quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

no que um economista pode ser útil ao trabalhar em um mercado de bairro?


Querido diário:

Estando em Lisboa no presente instante, recuso-me a trabalhar, mas cometi o erro de olhar o Facebook. Aí pratiquei um acerto: vi desafios que gostaria de deixar registrados para meus leitores da linha da economia política. Pois a pergunta do título da postagem veio do mural de Gabriel Victor Thomsen retirada por mim, eis que postada por ele à 1h55min de ontem. A pergunta é genial e a resposta que lhe deu o prof. Avelino Balbino é angelical:

Claro que pode!
1º Organizar a parte financeira do mercado, gerenciando o fluxo de caixa e investimentos.
2º Fazer uma pesquisa de gasto/renda/perfil para adequar o mix de produto.
3º Estudar os processo do mercado e criar indicadores de produtividade para colocar metas.
4º Elaborar o planejamento estratégico do mercado.
5º Escolher os mix de fornecedores com base em indicadores de desempenho e rentabilidade de cada fornecedor/produto.
6º Fazer um estudo dos custos operacionais, para definir pontos de melhorias.
7º Estudar as melhores formas de financiamento do capital de giro.
8º Estudar formas de crédito ao consumidor, gerenciado sua inadimplência.
9º Buscar e avaliar formas de financiamento para investimentos.


Gabriel acrescentou à resposta de Avelino:
Eu quero propor um estudo análogo ao Índice de Complexidade Econômica, para calcular a probabilidade de co-compra de um bem em relação a todos os outros para rankear os clientes pelas suas cestas de compra e ver a distribuição estatística desse rank, assim como a frequência de cada cliente e seus horários.

Achei que poderia ajudar evocando as propriedades verdadeiramente magistrais contidas nesta lista acrescentando lá mesmo naquele mural:

Avelino e Gabriel: ao trabalhar (co-organizador e autor) do livro de contabilidade social que a Bookman publicou em 2011, vim a entender a importância da matriz de insumo-produto da empresa para o planejamento estratégico da firma. Nesta linha, entendo que o economista pode ser o organizador de um sistema de informações gerenciais a partir da matriz que ele mesmo pode calcular, seguindo instruções simples dadas no livro.

E dei-lhes este link aqui. Você é economista? Eu gostaria de ter contado com este capítulo do livro ao iniciar meus estudos lá no longínquo 1968. Ou nos trabalhos de professor no afastado 1976, sei lá. O fato é que, se dela dispusesse, tentaria motivar alunos, alguns dos quais orientei no TCC ou no mestrado, a trabalhar com ela, naquela lista dada por Avelino e direto no trabalho cogitado por Gabriel.
DdAB
Nossa imagem, que pode ser ampliada ao clicar sobre ela, veio da página 592 do livro que representa uma das sete maravilhas da natureza.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Marília e Gláucia:



Querido diário:

Marilia Verissimo Veronese escreveu no Facebook momentos depois da confirmação da sentença do juiz Sérgio Moro:

Tristes tempos, patéticas togas legitimando golpes, medonha quadrilha saqueando o Brasil, juizécos cafonas de voz finíssima prestando desserviços à nação, hipócritas apoiadores da desigualdade e do ódio de classe vestindo camiseta da cbf e fingindo que são contra a corrupção. Não são. Gostam dela, gostam muito, e também da desigualdade insana e cruel. Gostam da morte de crianças pobres e descuidadas pelo Estado; são incapazes de empatia e de elaborar pensamento complexo. Falam a linguagem do cinismo (ou da burrice).

Mas há que se ter paciência nesse mundo. Há que se ter amor pela parte da humanidade que merece o amor, que sente o amor, que o pratica enquanto trabalha, fala, conta histórias, limpa casas, cuida de crianças, sente o vento no rosto. Sorri para alguém na rua, a esmo, e recebe o sorriso de volta. Somos um só, somos muitos, somos todos. Vamos reconstruir, um dia. Se não for no meu tempo de vida, não perderei a esperança, que é fonte de vida. Um dia vem. Pros netos, bisnetos... o amor continua, continuará, mesmo sem a gente. Outras líderanças, mulheres e homens valentes, virão. Devem se renovar. Poderão aprender com os erros dos anteriores, Tomara. Erro número um: não se negocia com a plutocracia, porque ela é canalha e imoral demais para isso.


E, mais ou menos simultaneamente, Gláucia Campegher, lá mesmo no Facebook, divulgou a visão de Lula:

LULA!!!!
Declarações do Presidente Lula em gigantesca manifestação realizada na noite desta quarta-feira, 24/I, no centro de São Paulo:

- as pessoas podem sair com a impressão de que esse ato aqui é de campanha. Esse ato é infinitamente maior que um ato de eleição. É um ato em defesa da soberania nacional e do Brasil!
- depois da decisão do TRF-4, sinto que as pessoas vêm me cumprimentar como se eu estivesse sofrendo...
- eu, primeiro, nunca tive nenhuma ilusão com a decisão do tribunal. Nunca!
- nenhuma ilusão com o comportamento dos juízes na Lava Jato
- porque houve um pacto entre o Judiciário e a imprensa e resolveram que era hora de acabar com o PT e com a nossa governança
- eles já não admitiam mais a ascensão social dos mais pobres
- eles não suportavam mais a escolaridade, da creche à universidiade
- não suportavam mais o Ciência sem Fronteiras
- não suportavam mais o crédito para habitação e agricultura popular
- era muita gente com carro na rua! E a culpa era da desgraça do PT que ajuda o pobre a comprar carro! Pra nós, só ônibus lotado!
- quero dizer: a decisão de hoje qualquer advogado vai dizer que eu tenho que respeitar
- até respeito a decisão. Mas não aceito a mentira pela qual eles tomaram a decisão!
- eles sabem que eu não cometi crime!
- me dispus a ficar com os juízes um dia inteiro, televisionando ao vivo, para ver se eles me mostram algum crime
- não estou preocupado se vou ser candidato ou não! Quero que eles peçam desculpas pelas mentiras que estão contando sobre mim!
- estou condenado outra vez por um desgraçado de um apartamento que não tenho!
- se me condenaram, me deem pelo menos o apartamento! Aí justifica!
- já pedi para o Boulos mandar o MTST ocupar aquele apartamento!
- já que é meu, ocupem!
- não quero que ninguém fique preocupado apenas pelo Lula. Quero que a gente tenha uma preocupação com 210 milhões de brasileiros
- quero que tenham clareza de que tudo tende a piorar, quando eles consagrarem a reforma da Previdência
- o FIES está acabando
- o ProUni está diminuindo
- a massa salarial está diminuindo
- o trabalho com carteira assinada vai deixar de existir
- vai sair dos nossos direitos o que conquistamos há 60 anos
- quem tá no banco dos réus é o Lula, mas quem foi condenado é o povo brasileiro!
- um ser humano pode ser preso. Mandela ficou preso 27 anos. E nem por isso a luta dele diminuiu
- ele voltou e virou presidente da África do Sul
- aqui no Brasil, um dia um alferes chamado Tiradentes ousou pensar na independência do País. Não só o Governo o condenou, como o enforcou e o esquartejou. Penduraram sua carne nos postes para que ninguém nunca mais quisesse pensar na independência
- em 1889, Tiradentes foi o único herói nacional na Proclamação da República!
- eles têm que saber de uma vez por todas: parem com essa bobagem de achar que o Lula tem que ser condenado. O Lula é insignificante. Mas o povo brasileiro começou a mostrar que não aceita subserviência!
- hoje falaram 10 horas seguidas e não tem um crime!
- com essa história de condenar quem não cometeu crime, apenas com convicção ou com domínio do fato (ou seja, prevaleceu no mensalão... "eu não quero saber se você roubou, mas é o chefe e vai pagar o preço"), quero dizer: não sou radical; sou até moderado demais. Mas eles não estão acostumados a julgar o inocente. Pra mim, esse julgamento é uma oportunidade de viajar o Brasil e começar a discutir com o povo o que a gente já teve e pode voltar a ter!
- eu nem queria mais fazer política. Mas estou percebendo que tudo o que eles fazem é para evitar que eu seja candidato
- essa provocação é de tal envergadura que me deu uma coceirinha
- e eu agora quero ser candidato à Presidência da República! Tenho vontade de ser!
- eles podem cassar esse direito. quero disputar com eles na consciência do povo, não na caneta!
- e se eu cometi um crime, me apresente esse crime. Se me apresentarem, eu desisto de candidatura
- eu desafio eles!
- a PF, o MPF, o Moro... e desafio também os três que me julgaram: apresentem um único crime!
- esse processo está subordinado à Rede Globo, à Veja, ao Estadão, à Folha...
- eles não admitem a ascensão social
- quando criei o ProUni, eles diziam que eu iria rebaixar a Educação.
- que iria colocar gente despreparada na Universidade
- depois, os testes mostraram que os pobres bolsistas eram os melhores alunos
- acham que FIES é gasto, mas emprestar para as empresas não é...
- o melhor investimento que se pode fazer é na Educação! Para garantir a soberania!
- eles nunca se conformaram com a gente ter mandado a Alca embora e fortalecido o Mercosul
- nunca se conformaram com a nossa visita a 39 países africanos!
- diziam: o Lula deveria visitar os EUA e não a África!
- eles são complexados! Amanhã, 1h, embarco para a Etiópia para discutir o combate à fome na África
- porque o Brasil tem exemplo!
- nunca toleraram um metalúrgico entrando na História como o Presidente que mais fez Universidades! Esse analfabeto ser o que mais fez escolas técnica, que mais fez casas, mais deu aumento de salário...
- eles não podem prender o sonho de liberdade! não podem prender as ideias. o Lula é um homem de carne e osso. Podem prender o Lula, mas as ideias já estão na cabeça da sociedade brasileira!
- as pessoas já sabem que é gostoso comer bem, morar bem, viajar de avião, comprar carro novo, ter uma casa com TV, PC, telefone...
- eles pensam que nós queremos continuar comprando coisa de segunda?
- queremos nossos filhos com a mesma oportunidade dos deles! o filho da empregada tem que estar no mesmo banco de escola que a filha da patroa!
- isso eles não vão conseguir prender
- não abaixem a cabeça! Nada de ficar com "coitadinho do Lula". Levantem a cabeça! Pobre deles que pensam que prendendo o Lula acaba a luta...
- a hora não é de desistir. É de continuar a nossa trajetória para o futuro!
- eles se preparem: os partidos de esquerda vão se unificar durante a campanha
- vamos voltar não a governar, mas a cuidar desse povo com o respeito que ele merece
- cansamos de preconceito! de inveja! de ódio! queremos um país de paz
- só tem um jeito de me tirar da luta: só no dia em que eu morrer!
- enquanto esse velho coração bater, podem ter certeza de que a luta pelo povo brasileiro vai continuar!
- não desistam nunca!
- um aviso à elite: espere! Porque nós vamos voltar!
E vamos voltar a provar que esse país vai ser respeitado. Sem complexo de vira-lata. Vamos provar que o pobre não é problema, mas solução

- até a vitória!

DdAB
Imagem: queria uma ilustração bem-humorada e pedi ao Google Images "Marília e Gláucia". Veio Malharia Gláucia. Achei bom.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A Volta do Conceito de "Alienado"


Querido diário:

Pensando nas eleições de 2018, fiquei imaginando o auê em torno da candidatura de Jair Bolsonaro à presidência da república. Pensei em muitos amigos e parentes que veem com simpatia tal projeto, tal projeto de poder, tal projeto de transformação da sociedade. Essa turma não está satisfeita com o que estamos presenciando. Mas insatisfeitos também estamos milhares de outros que nem queremos pensar em Bolsonaro e, a caro custo, pensamos em alternativas à esquerda do centro do espectro político. Aliás, novamente precisaríamos definir centro no Brasil/2018. Certamente Bolsonaro não é de centro.

Eu myself, quando penso nas candidaturas de Lula, Ciro Gomes, Fernando Haddad e Manuela d'Ávila, fico muito próximo àquela condição que me aproxima de meu copo de cachaça. E, depois do terceiro ou quarto copo, fico imaginando que precisamos mesmo é criar um novo partido político. Aliás o termo "novo" já caiu na malha-fina. Há anos pensei no "Partido Zero", cuja legenda será "Partir do Zero", um partido com a sensata proposição troskista de fazermos uma revolução e a tornarmos permanente.

Minha questão central neste mundo de preocupações com o futuro mais distante que meu horizonte de vida, fiquei a indagar-me o que leva um indivíduo a considerar com seriedade a possibilidade de sagrar como política de estado um programa de ação governamental que discrimine minorias ou que deseje subjugar maiorias? Então ocorreu-me o termo alienado: quem é alienado não está nem aí para as repercussões da candidatura de Bolsonaro nem sobre si nem sobre seus descendentes.

E como fazer uma revolução permanente nos dias que correm? Não vejo outra saída: ela estará ligada aos projetos de educação de adultos, valendo a legenda da lapela do blog:

.a três horas de ginástica por dia
.b três horas de trabalho social por dia
.c três horas de leitura por dia.

Pois nessas três horas de leitura, de educação continuada, a parte da filosofia contemplará um dos milhares de livros que já li ou lerei sobre o tema (lembra que me declaro especialista em 'introdução à filosofia'?). Pois não é que comecei a ler

LAW, Stephen (c.2011) Filosofia; guia ilustrado Zahar. Rio de Janeiro: Zahar.

Li um tantinho e cheguei numa grande e preciosa pérola na página 15:

[... As] crenças [filosóficas] podem ter grande impacto sobre nossas vidas diárias. Alguém que acredite que moralidade não é mais que uma preferência subjetiva pode acabar se comportando de modo muito diferente de alguém que considere que ser errado matar ou roubar é uma questão objetiva. Há também um aspecto filosófico em muitos debates morais e políticos contemporâneos. Questões sobre aborto, direito dos animais, guerra, liberdade de expressão têm todas uma importante dimensão filosófica.

Então consegui firmar algum princípio: alienado é quem não acha nada, mas também é quem não pensa nas consequências do que acha sobre

. a liberdade (não matar, em pena de morte, não reduzir a liberdade dos outros por meio do roubo)
. a origem de classe, gênero, raça, credo
. a desigualdade
. a justiça
. a moral e a ética

Naturalmente, aquelas três horas de aula por dia que considero fundamentais para a construção da sociedade ideal terão uma fração dedicada ao estudo da introdução à filosofia. Este livro do mr. Law certamente é uma peça fundamental, ainda que haja dezenas de outros. Na verdade, para quem possui apenas alguns rudimentos do estudo desta área e que desejam aprofundar-se, meu livro recomendado é

NAGEL, Thomas (2007) Uma breve introdução à Filosofia. São Paulo: Martins Fontes.

Os dois que seguem li-os o primeiro de trás para frente e o outro de frente para trás:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires (2009) Filosofando; introdução à filosofia. 4ed. São Paulo: Moderna.

COTRIM, Gilberto e FERNANDES, Mirna (2010). Fundamentos de filosofia. São Paulo: Saraiva. [Saraiva? Saraivíssima, a mesma de nossos conhecidos livros de metodologia e técnicas de pesquisa e de teoria dos jogos].

E tem mais um que se encontra na estante de minha especialidade:

FEITOSA, Charles (2005) Explicando a filosofia com arte. Rio de Janeiro: Ediouro.

E quem não estuda filosofia introdutória pode evitar a alienação? Claro que pode, basta sentir compaixão pelos menos aquinhoados, solidariedade com o outro ser humano, bondade para com os animais. Pode-se ser, por exemplo, bondoso e tratar "hombres y perros" a coices? Ou pode-se praticar atos de bondade apenas no âmago da família? Já referi que meus amados Hargreaves-Heap e associados (no livro sobre teoria da escolha) dizem que os ladrões são bons em honra, mas péssimos em justiça. Em certo futuro, falarei mais sobre altruísmo e egoísmo. Ok?

DdAB
P.S. O sr. Law tem seu capítulo final denominado "Quem é Quem na Filosofia", muito interessante para orientar um plano de leitura para quem deseja se aprofundar (que não é meu caso, hehehe).

P.S.S. A linda (se bem a entendo) imagem que nos encima veio daqui: http://sitevolts.com.br/2017/11/15/dia-mundial-da-filosofia-com-programacao-especial-em-sao-luis/.

P.S.S.S. O site do El País (aqui) publicou este resumo opinativo do próprio Jair Bolsonaro:

Mas, quem é e quais são as opiniões de Jair Bolsonaro, esse homem que pode vir a governar o Brasil a partir de 1° de janeiro de 2019? Deixemos que ele mesmo exponha alguns tostões do seu pensamento.
Democracia
- “Se fosse eleito, não há a menor dúvida, daria golpe no mesmo dia. Já que é o presidente que manda, faz logo uma ditadura”. (23-05-1999 – Programa Câmera Aberta, TV Bandeirantes)
- “Através do voto, não vai se mudar nada neste país. Só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil marginais”. (23-05-1999 – Programa Câmera Aberta, TV Bandeirantes)
Impostos
- “Bobos somos nós, que estamos pagando impostos. Inclusive, conselho meu, e eu faço: Eu sonego tudo o que for possível. Se eu puder não pagar imposto, eu não pago”. (23-05-1999 – Programa Câmera Aberta, TV Bandeirantes)
- “Quem hoje em dia e no passado nunca se indignou com a sua carga tributária? Hoje o povo, como um todo, só não sonega o que não pode. Eu, representando o povo, desabafei naquele momento isso”. (11/01/2018 – Folha de S. Paulo)
Mulheres
- “Tudo que as bichas têm a oferecer, as mulheres têm e é melhor”. (04-04-2011, Programa CQC, TV Bandeirantes)
- “Eu tenho pena do empresário no Brasil, porque é uma desgraça você ser patrão no nosso país, com tantos direitos trabalhistas. Entre um homem e uma mulher jovem, o que o empresário pensa? ‘Poxa, essa mulher tá com aliança no dedo, daqui a pouco engravida, seis meses de licença-maternidade...’ Quem que vai pagar a conta? O empregador. Quando ela voltar, vai ter mais um mês de férias, ou seja, ela trabalhou cinco meses em um ano. Por isso que o cara paga menos para a mulher!". (10-12-2014, Rádio Gaúcha / Zero Hora)
- “Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, aí no quinto eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”. (03-04-2017 – Clube Hebraica, Rio de Janeiro)
- “O dinheiro do auxílio-moradia eu usava para comer gente”. (11-01-2018, Folha de S. Paulo)
Afrodescendentes
- “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Acho que nem pra procriar ele serve mais”. (03-04-2017 – Clube Hebraica, Rio de Janeiro)
Cotas raciais
- “Sou contra as cotas raciais, porque todos nós somos iguais perante à lei. A Constituição diz que o acesso ao terceiro grau é pelo mérito. E não existe esse negócio de política afirmativa não. Quem usa cota, no meu entender, está assinando embaixo que é incompetente. Eu não entraria num avião pilotado por um cotista. Nem aceitaria ser operado por um médico cotista”. (04-04-2012 – Programa CQC, TV Bandeirantes)
Tortura
– “Eu sou favorável à tortura”. (23-05-1999 – Programa Câmera Aberta, TV Bandeirantes)
- “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, o pavor de Dilma Rousseff (...) o meu voto é sim pelo impeachment” (17-04-2016 – Votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff. O coronel em questão é conhecido por ser um dos maiores torturadores da época da ditadura militar)
- “O erro da ditadura foi torturar e não matar”. (08-07-2016 - Programa Pânico, Rádio Jovem Pan FM)
Questão de gênero
- “P: Tem algum homossexual na família? R: Graças a Deus, não. Eu desconheço. Se tivesse, nem quero pensar”. (14-02-2000 - Isto é Gente)
- “P: O que pensa sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo? R: Eu sou contra. Não posso admitir abrir a porta do meu apartamento e topar com um casal gay se despedindo com beijo na boca, e meu filho assistindo a isso”. (14-02-2000 - Isto é Gente)
- “P: O que você faria se tivesse um filho gay? R: Isso nem passa pela minha cabeça, porque eu dei uma boa educação. Fui um pai presente, então não corro esse risco”. (04-04-2011 – Programa CQC, TV Bandeirantes)
Pena de morte
- “Eu sou favorável à pena de morte”. (14-02-2000 - Isto é Gente)
- “Acho que o fuzilamento é uma coisa até honrosa para certas pessoas”. (14-02-2000 - Isto é Gente)
Segurança pública
- “Eu acho que a polícia brasileira tinha que matar é mais. Violência se combate com violência”. (05-10-2015 – Vídeo)
- “Policial que não mata, não é policial”. (27-11-2017, O Globo)
Se for presidente
- “Se eu um dia tiver o mandato de presidente, o pessoal da Anistia Internacional não vai mais interferir na vida interna do nosso país”. (05-10-2015 - Vídeo)
- “Para ministro da Educação vai ser convidado um general que já tenha um comando de colégio militar ou um civil que queira realmente botar ordem na casa. Botar um ponto final na ideologia de gênero, na questão de doutrinação na escola”. (20-03-2017 – Programa The Noite, SBT)
- “Se eu chegar lá, não vai ter dinheiro pra ONG. Esses inúteis vão ter que trabalhar. No que depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou quilombola”. (03-04-2017 – Clube Hebraica, Rio de Janeiro)
- “Colocaria vários militares nos ministérios. O militar, até pela sua formação, você dá uma ordem pra ele, ele cumpre ou retorna e diz porque não pode cumpri-la. A gente precisa de hierarquia e disciplina para alcançarmos a ordem e o progresso”. (10-06-2017 – Show Tube)

abcz

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

William Baumol (e a indústria e ainda myself)

Querido diário:

Um Pouco de História.
No dia 8 de julho, fiz 70 anos e, no dia, 8 de julho de 1986, li no jornal Zero Hora (sempre ela...) uma crônica de Luis Fernando Veríssimo falando na recente morte de Jorge Luis Borges (14 de junho) e de um grande instrumentista americano de jazz, cujo nome agora me foge. Disse o cronista que os dois eventos passaram despercebidos por causa da copa do mundo. Venceu a Argentina, 3x2 sobre a Alemanha, na cidade do México.

Pois no 5 de maio passado, falei novamente no aniversário do nascimento de Karl Marx, desta vez, comemorando o 199o [em outras palavras, no dia cinco de maio vindouro, o negão fará 200 anos]. Por vias estranhas, apenas no 12 de julho é que vim a saber que, um dia antes, ou seja, no 4 de maio de 2017, faleceu William Baumol (pron. Bomól).

William Jack Baumol
Pelo que andei lendo desde então, Baumol escreveu 30 livros e mais de 500 artigos em revistas técnicas. Amo-o e admiro-o, mesmo tendo lido não mais de 10 itens. E sempre destaquei e destacarei:

Primeiro:
Macroeconomics of Unbalanced Growth: The Anatomy of Urban Crisis. American Economic Review. V. 57 n. 3 (Jun. 1967) pp. 415-426.

Segundo: 
Entrepreneurship: Productive, Unproductive, and Destructive. Journal of Political Economy. V. 98 n. 5, Part 1 (Oct. 1990) p. 893-921.

E tem mais pilhas sobre produtividade, maximização das vendas, microeconomia e pesquisa operacional, contestabilidade, sabe-se lá que minha memória está escondendo, além do tal jazzista...

Só um gênio pode escrever com tanta simplicidade e humor. Naquele "macroeconomics of the urbgan crisis", um dos mais engajados e lindos de seus artigos, o argumento é de uma engrenagem perfeita:
.a a produtividade do trabalho cresce mais na produção de bens do que na dos serviços
.b  preços e produtividade variam inversamente.
.c logo o preço dos serviços caem menos que os dos bens industriais, implicando que os preços relativos deixam os serviços mais caros
.d tudo pronto para a piada: como é que os serviços podem ter sua produtividade do trabalho crescendo, se não é sensato transformarmos um quinteto de cordas em um quarteto?...

Aí veio o livro que não li e que já está na lista:

The Cost Disease: why computers get cheaper and health care doesn't, 2012. (Com associados).

Antes de ler, veio-me à cabeça aquela viajação que costumo fazer sobre o efeito excel. Como sabemos, o efeito excel dá conta do fato de que os porto-alegrenses geram valor adicionado na criação de cavalos, outros animais, pêssegos, laranjas e outra pilha de produtos agrícolas. Mas, olhando o PIB da cidade, vemos que a participação da agricultura no total é nula, ou 0,0% (mas, se fôssemos ao final da planilha, poderíamos ver algo como 0,0004%). Seja como for, a produção primária é negligível se comparada aos demais setores. E isto já dá um calor na preocupação com o estancamento da produtividade de um quinteto de cordas...

O Dinheiro
Uma teoria do crescimento econômico estritamente monetária diz que, uma vez que

M = PIB (equação quantitativa da moeda, quando o nível de preços é unitário e a velocidade de circulação da moeda também o é),

então o PIB aumentará sempre que o estoque de moeda M aumentar dentro de certos limites dados pela capacidade instalada na economia. Então esse aumento de M, esse delta-M, é colocado em disputa por parte dos produtores, fatores e instituições e seu grau de sucesso é que vai determinar os preços relativos.

O Crescimento Ilimitado
Mas haverá setores que não serão condenados ao efeito excel, pelo menos, não tão cedo, como 

.a a saúde e a luta pela vida eterna
.b os transportes e a luta por luas de mel nos anéis de Saturno.

Mas existe outro setor que pode levar-nos a pensar que o efeito excel tomará conta de tudo o mais. E isto seria visível na matriz de contabilidade social. Temos aqui uma delas:

Nesta matriz simplificada, temos o registro das contas das três grandes organizações econômicas: os produtores, os fatores de produção e as instituições. As linhas representam vendas ou entrada de recursos, por contraste às colunas que registram os débitos ou saídas de recursos. Deste modo, a célula c11 mostra o valor de 600, significando que os produtores vendem insumos intermediários nesse valor a si mesmos. Se a desdobrássemos, como fizemos na tabela que ilustra esta postagem, veríamos, por exemplo, que não são os mesmos produtores que vendem, mas, digamos, uma indústria é que vende refrigeradores para um hotel. Na confluência entre produtores (final da primeira linha, antes do total) com as instituições (última coluna, antes do total), vemos que os produtores vendem refrigeradores agora não mais a outros produtores mas diretamente aos consumidores finais, pois estes são reunidos sob o título de instituições.

Esta matriz também nos mostra nas células c13 (que recém examinamos), c21 e c32 as três óticas de cálculo do valor adicionado, portanto todas exibem o valor de 1.000. A célula 21 mostra venda dos fatores aos produtores, o que configura a ótica do produto do valor adicionado: os produtores pagaram os fatores precisamente para contribuírem à formação do PIB. A célula 32 mostra a ótica da renda, que é o aluguel que os fatores de produção -que os receberam dos produtores- remetem às instituições, que são suas proprietárias. Por fim, a ótica da despesa é vista na célula c13, e está informando como as instituições usam esse dinheiro que recebem de seus integrantes que o buscou no mercado de fatores de produção.

Números arbitrários criados por mim mesmo há algumas décadas, eles não mostram a hierarquia que considero será a derradeira e talvez até removendo a importância crucial que esta matriz tem nos dias de hoje. Na tabela que reproduzi, vemos que o valor adicionado (PIB = renda = despesa) de 1.000 é maior que o valor dos insumos intermediários de 600 (ou seja, as relações intersetoriais). Este, de sua parte, também é maior que os 200 que vemos na célula c33, que dá conta das relações interinstitucionais. Faltou-me inspiração para elevar aqueles 200, digamos, para 1.200, que é o que estou afirmando: estas transações é que se farão soberanas quantitativamente: as transferências interinstitucionais, dinheirinho que o pai dá ao filho, dinheiro que o governo dá aos aposentados, dinheiro que os ricaços dão ao governo na forma de imposto de renda.

A Composição do Infinito
E daí? Daí que naqueles tempos por vir, as finanças serão uma espécie de grande cassino, às vezes direcionando parte de seus ganhos ao lado real da economia. Na verdade, não podemos nem pensar que enormes soberanias do setor financeiro implicarão geração de muito valor adicionado ou muito emprego. Pelo jeito, os computadores farão tudo, tudinho. O que estou antecipando é que haverá estas enormes transações, turbinando (como dizem...) as transações interinstitucionais. Uma espécie de transformação do quinteto em uma orquestra.

Então entendo que as finanças crescem pois:

.a cada vez farão mais seguros, seguros de viagens espaciais, seguros de vidas longas, seguros de tudo, seguros de Kenneth Arrow designados por seguros generalizados, quando, por exemplo, eu farei um seguro para defender-me de algum processo que a negadinha que adora a indústria queira fazer para calar-me a boca. Seguros de falha de seguros, seguros de sucesso de seguros, tudo. Muito dinheiro. Criando pouca renda e pouco emprego, mas gerando enorme bem-estar, pois naquele mundo melífluo viveremos eternamente, viajaremos para seca-e-meca e não seremos abalados por qualquer contratempo.

.b gambling, ou seja, apostas (na bolsa de valores, apostas nos jogos de cricket, de futebol, de saber qual guri atravessará a rua antes do outro, jogo de poker e outros milhares de jogos e situações de futuro indeterminado). Isto também vai dar muito dinheiro e, como tal, muita transferência de rendimentos entre instituições.

Baumol previu que este tipo de sociedade estagnaria, depois reviu sua posição e entendeu que também o setor serviços gerará extraordinários ganhos de produtividade, como será o caso quando todos os serviços médicos forem prestados por robôs, quando nossas naves espaciais e escovas de dentes forem produzidas por impressoras em 3D, quando as sentenças judiciais (raras, pois os seguros generalizados cobrirão a maior parte das demandas) também forem prolatadas (hehehe) por robôs. Nesse momento, Porto Alegre seguirá produzindo pêssegos e cavalos, São Paulo -sei lá- seguirá produzindo automóveis Volkswagen, o mundo fará computadores, etc., etc., mas nada disto empanará o valor das transações da célula c33. Naquele dia, se persistirmos em querer alcançar a indústria de quarta geração antes de termos lançado bases sólidas para nossos esgotos, o que veremos será mesmo um país de pigmeus olhando para o alto, mas com os pés no barro...

DdAB

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Eita, Ano Novo, eita, Ana Mélia

Querido diário:

Eu tinha jurado que em 2018 seria menos cáustico em minhas análises da economia política brasileira. A jura não resistiu a uma leitura de Zero Hora, que publica tanta coisa... Na página 19 do exemplar de hoje -artigos assinados-, vemos o título "Ninguém está acima da lei", de autoria de Ana Amélia Lemos, senadora do PP-RS. Pepê, eita! A senadora está falando, claro, no julgamento em segunda instância a que o processo que acusa Lula de ser dono de um apartamento que lhe teria sido dado por uma empreiteira. O presidente veio a ser declarado culpado pelo já afamado juiz Sérgio Moro, da Operação Lava-Jato e de -não menos preocupantes- alegados antecedentes criminais também bastante merecedores de cautela. Ana Amélia. Obviamente, o título do artigo e o tema são eloquentes, ela quer argumentar, quer ensinar-nos a pensar. E aí é que reside o problema. Ela herself não sabe pensar, não domina as regras da lógica, levando a contradição a expressar-se em menos de dois parágrafos:

Um deles:
É inaceitável [...] que, face  esse julgamento, o Judiciário seja agora desafiado com ameaças veladas ou explícitas por manifestações dos outros poderes ou pelos aliados do réu."

No outro:
A Lava-Jato, pelo notável trabalho desenvolvido até aqui, é uma das poucas unanimidades no Brasil!

Que dizer? É inaceitável mesmo, hahahaha. In dúbio, pró réo, pode ser que o substantivo feminino plural "unanimidades" tenha mudado de significado desde que o aprendi há alguns anos. É inaceitável mesmo que a argumentação da senadora seja mais curta que fibra do algodão americano...

DdAB
Imagem: digitei "papagaio do pirata" no Google Images. Veio-me a figura simpática que nos encima. Pensei que surgiria algo mais 'falante' sobre as virtudes etológicas da senadora. Não veio, conformei-me com a simpatia do bichinho.