele não me disse os motivos por que (pelos quais) ele não veio.
POR QUÊ
2) O separado e com acento: por quê. Esse é barbadinha. Esse vem no final da frase, antes de ponto. É o porquê que todas as mães usam quando estão bravas.
Alfredo Alberto da Silva Júnior, o senhor ainda não foi para o banho por quÊÊÊÊÊ? Por quÊÊÊ?
PORQUE
3) O "grudado e sem acento": porque. Esse é explicativo, é o que mais usamos. É o porquê das frases para as namoradas (tadinhos dos meninos ^^). Sempre que pudermos substituir por "pois" ou por "uma vez que", por exemplo, é ele. Substitui, aí, para testar, na frase a seguir:
Eu ainda não havia ligado porque estava sem bateria.
PORQUÊ
4) O "grudado e com acento" vai vir sempre com o artigo. O porquê, um porquê. Ele funciona como substantivo:
Não entendo o porquê de ela ter jogado a gramática nele.
Eu também não sei, ela não me deu um porquê.
abcz

quinta-feira, 29 de março de 2018

Igualitarismo e Consumo per Capita


Querido diário:

Quais são as evidências de que grandes diferenças no consumo per capita são perniciosas à vida comunitária? Em termos específicos, o consumo de whisky, cachaça, saúde, previdência, educação, polenta e outras iguarias da cozinha universal devem ser vistas com suspeição, pois podem gerar pinguços, doentes, carentes, analfabetos, peso excessivo. Sob o ponto de vista agregado, torna-se mais claro que Joan Robinson estava a toda corda quando falou que uma das questões centrais da filosofia econômica consiste em indagar o que permite que determinadas famílias vivam em luxuriante ostentação, ao passo que milhares de outras enfrentam o inferno para colocar comida na mesa três vezes por dia.

Claro que estes casos de desigualdade são uma presença inevitável em qualquer sistema econômico monetário, pois há divõrcio estrondoso entre geração, apropriação e absorção do valor adicionado. Nem sempre quem absorve está próximo a quem produz. E os desníveis no consumo per capita estão a atestar a pobreza moral do planeta neste início de século. E por que se fala em renda e não em consumo? Primeiro, porque é mais fácil mensurar a renda do que o consumo. Segundo, outra aproximação de renda é que esta é uma proxy da renda pessoal, esta sim determinante do consumo pessoal.

Então falemos mais sobre as diferenças de renda, eis que elas oferecem diferentes graus de poder não apenas sobre o quê e quanto produzir, mas sobretudo sobre a terceira questão: como distribuir. Significa que os que têm mais poder ficaram com uma parte substantiva, talvez em virtude da pleonéxia (Característica de uma pessoa que pensa erroneamente estar credenciada a uma parte maior do excedente econômico de uma comunidade do que aquela que legitimamente lhe cabe). Ou seja, há pessoas, bem as conhecemos, que sempre estão insatisfeitas com o que ganham, comparam-se a outras e aí mesmo é que reclamam, até que se apropriam daquela fração do excedente que, por mecanismos moralmente elevados, caberiam a terceiros. Neste clube encontram-se os avarentos, que nunca se consideram saciados em termos de poupança e patrimônio.

Que outros problemas perenes há na desigualdade exacerbada, como a que vigora entre os 1% mais ricos do Brasil (pelo que ouço, ela é maior que a média da população)? Ora, sabemos que a renda determina o consumo e este é um dos fatores determinantes do grau de felicidade sentida pelo indivíduo. Em outras palavras, sociedades que têm enormes desníveis do consumo per capita também deverão enfrentar enormes desníveis no grau de felicidade!

DdAB
Imagem: achei-a pois achei-a muito pertinente. Um país em estado estancado de progresso e com dívidas do porte da brasileira para a provisão de bens públicos e de mérito é de infelicitar.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Altruísmo, Egoísmo, Autoritarismo

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Querido diário:

No outro dia, filosofava eu em pleno Facebook, quando vi-me anunciando que iria fazer um comentário sobre uma das polaridades que considero mais interessantes na busca de explicações para o comportamento humano: os indivíduos agem motivados pelo auto-interesse ou pelo interesse nos destinos da comunidade que o envolve: egoísmo ou altruísmo. A teoria da escolha racional diz que os indivíduos escolhem cestas de bens e serviços que lhes garantam a maior satisfação possível com seu consumo. Numa visão muito simplificada, alguns economistas entendem que "maior satisfação possível" implica que o agente é egoísta, ou seja, coloca seus interesses absolutamente em primeiro lugar e tentará alcançar esse objetivo mesmo que à custa de reduzir o bem-estar de seus pares.

Há muito tempo vim a entender que, naquela estrada da microeconomia que percorri durante tantos anos de minha vida profissional (professoral...), que uma visão estritamente convencional diz que o bem-estar (a utilidade) de um indivíduo depende de Q, a cesta de bens e serviços que ele consegue consumir. Na matemática, U = f(Q). Eu disse "ele consegue". Mas nada impede que mudemos essa função U e a escrevamos como U = g(Q, R), onde Q é a mesmíssima cesta de bens e serviços da função f(.) e a novidade é que R é a cesta de bens e serviços absorvida por seus pares, seus parentes, seus co-cidadãos, seus parceiros do snooker, do futebol ou do cineminha.

Quero dizer que não existe nenhuma dificuldade em entendermos que a ação altruística do indivíduo pode elevar-lhe o nível de bem-estar. E a ação egoística? Claro que ela pode existir, mas ainda assim deveremos diferenciar um egoísta predador de um egoísta racional. O primeiro já vai logo matando a vaca e churrasqueando-a, ao passo que o homem que pensa em si, mas age racionalmente, alimenta sua vaquinha e regularmente retira o leitinho que transformará em queijinho, cria seus bezerrinhos, e assim por diante.

Que podemos dizer do egoísta predador? Que devemos ter muito cuidado com ele, pois o encontramos em inúmeras situações de nosso cotidiano. Parece que este tipo de gente é a que fura filas, que dá cambas no imposto de renda, que faz a coleta de dinheiro de empresas inescrupulosas, como é o caso das construtoras e das indústrias de alimentos brasileiras, e o transfere às mãos sujas dos políticos de mãos sujas, sujíssimas. De nossa parte, temos solidariedade relativamente aos menos favorecidos, aos menos aquinhoados, aos mais fracos. A maior parte da turma também tem. Os egoístas predadores, os psicopatas e os narcisistas, são minorias dentro de qualquer comunidade.

Por isso é que Joan Robinson em seu livro "Filosofia Econômica" disse que a desonestidade compensa apenas em terras de gente honesta. Muitos anos depois é que vim a entender que ela estava baseando-se em Thomas Hobbes: "E a vida do homem, solitária, pobre, sórdida, brutal e curta". Leviatã (1651), Parte I, capítulo 13. " www.oocities.org/athens/4539/hobbes.html

Claro que, ante esse prospecto de poder ser morto por um daqueles dá-lá-aquela-palha, diz-se que o homem ingressou numa troca voluntária: cede espaço em sua liberdade pessoal, mas tem a garantia de não ser morto por seus assemelhados. No mundo moderno, em que desejamos ver o convencimento valendo mais que a força, podemos mudar comportamentos de terceiros usando diferentes ardis não agressivos. Um que muito me chamou a atenção li-o num livro de psicologia: o lápis na boca faz as pessoas acharem a piada mais engraçada do que aqueles que não o portavam.

Outro experimento, referido por Peter Ordershook, sobre o grau de altruísmo falava em dilema do voluntariado: oferece-se uma recompensa, digamos, lanche pago durante toda a duração do curso de microeconomia. Mas a cláusula é que eu só pagaria se apenas 10% dos alunos a escolhessem (e com isto se credenciariam ao prêmio). Se mais de 10% o fizessem, ninguém ganharia nada. Nessa escala microscópica, pode-se constatar que dois terços são altruístas e apenas um terço é egoísta.

Entendo que a ação altruísta, a exemplo da solução do paradoxo eleitoral, é muito comum, pois ela aumenta o pay-off de seu autor. Quer ser visto votando, quer ser visto fazendo o bem. As pessoas que me sabem do bem sentem-se à vontade em desenvolver parcerias comigo. Só que tem o lado das pessoas que desejam identificar as benfazejas, com o intuito de explorá-las. Não é por outra razão que vim a entender que a sociedade deve-se precaver contra a ação de caroneiros, mesmo que estes não se manifestem: a ocasião faz o ladrão, como sabemos.

Mas temos o lado perverso da vida em sociedade, uma sociedade afeita à violência. Um exemplo é o filme "One flew over the cucko's nest", em que Jack Nickolson é um cara tão fora da curva que a turma do hospital psiquiátrico tira-o de cena, aplicando-lhe uma lobotomia. E cena parecida encontra-se no filme "Clockwork Orange", onde o ator Malcom McDowell é submetido a um tratamento que, ao lado de reduzir-lhe os impulsos agressivos, torna-o fácil presa de outros predadores lá de seu estilo prévio ao tratamento.

Moral da história:
.a o altruísta ajuda os outros: quanto mais felizes os demais forem, maior será o bem-estar do próprio altruísta
.b o egoísta predador é um estropício que só presta para ajudar a sociedade a se proteger de predadores em geral e dele em particular
.c o egoísta racional usa a máxima "ajuda que os céus te ajudarão", tirando o pronome... Neste caso, ele ajuda sabendo que, se este comportamento se generalizar, ele também será ajudado.
.d autoritarismo: é a ação que obriga os outros a adotarem comportamentos que convêm ao impositor e não ao praticante. Difere do modelo de punição-recompensa especialmente porque este baseia-se no voluntariado: ninguém é obrigado a aceitar o lápis na boca para ver filmes divertidos.

Imoral da história:
Naturalmente os políticos e os juízes.

DdAB
Volta e meia retorno a estes temas. Tenho pelo menos duas referências a postagens anteriores. Numa vemos -avant la lettre- coisas sobre o que vim a escutar chamarem de paradoxo de Abilene (aqui). Quero dizer este avant la lettre, pois é um trecho das "Memórias do Cárcere", de Graciliano Ramos em que em plena cadeia, vê-se o paradoxo em ação durante uma votação para greve de fome.
Em outra postagem, falo mais alongadamente sobre o dilema dos prisioneiros (aqui), onde também falo do tal paradoxo bíblico.
A imagem homenageia as sinucas de bico que vive a humanidade há milhares de anos ao enfrentar problemas de escolha coletiva.

Propagandeei no Facebook: Tinha um filme de bang-bang com um personagem chamado de "Bob Maldade". O filme foi muito apreciado e o personagem fez escola no Brasil, especialmente entre políticos e juízes. Mas também entre gente inculta de todos os coturnos. Acredito que, quanto mais culto, mais humanizado (quase tautologia). Olha minhas reflexões aqui sobre a sinuca bico em que se convertem muitos (mas não todos) os processos de escolha social.

terça-feira, 20 de março de 2018

Os Pés-de-Chinelo e a Vereança Carioca


Querido diário:

Eu estava deixando passar sem comentários o assassinato de Marielle Franco, pois -descontada a questão familiar e de solidariedade humana que cerca todas as tragédias deste porte- não creio que haja qualquer tipo de lição a tirar. Já sabemos tudo e temos até duas correntes em boa medida antagônicas sobre as políticas públicas que devem ser implementadas para evitar a repetição da tragédia. Há uma peculiaridade no caso, contudo: foi a primeira agressão ao senso comum desde que Temer inventou a intervenção militar no Rio de Janeiro.

Embora eu próprio não tenha falado no tema, muito li a respeito. Felizmente, por razões também pessoais, pouco "frequentei" as redes sociais durantes estes últimos dias, de sorte que os atropelos ao bom-senso ficaram ao largo de mim. Hoje li em Zero Hora, página 15, o extraordinário artigo de Fábio Bernardi. Intitulando-se "Marielle, Luiz Octávio e todos nós", o autor, obviamente está falando do assassinato da vereadora carioca, mas também fala no cabo Luiz Octávio, morto no mesmo dia em que mataram Marielle, sendo o 26o. militar a cair neste ano. Neste contexto, diz Fábio: "Não importa se você está na esquerda ou na direita, estamos em guerra e estamos perdendo."

Tomei esta esquerda-direita para mote, pois o autor, além daquele 26 mortes, fala em outras cifras que deixam-me com os pés no chinelo, ou melhor fico sentindo que há coisa de pé-de-chinelo nessa polarização brasileira. Em minha linguagem vemos a polarização entre liberalizmo e social-democracia. Claro que nem todos os brasileiros -toscos e bizarros em sua maioria- assim veem. Por exemplo, alguém que aprecie as propostas que Jair Metralha faz para salvar o Brasil dessa guerra só pode ter falsa consciência, especialmente se estamos falando de alguém de pouca instrução e baixa pecúnia.

Cifras: Marielle elegeu-se vereadora.

Quase metade dos 46 mil votos de Marielle vieram de bairros nobres da zona sul carioca e da Barra da Tijuca. Ela fez 1.027 votos no Leblon e apenas 22 na Rocinha; 2.742 votos em Copacabana e só 50 no Complexo da Maré. Boa parte das favelas vota hoje nas bancadas evangélica ou da bala, as mesmas que a esquerda chama de fascista e de onde vêm aberrações do tipo 'quero ver defender direitos humanos agora' ou 'ela colheu o que plantou', que nascem do ódio político e da preguiça de ser cidadão."

Não falei tratar-se de um artigo extraordinário? Não falei que Fábio Bernardi é um cara extraordinário? Se bem entendo sua qualificação no artigo quinzenal ("diretor de criação"), ele é um cara da publicidade. É o tipo de gente que admiro, como um time de jornalistas e outros profissionais que lidam com os meios de comunicação com o fim de vender. Carros e jornais, etc.

Claro que o artigo é extraordinário, pois nos leva a pensar na distribuição geográfica dos votos da vereadora do PSOL, um partido sabidamente radical (de uma esquerda que não chamo de minha, claro). E não é difícil vermo-nos envolvidos por aquelas regularidades: parece que os moradores dos bairros sabidamente detentores de maior poder econômico votaram mais por Marielle do que os bairros periféricos, onde falta dinheiro e sente-se até mais falta das políticas públicas com poder de equalizar as oportunidades na vida de uma criança, aliás de todo mundo. Educação, saúde e previdência.

Então pulei para minha conclusão: pé-de-chinelo não vota em defensores de políticas econômicas de cunho social-democrata. A falta de educação é de tal monta que, com razão, Fábio fala em gente que voltou a acenar com aquela sandice de quem defende bandido deve até agradecer por ser morto por eles. Senti-me tocado com a forma elegante como Fábio expressa essa vergonhosa grosseria. E fiquei fazendo minha auto-análise, redimindo-me: Eu defendo a ingesta, por exemplo, de quiabo e porco, mas não quero nem ser absorvido ou ingerido por um deles e nem, menos ainda, transformar-me num quiabo ou num porco.

DdAB
Peguei a imagem no Google aqui.
P.S. deixei para outro dia a definição de pé-de-chinelo, aliás condição que não comunaliza todos os portadores de chinelos, como é o fato da elegante dezena de dedinhos pintados na foto que nos encima.

segunda-feira, 19 de março de 2018

BRICs, TRICs e Prestidigitações


Querido diário:

Ho ajiornal de oje (já sabemos tratar-se de Zero Hora...) noticia a reeleição de Vladimir Putin para mais seis anos de mandato como presidente da Rússia, oslt. Dias atrás, veio a notícia dando conta de que o presidente Xi (eleven, como descobriram os americanos) da China também teve garantida sua condição de disputar um número infinito de eleições. No Brasil, fala-se que o clown Michel Temer também será candidato a uma reeleição, o que transformaria aquele BRIC em TRIC. Pensei na farsa desses BRICs (os quais, para deixar de vez clara a pantomima) incorporaram a África do Sul.

Ou seja, dos Brics aos tricks, uns ardis nauseabundos encastelando no poder essa malta que envenena ou tiroteia inimigos políticos, como se vivêssemos nos tempos do velho oeste, onde pontificavam heróis do bem e não da baixaria. Para o truque brasileiro, vejo três possibilidades: elege-se Temer, não há eleição nenhuma ou elege-se outro neguinho de relevância equivalente.

Em outras palavras, não vou esmorecer em pensar num futuro luzidio, mas o presente, esse presente que vai, pelo menos, até a próxima copa do mundo fora da Rússia, não me dá alívio: só baixaria. Não espero nada, nem mesmo a eleição do velho Jair Metralha.

DdAB
P.S. Pra que eu mesmo não fique pensando que levo uma vida de cão, pensei que, se fosse o caso, quereria ser um cão sorridente (daqui), mas acho que -para tanto- só mesmo fechando os olhos...

quarta-feira, 14 de março de 2018

A FEE não é uma qualqué


Querido diário:

A. FERNANDO LARA no Facebook:
Querem mais uma do esquizofrênico desgoverno estadual? "O Observatório Estadual da Segurança Pública (OESP), responsável pela gestão dos indicadores criminais da SSP, está aprimorando suas ações e reforçando seu quadro de servidores. Para qualificar ainda mais a análise dos dados, a SSP recebeu o aporte de dois engenheiros de produção do quadro geral de servidores do Estado e dois técnicos da Fundação de Economia e Estatística (FEE)". Para conferir credibilidade ao seu discurso vazio, o governo Sartori gosta de usar a FEE. "Soa bem" usar o nome da FEE, não é Sr. Sartori? Pois de fato, os técnicos da FEE qualificam o trabalho não só desta área, dita "prioridade" do governo, mas de todas as áreas. Basta querer. Basta solicitar, saber fazer a gestão, algo que os incompetentes nomeados por este governo nunca souberam fazer, é verdade. Não deve haver qualquer Secretaria que em algum momento não tenha se servido de apoio técnico da FEE. O plano de extinção das fundações não afasta só do serviço público esses recursos humanos qualificados. Afasta do Estado do RS estes recursos. Quantos ja foram, e ainda vão embora, trabalhar em SP, RJ, Brasília, diante do anti-intelectualismo tacanho que o seu governo alimenta? Quem vai fazer essas assessorias, quando e se a FEE estiver extinta? Consultorias privadas do centro do país, por certo. Vergonha do RS apequenado e derrotado por Sartori e seus amigos.


B. EU MESMO também lá no Facebook:
Por falar em criminalidade, o Fernando Lara deixa claro o que já sabemos: primeiro, que este governo é vergonhoso. Eu mesmo, ao evocar as ilusões que tive com relação àquele partido (ainda que cheio de "bigorrilhos") que interpunha-se à ditadura, fico pensando no que meus amigos que dele participaram ativamente dizem em casa nos dias que correm.
Segundo: que por vergonhoso que seja, o rastro de intensa destruição que eles estão deixando em diversas dimensões da vida estadual, não tem paralelo. E o fechamento da FEE (e outras fundações) é um crime inafiançável. Bando de vagabundos!

E andei ouvindo dizer que latrocínio quer dizer "ladrões sem tirocínio".

DdAB

quinta-feira, 8 de março de 2018

Os Robôs e os Impostos


Querido diário:

Trago aqui um exemplo do que é pensar logicamente e o que é não fazê-lo. Tenho como adversários os economistas de direita, claro, mas entendo que há muita gente no que cientificamente se pode classificar como esquerda arcaica que diz cada besteira que me deixa corado, chocado, dormido, pasmo.

Falo agora de certas inciativas de "amigos dos trabalhadores" que querem cobrar imposto de fábricas (ou o que seja, hospitais, coleta de lixo, cavar buraco em mina de carvão) por usarem robôs. Robô em linha de montagem? Ótimo, talvez não tenhamos mais Charles Chaplin sendo engolido pela engrenagem capitalista.

Impostos indiretos deveriam ser proibidos para o que quer que seja que possa classificar-se como bem de mérito. Obviamente não é o caso dos robôs, que geram, ao contrário, a redenção do trabalho humano.

Cobrar imposto sobre o uso de robôs aumenta-lhes o preço. Preço alto gera menor consumo. E é isto que a sociedade quer? Produtos mais caros? Claro que não. Ao contrário, queremos preços mais baixos, o que se consegue precisamente elevando a produtividade do trabalho, isto é, no caso, empregando mais robôs. O que os desastrados propositores do imposto sobre robôs pensam é que trabalhar é bom para os outros, no buraco da mina, na coleta do lixo, no assestamento de um parafuso sempre no mesmo lugar na esteira rolante. Da mesma forma que os atuais "amigos dos trabalhadores" os operários do início da revolução industrial na própria Inglaterra e depois na França, sabotavam (isto é, jogavam seus sabots-tamancos) dentro das engrenagens de máquinas que aparentemente lhes roubavam os empregos.

Nem os trabalhadores daqueles tempos nem muitos economistas contemporâneos dão-se conta de que o verdadeiro problema reside na apropriação do valor adicionado e não na geração. Pudera que, pensando desta maneira, esconjuram o capitalismo e querem logo o comunismo criado em laboratório.

DdAB
P.S. Aquela tirada grifada de "amigos dos trabalhadores", bem sabemos, é a referência irônica que Marx faz ao "Cidadão Weston" naquele opúsculo cujo nome nunca lembro, se é "Salário, preços e lucros" ou "Trabalho assalariado e capital". No mais antigo, ele ainda fala que trabalhador "vende trabalho", refinando a linguagem no segundo e falando que trabalhador "vende serviços do trabalho". Eu fui adiante na modelagem da matriz de contabilidade social e, identificando um mercado de fatores em que produtores alugam serviços dos fatores de seus proprietários, as instituições -especificamente as famílias e não o governo ou as firmas domésticas ou do exterior. Então o certo mesmo é falar em mercado de aluguel dos serviços dos fatores. Além dos trabalhadores, neste mercado também ganham dinheiro os proprietários das terras e os dos capitais, fábricas, bancos, etc.

P.S.S. A imagem veio da internet quando digitei "robalo", que foi a palavra mais próxima que encontrei a robô e robô roubado que devemos roubá-lo. E é interessante pois vemos o que parece uma mão de gente, um elogio ao trabalho-esporte. Não que eu deseje mal aos peixes, mas tem muita gente que ganha dinheiro pescando e outras tantas que pescam por puro prazer. Tem robô que vai-se especializar em dar prazer, mas há e haverá prazeres intransferíveis que o corpo humano desejará preservar, como a pesca, o ato de passear cães, o de contar piadas, e assim por diante.

P.S.S.S. Botei lá no Facebook: Dia Internacional da Mulher: a mulher é o negro do mundo. E uma das formas de libertá-la é converter o trabalho -boa parte- escravo que fazem por ampliação do que já foi delegado às máquinas: robôs. Mas tem neguinho que acha que tem que cobrar imposto sobre os robôs que substituem trabalho. Por isto postei algo solidário com as mulheres, negros, judeus, muçulmanos, cristãos, viados, existencialistas e todas as demais minorias. Dia da mulher, dia do ser humano.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Indústria e Instituições


Querido diário:

Vai aqui mais uma diatribe contra os praticantes do fetiche da industrialização. Eles chegam a delírios sustentando que a produção de naves espaciais, da indústria de quarta geração, a generalização dos robôs na roça e na cidade vai trazer nossa redenção.

Eu, cabisbaixo, pondero apenas que -como disse parece-me que Douglas North- boas instituições são mais escassas que esses desvarios industriais. E acrescento que sólidas instituições é que são as principais responsáveis pelo crescimento da produtividade no uso dos fatores de produção. E como é que faz para formar boas instituições? Education, education, education. Mais amplamente falando, trata-se de ativar a produção social-democrática de bens públicos (tais como a saúde e a segurança) e bens de mérito (tais como a educação e a saúde). Em outras palavras, palavra que também gera certa urticária em segmentos da esquerda arcaica, formação de capital humano.

DdAB
Imagem da Wikipedia.