terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Mino Carta, da Carta Capital

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Querido diário:

Comecei a escrever o que segue, podemos ver, ainda em outubro passado. Por razões que eu próprio desconheço, não o fiz... Então lá vai:

Na Carta Capital -que, por razões óbvias- designo como Capital dos Carta- de quarta-feira dia 24 de outubro, ou seja, data de circulação de capa, mas a mim chegou no dia 20 de outubro, sábado, oito dias antes da eleição que nos derrotou, Mino Carta disse impropérios que eu poderia jurar que ajudou a derrotar nosso candidato. SQN. A tiragem de sua revista é relativamente reduzida, de sorte que seu ódio ficou apenas entre os leitores.

Que disse o senhor Carta? Seu tradicional editorial às vezes ultrapassa uma página inteira e desta vez tem mais caráter de artigo assinado. As páginas 16 e 17 contêm suas diatribes, já anunciadas numa chamadinha de canto da capa da revista. Seleciono duas ou três passagens.

MC: [...] Estivemos com o velho e caríssimo amigo [Lula] sem a intenção de entrevistá-lo para evitar um novo processo, este por desobediência, conforme a ameaçadora determinação do supremo presidente dos golpistas de toga, aquele Toffoli que o próprio Lula indicou para o STF. Nem por isso deixamos de falar da situação na perspectiva do segundo turno e ele queixou-se do tom menor da campanha de Fernando Haddad.

Eu: queixou-se? E autorizou a publicação de seu descontentamento com o candidato que foi seu ministro da educação e, por sua -de Lula- indicação, eleito para prefeito de São Paulo, como sabemos? Queixou-se e mandou Mino publicar? OK, sigamos com Mino Carta:

MC:    Nada é pior que Bolsonaro e nada é mais desolador do que encontrar o grande líder popular brasileiro encarcerado. Pessoalmente, concordo não ser hora de autocríticas, mas também me parece não ser hora das vaias petistas que levaram Cid Gomes, no dia 15 [de outubro] ao destempero no decorrer de uma reunião entre presumíveis aliados. Assim se demolem as pontes lançadas pelo projeto de uma frente democrática. Muitos erros foram cometidos pelo caminho, sem perceber as pedras ou as ignorando.
   No pior momento de nossa deplorável história, o PT mostra toda a sua visceral incapacidade de ser o partido de esquerda de que o país necessita, no sentido, digamos assim, contemporâneo de pensamento de Norberto Bobbio, a agremiação determinada a defender a igualdade neste Brasil brutalmente desigual. Os últimos movimentos do petismo fracassado estão na censura praticada apressadamente em relação ao programa eleitoral, ao retirar as demandas que mais incomodavam a casa-grande, como remate de extrema covardia do candidato Fernando Haddad, disposto a elogiar um dos principais responsáveis pelo desgaste atual, o reles inquisidor Sergio Moro, torquemadazinho tão representativo da nossa Idade Média. E a traição cometida contra o próprio líder e fundador do partido, mesmo que Lula não se dê conta disso e da patética inutilidade de seu sacrifício.

Eu: Data da capa da revista: 24 de outubro. A eleição ainda não ocorrera, pois veríamos a derrota do lulismo e algumas parcas adjacências no dia 28. A eleição estava por ser definida. Mas Mino deu de presente a Bolsonaro as palavras "[...] como remate de extrema covardia do candidato Fernando Haddad [...]".  O pior é que há afirmações do sr. Mino com as quais sempre concordei. Mas nunca lhe/s neguei o caráter retrógrado dos defensores do nacionalismo, do nacional-desenvolvimentismo, essas coisas. Agora que somos grotescamente desiguais e a isto nos acostumamos desde a primeira infância, lá isto somos. E mais: aquela queixa contra os petistas que vaiaram Cid Gomes naquela oportunidade, o que levou seu irmão, irado, a viajar para a Europa, espairecendo pela conquista de apenas cerca de 10% dos votos do primeiro turno, aquela queixa, repito, está coberta de razão. E mais, o PT é um fracasso como partido articulador da esquerda brasileira, não foi, mas agora é. E mais ainda, se Lula tivesse sido candidato a presidente, estou certo de que teria vencido a eleição. Quase dois meses depois de ter lido esta tenebrosa afirmação de Mino Carta, ela ainda me dói nos olhos e, na época, fiquei imaginando se o autor não teria ficado louco, inclusive delirando sobre ler os pensamentos de Lula. Chega!

DdAB
Imagem: será fake news, dado o que disse sobre o signatário da foto o Mino?
E fiz a seguinte propaganda no Facebook:


Sou vingativo: li afirmações intoleráveis feitas por Mino Carta na sua revista (que apelidei de Capital dos Carta) em 20 de outubro, antevésperas do segundo turno das eleições. Vingança: divulgar na postagem daqui. E lá [aqui, no blog] se encontra a figura de que reclamo no quadradinho que segue.
A imagem pode conter: texto

domingo, 16 de dezembro de 2018

Desenvolvimento e Subdesenvolvimento: Arruda Jr. e eu

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Querido diário:

Tão perto, tão longe... Fazia dias que não te via... Decidi escrever para relatar que acabo de ler:

SAMPAIO JR., Plínio de Arruda. Desenvolvimentismo e neodesenvolvimentismo:
tragédia e farsa. Serviço social e sociedade. São Paulo, n. 112, p. 672-688, out./dez. 2012

Ele tem um parágrafo que me permite desdobrá-lo em forma de lista que é um verdadeiro be-a-bá da crítica ao modelo desenvolvimento-subdesenvolvimento:

[...] 
Reduzida à relação entre acumulação de capital e modernização dos padrões de consumo, a problemática do desenvolvimento transforma‐se em problemática do desenvolvimento capitalista. Antes de superar as insuficiências do desenvolvimentismo, o movimento revisionista negava a própria realidade do subdesenvolvimento. A relação necessária de condicionamento mútuo entre industrialização e formação da economia nacional estava definitivamente rompida. Enfim,
impugnava‐se a própria noção de subdesenvolvimento como uma realidade composta pela totalidade de nexos orgânicos entre: 

.1 controle da economia pelo capital internacional, 
.2 latifúndio, 
.3 desemprego estrutural, 
.4 marginalidade social, 
.5 inadequação tecnológica, 
.6 heterogeneidade estrutural, 
.7 estreiteza e precariedade do mercado interno, 
.8 controle do Estado por burguesias aculturadas,
.9 modernização dos padrões de consumo, 
10 posição subalterna na divisão internacional do trabalho, 
11 transferência de recursos ao exterior, 
12 tendência estrutural a concentração do progresso técnico, 
13 colonialismo interno, 
14 instabilidade monetária, 
15 tendência estrutural à estagnação, 
16 fragilidade fiscal, 
17 deterioração dos termos de troca, 
18 tendência estrutural a desequilíbrios externos, 
19 irracionalidade econômica, 
20 dependência tecnológica, financeira e cultural, 
21 precariedade dos centros internos de decisão, 
22 ameaça permanente de crises de reversão estrutural.

Insisto: a listagem em forma de lista fui eu que fiz apenas copiando as características de uma economia subdesenvolvida negadas pelo "movimento revisionista". Não vou me aprofundar. Mas declaro controverso o item 17, pois conheço evidências de longo prazo que sugerem que esta deterioração é cíclica. E o 6 - heterogeneidade estrutural - a meu ver abarca praticamente todas as demais. Como não queria dizer, mas disse Chico de Oliveira lá na minha amada "Crítica da razão dualista", o moderno se nutre do atrasado e o alimenta (mutatis mutandis).

DdAB
Gostei daquele mapa mundi fazendo o corte norte-sul. Mas não devemos esquecer que meu ideário de promoção do desenvolvimento tem:
.a governo mundial
.b implantação da renda básica universal
.c social-democracia capitalista com o imposto de Tobin de 5% do volume total de transações financeiras financiando a renda básica
.d gasto universal regressivo, isto é, primeiro água para todos, depois alimentos, depois esgotos, depois, etc., depois escolas, depois financiamento da pequena empresa, e por aí vai.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Losurdo

O Marxismo Ocidental
Querido diário:

Não precisava haver dois marxismos - o ocidental e o oriental - mas há. E Losurdo mostra com riqueza empírica (citações a obras e jornais) que assim é.

LOSURDO, Domenico (20018) O Marxismo Ocidental; como nasceu, como morreu, como pode renascer. Rio de Janeiro: Boitempo.

Para o autor italiano, a falha mais frequentemente apontada sobre o marxismo ocidental é que este enfrenta enormes dificuldades para identificar o colonialismo e o neo-colonialismo promovido precisamente pelos próprios países ocidentais, como os Estados Unidos, a Inglaterra, a França, a Alemanha, a Itália, Portugal e Espanha.

Na p.39, vemos a premissa aparentemente correta mas que gera comentários devastadores da parte de Losurdo. Ele começa citando Ernst Bloch que, de sua parte, faz uma citação de Anatole France:

"Anatole France diz que a igualdade diante da lei significa proibir, na mesma medida, que ricos e pobres roubem lenha e durmam embaixo das pontes. Longe de impedir a desigualdade real, a lei chega a protegê-la [..., sic]. Por serem os juristas, de fato, especialistas apenas no aspecto formal, é justamente em tal formalismo que a classe dos exploradores, com toda sua capacidade de desconfiança, de avareza e de perfídia calculista, encontra seu terreno mais propício [..., sic]. Todo o direito, incluída a maior parte do direito penal, não é mais do que um simples instrumento das classes dominantes para manter a segurança jurídica em prol de seus próprios interesses.

Esta afirmação irônica permite-nos identificar muita gente que considera que "todos são iguais perante a lei", sendo, nesta onda, levados a dizer que os pobres são pobres, pois não são capazes de aproveitar as oportunidades que este mundo de igualdade lhes confere.

Claro que o livro tem muito mais que esta desmistificação das sociedades democráticas. De minha parte, entendo que o marxismo enquanto filosofia política normativa está superado. O 'pobrema' é que ainda não vejo o que o terá superado. Sou um saudosista da social-democracia europeia, especialmente a escandinava, mas ainda assim, se fosse para reconstruí-la, eu o faria sob bases um tanto diferenciadas que resultam de minha adesão crítica à teoria da escolha pública. Destaco:

. valorizo a diferença entre produção e provisão de bens públicos e também de mérito
. valorizo despesas governamentais regressivas e tributação progressiva
. valorizo segurar as "privatizações", pois privatizar, especialmente no Brasil, significa passar a propriedade daqueles capitais (Petrobrás, Embraer, bancos estatais, e por ai vai) para os ricos. E ainda creio que boa parte do capital a ser colocado pelos ricos nesse tipo de negócio será repassado pelo governo por aquelas vias do BNDES, os próprios bancos do Brasil e Caixa.

Meu breve contra a sociedade desigual é a criação de empregos para todos, a democracia e a liberdade, o distanciamento e subserviência de relações formais e a ação livre de trabalhadores independentes livremente associados. O mercado não dará empregos para todos, o estado poderá fazê-lo mas em críticas condições de produção. Mas ele também pode transferir suas responsabilidade para o setor comunitário e até para as famílias fazendo maravilhas: quem não quer emprego no setor privado que vá para o setor estatal ou comunitário,

DdAB

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Marcelo d'Salete e a Desigualdade

Querido diário:

Não tenho acompanhado a literatura de quadrinhos que, nesses anos todos, se tornou uma atividade literária séria. Neste filão foi que o jornal Zero Hora, na página 5 de seu "Segundo Caderno", vemos uma entrevista com Marcelo d'Salete, "ilustrador, professor, denhista e roteirista". O título da matéria já é estranho para o padrão do jornal: "O Brasil precisa lutar contra a desigualdade".

Transcrevo a última pergunta da entrevista feita por um jornalista (oslt) não identificado:

Pergunta:
O que pensa do atual momento político?

Resposta:
Estamos em um momento político bem delicado de crise realmente. É no mínimo um retrocesso. Ouvimos discursos machistas, sexistas, racistas sendo propagandeados durante a campanha à presidência. É inadmissível que esse tipo de fala aceito seja pela população. Fala que defende tortura, morte de presos, de que não deve haver oposição. Agora, penso que é um momento importante também para que a população organizada faça oposição. O Brasil precisa lutar contra a desigualdade, que é um mal, uma chaga, uma cicatriz que a gente ainda tem do período colonial e não foi resolvida. Continuamos governando para uma parcela pequena da sociedade. Tem que romper com esse ciclo. A população negra, indígena e pobre sobreviveu a processos de genocídio, de matança desenfreada, de uma violência desmedida e claro que mais uma vez mais mostrar sua força diante de pessoas que demonstram não estara minimamente interessadas ou preparadas para governar de fato ppara todos os brasileiros. É preciso resistir.

Comento:
Eu me senti recompensado por ter me interessado e lido toda a entrevista. Ele não mencionou o nome do candidato eleito para a presidência da república, mas revela sua preocupação e  revolta com o apoio às idéias autoritárias do eleito. Repito, para eu mesmo decorar estas apreciações:

.1 É inadmissível que esse tipo de fala aceito seja pela população.
.2 [Ele] fala que defende tortura, morte de presos, de que não deve haver oposição. 
.3 Agora, penso que é um momento importante também para que a população organizada faça oposição. 
.4 O Brasil precisa lutar contra a desigualdade, que é um mal, uma chaga, uma cicatriz que a gente ainda tem do período colonial e não foi resolvida.

Olha só que ele entende que realmente Bolsonaro foi eleito por uma parte da população que incorporou eleitoralmente essas atrocidades, nomeadamente, tortura, morte de presos, banimento da oposição. Quando lemos este tipo de retrato da realidade, ficamos realmente petrificados. O povo gosta de tortura? O povo gosta de morte de presos? O povo deseja um governo sem oposição? Ele, falando em negros e índios e seu genocídio ele está falando muito além da simples defesa da maioria da população do Brasil (negros e pardos já são mais da metade da população; não olhei os dados de descendentes de índios, mas bem sabemos que os pobres representam no mínimo 80%, talvez 90%).

Recentemente mais pesquisadores, no caso, a turma da Oxfam, diagnosticou e apavorou-se com o grau de desigualdade vigente no Brasil, ascendente nos últimos dois anos. Tem gente que não conhece estas peculiaridades deste gigante territorial e populacional, povoado por pigmeus de capital humano, conforme retratam aquelas "paradas de gigantes e anões". Tem gente que não entende que o verdadeiro problema da população é a desigualdade. Tem gente que votou num programa econômico de aprofundamento da concepção de estado mínimo.

Eu e Keynes temos claro que o emprego no setor privado acabou, desde 1930, em virtude do avanço da tecnologia poupadora de mão-de-obra. Ele previa uma era de prosperidade, em que o problema deixava de ser a escassez, mas a adaptação da população para a cultura do lazer. Se não haverá mais empregos para todos, cabe à dupla estado-comunidade criá-los, nem que sejam os fake jobs.

Mesmo que trabalhemos apenas uma ou duas horas por dia, o vínculo empregatício com o mercado-governo-comunidade é fundamental para a auto-estima, para a manutenção da forma física e psicológica do trabalhador, para sua disciplina (acordar cedo, vestir-se, etc.) e muitas outras vantagens que nem posso imaginar. Por outro lado, o que fazem os ricos já nos dias que correm? Não trabalham, mas dedicam seu tempo e disciplina para produzir ou consumir arte e praticar ou olhar esportes.

Quem não queria um mundo desses para todos?

DdAB
P.S. A imagem lá de cima é da capa de um livro de Joel Rufino dos Santos que li em meus tempos de estudante do hoje chamado ensino médio. Inebriado pelos eflúvios da peça de teatro Arena Conta Zumbi, vim a saber do livro e até hoje penso que a peça é baseada no livro. A capa que aqui exponho, se a memória não se desvaneceu, é diferente daquela que li.

domingo, 25 de novembro de 2018

Edward Wilson, 52-53 e 74

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Querido diário:

Digamos que, em 1987 ou 1988, comecei minha trajetória na leitura da biologia evolucionária e, em menor grau, a economia evolucionária. E como é que foi meu começo? Meu amigo e colega duplo (UFRGS e UFSC), prof. João Rogério Sanson, emprestou-me um livro de Edward Wilson. Simplesmente dei uma olhada na internet, Amazon, Estante Virtual, e nada de lembrar o título. O fato é que anotei algo em meus manuscritos relativo ao que ele sugere seria uma civilização de formigas e suas "panelas". Ele fala, entre outras atividades, cabeleireiro, necrotério, restaurante, e nem lembro se é isto mesmo, e muito mais.

Depois li a biografia dele. Tem em português, mas li em inglês, naquele tempo em que eu viajava muito pra cima e pra baixo e comparei preços em cruzados, cruzadinhos, cruzeiros, sei lá, e em libras esterlinas. E era o tempo do câmbio louco do imediato pós-Plano Real.

Em compensação, semanas atrás, por influência de meu sobrinho, o herpetologista Arthur Abegg, li, assim:

WILSON, O. Edward (2015) Cartas a um jovem cientista. São Paulo: Companhia das Letras. Tradução de Rogério Galindo.

Galindo? Parece aparentado (irmão?) de Caetano Galindo, terceiro tradutor do Ulysses, de James Joyce para o português brasileiro. Eis que tem outra tradução para o português europeu.

Sigo. Vou citar, para felicidade geral da nação, duas passagens que reputo de extraordinárias. Elas se localizam nas páginas 52-53 e 74. E lá em cima, temos uma formiga argentina, a que -talvez- ainda venha a ser a única espécie terráquea.

Página 53 - ciência e sobrenatural

   Houve um tempo em que as pessoas acreditavam que a raça humana surgiu, como em um evento sobrenatural, totalmente madura em sua forma presente. Hoje compreendemos, de maneira bem diferente, que a nossa espécia descendeu, num processo de 6 milhões de anos, de macacos africanos que também foram ancestrais dos modernos chimpanzés.
   Como Freud observou certa vez, Copérnico demonstrou que a Terra não é o centro do universo, Darwin, que nós não estamos no centro da vida, e ele, Freud, que nós não estamos nem mesmo no controles de nossas próprias mentes. É claro, o grande psicanalista deve dividir o crédito com Darwin, entre outros, mas ele está certo ao dizer que o consciente é apenas parte do processo do pensamento.
   Em resumo, por meio da ciência nós começamos a responder de modo mais coerente e convincente duas das grandes e simples questões da religião e da filosofia: de onde viemos? E o que somos? É claro, as religiões institucionalizadas afirmam ter respondido essas duas perguntas há muito tempo, usando histórias sobrenaturais de criação. Você pode muito bem perguntar, portanto, se um crente religioso que aceita uma dessas histórias pode fazer boa ciência mesmo assim. É claro que pode. Mas ele será forçado a dividir sua visão do mundo em dois domínios, um secular e outro sobrenatural, e a permanecer no domínio secular enquanto trabalha. Não será difícil para ele encontrar empreendimentos dentro da pesquisa científica que não têm qualquer relação imediata com a teologia. Essa sugestão não pretende ser cínica, nem significa um fechamento da mente científica.
   Se fossem encontradas provas de uma entidade ou força sobrenatural que afeta o mundo real, o que todas essas religiões afirmam, isso mudaria tudo. A ciência não é inerentemente contrária a essa possibilidade. Pesquisadores, na verdade, têm todos os motivos para fazer essa descoberta, se ela for viável. O cientista que conseguisse fazer isso seria visto como o Newton, Darwin, Einstein, todos juntos, de uma nova era na história da ciência alegando ter provas do sobrenatural. Todos, no entanto, foram baseados em tentativas de provar uma proposição negativa. Normalmente, o formato é o seguinte: "Nós não fomos capazes de encontrar uma explicação para esse e aquele fenômeno; portanto, ele deve ter sido criado por Deus". Versões atuais ainda em circulação incluem o argumento de que como a ciência ainda não pode oferecer um relato convincente sobre a origem do universo e sobre o estabelecimento das constantes físicas universais, então isso deve ser criação divina. Um segundo argumento que se ouve é que como algumas estruturas moleculares e reações na na célula parecem complexas demais (para o autor do argumento, pelo menos) para terem sido formatadas pela seleção natural, elas devem ter sido projetadas por uma inteligência maior. E mais uma: como a mente humana e especialmente o livre-arbítrio como parte essencial da mente parecem estar além da capacidade da causa e efeito materiais, eles devem ter sido inventados por Deus.
   A dificuldade em crer em hipóteses negativas para dar sustentação a uma ciência baseada na fé é que, se elas estiverem erradas, elas também estão muito vulneráveis a contraprovas decisivas. Basta uma prova verificável de uma causa real e física para destruir o argumento de uma causa sobrenatural. E precisamente isso, na verdade, tem sido uma grande parte da história da ciência, à medida que ela evoluiu de fenômeno em fenômeno. O mundo gira em torno do Sol, o Sol é uma estrela entre 2 milhões de outras ou mais em uma galáxia entre centenas de bilhões de galáxias, a humanidade descende de macacos africanos, os genes mudam por meio de mutações aleatórias, a mente é um processo físico em um órgão físico. De acordo com a compreensão naturalista do mundo real, a mão divina foi retirada pouco a pouco de quase todo o espaço e o tempo. As oportunidades restantes de encontrar evidências do sobrenatural estão se fechando rapidamente.
   Como cientista, mantenha sua mente aberta para qualquer fenômeno possível restante no grande desconhecido. Mas nunca se esqueça de que sua profissão é a exploração do mundo real, sem preconceitos ou ídolos mentais aceitos, e que a verdade verificável é a única moeda nesse reino.

Página 74 em que vemos uma ironia do autor relativamente à linha de montagem na produção de artigos científicos. Ele acha que a descoberta é algo individual. E eu, em geral, discordo e bem que gostaria de estar comendo croissants acompanhando meu café de caneca... (E ganhando em dólares americanos...).

   [...] há os adorados think tanks de ciência e tecnologia, onde alguns dos melhores e mais brilhantes de suas áreas são reunidos explicitamente para criar novas ideias e produtos. Visitei o Santa Fe Institute no Novo México, assim como as divisões de desenvolvimento da Apple e do Google, dois dos gigantes corporativos dos Estados Unidos, e admito que fiquei muito impressionado com o ambiente futurista deles. Na Google até comentei: 'Essa é a universidade do futuro'.
   Nesses lugares, a ideia é alimentar e abrigar pessoas muito inteligentes e deixar que elas perambulem por ali, se encontrem em pequenos grupos tomando café e comendo croissants [sic, sem itálico no livro], e troquem ideias umas com as outras. E depois, talvez enquanto cruzam um gramado muito bem cuidado a caminho de seu almoço gourmet [idem], eles terão uma epifania. Isso certamente funciona, em especial se já existe um problema bem formulado na ciência teórica ou se é preciso criar um produto.
   Mas o pensamento coletivo é o melhor modo de criar ciência realmente nova? Arriscando-me a uma heresia, eu discordo [...].

Uma vez que "alguns dos melhores e mais brilhantes de suas áreas" encontram-se num mundo que já estava bastante avançado cultural e educacionalmente quando nasceram e foram educados, penso que temos aí uma afirmação cabal do primeiro princípio da sociedade justa tal como apresentado por David Harvey (lá no primeiro P.S. daqui): Desigualdade intrínseca: todos têm direito ao resultado do esforço produtivo, independentemente da contribuição.

DdAB

P.S. Estas páginas 52-53 implicam necessariamente que não existe Deus? Embora eu seja da campanha "Ateus, saiam do armário", não posso deixar de colocar restrições ao materialismo absoluto, pois quem sabe lá o que houve antes do Big Bang? E quem sabe lá o que quer dizer que 85% da massa do universo é constituída por matéria escura (aqui).
P.S.S. A imagem é da formiga argentina.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Bolsonaro e a Canção


Querido diário:

Por alguma razão neuronal, lembrei desta cena do lindo filme Can-Can, os americanos em Paris, os americanos na internet com o YouTube... Mas aqui temos Maurice Chevalier e Louis Jordain, cantando Cole Porter e dando uma lição ao presidente do Brasil: viva e deixe viver.

DdAB
Words (com recomendação de que o presidente solicite ao vice-presidente (que -dizem- sabe inglês  traduza para ele)

Let's do it
(Letra [trechos lá do filme] e música de Cole Porter, com transcrição da letra do link anteriormente citado feita por mim)

Live and let live
Be and let be
Hear and let hear
See and let see
Sing and let sing
Dance and let dance
I like open bus (?)
I do not
So what, so what, so what?
Write and let write
Read and let read
Love and let love
Breath and let breath
Live and let live
And remember this line:
Your business is your business
And my business is mine.



quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Governo Mundial e Meio-Ambiente


Querido diário:

Aqui vemos um gráfico da evolução da temperatura do hemisfério Norte, uma boa proxy do que vem acontecendo no hemisfério Sul, dadas as propriedades da bola terráquea.

Sem governo mundial, não tem meio-ambiente. Mas não é um governo mundial qualquer. Ele tem que conceder a renda básica universal, com o quê tranca a expansão demográfica para aquém da capacidade de carga do planeta.

DdAB
P.S. retirei o gráfico do site de Michael Roberts, aquele carinha britânico que editou um livro que contém um capítulo de autoria do prof. Adalmir Marquetti.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Deputados Corruptos e a Justiça Brasileira


Querido diário:

Que mais podemos querer? Um terço do congresso, um negócio bicameral composto por câmara de deputados e por um senado federal? Quase 200 pessoas com um pé na cadeia e "representando o povo ou o território". Cá entre nós...

Quando digo que a impunidade é a mãe do crime, replicam que há milhares de pais.

DdAB
É o jornal O Estado de São Paulo: 1/3 do Congresso eleito em 2018 responde a processos na Justiça; acusações vão desde corrupção e lavagem de dinheiro a assédio sexual.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Jornal de Direita Falando em Esquerda

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Querido diário:

Se bem entendo, repercute nas redes sociais um artigo publicado hoje nos jornais de direita Estadão e O Globo por Luis Fernando Veríssimo. Pois não o vi em Zero Hora, o jornal que frequentemente designo por Zerro Herra, dada sua visão de mundo que reputo de errada e seus erros de todo tipo. Lembro de um dos records em que se iniciava certa matéria falando que um vivente deixou de sê-lo por ter levado uma facada, mais adiante esclarecendo que era um tiro na barriga, algo assim.

Então Luis Fernando Veríssimo deixou Zero Hora? Zerro Herra é que deixou-o? Sei lá, os próximos dias vão responder. Os dias que correm, na verdade, são os primeiros da eleição de Jair Bolsonaro para o cargo de presidente do Brasil, no dizer de Juca Chaves, "bossa nova é ser bom presidente desta terra descoberta por Cabral [...] e depois desfrutar da maravilha de ser o presidente do Brasil." É maravilhoso, né?, especialmente quando fala-se em reforma tão radical que até os poderes conferidos aos militares pelo A.I.5 duvidariam...

E Zerro Herra? Na página 12 tem uma manchete: "Esquerda quer isolar PT no Congresso". Li de baixo para cima e vice-versa e entendi a definição de esquerda: Ciro Gomes. E que diz o jornal que ele diz? "[...] Ciro espera atrair partidos de centro, como PSDB, PPS e até dissidentes do DEM." Diz Ciro [...] O objetivo é ampliar a centro-esquerda. Imagino que o PSDB não vai querer se associar ao PT e, pelo menos a parte mais sadia da sigla, não vai querer se associar ao Bolsonaro - explicou o pedetista em entrevista à Folha de S.Paulo."

Eu mantenho-me filosófico a respeito de tudo isso. Só vendo o que farão mesmo na economia para crer.

DdAB
P.S. Na segunda-feira, dia 5 de novembro deste ano corrente de 2018, a página 6 do caderno principal do carimbadíssimo jornal trás o artigo citado: "Os omissos". Antes tarde do que nunca.

domingo, 28 de outubro de 2018

As Duas Derrotas de Lula

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Querido diário:

Parece óbvio que Lula foi derrotado em certo sentido, mas de outra forma -mais séria-, se ele tivesse sido candidato, seu carisma teria impedido que pobre (ou seja, gente que ganha menos de R$ 2.000 por mês) votasse no vencedor desta eleição malhada.

Parece evidente que deu-se um lawfare há anos contra Lula, especificamente 2016 com aquela decisão de prisão mesmo antes de ter todas as chances de defesa. Assim, o lawfare foi contra Lula, contra a candidatura de Lula, contra novo mandato presidencial de Lula. A tristeza do espetáculo é que o que vemos é tão mais desprezível precisamente por ter partido do poder judiciário, essa excrescência brasileira fornida nos últimos 30 ou 40 anos no mais desatobinado corporativismo cúmplice do poder legislativo, pois o salário de uns é indexado ao salário dos outros.

Mas não basta. Lula também foi derrotado na eleição, naquela estratégia -sabendo-se preso- de não ter iniciado a campanha eleitoral muito antes dos prazos legais. Na linguagem da teoria dos jogos, o superjogo era participar ou não da eleição. Ao decidir participar, obviamente, Lula estava aceitando as regras vigentes. O mínimo que andei querendo dele era que ele tivesse indicado Fernando Haddad lá atrás. Ainda assim, antes disto, eu desejei que ele tivesse ajudado a formar um frente de esquerda liderada por alguém alheio ao PT. Mas nem seria Ciro Gomes, alguém mágico, alguém tipo Renato Janine Ribeiro.

Agora Lula foi derrotado duas vezes. De pirraça, nós também derrubamos o rei das peças brancas!

DdAB
P.S. E aquele cavalo bem equilibrado do tabuleiro lá de cima representa os burros que, investidos da mais aguda falsa consciência, votaram em Jair Bolsonaro.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Apoio Final a Haddad: Bertold Brecht

Querido diário:

Mais um apoio insuspeito a Fernando Haddad para o cargo de presidente do Brasil. Agora, vem-nos da Alemanha: Bertold Brecht (*10.fev.1898; +14.ago.1956). Trata-se do extraordinário poema "Aos que Vão Nascer", com tradução de Geir Campos. Penso tê-lo ouvido recitado numa daquelas peças de teatro político dos anos 1960 e também mantido contato com essa tradução publicada na Revista Civilização Brasileira daqueles tempos.

Aos que Vão Nascer
(Bertold Brecht)
I
Realmente, eu vivo num tempo sombrio.
A inocente palavra é um despropósito. Uma fronte sem ruga
denota insensibilidade. Quem está rindo
é só porque não recebeu ainda
a notícia terrível.

Que tempo é este em que
uma conversa sobre árvores chega a ser falta,
pois implica silenciar sobre tantos crimes?
Esse que vai cruzando a rua, calmamente,
então já não está ao alcance dos amigos
necessitados?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Porém, acreditai-me: é puro acaso. Nada
do que faço me dá direito a isso, de comer a fartar-me.
Por acaso me poupam. (Se minha sorte acaba,
estou perdido.)

Dizem-me: – Vai comendo e vai bebendo! Alegra-te com o que tens!
Mas como hei de comer e beber, se
o que eu como é tirado a quem tem fome, e
meu copo d’água falta a quem tem sede?
Contudo eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser um sábio.
Nos velhos livros consta o que é sabedoria:
manter-se longe das lidas do mundo e o tempo breve
deixar correr sem medo.
Também saber passar sem violência,
pagar o mal com o bem,
os próprios desejos não realizar e sim esquecer,
conta-se como sabedoria.
Não posso nada disso:
realmente, eu vivo num tempo sombrio!

II
Às cidades cheguei em tempo de desordem,
com a fome imperando.
Junto aos homens cheguei em tempo de tumulto
e me rebelei com eles.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

Minha comida mastiguei entre refregas.
Para dormir deitei-me entre assassinos.
O amor eu exercia sem cuidado
e olhava sem paciência a natureza.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

As ruas do meu tempo iam dar no atoleiro.
A fala denunciava-me ao carrasco.
Bem pouco podia eu, mas os mandões
sem mim sentiam-se mais garantidos, eu esperava.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

Minguadas eram as forças. E a meta
ficava a grande distância;
claramente visível, conquanto para mim
difícil de alcançar.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

III
Vós, que vireis na crista da maré
em que nos afogamos,
pensai,
quando falardes em nossas fraquezas,
também no tempo sombrio
a que escapastes.

Vínhamos nós então mudando de país mais do que de sapatos,
em meio às lutas de classes, desesperados,
enquanto apenas injustiça havia e revolta nenhuma.

E entretanto sabíamos:
também o ódio à baixeza
endurece as feições,
também a raiva contra a injustiça
torna mais rouca a voz. Ah, e nós,
que pretendíamos preparar o terreno para a amizade,
nem bons amigos nós mesmos pudemos ser.
Mas vós, quando chegar a ocasião
de ser o homem um parceiro para o homem,
pensai em nós
com simpatia.


Não fica óbvio que Brecht também apoia Haddad?

DdAB

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Também Drummond Apoia Haddad

A imagem pode conter: 1 pessoa, sorrindo, close-up

Querido diário:

Carlos Drummond de Andrade (*31.out.1902; +17.ago.1987) escreveu tantos poemas que a gente até fica espantada com a coerência poética e política. Entre as mensagens que venho recebendo de apoio à candidatura que protagoniza a maior onda vermelha de todos os tempos, nomeadamente, a de Fernando Haddad à presidência da república do Brasil, destaca-se a que hoje vemos. O maior poeta. Mas não é apenas ele. Lá no P.S. vemos outro poema dele, desta vez, transmitido por Manoela d'Ávila, a candidata a vice-presidente, transmitido, repito, por ela a Luiz Inácio Lula da Silva. Por ora temos aqueles versos que me fazem rir e chorar: a canção que faça acordar os homens (os dorminhocos que já elegeram Jânio Quadros, Fernando Collor e votaram expressivamente em Aécio Neves) e adormecer a criançada, esses milhões de meninos de rua, cujo sono sempre tem sobressaltos, dado o ambiente aziago em que entram em vigília.

Canção Amiga
Carlos Drummond de Andrade

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me veem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Pois é isto: eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. Confirma-se a força da onda vermelha.

DdAB
P.S. Diz-se aqui que Manoela d"Ávila recitou o seguinte poema para Lula:

Mãos dadas
Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista pela janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Mais Apoios a Haddad: Antonio Callado


Querido diário:

Antônio Callado (*26.jan.1917; +28.jan.1997) foi um grande jornalista e romancista brasileiro. Conheci-o ao ler o romance "Quarup", que virou uma espécie de cult de minha geração lá dos anos finais da década dos 1960s. E depois veio o "Bar Don Juan", agora já mais claramente postado contra a ditadura militar, o que me leva a entender que ele apoia incondicionalmente a candidatura de Fernando Haddad à presidência da república dos estados unidos do brazil.

Pois foi em algum lugar que a memória não retrata que li em alguma entrevista ou matéria sobre o Pantanal Mato-grossense. Conta-nos ele que descia de barco um afluente do Rio Paraguay e, all of a sudden, todos viram um jacaré postado à margem do rio, observando o movimento de sobe-desce de canoas e animais de diferentes espécies. Um dos passageiros da canoa que transportava Antônio Callado, mal viu o réptil, puxou de sua espingarda e -mestre em caçadas, pelo que podemos depreender- deu um tiro precisamente na metade do caminho que une os dois olhos do bichinho, matando-o instantaneamente. Callado, estupefato, apenas balbuciou: "Mas o que é isto? Que fizeste, infeliz cidadão?" E relata que o indigitado cidadão disse apenas: "Ué, ele estava olhando pra cá."

Moral da história: dê arma para um animal e ele só pode dar um tiro na cara do outro.

DdAB

domingo, 21 de outubro de 2018

Bandeira Reforça Apoio a Haddad

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Querido diário:
Como sabemos, no outro dia, o grande poeta pernambucano Manuel Bandeira (*19.abr.1886, +13.out.1968) manifestou-se neste blog. Hipotecando solidariedade à candidatura de Fernando Haddad à presidência da república, recomendava-nos sufragá-la no próximo domingo. Tantas foram as manifestações de apreço que recebi que voltei a preocupar-me com o tema e vemos nova mensagem:

O Bicho
Manuel Bandeira

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

É óbvio, não é mesmo?, que um cara que escreveu um poema destes, numa denúncia desesperada com os maus tratos infligidos a outros seres humanos, só poderia votar em Haddad neste segundo turno.

DdAB

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Poeta Manuel Bandeira Declara Voto em Haddad


Querido diário:

Mesmo não sendo espírita, às vezes fico tangido por manifestações "do alto". Olha agora o que me foi permitido entender. No poema "Irene no Céu", Manuel Bandeira (*19.abr.1886, +13.out.1968)

Irene no Céu
(Manuel Bandeira)

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Parece óbvio que Bandeira entende que Irene era negra e não é preciso um cérebro arguto (como o meu, hahaha) para entender que Irene era empregada doméstica. Odiando o racismo, Bandeira hoje dá o maior apoio à candidatura de Fernando Haddad à presidência da república. Diz Bandeira: "Não dá pra votar em quem odeia negros e negras. E, a propósito, não vão achar nunca os culpados pelo assassinato da vereadora Marielle?"

Imagino Manuel Bandeira dirigindo-se à urna: "Os home não querem o Homem então é agora mesmo que eu voto nele."

DdAB
P.S. Se Irene de Tal era mesmo cozinheira, nada melhor para homenageá-la que esta pintura de Niko Pirosmanashvili (ver aqui).

sábado, 13 de outubro de 2018

Haddad é Vítima de uma Vulgar Sinédoque


Querido diário:

Sinédoque, lembra? Em meu caso, "tomar a parte pelo todo". Tem uma lição ligeira aqui. E uma refinada abordagem está aqui. Já começa que tomar Fernando Haddad por Lula é encrenca certa. Mas o principal é que muita gente toma uma banda podre do PT, um grupo responsável pelos "mal-feitos" do partido em seus anos de governo federal, como sendo o partido inteiro e especialmente seus melhores quadros. Meu ponto é que, embora o PT não seja mais aquela brastempe dos tempos antigos, seu projeto ainda é bom para a social-democracia brasileira, o que está mais perto, dadas as escolhas eleitorais que nos desafiam.

De outra parte, o problema em não escolher Haddad e sua coalizão neste segundo turno é uma aposta que os eleitores do candidato antagonista fazem. Eles confiam que, daqui a quatro anos, haverá novas eleições, tudo normal. Meu medo é que a adesão democrática do candidato antagonista é ralíssima. E que a maior chance de termos mesmo eleições para suceder o presidente que está para ser eleito é ver Haddad no poder.

E não posso deixar de ficar pasmo com a incapacidade generalizada de ouvir argumentos racionais sobre essas probabilidades subjetivas de golpe militar, ameaça à liberdade pessoal e efeitos de uma administração governamental sobre a desigualdade.

DdAB
Apêndice:
synecdochesynecdoche
 si-nek'-do-keeGk. "to take with something else"
Also sp. syndoche
intellectio, subintellectio, pars pro toto
intelleccion, figure of quick conceite

A whole is represented by naming one of its parts (genus named for species), or vice versa (species named for genus).
Examples
The rustler bragged he'd absconded with five hundred head of longhorns.
Both "head" and "longhorns" are parts of cattle that represent them as wholesListen, you've got to come take a look at my new set of wheels.
One refers to a vehicle in terms of some of its parts, "wheels"
"He shall think differently," the musketeer threatened, "when he feels the point of my steel."
A sword, the species, is represented by referring to its genus, "steel"
Related Figures

Related Topics of Invention
Sources:Ad Herennium 4.33.44-45 ("intellectio"); Quintilian 8.6.19-22; Trebizond 61r ("intellectio"); Susenbrotus (1540) 7-8 ("synecdoche," "intellectio"; Sherry (1550) 42 ("synecdoche," "intellectio," "intelleccion"); Peacham (1577) C3r; Fraunce (1588) 1.8-11; Putt. (1589) 196, 205 ("synecdoche," "figure of quick conceite"); Day 1599 78; Hoskins 1599 11; Melanchthon (1531) b1r


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Gideon O. Burton, Brigham Young University
Please cite "Silva Rhetoricae" (rhetoric.byu.edu) 
abcz

sábado, 6 de outubro de 2018

Haddad dará na Desigualdade


Querido diário:
Véspera da eleição para escolher entre Haddad e pistas para a sociedade igualitária e Bolsonaro, o fascismo de mercado...
DdAB

sábado, 29 de setembro de 2018

Os Butiá, as Eleição e Reflexões Duilianas sobre o Teorema do Eleitor Mediano

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Querido blog:

Não gosto de parecer alarmista, mas refreei o início desta postagem falando em "o mar não está para peixe". Depois explico, mas tô falando nos butiá caídos aos bolso pru causo das eleição.

Mais ameno é o assunto das duilianas, o que faço regularmente, tentando divulgar mais meu nome, por vê-lo um tanto contido por pais e mães do Brasil contemporâneo (diz o Google na pesquisa de 'duilio': aproximadamente 3.430.000 resultados (0,99 segundos), costumo espalhar para a turma que é um bom nome para filhos. Ao mesmo tempo, 'duiliana' bem poderia ser o nome de uma garota: Duilia Ana. Mais que Duilio, o nome de Duilia merece ainda bastante cuidado na divulgação das vantagens de portá-lo (no Google, há: aproximadamente 137.000 resultados (0,86 segundos), ou seja, desproporção entre Duilio e Duilia podendo deixar os pais e mães da futura geração muito preocupados. E principalmente o Brasil. Desagrada-me comparar o número de entradas no Google, por exemplo, com 'Carlos', com 1,2 bilhões de entradas ou 'Maria', com 2,5 bilhões. Ameno? Posso chamar de 'ameno' tratar de um nome que tem infinitamente menos entradas que nomes também de pessoas decentes?

Pois então. As eleição deixam-me contrafeito ao perceber que o sistema um/a eleitor/a-um voto é o melhor que existe, ainda que haja tanta gente de todas as extrações sociais e intelectuais que seguem intentando votar no capitão Pocket (recente e oportunisticamente acusado de ser um pocket cheio dinheiro roubado. E acabo de ouvir que esse candidato já revelou que, se for derrotado em sua intenção de presidir o Brasil, não reconhecerá o resultado, por haver fraude nas urnas, o que seja, o mesmo discordar do sistema um/a eleitor/a-um voto. Mas aí é que reside a encrenca: como é que tanta gente ainda pensa em votar em um cara que sempre foi conhecido por seu autoritarismo e desde agora enxovalha a lisura do processo eleitoral. Pra dizer a verdade, eu também enxovalho, pois começa que acho que o sistema deveria ter o voto facultativo. Mas isto é democrático, ao contrário das pregações do capitão. E já que o assunto é anti-pocket, tenho alardeado que praticarei o "voto útil", Haddad ou Ciro, encaminhando-me em estado de alerta para entender que Haddad está com mais chances de chegar ao segundo turno das eleições.

E isto é uma tragédia, especialmente se considerarmos que temos um radical de direita (conservador e fascista) enfrentando um -por assim dizer- radical de esquerda. Na verdade, temos neo-liberalismo versus igualitarismo (este deve ser considerado com moderação, pois acena-se -à esquerda- com políticas governamentais concentradoras). Segue-se que o teorema do eleitor mediano (as posições extremas tendem a se atenuar no discurso, a fim de capturar o eleitor do centro do espectro político, levando a candidaturas defendendo bandeiras de centro assemelhadas). Este encaminhamento do espectro de escolhas do eleitor, da eleitora, é que me derruba os butiá dos bolso.

Retornando às duilianas, tenho registrado, com até estranha frequência que já ouvi falar que, em Roma, houve um imperador Duilio e, na mesmíssima Roma, um tal São Duilio foi canonizado e depois rebaixado a cidadão comum (como é meu caso...). Pois agora chegou-me ao conhecimento um poema cujo título já diz tudo:

POEMA PARA DUILIO
Gabriela de Fátima Vieira

Sem menos nem mais, tomei um avião e parti
De Minas a Porto Alegre atrás de você, que nem sabe de mim

Guiada pela intuição, fui onde você iria
No restaurante vegetariano, onde você comeria
E ainda fiz hora na exposição do Leminski
Certa de que chegarias

Vi sua nuca pelas costas de todo rapaz
Seu tênis em todos os pés
E sua porta em todas as casas

Fui embora sem te ver e ainda mais apaixonada
Sem nos conhecermos você me deu um amor que me tirou de casa
Esperança, que divertiu minha viagem
E ainda esse poema, que um dia hei de espalhar por toda cidade
Pra finalmente dizer-te: Obrigada!

[Assina o pseudônimo Amélia]

Seja como for, a atividade mais importante do dia é a tarefa política de todos os Duilios e Duilias de boa fé do Brasil comparecerem à Marcha das Mulheres contra Bolso naro, o ogro que uns chamam de Pocket.

DdAB
P.S. Gosto quando os marcadores da postagem oscilam entre "economia política" e "besteirol", o que faz esses termos praticamente sinônimos no Brasil.
P.S.S. Sobre Duilios e Poemas:
.a ver Duilio Gomes - romancista mineiro, cujo nome deve estar no inconsciente da poeta.
.b ver o poema de Carlos Drummond de Andrade intitulado "Fulana"; 'sequer conheço fulana', etc.
P.S.S.S. Já que estou neste clima laudatório se não para minha pessoa, pelo menos para meu nome, achei que também seria oportuno homenagear o livro de Teoria dos Jogos que fiz em co-autoria com Brena Fernandez:
BÊRNI, Duilio de Avila e FERNANDEZ, Brena Paula Magno (2014) Teoria dos jogos; crenças, desejos, escolhas. São Paulo: Saraiva.
P.S.S.S.S. Lá em cima digo que aquela reportagem sobre o mau-caratismo do candidato do povo de curta reflexão sobre filosofia política é apenas para disfarçar o que a revista Veja (e cegue) fará em seu próximo número desancando da maneira mais mesquinha possível o candidato vencedor (Haddad) das eleições para presidente de 2018. Pode? Esperemos, vigiemos e vejamos (mas não ceguemos).

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O Descobrimento do Óbvio: cooperação é bão


Querido blog:

Parece-me já ter filosofado sobre a relação entre ética e egoísmo: um indivíduo que leva os outros a crer que ele não é egoísta (ergo parece, aos olhos dos observadores de seus atos, agir de modo altruístico) terá um pay-off em seu jogo-dinâmico-de-vida-inteira maior que outros jogadores que levam os demais a desacreditar de sua retidão moral e bondade de caráter. Se a ética está em discussão, precisamos ter claro que esse indivíduo pode ser um honesto-de-ocasião, apenas esperando uma oportunidade para dar seu bote. E, pior ainda, se ele vem dando botes aqui e ali, mas nunca é descoberto ("crimes perfeitos"), sendo clara apenas sua ação mimetizadora de comportamentos altruísticos, seu pay-off será mais elevado do que seria em outra circunstância.

Tendo em mente este tipo de consideração é que Brena e eu escrevemos:

O jogo do Guri Mimado nos permite entender que em situações em que há conversações prévias a seu início, podem surgir ameaças. Com isso, é evidente que algumas delas podem não ser cumpridas, o que as caracteriza como conversa fiada, como ameaças não realizáveis (non credible threats) ou, ainda, como “ameaças vazias”. Por contraste, parece que as ameaças feitas pelo garoto mimado de que, se tiver de visitar a tia, a chamará de solteirona, martelará o rabo do gato dela e praticará outras diabruras, com as recompensas de 2Bd [duas unidades de bem-estar ou sua correspondência em dinheiro] ou 4Bd é que são eficazes, com a benção adicional de não sofrer punição por parte dos pais. Ou seja, se as ameaças serão levadas a sério ou não, depende muito da reputação pretérita que cada agente construiu ao longo da vida. Aqueles que costumam pagar religiosamente suas promessas, cumprir sua palavra e, portanto, realizar suas ameaças, passam a ser reconhecidos por essas características, o que resulta em pouca inclinação a “pagar para ver” por parte dos demais agentes envolvidos na situação. Já no caso oposto, de agentes que se tornaram conhecidos justamente por jamais honrarem a palavra dada, a situação se inverte: a tendência é que suas ameaças sejam, em princípio e por definição, não críveis. Agentes do segundo tipo estarão condenados à desmoralização eterna, caso não consigam alterar este padrão de comportamento.

in: BERNI, Duilio de Avila e FERNANDEZ, Brena Paula Magno (2014) Teoria dos jogos; crenças, desejos, escolhas. São Paulo: Saraiva.

Estamos, assim, falando nas vantagens de ter reputação de honesto. Parece que, agindo racionalmente, os agentes procurarão comportamentos altruísticos, comportamentos que façam com que pareçam honestos. Mas que dizer deste "agindo racionalmente"? Tem muito mais reflexão sobre o tema feita por acadêmicos de prestígio, como é o caso de Amartya Sen. Já falei que um dos melhores livros que já li na vida foi

SEN, Amartya (2009) The Idea of Justice. Cambridge-Mass: Belknap e Harvard.

com tradução em português (em páginas correspondentes):

SEN, Amartya (2011) A ideia de justiça. São Paulo: Companhia das Letras.

Na verdade, Sen não está falando em honestidade, mas em justiça. O substantivo honestidade e o adjetivo honesto não se encontram no índice analítico do livro e nem em qualquer outra parte do livro (que tenho um PDF da edição em inglês)! Mas eu estou pensando que descobrir o óbvio é dizer que as sociedades que se pautam pela honestidade, que encontram um ideal de justiça, têm maiores probabilidades de sucesso que as demais. E também estou fazendo outra ilação: quem age racionalmente atua com honestidade. Quem age racionalmente busca alcançar a sociedade justa.

E um ladrão, não podemos dizer que ele age racionalmente? Claro que não, claro que seu pay-off-de-vida-inteira é menor que aquele que ele alcançaria, se tivesse comportamento honesto. Claro que há exceções a esta sina. Mas uma das formas de vermos os gangsters "justiçados" é avaliar sua expectativa de vida. Sobre gangsters, li, dias atrás, um diálogo interessante na internet. Dizia uma pessoa: "Como é que, mesmo sendo proibido usar armas, os bandidos o fazem?" E a resposta veio direto: "É por isto que eles são bandidos!". Singeleza cristalina, a meu ver. Claro que comportamentos de bandidos só são compatíveis com... bandidos.

Essas reflexões me levam a pensar que o Brasil tem saída, pois, por maior que seja a impunidade, como a vemos hoje, estou certo de que isto não durará para sempre! Mas tenho um aliado para acelerar a mudança do lado tíbio para o lado reto da vida societária no Brasil. Trata-se agora da implantação do governo mundial, que vejo datada ainda para o presente século. É natural que ela venha permeada por um conjunto de instituições mais inclusivas (na linha de Acemoglu e Robinson) do que as atuais instituições brasileiras. Penso em instituições em que as injustiças da fome, da discriminação de minorias, do abandono da infância e da velhice, da misoginia sejam proscritas, como o são na maior parte dos países decentes do mundo contemporâneo.

Depois de Acemoglu e Robinson, passei a referir-me a esses países com ralo grau de decência como países de desenvolvimento intelectual precário. Neles há precariedade

. na noção de liberdade (não matar, não defender pena de morte, não reduzir a liberdade dos outros por meio do roubo ou escravidão)

. na negação da importância da origem de classe, gênero, raça, credo

. no desleixo com as preocupações sobre a desigualdade

. na desconsideração da formação de uma justiça

. na ignorância sobre princípios da moral e da ética

Então consegui firmar algum princípio: alienado é quem não acha nada, mas também é quem não pensa nas consequências do que acha sobre o meio em que circula.

E esta lição: é óbvio que os conselhos de be good, be smart etc. são maravilhosos pavimentadores da estrada da felicidade.

DdAB

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

El Señor Marx y el Derrumbre


Querido diário:

Quase um ano atrás, andei lendo o número de outubro de 2017 da revista Cult que tem no tema de capa "Marx e as Crises do Capitalismo", tudo a propósito da passagem dos 150 anos da publicação de O Capital, digo, Das Kapital. Quando morei em Berlim, à propos, andei sugerindo que trocassem os artigos der e die por das, usando-o em todos os casos, como o the do inglês, ao mesmo tempo, homenageando a conquista da terceira dimensão. Não aceitaram, tentei justificar invocando o fato de que absurdamente voltaram a usar aquele Erset, sei lá. Por desgosto com essa derrota, abandonei os estudos dessa língua germânica.

Entre os interessantes artigos do -assim identificado- número 228 da Cult, temos nas páginas 32-34 o ensaio de Gustavo Moura, cujo título é "Nem profecia nem dogma; o autor de O Capital identificou importantes aspectos das formações sociais capitalistas e decisivas tendências de seu evolver histórico". Lemos na p.33 que Moura está citando uma carta de Marx endereçada a Arnold Ruge: "nós não antecipamos dogmaticamente o mundo de amanhã, mas somente queremos chegar ao novo mundo por meio da crítica do antigo."

Então estamos precisando prestar bastante atenção a esta proposição: apenas depois da crítica ao mundo antigo é que chegaremos ao novo. Esta mesma posição, mutatis mutandis, é repetida na Crítica do Programa de Gotha.

Mas tem mais gente tratando do tema del derrumbre del capitalismo. Meses antes daquele outubro, ganhei de presente de Naira Vasconcellos o livro:

SODRÉ, Nelson Werneck (1984) Contribuição à história do PCB. São Paulo: Global.

E na página 18 lemos o seguinte:

Como qualquer adolescente sabe, os comunistas e seu Partido têm suficiente compreensão da História para não esperar a 'implantação' -para empregar um dos chavões prediletos do escasso vocabulário da reação- do comunismo de um dia para o outro (como poderia supor algum demente), ou, no polo oposto, apenas quando toda a população, até o último indivíduo, estiver convencido de que assim deve ser feito. Admitem, portanto, e não é preciso excessivo esforço de raciocínio para isso, que a passagem ao socialismo (ao comunismo é coisa ainda mais complexa) demanda etapas de transição, cujo caráter, duração, função, etc., muda de caso a caso. O problema está intimamente ligado a outro, sempre presente e quase sempre obscuro e por isso mesmo polêmico, em todos os tempos: o do 'caráter da revolução' de cada uma dessas etapas. Não cabe aqui discutir questão tão complexa. É suficiente dizer que as chamadas 'reformas de base' definiam o caráter da revolução brasileira naquela etapa, isto é, a etapa da segunda década do século XX, no Brasil. Tratava-se de um elenco de reformas, ditas básicas, que não tinham conteúdo socialista, mas que permitiriam, implantadas e desenvolvidas, acelerar bastante aquilo que, em História, se conhece como revolução democrático-burguesa. Um dos traços irônicos dessa revolução reside no fato de que ela obriga a burguesia a cumprir seu papel histórico em países, como o Brasil, em que ela chegou tarde e está historicamente defasada. O elenco das 'reformas de base' não era, pois, em si, revolucionário: a estrutura de classes não seria subvertida. Importava, em linhas muito gerais, numa reforma agrária (que alguns queriam 'radical', mas cujo sentido só entendiam em palavras); numa reforma urbana, que deteria a espoliação do inquilinato; numa reforma eleitoral (dando direito de voto a soldados e marinheiros, e de votar e ser votado a qualquer cidadão maior e não insano, bem como aos analfabetos); numa reforma econômica que reduziria a sangria da remessa de lucros, nacionalizaria as principais empresas multinacionais, particularmente aquelas da área energética, sanearia a especulação financeira, baratearisa o crédito, preservaria os salários e, portanto, o poder aquisitivo dos trabalhadores, etc.

Até aqui o velho Nelson Werneck mandou bem. O mesmo fez meu colega de UFSC, o prof. Gerônimo Machado: não queremos o socialismo agora, mas reformas democráticas que conduzam a ele. Por falar em reformas de base, em 1963-4, havia o programa de reformas cobradas ao pres. João Goulart, quando ele retomou o poder com o fim do parlamentarismo:

. reforma agrária
. reforma educacional
. reforma fiscal
. reforma eleitoral
. reforma urbana
. reforma bancária.

Aqui comentei uma série de reformas que considero relevantes para a retomada (ou melhor, da tomada, pois com esse Gini sempre superior a 0,5, desde 1960) da vida democrática brasileira, o que apenas pode ser feito se houver redução no grau de desigualdade na distribuição da renda. E, naturalmente, sob o ponto de vista da vida política, a redemocratização do país.

Concluo dizendo que todas essas reformas de que falo têm em comum o fato de manterem o status quo no que diz respeito, alternativamente, a rupturas institucionais, como é o caso del derrumbre del capitalismo. Dei-me conta de que a humanidade ainda não gerou instituições suficientemente fortes a fim de lidar com um sistema econômico diferente do capitalismo. Se soubéssemos quais são essas instituições, já poderíamos estar propagandeando-as. O que sabemos é que as reformas de que Jango falou e as de que falei e até os cronistas de Zero Hora falaram podem criar essas pré-condições. Por fim, considero mais sensato que o capitalismo seja substituído naturalmente a vê-lo destruído abruptamente. Aliás, já andei brincando com a ideia de que "o capitalismo acabou há mais de 15 dias", isto é, já vivemos em outra formação econômico-social diferente daquela que Marx chamou de capitalismo.

DdAB
P.S. A imagem que nos encima fi-la (fila?) eu mesmo mostrando o esquema geral de crescimento de uma economia capitalista. O capitalista detém um montante D de dinheiro, com ele compra mercadorias no valor M, inclusive os serviços do trabalho, leva esse M ao recesso da fábrica e o envolve no processo produtivo do qual resulta um volume maior de mercadorias, M', sendo este levado ao mercado e vendido pelo valor D'. Se não for vendido, não gerou valor nenhum e o capitalista perderá seu amado dinheirinho investido nessa canoa furada.
P.S.S. Aquele M' não está bem contado: antes de dar seu salto mortal (isto é, ser vendida), a mercadoria não tem valor nenhum. Claro que, estilizadamente, podemos dizer que ela tem potência de valor com magnitude M'.
P.S.S.S. Desde que aprendi que o conceito de eficiência se desdobra em "produtiva, alocativa e distributiva", entendi que o capitalismo é mau na eficiência distributiva e na alocativa. Seu forte é a eficiência produtiva, dada sua espantosa tendência de gerar progresso técnico eliminador do trabalho vivo. Ou seja, para bom entendedor, ninguém precisaria trabalhar tanto, sendo constrangido a fazê-lo precisamente por causa daquelas viagens de subsunção formal e subsunção real da classe trabalhadora. Com uma boa reforma, pode-se controlar as ineficiências alocativa e distributiva, mas não se deve desprezar o lado alegre do capitalismo que é mesmo o de eliminar trabalho vivo e deixar tempo livre para a macacada jogar cartas ou esculpir obras de arte.


sábado, 15 de setembro de 2018

ZERO HORA E O GAÚCHO QUE HERRA


Querido diário:

Designo às vezes como Zerro Herra o jornal Zero Hora. O elogio que lhe faço em tratá-la tão familiarmente é que a escolhi para mostrar-me sua agenda de notícias diárias, jornal de papel. Os jornais de papel vão acabar e não será por pragas rogadas por mim. Enquanto isso, vou consumindo minha fração ideal de árvores do planeta. A crítica que faço ao jornal é que ele é insofismavelmente um veículo de ideias de direita. Às vezes surgem jornalistas livre-pensadores que não duram muito. Pode ser que peçam para sair, não sei. Ismael Canapelle, Clara Averbuck e milhares de outros e outras.

Mas hoje o registro de pensamento de direita que desejo acentuar não é do jornal, mas de do "eleitorado gaúcho". E como sei isto? Comprei meu exemplar do jornal de hoje e li em sua página 10 a manchete de uma das colunas do artigo de Rosane de Oliveira, outra cronista intrinsecamente de direita. Em compensação, ela divulga dados sobre o "conservadorismo do eleitorado gaúcho". E que lemos?

. que 76% dessa macacada é contra a legalização do aborto. Claro que a forma como se chegou a esta conclusão é decisiva: se a pergunta é secamente "sou a favor, sou contra, indiferente ou não quer responder", pode haver um falso positivo naqueles 76%. Mas o provável mesmo é que a macacada seja mesmo intrinsecamente de direita. Nossas sucessivas eleições para a assembleia legislativa são capazes de selecionar a flor do reacionarismo, os pecuaristas progressistas com produtividade econômica da terra igual à do mar, ou até menor e os urbanos abandonados pela educação que seus ancestrais deputados descuraram tão desabotinadamente.

. que 73% dessa macacada é contra a legalização da maconha. Que contraste com minha posição, que considera "o maior golpe do mundo" a ser dado no tráfico de drogas ilegais torná-las gratuitas: sem preço, com oferta abundante, sem escassez, não há mercado. E o puxador de fumo, o cheirador de papelotes, o cachimbador de crack terão enfermeiros e não traficantes como interlocutores. Que contraste, hein?

. que 71% dessa macacada é a favor da redução da maioridade penal. Eu, naturalmente, sou a favor de reduzir a impunidade especialmente para os maiores de 21 anos, os que entraram para a política e, como tal, os governos locais, estaduais e nacionais.

. que 43% dessa macacada é a favor da pena de morte. De minha parte, sou a favor da pena de morte apenas para os que são a favor da pena de morte. Mentira, mentira: não sou a favor da pena de morte para ninguém. Nem em tempo de guerra. Aliás, sou contra a guerra. E para exterminá-la, sou a favor do governo mundial.

. que a prisão perpétua para crimes hediondos tem 75% dos "eleitores gaúchos" a favor.  Meu medo com a super necessária nova constituição da república é que a cláusula pétrea que proíbe prisão perpétua seja revogada...

A única esperança que me resta é que essa pesquisa tenha sido feita com regras metodológicas absolutamente alheias aos tratos do bom-senso.

DdAB
P. S. Vergonha para o Amapá! Só para o Amapá?

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

História da Ficção, volume 1

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Querido diário:

Pensei que devo escrever minha própria história da ficção. Por falta de prática, comecei imaginando um velhinho daqueles literatos do tempo antigo, talvez um tanto baseado no romance "Meu irmão alemão", de Chico Buarque. Escrevo: tenho cerca de 1.200 livros, uns 200 ou 300 de ficção, muitos outros de economia, outros ainda de divulgação científica e outros, tico-tico-no-fubá. De sua parte, para simples comparação, o dr. Rodrigo Cambará, personagem da saga "O Tempo e o Vento", de Érico Veríssimo, muito metido a bacana, tinha anunciados 5.000. Um monte. Eu garanto não ter lido todos esses 1.200 e os amigos do dr. Rodrigo, alguns deles, juravam que ele teria lido no máximo uns 50. Ou exagero?

Na primeira prateleira, da esquerda para a direita de minha biblioteca de leitura-literária, estão Eça, Graciliano e Érico. Este ainda derrama-se para a segunda. Se eu não fizer o relato seguindo a estrita ordem em que os livros foram colocados na estante, minha mãe morre. Isto implica que devo começar com um livro que não li, Não importa, se é ficção, posso mentir que li.

Então vejamos: Eça de Queirós, como todo mundo, deixou uma obra impressa em vida muito interessante - digo-o mesmo sem haver lido tudo - e divertida. Mas meus livros mais amados foram "A Cidade e as Serras" e a "Correspondência de Fradique Mendes". Por quê, então, não li o primeiro primeiríssimo da prateleira? Por quê só esbarrei aqui e ali no "O Primo Basílio"? Porque, mal comecei a familiarizar-me com a história, como de hábito, fui conferir o final, mas mesmo antes disto entendi que Basílio se enroscaria com Luísa, o que me desagradou, talvez simples ciúme. Ciúme ou não, o fato é que, ao ler "Ulysses", de James Joyce, também fiquei furioso ao constatar com meus próprios olhos que Molly Bloom passava regularmente Leopold Bloom para trás. Por quê Basílio e não eu? Por quê Luíza daquele tempo e não Luana Piovani dos dias que correm (ou melhor, de uns cinco anos atrás)? Eu queria eu! Agora, cá entre nós, tem muita Luíza na literatura. Para quantificar o "muita", já vou dando exemplos. Um: "Um Ramo para Luíza", de José Condé e a Luizinha de "Caetés". Li o primeiro no final dos anos 1960s. Falarei adiante deste e de outros Gracilianos.

Ao lado de "O Primo Basílio" postei -sem segundas intenções- "O Crime do Padre Amaro" Eu li "A Cidade e as Serras", com absoluta certeza, ou em 1963 ou 1964 ou 1965 ou 1966. Dou quatro opções para garantir a certeza! E garanto. Se não roubaram, haverá traços de minhas impressões digitais, cabelos, células, espirro, entre suas páginas encontrada na biblioteca do Colégio Estadual Júlio de Caudilhos. Lembrava de alguma coisa, como a calefação na casa de Jacinto de Thormes à Paris. O interessante é que, em fevereiro de 2011, fomos passar as férias em Lisboa, segunda viagem, nova parceria. No final de tarde chuvosa, num shopping center, com ares ou nomes internacionais, depois de ter feito uma refeição na praça de alimentação, vi uma feira de livros com ofertas. Comprei este Eça, outro livro com as histórias de Jorge Luis Borges escritas em co-autorias. Levara acompanhando-me a "A Filosofia e e Espelho da Natureza", de Richard Rorty, um livro que li inteirinho, nada entendi e acho-o um dos melhores de não-ficção que li na vida. Minha edição é super-maneira, portuguesa, com certeza. Tem uma edição Relume-Dumará, brasileira. Olhei-a e vi a baixaria nacional: nem índice remissivo o diabo da Relume-Dumará ofereceu ao leitor doméstico.

Este livro acompanhava-me desde o Brasil e levei-o a Portugal apenas como companheiro e leitura leve (...) para as férias. Além de Rorty, é provável que tenha levado outro, de economia, mas -a certa altura- embarafustei pela leitura de "A Cidade e as Serras", investida agora em outra edição gloriosa, pela capa, papel cheiroso, gramatura adequada, diagramação límpida. No verso de sua folha de rosto, escrevi:

. O Crime do Padre Amaro
. O Primo Basílio
. O Mandarim que li na volta ao Brasil)
. A Relíquia (que li na volta ao Brasil)
. Os Maias
. A Ilustre casa dos Ramires
. Correspondência de Fradique Mendes.

E também li o ensaio "Eça de Queirós e o Século XIX", de Vianna Moog. E parece que parei por aí. Quereria dizer o quê? Que li ou lerei? Sinto vergonha por ainda não ter lido tudo isto, mas não posso estar tão desocupado para ler incansavelmente. Bem no topo da página 3 de "A Cidade e as Serras" em que consta um bico-de-pena de Eça, com seu bigodão e cravo na lapela, escrevi: "Tenho que rir sozinho! Ia esquecendo o mouse sem fio no Hotel Ibis, em Floripa." Falarei lá adiante que concluí a leitura -em Porto Alegre- no dia 21 de março de 2011. Reconstituo: estava "negociando com Brena Fernandez o trabalho conjunto que viria a ser a segunda edição do livro que levei vários anos organizando intitulado "Técnicas de Pesquisa em Economia" e que foi publicado em 2002 pela Editora Saraiva. Empreitada de sucesso, pois nós ambos organizamos o livro "Métodos e Técnicas de Pesquisa nas Ciências Empresariais".

Uma vez que já me aposentara da PUCRS, não queria ter envolvimento maiúsculo,, mas sobretudo queria alguém que sentisse envolvimento com o futuro da obra, novas edições, site, aquelas coisas. Tentei algum ex-colega da UFSC, comentando com o prof. João Rogério Sanson, que estava difícil fazer a parceria. Ele me indicou o nome de Brena Fernandez, uma economista estudiosa de epistemologia, tipo o prof. Ramón Fernandez (que não tem qualquer parentesco, ironias dos genogramas...). Viajei para Floripa bem no início de 2011, ficando lá por duas ou três noites, já não lembro. Claro que levei um computador, pois poderia trabalhar, delirar ou deixá-lo parado. Não lembro tampouco como saí do apartamento do hotel, deixando meu amado mouse, nem o que me fez voltar, digamos que fechar a janela ou pegar uma capa, guarda-chuva, sei lá. Como possivelmente Eça estivesse pronto para ser recuperado para a leitura de bordo, não me contive e nele joguei o desabafo.

Pois então. Seguindo alinhado à margem direita deste arquivo, quando transformado meu DOC em PDF, anotei uma espécie de índice analítico de que falarei adiante, remetendo às páginas 130, 135, 138 e 174. Na página 5 há alguns dados de imprenta, mas o que destaco são minhas anotações. Como uma espécie de subtítulo para "A Cidade e as Serras", escrevi: "Narrado em primeira pessoa por Zé Fernandes."

Voltam as datas: "Lisboa, 21/fev/2011, 18h26min, relógio Citizen adquirido há menos de 10 horas. Livro lido entre 1963 e 1965 (estimativa) na Biblioteca do 'Julinho'. E mais chamadas: "Tudo que é sólido desmancha no ar!", remetendo à p.94 e "p. 235: partidas dobradas", e ainda a informação de que botei no blog essas coisas. Por fim, os verbos "rugir, rosnar e ganir". Talvez o primeiro que quase matou-me de rir tenha sido o "ganir" lá da página 54. Talvez antes, preciso conferir, a gente volta no tempo para conferir.

Um vídeorromance. Há que escrevê-lo. Há muita coisa, há muita coisa. Na página 7, inicia-se a transcrição de uma carta firmada pelo J. de José Maria e não Z de "teu Zé". Editado, presumo, com o título de "Thormes visto por Eça de Queirós, em 2/jan/1898. Mais de 100 anos atrás. Serão 200, 300, mil, milhões de anos. A gente volta no tempo para conferir.

Falarei nisto mais adiante, talvez lá pelo volume 200, mas não posso perder a oportunidade de citar Machado de Assis, que levou-me a pensar na mudança semântica entre almoço e jantar. Hoje falamos em três refeições: café, almoço e janta. No CEUE, pedia-se "uma janta", que eu amava. Podia ser "com bife" ou "com guisado". Aqui, Eça diz a Emília (também ele tem sua "Minha querida Emília") que está escrevendo "à espera da ceia" e, em parênteses: "Aqui jantamos ao meio-dia." Ora, então é razoável pensarmos que, lá e acolá, janta-se em orários diversos. Se bem entendo de Machado, o que não é excessiva diferença com relação a Eça, as três refeições são o almoço, a janta e a ceia. Preciso indagar ao prof. Conrado de Abreu Chagas.

Na página seguinte do livro "A cidade e as Serras", a carta fala em "e todavia", expressão que sempre me pareceu estranha, ainda que eu mesmo possa tê-la usado, ou a alguma equivalente. As conjunções aditivas eram e, nem, também, bem como, não só..., mas também, ao passo que as adversativas eram mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, não obstante. Quer dizer, não se pode ser aditivo e adversativo ao mesmo tempo. Na álgebra dos conjuntos, e dá ou, melhor dizendo, dá a união, não é mesmo? E depois já entrou um grifo no adjetivo "inabitada" para casa. Não quis o "desabitada"?. E já vem um anglicismo: "Nunca seria possível vir passar aqui dois meses de férias, por gosto, este ano, mesmo com o alegre propósito of roughing it. Não há quartos, -não há mesmo cozinha. Realmente a casa, tal qual está, é um vasto celeiro. Excelente para guardar milho - impossível para conter uma família." O travessão, a vírgula, o milho grafado com a naturalidade dos velhos amigos, ele - que chegara à Europa há 300 anos.

Pulando do anglicismo ao galicismo: "À la rigueur, tudo se poderia lavar e caiar rapidamente mas o que não se poderia improvisar são os quadros, soalhos, tetos, telhado." Ele está cogitando com a esposa de vir a passar uma temporada na propriedade que a família mantém "nas serras". Mas a moradia serve mesmo é para mostrar o cuidado em inventar novas palavras: "A casa, essa, inteiramente [...] de sua inabitabilidade", com grifo no original. E segue: "Excelente para guardar milho - impossível para conter uma família." Milho, um dos presentes da América ao Velho Mundo. Conter? Se me fosse dado o atrevimento de editar Eça, eu falaria em "acolher". Também já vai ficando claro que a passiva sintética vai longe: "[...] o que não se podem improvisar são quartos, soalhos, tetos, telhados."

A esta altura, volta-se a falar na pobreza: "[...] horrenda imundície da gente" Decerto há miséria, e esse é um dos reversos de toda esta beleza. Decerto as casas de aldeia ou dos caseiros são, por culpa dos proprietários, verdadeiros covis, onde mesmo o gado estaria mal. Mas há também, na gente, o amor da imundície." Ênfase no original.

E tem gente contemporânea, como é o caso do que lemos na página 196 de "Caetés" falando em "pela manhã" e "pela madrugada", que segue com "pela manhã comecei a escrever". Eça não tem meio-termo: de manhã. E a página 9. Em seguida fala em "João Pinto", que trata bem a quinta, o que me levou a pensar na dupla José Fernandes e Jacinto de Thormes, invertendo os papeis: Eça, o proprietário, vira José Pinto, o administrador que conta a história de Jacinto, alias, Eça.

Já me alonguei, mas não posso deixar de registrar o final olímpico carregado de preposições imprescindíveis: "Mil beijos aos pequenos e para ti muitos também com os mesmos mil do [...] teu J.". De fato, alonguei-me, deixei muito recorte não costurado. Lugar comum, poderia explicar, prefiro seguir. Começa o romance.

E eu interrompo o meu, por enquanto.

DdAB
P.S. Botei aquela ilustração lá em cima para homenagear a turma...