segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Bixos e Bichas (ensaio filosófico)


Querido diário:
Lisboa tem o rio Tejo. O Tejo tem Almada, a cidade "do outro lado do rio". No outro lado do rio, há um restaurante com o atrativo nome de Atira-te ao Rio. A comida é "de dar urros", conforme andei ouvindo aqui mesmo há 40 anos. E lá fui há quatro. E, no devido tempo, voltarei. Vejamos o que é "devido" nestes casos. Depois informo.

Falando em eventos de "tempos atrás", lembrei que, nos meus tempos, isto é, nos tempos em que eu era pré-adolescente, falava-se no Brasil que eu tateava em "entrar na bicha", algo assim, significando "entrar na fila". Anos depois, já abandonando a adolescência, no vestibular, fui saudado como "bixo". Vim a saber -ou inferir- que bixo era o cara que passava no vestibular e não sabia nem escrever, na verdade, os veteranos consideravam todos nesta categoria. Pois então: bicha pra lá e bixo pra cá.

Em compensação, há muito tempo venho-me declarando especialista em introdução à filosofia, apesar de carregar o título de doctor of philosophy, um exagero na titulação que me foi dada por trabalhar com bichas, quero dizer, com filas, ou melhor, com linhas e colunas das matrizes de insumo-produto da economia brasileira. Nesta linha de especialista, aqui em Lisboa (que deixarei amanhã) comprei o livro

ALMEIDA, Aires e MURCHO, Desidério (2014) Janelas para a filosofia. Lisboa: Gradiva. (Coleção Filosofia Aberta, 26).

E li-lhe (lilhe, porca pipa?), em plena página 47 -precisamente meu ano de nascimento-  algo filosófico:

   Imagine-se que a Daniela defende que as mulheres devem ter privilégios especiais. Por exemplo, quando estamos na bicha para comprar bilhetes para o cinema, as mulheres devem entrar primeiro.

Strange days indeed!

Primeiro, considero que as mulheres devem ter tratamento especial, por exemplo, por parte dos arquitetos e das arquitetas ao desenharem banheiros de locais de grande afluxo de gente de ambos os sexos. É inquietante a desproporção e as consequentes filas que se avolumam nas portas dos banheiros femininos, contempladas por meia dúzia de gatos pingados masculinos que estão ali na também (mas bem menos) desagradável função de esperar suas caras-metade. Minha filosofia a respeito do assunto é: se não conseguimos arrumar equilíbrio no tempo de uso dos banheiros, que dizer de montarmos uma eficiente indústria (serviço industrial de utilidade pública) provendo água e esgoto a todos os brasileiros. É que tem, responde meu pragmatismo, o fetichismo industrial: a negadinha acha que esse negócio de desindustrialização precisa ser corrigido com nova industrialização. Eu sempre, investido de meu sorrisinho de mofa, fico imaginando que, se industrializarem novamente, então é que vai melhorar a estrambótica distribuição da renda e da riqueza. Acho que mais sensato é começarmos mesmo com os banheiros das mulheres e esgotos para todos.

Segundo, como sabe quem me acompanha, costumo ficar, durante as férias, 20 horas diárias dentro do hotel. Pra tanto tempo, precisa de tanta diversão. Então tenho visto, no inverno português, incontáveis filmes legendados com vários James Bonds: tantas palavras diferentes no português das legendas que volta e meia preciso é do contrário: ouvir o original em inglês para ter uma ideia da próxima façanha de nosso eterno herói.

Terceiro, apenas nesta viagem é que me dei conta de que "descer" aqui pronuncia-se "desxer" ou apenas "dexer", sei lá, que meus ouvidos, no inverno, passam frio. Esta constatação fez-me voltar a odiar os dromedários linguísticos que pensam em "unificação linguística". Eles, esses bandidos, que estragaram meu livro "O Pequeno Príncipe", de pré-adolescente. E de pós-adolescente o "Morte e Vida Severina (e outros poemas em voz alta)" de João Cabral de Mello Neto.

Que faço? Volto ao Brasil para voltar a incomodar-me com as coisas d'além mar?

DdAB

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