sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Piketty, Marx e o Trabalho Morto


Querido diário:

Tudo começou quando, hoje de manhã, olhei o mural de Gláucia Campregher no Facebook. Não fui ver a conferência de Thomas Piketty num seminário aqui em Porto Alegre, mas escrevi alguma coisa sobre seu anúncio aqui. Nem precisava ir, pois o resumo feito por Hermógenes Saviani que reproduzirei lá no P.S.S., fala melhor do que o próprio autor da conferência.

Piketty tem no título de seu livro, O Capital no Século XXI, uma alusão ao título da obra prima de Karl Marx e Friedrich Engels, claro. E andei me entusiasmando e cheguei a pensar em escrever um livro a intitular-se O Capital no Século XXII, pois parece que mesmo o século XXI já está totalmente perdido. O estrago feito pelo neoliberalismo foi tanto que não vai dar para consertar tão cedo. Mas tem conserto. E ele começa com o combate à desigualdade. E Piketty e Hermógenes dão dicas seguras sobre como acabar com ela, abjurando o estado promotor do neoliberalismo, como é o caso do brasileiro contemporâneo. E não falo apenas do desastrado governo desse senhor Michel (Fora) Temer.

Volta e meia, procuro enaltecer as virtudes da sociedade igualitária, sociedade capitalista igualitária, se comparada com outros sistemas econômicos já realizados ou prometidos. Meu principal argumento é aquele círculo virtuoso encapsulado pelo emprego: o médico que me retira um apêndice inflamado, com seu dinheirinho, manda o filho estudar inglês, o filho do professor de inglês estuda clarinete. O professor de clarinete pode pagar seu dentista cujo filho tem aulas de caratê, e por aí vai.

Mas hoje quero fazer outras reflexões sobre as virtudes do capitalismo, o capitalismo igualitário. Primeiro, quero dizer claramente que o problema não é o capitalismo, mas algumas instituições que nossos amigos Acemoglu e Robinson chamam de instituições destrutivas. Parece que foi o Douglas North que falou que boas instituições são mais escassas que os demais recursos produtivos da sociedade. Se tem neste preciso instante alguém seviciando um mendigo, algum mendigo seviciando um animal, algum animal (rotevailer) seviciando um guri, e assim por diante, devemos divisar formas de acabar com isto. A que me ocorre é criar empregos decentes para todos, o governo assumindo o papel de empregador de última instância, aproveitando para agilizar seu sistema judiciário, de sorte a botar o algoz do mendigo na cadeia, o mendigo na escola, o cavalo nas pradarias abastecidas do melhor capim, o rotevailer em treinamento para socorrer velhinhas na rua, o efebo na aula de clarinete, e por aí vai. A renda básica universal, por exemplo, é um mecanismo extra-mercado que pode incumbir-se de corrigir as distorções no mercado de trabalho e sua eterna escassez de demanda por trabalho. No capitalismo igualitário, posso garantir com base em alguma estimativas que andei realizando, a fonte da juventude será criada em menos de 1.000 anos a partir de agora, garantindo a todos eterna jovialidade.

E por que faço tão escabelados elogios ao capitalismo igualitário, ou seja, adjetivo igualitário, substantivo capitalismo? Estou pensando em Piketty, na conferência da quinta-feira que passou, na alusão ao Capital de Marx e Engels que lhe inspirou o título e nos elogios que ele faz à sociedade igualitária, ou por outra via, à mazelas que resultam da enorme e crescente desigualdade que se observa no mundo inteiro, especialmente, naquele que já foi chamado de Brasil dos Estados Unidos.

De minha parte, fico abraçado com a primeira parte da interpretação e das previsões feitas pelo be-a-bá da economia marxista. Em particular, a proposição de que o valor das mercadorias decorrer da comunalidade entre todas elas, a saber, serem todas fruto do trabalho humano, ou tê-lo em alguma instância de sua vida mercantil (por exemplo, um lote de terra tem preço mas não tem valor, pois não foram trabalhadores que o produziram, embora possam cercá-lo). Dela decorre que, quanto mais trabalho, mais valor. E aí é que vem o aspecto interessante que não é compartilhado em nenhuma medida por uma economia socialista. Ao mesmo tempo, quanto maior a produtividade do trabalho, mais o preço cobrado pela empresa típica ficará acima do valor por ela criado, dando-lhe vantagens na geração de fundos pecuniários para expandir-se.

Vemos o que me parece a maior explicação derivada da economia marxista: as empresas têm vantagens ao economizar trabalho, ou seja, em elevar sua produtividade do trabalho. Mas com isto elas favorecem seus consumidores, pois a concorrência leva-as a reduzir preços de insumos ou produtos que vendem. O progresso tecnológico torna-se um imperativo do desenvolvimento capitalista, levando o empresário a querer incorporá-lo de modo a ter custos menores que a média (ou criar valor num montante abaixo da média, com preço superior à concorrência). Elevando a produtividade do trabalho, caímos naquele escaninho da redução do preço.

Mas o que pode acontecer com os ganhos sucessivos e seculares da produtividade do trabalho? Seus frutos podem ser retidos monopolisticamente pelos capitalistas ou pelos trabalhadores, e aí começam os problemas, com a redução do emprego. Quer dizer, o próprio capitalismo, com seu jeito de se reproduzir e ampliar sua escala de reprodução, gera preços mais baixos mas também desemprego mais alto. Episodicamente há escassez de oferta de trabalho, mas a regra absoluta em todas as latitudes e cronologias é o desemprego.

Mas, ao falarmos de desemprego, talvez estejamos falando apenas em "economia". Por contraste, ao falarmos em fome e miséria, estamos falando nas instituições deficientes que cercam a maioria dos países capitalistas mundiais, que não são capazes de garantir um bom nível de vida a todos os cidadãos. Por isto é que tomou papel secundário, mas naquela formulação da língua inglesa que fala no "last but not the least", ou seja, o aspecto econômico é secundário para minha condenação do socialismo. O principal é a objeção política da centralização excessiva resultando no poder do estado (o governo dos homens).

Parece-me que a solução, pelo menos por alguns séculos, a melhor solução para a solução do problema da desigualdade não é implantar o socialismo, mas criar instituições mais intensamente promotoras do aumento da produtividade do trabalho e ao mesmo tempo promotoras de distribuições de renda mais igualitárias. Os mecanismos são conhecidos: política fiscal (gasto regressivo, impostos progressivos) e política monetária (crédito fácil).

A frase isolada de Marx que mais cito, especialmente neste Brasil de políticos ladrões do início do século XXI, é que "no capitalismo, tudo vira mercadoria, inclusive a honra". Mas a frase que considero derivada de sua intuição mais aguda sobre o funcionamento do capitalismo é que este sistema tem por tendência intrínseca a seu modo de funcionamento a transformação do trabalho vivo (trabalhadores empregando sua força-de-trabalho) em trabalho morto (as máquinas, equipamentos, instalações, ou seja, meios de produção produzidos). Quanto mais trabalho morto por unidade de produto, maior tenderá a ser a produtividade do trabalho, menor o emprego, maior o lazer, etc., se a sociedade criar instituições que promovam as redistribuições que o sistema sozinho não é capaz de engendrar. No socialismo, ganha-se talvez, e eu disse talvez, mais facilidade distributiva, mas perde-se a centralidade da busca de progresso técnico que é a marca registrada do capitalismo e que foi magistralmente capturada por Marx e Engels.

Piketty, Marx e eu temos mais pontos em comum do que parece.

DdAB
P.S. a imagem é uma besta desenhada por Leonardo Da Vinci e retirada da Wikipedia.

P.S.S: Tá assim lá no mural de Gláucia Campregher:
Pikety pra quem não foi ontem, bem resumido pelo Hermógenes Saviani.
"Piketty em noite de Ali!
O economista francês Thomás Piketty, autor do clássico e best-seller 'O Capital no Século XXI' teve sua noite de Mohamed Ali, nesta quinta-feira, no Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre. Inspirado e sem pisar em casca de banana como na primeira vez que esteve por estas plagas quando, ao fim de uma palestra, alegou não saber que teria que se encontrar com homens de negócios. Referia-se a André Lara Resende e a Paulo Guedes após debater com ambos, quando do lançamento no país pela sua editora em 2014.
Ontem, ele fez uma palestra clara e objetiva. Mostrou o crescimento da desigualdade que o mundo vem apresentando desde os anos 1980. A desigualdade cresce não apenas pela globalização, justificada por diversos autores estadunidenses, mas por causa de uma combinação de outros fatores. Dito isto começou a disparar seus jabs, cruzados e diretos. A desigualdade cresce, por exemplo, nos Estados Unidos desde que Ronald Reagan assumiu o poder em 1980 e passou a desregulamentar a economia e a reduzir os impostos dos mais ricos.
O mundo apresentou redução da desigualdade no século passado após crises econômicas, como a de 1929, e guerras. Segundo o economista seria possível reduzir a desigualdade de forma muito mais racional ao taxar a renda e riqueza do 1% e, principalmente, do 0,1% mais rico da sociedade. Além de impor um pesado imposto sobre a herança.
Ao apresentar um gráfico que denominou como 'O Conto de Cinderela da Meritocracia' mostrou que um dos motivos do aumento da desigualdade nos EUA também ocorreu porque houve uma redução no acesso à educação e que os filhos dos 50% das famílias mais pobres têm apenas 20% de chance de entrar na universidade; enquanto os que se encontram entre o 1% mais rico tem 95% de oportunidade de estar dentro de uma faculdade. Além disso, os filhos destas famílias mais ricas estudam nas melhores universidades, enquanto os mais pobres ficam com as piores.
Na última parte falou sobre os recentes estudos em relação ao Brasil. Mostrou que temos a pior desigualdade de renda do mundo, apenas estamos à frente dos países do Oriente Médio e da África do Sul, fazendo ressalvas a estes, o que nos levaria a uma condição inferior, e que acha um absurdo taxarmos as heranças em apenas 3% ou 4% enquanto que em países como EUA, França, Alemanha e Japão os valores variam entre 35% e 55% e houve época em que foi de de 90%. Afirmou que a melhora da redistribuição da renda no Brasil foi menor que a divulgada, pois houve um aumento da concentração com o 1% mais rico e, ainda mais no 0,1%, aumentando sua fatia no bolo. Ressaltou, entretanto, que os 50% mais pobres apesar de apresentarem uma melhora de apenas 1% na renda foi melhor do que se nada tivesse ocorrido, mas ela se deu em detrimento das camadas intermediárias. Acrescentou que os imposto aqui são indiretos onerando mais os mais pobres e, em sequência, a classe média. Ou seja, as classes pobres, que muitas blasfemam afirmando que são beneficiados e não pagam impostos é um mito; a classe dominante é que praticamente não paga imposto e é subsidiada pelas demais.
Na parte final, o mediador, que é secretário da fazenda do RS, retomou o tema acima e, mais uma vez, Piketty foi incisivo. Arrancou aplausos em diversos momentos da plateia, que chegou a puxar um Fora Temer. A ironia foi que num evento que consta com diversos patrocinadores que defendem o liberalismo exacerbado, com um governo estadual trágico, fosse demolido pelo entrevistado que defendia uma Reforma Tributária de caráter progressivo, onde ao fundo estava o logotipo de um grupo midiático que é acusado de sonegação s subúrbio no CARF, que criticou pesadamente a ideia de meritocracia, defendeu a taxação das grandes fortunas e ainda elogiou programas como o Bolsa Família. Finalizou afirmando que ao longo da história a elite dominante sempre procura arrumar formas para justificar a concentração da renda e de evitar ser taxada.
Foi uma daquelas noites memoráveis de quando eu era apenas uma criança de sete anos e torcia para Mohammed Ali massacrar, com sua classe habitual, seus adversários. Piketty me fez voltar a uma dessas noites mágicas com um nocaute demolidor na hipocrisia de uma sociedade, em pouco menos de duas horas."

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Graciliano e o Messianismo


Querido diário:

Tem gente que já nasce sendo chamado de velho. No caso, parece que não foi o caso na infância, mas é certo que muita gente se referia a Graciliano Ramos como o velho Graça. E eu, que não me considero tão lá em fim-de-carreira, tenho o hábito -certamente com laivos de TOC- de ler alguns livros incansavelmente ao longo de meu curso de vida. Tal é o caso de algumas obras selecionadas de Érico Veríssimo e de Graciliano Ramos. Só falar que já me dá vontade de reler "O Sr. Embaixador" e "Memórias do Cárcere".

O fato da concretude insofismável da realidade tangível é que, no dia 21.jan.2007, há mais de 10 anos, portanto, em pleno pós-doutorado na Freie Universität Berlin, em pleno inverno, terminei pela primeira vez a leitura de "Caetés". Pois o tempo andou para frente e, em 17.dez.2012, sinalizei na página 219 da edição de 1998 da Editora Record, haver terminado mais uma leitura. E, seguindo esse andar do tempo, há poucas semanas, precisamente, em 14.ago.2017 (de volta de uma aprazível e "expensive" viagem a Londres) terminei o que assim podemos chamar de terceira leitura. Tão cedo não volto, pois cada vez mais cresce minha invocação com aquele João Valério. Cabra sem-vergonha, sô.

Então decidi, naqueles idos de agosto, escrever algumas reflexões que fiz e, felizmente, anotei no verso de uma caixa de fósforos, centradas na página 146:

Caminhamos em silêncio até o lugar onde existiu o cruzeiro verde, um cajueiro com dois galhos em forma de cruz, que a gente dos sítios próximos vinha adorar. Falei da multidão que ali encontrei uma tarde - mendigos, mulheres cm filhos pendurados aos peitos, curiosos, espertalhões que se arvoravam em sacerdotes.

Quando li esta passagem, este parágrafo, fiquei pensando se não haveria ali no meio uma garota que, sob o pretexto de adorar o cajueiro, conseguia permissão para sair de casa e encontrar-se com algum namoradinho sertanejo. Mas também pensei naquela consigna hoje super-comum no cotidiano da turma. Ao despedir-se já vai logo derramando um "fica com Deus",  e aí fico eu com meus pensamentos cogitando da melhor resposta: "et cum spirito tuo"? "Fica em paz"? Uma indesejável promoção daquele latinório é falar em RIP - "requiescet in pacem," que dá direitinho em inglês o "rest in peace". Gosto deste "fica em paz", pois -além de fugir do messianismo- evoca meu finado amigo Jesiel de Marco Gomes, que assim se despedia quando lhe endereçavam aquele "fica com Deus".

DdAB

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Igualitarismo: viés amostral


Querido diário:

Minha inserção no mundo das redes sociais permitiu-me ampliar as fontes de informação que me ajudam a ter -como diz o gaúcho- um traile do mundo. E é mesmo nunca muito mais que um trailer, pois a captura ("captura"?) da realidade realmente real está completa e irremediavelmente fora do alcance de sãos e loucos. Ainda assim, sinto certo vazio na fração dela que capturo, tentando montar meu mundo da realidade imaginada. Meu jornal em papel é de direita, a Zero Hora. Minhas revistas de papel são de esquerda (Carta Capital e Cult). E aí começa a fração de meu tempo voltada ao mundo digital. Alguma esquerda, muita direita.

Desse cadinho descomunal, tenho percebido uma espécie de consciência/consenso sobre o mal que a desigualdade causa à civilização. Brasil e Bolívia. Noruega e Nigéria. Noruega? Ou é puramente meu viés amostral, minha amostra não tem o tamanho adequado para capturar a maioria absoluta de anti-igualitaristas? Seja qual for o rol dos países desigualitários, já vou incluindo nesse mal o aumento da participação da direita no parlamento alemão. Aliás foi pensando em como será a receptividade aos neo-nazistas naquele ambiente em que seus ancestrais ideológicos tocaram fogo em 1933.

E fiquei imaginando o tipo de recepção que deve ser dada a esses cidadãos que odeiam frações expressivas de seus co-cidadãos. E fiquei a imaginar de onde eles vieram e tenho a certeza de que sua origem é a desigualdade. A endo-desigualdade, ou seja, a encrenca dentro da própria Alemanha, um país igualitário na distribuição da renda, mas ainda assim, com diferenças estrondosas na distribuição da riqueza. E a exo-desigualdade, aquela importada por meio da imigração.

Também tenho certeza de que a maior causa da migração muçulmana (turcos e árabes) foi/é resultado precisamente da busca de oportunidades econômicas no exterior, quando ela escasseou naquelas regiões.

Não tenho dúvida de que a salvação da democracia e a salvação do próprio planeta reside na transição o mais cedo possível a um modelo igualitário. Emprego para todos em seus locais de origem, de moradia, desincetivando a migração por motivos meramente econômicos. A renda básica universal, renda incondicional, financiada com a Tobin Tax. E empregos no serviço municipal para a própria comunidade dispensar-se cuidados (a jovens e a velhos) e ao meio-ambiente.



DdAB
Imagem: Denise Detremura (que tem coisa pelo Facebook e aqui). Diz o cartaz: "Na época dos militares tudo era melhor. Melhor ficar quieto. Melhor obedecer. Melhor ser da Arena. Melhor não encontrar a polícia. Melhor concordar com o governo. Melhor não contestar. Melhor não pensar."

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Zero Hora e o Igualitarismo


Querido diário:

Todos sabem que, desde que Américo Pisca-Pisca reformou a natureza, tenho o maior respeito pelos jornais em papel, destacando Zero Hora, que leio diariamente com galhardia. Pois numa notável prova de mudança em sua linha editorial, na página 4 do exemplar de hoje lemos uma nota de extraordinário conteúdo igualitarista.

Pra bom leitor, meia palavra basta. E para leitores outstanding traços coloridinhos sobre o papel também bastam. É precisamente este o caso a que devo agora recorrer: meu nome tá escritinho no final do cabeçalho em que mal-lemos o "Entre Leitores". Meu nome, o impecável diretor do Planeta 23. Pois então. Lá vai o início do assunto.

Na edição dos dias 17 e 18 do mês em que a primavera começa a correr (e nós para o inexorável fim-de-ano), a mesma seção (nomeadamente, "Leitor") de ZH publicou um comentário:

CAMELÔS
   Seguidamente, leio aqui no espaço do leitor críticas sobre a atuação dos camelôs nas ruas de Porto Alegre. Acho que as ruas devem permanecer livres para os pedestres, mas temos que levar em conta que os camelôs são seres humanos e que necessitam de dinheiro para viver. Não seria pior se eles estivessem assaltando os pedestres ou invadindo as nossas residências?
JORGE G. COUTO
Professor aposentado - Porto Alegre

No domingo que nos foge, aproveitei a emoção que tomou conta de meu coração e garrei de escrever para essa mesma seção:

ENTRE LEITORES
   Humanitário e criterioso o comentário do prof. Jorge G. Couto na ZH de 16 e 17/set sobre "a atuação de camelôs" em Porto Alegre. Dada a absoluta incapacidade do mercado em trabalho de absorver esses excedentes populacionais, a solução advirá da criação da oferta de uma colocação que lhes propicie renda e condições tão atraentes que as retirem da informalidade. O único agente capaz de resolver este problema é o governo, designado na literatura igualitarista como empregador de última instância. Bem ao contrário do que vemos recitado pelas cartilhas da atualidade.

DUILIO DE AVILA BERNI
Professor aposentado - Porto Alegre 

Baseando-me nas lições do "Ulysses", de James Joyce (ver dezenas de postagens com o tema), para quem já há escritas mais de dois milhões e meia de vezes mais conteúdo que a publicação original de 1922, meu texto é um tanto maior que o comentário do colega professor Jorge.

Costumo referir-me com frequência a este jornal, que escolhi para demarcar minha agenda d'"O que vai pelo mundo" (título de um jornal cinematográfico de minha adolescência). O mundo, desde que o acompanho, vai de mal-a-pior. E, no imediato pós-adolescência, caiu-me a ficha da causa das mazelas que me afligiam: a desigualdade. Talvez a religiosidade da família, a precípua doutrinação que recebi de um primo, minha própria observação de meu estilo de vida comparado com o de amigos mais pobres, de meu estilo de vida comparado com o dos mais ricos (com quem sempre tive contato superficial, não por falta de vontade, mas por falta de roupas adequadas, hehehe), talvez por tudo isto e sua mistura e sua inequação é que me tornei um jovem igualitarista.

Ao convencer o jornal Zero Hora de que este é o caminho da redenção mundial, espero que ela comece a alardear, asap, a implantação gradativa do governo mundial para lidar com:

.a a deterioração ambiental
.b o tráfico de armas
.c o tráfico de drogas
.d o tráfico de pessoas
.e o tráfico de dinheiro

Nem falo na explosão demográfica que me parece há de fenecer precisamente ao se implantarem os projetos de renda básica (incondicional) e renda de atração ao serviço municipal, quando novos contingentes de trabalhadores recusados terminantemente pelo mercado de trabalho poderão associar-se à geleia geral do trabalho social e acabar com a folga dos deterioradores do meio-ambiente e dos traficantes de armas, drogas, pessoas e dinheiro.

DdAB

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Igualitarismo e Dinamismo: três equações


Querido diário:

Por que o estado deveria investir seus recursos na promoção da indústria e não no combate à desigualdade? Espacialmente vamos considerar que indústria gera desigualdade, mas educação pode gerar homogenização das oportunidades educacionais, elevação da capacidade empresarial, essas coisas, e como tal indústria atomizada (incluindo o agronegócio), agricultura de precisão ou ecológica e serviços de todo o tipo. Neste caso, podemos clamar, gritar, ulular, que devemos tirar o foco da indústria, abençoar o fato de que é nosso papel como reformadores da sociedade propugnar em favor do gasto governamental na educação, em detrimento da indústria. Reformadores? Refiro um dos agentes da política, conforme a taxonomia que aprendi com o prof. Jorge Vianna Monteiro. E que desejo reformar? Não apenas a estonteante desigualdade que perpassa a sociedade brasileira, mas também esta praga também característica das sociedades mundiais. E, claro, penso nos instrumentos que minha formação de economista político levou-me a dominar.

Então vejamos minhas três regularidades empíricas igualitárias:

Equação 1
Quem gera o valor adicionado é a sociedade:

VAdic = f(População)

Ou seja, o valor é gerado pela sociedade, o que nos deixa afinados com a proposição divulgada por David Harvey para a consagração da sociedade justa: todos terão direito a uma fração do excedente, mesmo que não tenham contribuído para sua produção (bebês, doentes, etc., que pode ser lida na íntegra nesta postagem aqui, em seu P.S.). Postulo que, quanto maior a população, maior será o valor adicionado. Uma variante pode ser tomada como VAdic = g(VBP), dizendo que, quanto maior o valor da produção, maior o valor adicionado. E claro que, mais claramente, VBP = h(Emprego), quanto maior o emprego, maior o valor da produção. Peguei um cross section mundial checando aquele VAdic = f(População) e encontrei um coeficiente de determinação de r^2=0,63 para 181 países (aqui). Alto pra burro! E iria aumentar, conforme lembrou-me o prof. Adalmir Marquetti, se inseríssemos a localização regional e outros fatores relevantes concernentes aos países que entraram no cálculo da regressão.

Equação 2
O setor privado não é capaz de gerar emprego para todos. Uma sociedade não é redutível apenas ao funcionamento do mercado em geral e ao mercado de trabalho, em particular. Ela -sociedade- agrega preferências sociais por meio de diversas instituições, as mais facilmente identificáveis sendo o mercado, o estado e a comunidade. Então de onde virá o emprego para aqueles desprezados pelo mercado de trabalho? Do estado e da comunidade. No primeiro caso, temos a equação 2:

Desigualdade = D(Emprego público/Emprego total)

Aqui minha intuição me levou a prever uma relação inversa: quanto maior a participação do emprego público no emprego total, menor será a desigualdade. Também aqui peguei um cross section mundial, não fui capaz de calcular o coeficiente de correlação, por razões da aposentadoria, mas o prof. Adalmir Marquetti (a quem não pedi para fazê-lo) teve a gentileza de montar o gráfico e dizer que poderíamos melhorar este modelo ao colocarmos mais dados do lado da explicação (ou seja, emprego público). Olhando aquele gráfico (aqui), tá na cara a relação inversa, declarando-me devedor do coeficiente de correlação para os leitores compulsivos. Ou lanço-lhes um desafio para fazê-lo... No caso, além das funções tradicionais do setor público, devemos pensar nele -talvez até elevando a qualidade desses atendimentos tradicionais- como empregador de última instância, cabendo referir nesta linha a criação da renda básica e do serviço municipal. E ainda temos aquela novidade dos fake jobs que refiro ali no meu segundo post scriptum.

Equação 3
Se queremos mais valor adicionado e mais emprego, devemos cultivar o igualitarismo:

Dinamismo = j(Igualitarismo)

Na equação 3, tomamos a renda per capita, calculamos seu logaritmo neperiano, o que nos dá sua taxa de crescimento instantânea e correlacionamos com o índice de Gini. O dinamismo é dado pelo crescimento do PIB entre dois períodos, ao passo que o igualitarismo é uma situação em determinado período. Então a taxa de crescimento instantânea, à medida em que o intervalo de tempo vai-se reduzindo, tende ao logaritmo do número. O coeficiente de correlação não deu lá essas coisas para uma amostra de 154 países: r = -0,23, ou seja, um r x r = r^2 = +0,05, ou meros 5% (sabes como ler este número? Ele informa que as variações no nível de igualitarismo em torno de sua média explicam cinco por cento das variações no nível do dinamismo em torno de sua média). É pouco, mas já sabemos a receita do prof. Adalmir: iria melhorar se inseríssemos a região do país, seu grau de educação, a idade média da população e outros indicadores do desenvolvimento econômico.

Moraleja: o mundo tá explodindo em violência, na maior parte gerada pela desigualdade, no sentido direto e no indireto. No direto, podemos dizer que muita gente que se torna bandido o faz por querer apropriar-se de uma fração maior do valor adicionado que lhe é reservada por meios legais (sentimento que vi ser definido como pleonexia). Falo, claro, da corrupção dos políticos, mas também de bandidos como Fernandinho Beira-Mar, Marcola, Seco, e outros de meu conhecimento por meio da imprensa. No indireto, temos aquela roda da fortuna: se há emprego para professores, os filhos dos professores poderão visitar o Beto Carreiro e o motorista do ônibus que os leva pode pagar um curso de clarinete para seu filho. E o professor de clarinete leva seu filho ao dentista, que manda sua mãe fazer fisioterapia, cuja profissional passará férias em Brasília e cercanias. A turma das cercanias, fornecendo refeições para turistas, e a faxineira da dona do bistrô vai mandar sua filha também estudar clarinete e casar com o filho do motorista do ônibus e gerar hijitos que terão que ser levados ao pediatra que é casado com uma neurologista, a quem deu um anel de brilhantes de presente, e assim por diante.

DdAB
P.S. A imagem lá de cima veio da busca que fiz no Google com a expressão "paraíso". Trata-se, pelo que entendo, de duas senhoras peladas enjoying themselves ao banhar-se e discutir o que seria daquela foto na exposição do Santander Cultural.

P.S.S. Sobre essa ideia da equação 2, nos informando que o emprego público renega a desigualdade, vi um artigo citado num livro que me deixou (deixaram...) doido. O livro endoidante (e a referência endoidante lá na página 420):

SHARMA, Ruchir (2016) The rise and fall of nations; ten rules of change in the pos-crisis world. London: Penguin.

O artigo sideral (aqui):
ALDERMAN, Liz (2015) In Europe. Fake jobs can have real benefits. New York Times. May, 29.
At 9:30 a.m. on a sunny weekday, the phones at Candelia, a purveyor of sleek office furniture in Lille, France, rang steadily with orders from customers across the country and from Switzerland and Germany. A photocopier clacked rhythmically while more than a dozen workers processed sales, dealt with suppliers and arranged for desks and chairs to be shipped.
Sabine de Buyzer, working in the accounting department, leaned into her computer and scanned a row of numbers. Candelia was doing well. Its revenue that week was outpacing expenses, even counting taxes and salaries. “We have to be profitable,” Ms. de Buyzer said. “Everyone’s working all out to make sure we succeed.”
This was a sentiment any boss would like to hear, but in this case the entire business is fake. So are Candelia’s customers and suppliers, from the companies ordering the furniture to the trucking operators that make deliveries. Even the bank where Candelia gets its loans is not real.
More than 100 Potemkin companies like Candelia are operating today in France, and there are thousands more across Europe. In Seine-St.-Denis, outside Paris, a pet business called Animal Kingdom sells products like dog food and frogs. ArtLim, a company in Limoges, peddles fine porcelain. Prestige Cosmetique in Orleans deals in perfumes. All these companies’ wares are imaginary.
These companies are all part of an elaborate training network that effectively operates as a parallel economic universe. For years, the aim was to train students and unemployed workers looking to make a transition to different industries. Now they are being used to combat the alarming rise in long-term unemployment, one of the most pressing problems to emerge from Europe’s long economic crisis.
Ms. de Buyzer did not care that Candelia was a phantom operation. She lost her job as a secretary two years ago and has been unable to find steady work. Since January, though, she had woken up early every weekday, put on makeup and gotten ready to go the office. By 9 a.m. she arrives at the small office in a low-income neighborhood of Lille, where joblessness is among the highest in the country.
While she doesn’t earn a paycheck, Ms. de Buyzer, 41, welcomes the regular routine. She hopes Candelia will lead to a real job, after countless searches and interviews that have gone nowhere.
“It’s been very difficult to find a job,” said Ms. de Buyzer, who like most of the trainees has been collecting unemployment benefits. “When you look for a long time and don’t find anything, it’s so hard. You can get depressed,” she said. “You question your abilities. After a while, you no longer see a light at the end of the tunnel.”
She paused to sign a fake check for a virtual furniture supplier, then instructed Candelia’s marketing department — a group of four unemployed women sitting a few desks away — to update the company’s mock online catalog. “Since I’ve been coming here, I have had a lot more confidence,” Ms. de Buyzer said. “I just want to work.”
Five years after Europe descended into crisis, there are signs that a recovery may finally be taking hold. The economy of the 19-nation eurozone has been growing slowly but steadily since last year, led by Germany and a turnaround in once-troubled countries like Spain and Ireland. As oil prices have dropped, consumer spending and manufacturing have started to pick up. Unemployment is even starting to fall.
Yet long-term unemployment — the kind that Ms. de Buyzer and nearly 10 million others in the eurozone are experiencing — has become a defining reality.
Last year, a staggering 52.6 percent of unemployed people in the eurozone were without work for a year or more, the highest on record, according to Eurostat, and many of those have been jobless more than two years.
“If you have a significant part of the population that’s not integrated, they won’t increase their spending, which dampens a possible recovery,” said Paul de Grauwe, a professor of European political economy at the London School of Economics. When a large number of people go jobless for long stretches, “you also subdue optimism, which will weigh on an economic turnaround.”
France has over 100 staged companies where jobless workers get training, like the pet boutique Animal Kingdom. Capucine Granier-Deferre for The New York Times
The problem is worst along Europe’s southern rim. In Greece, which has plunged back into a recession, 73 percent of job seekers have not landed work in more than a year; in Italy, it is 61 percent. But the trend is rising even in more prosperous nations like France, where the rate recently approached 43 percent, the highest in two decades.
By contrast, the share of the long-term unemployed in the United States — defined as people looking for work for at least six months — is falling as a recovery takes hold. Last year it was 31.6 percent, down from a record 45.1 percent in 2010, according to the Labor Department. The share of those unemployed for a year or more was 22.6 percent in 2014.
If long-term unemployment is cyclical, or tied to economic trends, stronger growth should help. But the European economy is not recovering quickly enough to pull large numbers of people back into the work force. When people do find work, it is often through temporary, low-paid contracts, which have sharply increased as employers have looked to cut costs.
“It’s worrisome because we’re talking about many people who have been out of work for a very long time,” said Stefano Scarpetta, the director of employment, labor and social affairs at the Organization for Economic Cooperation and Development. “Their skills can become obsolete. They get stigmatized. They risk being disconnected from the workplace and society, with negative implications for them, their families and the economy.”
Sales, Strikes, Bankruptcies
About 20 people bustled around the spacious offices of Animal Kingdom in a gritty suburb north of Paris. A photo of an angelic kitten was taped to a wall. Printouts of Labrador puppies and yellow pythons adorned another. A poster announced a “Miss Chicken” beauty contest.
Muriel Banuelos, an energetic instructor, decided a few years ago to turn the training center into a virtual pet boutique. As new trainees arrived, so did new ideas. The company’s faux catalog expanded from cats and dogs to include pythons and frogs. The team added services it saw while studying France’s 3.5 billion euro, or $3.8 billion, luxury pet services market: high-priced weddings, baptisms and birthday parties for dogs, as well as beauty treatments like mud baths and manicures.
“Pythons are our new best seller,” Mrs. Banuelos announced, as she convened seven employees around an oval table to scrutinize sales. “It’s becoming very à la mode to have a reptile in the house.”
She looked at a stack of invoices, including some orders from virtual companies that had not been paid. “If this keeps up we’ll go out of business,” Mrs. Banuelos said, handing the papers to two women with instructions to follow up. “What’s our strategy to improve profitability?” she asked the group.
The concept of virtual companies, also known as practice firms, traces its roots to Germany after World War II, when large numbers of people needed to reorient their skills. Intended to supplement vocational training, the centers emerged in earnest across Europe in the 1950s and spread rapidly in the last two decades. Today about 5,000 practice firms operate on the Continent, supported by government funds, with at least 2,500 elsewhere in the world, including the United States.
Within France, 12 new centers have sprung up since 2013, said Pierre Troton, the director of Euro Ent’Ent, which oversees the nation’s network of 110 virtual companies.
“We have more long-term unemployed people than ever before,” he said. Most are under 25 and have either not found work or are getting only precarious temporary jobs. But there is also a surge in unemployed people over 50. “Today,” Mr. Troton said, “more and more people who lose their jobs stay jobless.”
Inside the companies, workers rotate through payroll, accounting, advertising and other departments. They also receive virtual salaries to spend within the make-believe economy.
Some of the faux companies even hold strikes — a common occurrence in France. Axisco, a virtual payment processing center in Val d’Oise, recently staged a fake protest, with slogans and painted banners, to teach workers’ rights and to train human resources staff members to calm tensions.
“The products and the money are fake, but you call a virtual firm in Switzerland and a person answers,” said Helene Dereuddre, 19, who was receiving administrative training at Candelia. “You call the bank and you get a counselor,” she said. “When you get into it, people see that they are capable of learning and working.”
A realistic work environment helps everyone stay in character. The staff members have to run the companies like real businesses. At Candelia, Ms. Dereuddre spent a week compiling a catalog of discounted furniture and a spring sales brochure to move inventory that hadn’t been selling well. To do so, she studied real market prices. “It might be fake,” she said with a laugh, “but we’ve got to make up for losses.”
Several of the firms slid into virtual bankruptcy when they became unprofitable. When that happened, the staff members took steps to shut down the company. They also learned how to open a new one, including applying for loans at a fake bank. The lenders will even reject them if the application isn’t properly filled out.
Julia Moreno, 45, a former nanny, works in the marketing and sales departments at Animal Kingdom, overseeing activities like deliveries and billing. She learned how to make PowerPoint presentations and to use data spreadsheets.


On a recent day, she was leafing through invoices and consulting a spreadsheet about sales. “We believe in it,” she said. “We organize ourselves as if we’re working in the real world. And you’re working so much and dealing with other colleagues, that you don’t even see the time pass.”

For those who have been out of work for long periods, the immersion “sharpens their capacity for employment and helps them regain professionalism and confidence,” Mr. Troton said. “They take responsibility and find a path back into the working world.”

Perhaps more important, he added, being in a workplace — even a simulated one — helps alleviate the psychological confusion and pain that can take hold the longer people go without a job.

‘I Can’t Take This Anymore’

For 15 years, Ms. Moreno worked for two French doctors in Paris, caring for their four children and maintaining their home 10 hours a day, while also ferrying her own three children to and from school. She was with her employers for births and birthdays, movie outings, holidays — even for a death in the family.

The job paid €2,200 a month, nearly twice France’s minimum wage. Her husband, a construction worker, pulled in a little more. With their earnings, they were able to buy a modest home in Stains, a working-class neighborhood outside Paris, and send their daughter to private school.

Then in 2011, Mrs. Moreno injured her cervical spine on the job. In France, a so-called workplace doctor is required to assess whether employees can return to work after an accident. In Ms. Moreno’s case, the doctor said she could no longer be a nanny. After that, Mrs. Moreno ended up in the unemployment office. Without a college degree or any other experience, there were few jobs she was suited for.

“I was convinced that I’d be going back to work,” she said one rainy evening in her living room. Photos of her children, who are 11, 22 and 24, lined a bookcase. “I’d organized my entire life around my job, so it was a crushing blow when this happened.”

While she received jobless benefits, they amounted to just 57 percent of her salary. Her husband’s income also shrank, as construction work dried up during the financial crisis. Now, they are living off their nest egg, buying only the basics. They no longer go out to dinner with friends. Her youngest son eats lunch at home instead of spending money in the school cafeteria. The couple is also trying to save on grocery bills by growing vegetables in a nearby community garden.

At one point, Mrs. Moreno almost entirely stopped leaving the house. “You don’t have the money to buy anything, so you don’t go out,” she said. “You feel isolated. There are moments when you think maybe you’re worth nothing.”

As applications for elder care and similar jobs went nowhere, she struggled to maintain her morale. Sometimes, she would come home from the unemployment office in tears. “People look at you and say, ‘Why haven’t you found a job?’ ” she said, her voice cracking. “Or, ‘Why are you, an older person, trying to take a job from a young person?’ ”

She paused, then continued in a low voice. “When you’re unemployed, you tell yourself it’s only going to be for a short time,” she said. “Then it turns into six months, then a year. Then nothing happens, and you say, ‘I can’t take this anymore.’ ”




Muriel Banuelos, right, an instructor at Animal Kingdom, with Julia Moreno, center, a former nanny. Mrs. Banuelos decided a few years ago to turn the training center into a virtual pet boutique. As new trainees arrived, so did new ideas. The company’s faux catalog expanded from cats and dogs to include pythons and frogs. “Pythons are our new best seller,” she announced, as she convened employees around a table to scrutinize sales. Capucine Granier-Deferre for The New York Times

In April, she heard about the operation at Animal Kingdom. Mrs. Moreno wants to get an office job when her program ends in September.

“I don’t want welfare — I want to work,” Mrs. Moreno said. “I’ll do anything to get a job.”

No Permanent Jobs

The success rate of the training centers is high. About 60 to 70 percent of those who go through France’s practice firms find jobs, often administrative positions, Mr. Troton said.

But in a reflection of the shifting nature of the European workplace, most are low-paying and last for short stints, sometimes just three to six months. Today, more than half of all new jobs in the European Union are temporary contracts, according to Eurostat.

Bryan Scoth, 23, is one of the lucky ones. Armed with French university degrees in literature and art, he had searched seven months for work. After training at Candelia, he landed a one-year contract this spring as an administrator at an unemployment office in Lille.

While the position was not what he had hoped for, it was a triumph after a string of rejections. “I’ve gotten my head above water,” Mr. Scoth said.

At Animal Kingdom, Mrs. Banuelos said the goal was to get the unemployed into any job, no matter the duration.

“The reality is that almost everything is a short-term contract,” she said. “They can be precarious, but with the crisis, there is almost no such thing as permanent work anymore.”

Radica Sindjelic, 52, who lost her job in 2013 after eight years as a manager at a French trucking firm that downsized during the crisis, said she tried not to feel discouraged that her only prospects were temporary, minimum-wage jobs.

Two weeks after starting at Animal Kingdom, she was called by a local social service agency to interview for a job as a counselor.

The position, if she gets it, would last only three months and pay €1,200 a month, a third less than her former salary. “What’s scary is how the crisis has aggravated things,” Mrs. Sindjelic said. “No one cares about my experience, they just look at my age and the fact that I’ve been out of work.”

Mrs. Sindjelic was sitting with her jobless colleagues. She smoothed the folds of her dress, and her tone shifted, attempting resolve. “Listen, this can only be a positive,” she said.

“Even if I have to work 10 short-term jobs, I’ll do it,” she said. “At least I’d finally be out there.”

Back at home, Mrs. Moreno put a smile on her face. She expected to land work after finishing at Animal Kingdom.

“A short-term contract is O.K., even though they can fire you just like that. It’s always the fear,” she said. “But I put so much hope into finding a job — there must be something for me.”

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Dia 22 de maio de 1988


Querido diário:

No dia 22 de maio de 1988, quase 30 anos atrás, se é que as regras da matemática ainda não mudaram, como o fez a acentuação gráfica daqueles tempos, tive a intuição que andou, andou e terminou na dualidade renda básica-salário mínimo:


Teoria sobre o mercado de trabalho. Começa com um leque de 100 vezes e vem reduzindo em um por ano. Nenhum funcionário público pode, sob nenhum título, nem mesmo herança, ganhar mais de 100 pisos salariais mensais.

É óbvio que qualquer funcionário público devia ganhar o mesmo salário: a regulamentação tem que vir daqui para o setor privado e não vice-versa. Como já escrevi antes, se o diferencial com relação ao setor privado for muito grande, ninguém fica no público. Logo, não teremos no setor público engenheiros, médicos, etc. que tenham como objetivo na vida enriquecer.

Naquele tempo, eu não lera o livro de Debraj Ray lá de nossa portada. Minha intuição recebeu um tratamento mais refinado, pois ele fala em nivelamento do consumo per capita. E eu, desde então, passei a amaldiçoar as sociedades que têm enormes desvios entre o mais frugal e o mais opíparo dos consumidores. A receita é pura social-democracia: aumenta o salário indireto com educação, saúde, segurança, moradia, transporte, alimentação barata (bens públicos e de mérito) e também aumenta o imposto de renda, com a alíquota máxima alcançando noventa e nove ponto nove da renda.

DdAB

domingo, 10 de setembro de 2017

Os Grandes Números e a Empatia


Querido diário:

Praticamente em toda minha vida mantive aberta a janelinha da chamada leitura literária. Volta e meia leio novidades (por exemplo, li o livro que inspirou o filme Tubarão), outras tantas leio velharias (por exemplo, As Aventuras de Gulliver) e outras tantas leio um negócio que promete e que leva-me a lavar meus burros n'água. Tal foi o caso de

LEE, Krys (2016) How I became a North Korean. London: Faber & Faber.

Trata-se de uma novela de 240 páginas, uma chatice, tudo acontecendo na fronteira entre a Coreia do Norte e a China, a turma querendo se mandar, mas também dentro da China a vida não é fácil para migrantes. Pois não é que li uma sentença que me deixou pensativo sobre a natureza humana, nossa natural empatia e seu esmaecimento quando os números de objetos de nossa solidariedade começam a aumentar. Que digo? Que não simpatizo com milhares de mendigos, mas que simpatizo com unzinho? Melhor abandonar meus dizeres e ver o que diz a autora (páginas 97 e 98, tudo com minha tradução). Uma migrante faminta vê, numa birosca, a metade de um prato de massa e o pede à dona do empreendimento do lado chinês:

"Queria apenas alguma coisa -qualquer coisa- para comer e então irei embora." 
Os olhos da mulher encontraram os meus e deixaram de ser amistosos. 
"Você veio do outro lado do rio?", ela indagou. 
Qualquer que fosse a amabilidade anterior em seu rosto, com esta, desvaneceu-se. 
"O que sobrou, qualquer coisa".
"Essa gente...", a mulher escandiu, e novamente fui impactada pelo sentimento de que não mais era uma pessoa, mas uma entre montes e montes.

Claro que estou citando uma situação limítrofe em que minha própria empatia leva a que me solidarize com a faminta. Mas não posso deixar de entender o mal-estar da empresária. Tanta gente passando, tanto problema com seu próprio governo, tanto golpe, tanta desilusão, tanto desamparo. É gente demais, havia gente demais.

Falei que esta postagem tá marcada como economia política, o que me permite dizer que não vejo saída para a humanidade que não seja a implantação imediata do serviço municipal, com rendimentos modestos mas crescentes destinados a reduzir a migração ocorrida por problemas políticos ou econômicos. Por contraste, a migração dos tradicionais e tomara que eternos viajantes humanos deve até ser incentivada, reduzindo-se gradativamente, até a eliminação absoluta, das fronteiras nacionais.

Vivemos neste mundo de crescente globalização econômica, especialmente a financeira. Por que não começar também a globalização da força de trabalho, sua mobilidade total?

DdAB
Tá lá naquela imagem o que a negadinha chamava de "Dear Leader".

sábado, 9 de setembro de 2017

Desigualdade e Revolução Livreira


Querido diário:

Coloquei este material no Facebook.

Roberto Rocha, e haveria alguém mais qualificado para dar-me dicas impressionantes?, chamou-me a atenção para um projeto que me tomará muitas e muitas horas pelos anos e anos que tenho pela frente. Trata-se do CORE (Curriculum Open-access Resources in Economics), uma rede de ensino de introdução à economia formada por centenas de brilhantes professores do mundo inteiro. Pouco sei sobre tudo, tudo é imenso, monumental. Mas pensei que, se ainda não houver um grupo de brasileiros/portugueses traduzindo o livro para fazê-lo chegar às novas gerações privadas da fluência na língua inglesa, bem que eu gostaria de participar, traduzindo um ou dois capítulos. Claro que estou fazendo uma conclamação pública para que alguém de minhas cercanias absorva a coordenação do projeto. Claro que, além do próprio Roberto, pensei no Adalmir Marquetti, no Antônio Albano de Freitas, no Christian Velloso Kuhn, no Luciano M. Braga e no Vladimir Lautert. E fiquei pensando em mais e mais gente que acredito que poderíamos ter esta tradução prontinha antes do final do ano.
http://www.core-econ.org/about-our-ebook/
[Um grande orgulho para nós, brasileiros é termos a foto na capa do livro, n'est ce pas?]
DdAB
Acabo de descobrir que aquela foto que botei no blog em 4 de dezembro de 2008 é de autoria de Tuca Vieira e veio daqui: http://www.tucavieira.com.br/A-foto-da-favela-de-Paraisopolis. A imagem que nos frontispicia veio daquela postagem. Como sabemos, não posso provar que fui atraído por aquela foro naquele tempo, pois o algoritmo do blog permite mudar coisas nas postagens. Por exemplo, uma prova de que nem tudo o que está naquela postagem por lá sempre esteve é que aquela consigna da "Liberdade, igualdade e... as estrelas" é muito mais recente. Naquele tempo, se bem lembro, o topo do blog tinha o texto seguinte: "Espaço de um estudioso de Economia Política (Economia do Desenvolvimento e Economia de Empresas). Planetas com 23 horas? É, seu habitante perde uma hora inteirinha em ginástica..."

E vejo também a partir do site dx fotógrafx, como elx diz, a foto foi feita para a Folha de São Paulo, e foi reproduzida por umx comentadorx da matéria lá deles:

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Dá de Tudo, Dá no PT: dá até Palocci


Querido diário:

Andei andando no alheamento por um ou dois dias e foi o que bastou para ver tudo mudado novamente. Ou melhor, como aprendi com Diego da Silva, nada mudou. O sr. Rodrigo Janot dá-nos excelente lição do preço que vaidosos pagam para associar a promoção de sua figura pública com os deveres de um funcionário público. Os holofotes cegam, se não me evado de 1 lugar comum.

Ninguém precisa ser muito arguto para entender que este denuncismo em véspera do dia da independência e de conclusão do mandato de procurador geral é puro exibicionismo. Por que apenas agora, nas vésperas de sua saída do cargo, por que novamente Lula e Dilma? E as malas de dinheiro do sr. Geddel Vieira Lima? Não foi a ele que outro político de igual envergadura designou como agatunado? Isto há mais de 250 anos.

E nosso combativo Antônio Palocci? Foi mandado pra cadeia e lá decidiu entregar o jogo. Ia entregar os bancos, os banqueiros, os políticos que mandaram no Banco Central. Esqueceu. Entregou o Lula, vou te contar. Acho que este foi o preço que o PT pagou por ser um partido que decidiu abarcar o mundo das massas, deixando de lado sua ideologia. Sinceramente, ver um cara do porte dentro da hierarquia partidária de Antônio Palocci transformar-se num delator, num traíra, é de cortar o coração de quem já acreditou que o Partido dos Trabalhadores poderia ter uma gosma de possibilidades de mudança. O que ficou, instead, é a gosma geral. Em minha opinião, isto é o fim-da-picada.

DdAB
O Jerry Adriani ali de cima é o Tomasso Buschetta.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Mercado-estado-comunidade: mais novidades


Querido diário:

Em torno das 11h00 da manhã de hoje, Jorge Maia Ussan apresentou lá no Facebook a seguinte citação em seu mural:
"Porque essa falsa separação entre o mercado e o Estado precisa ser dissolvida. Não haveria mercados se não houvesse Estados. Não haveria capitalismo se não houvesse Estado. Não haveria Apple, nem Google, se não houvesse Estado. E, de forma similar, não haveria Estado se não houvesse empresários privados, não haveria Estado se não houvesse empresas privadas. Precisamos dissolver esta falsa divisão."
Yanis Varoufakis. Via Tarson Núñez

Li alguns comentários interessantes e decidi entrar na conversa. Lá publiquei o que agora reproduzo com modificações menores.
Yanis Varoufakis é um de meus amados pensadores contemporâneos. Conheci-o na condição de co-autor de um livro introdutório à teoria dos jogos. E tenho lido mais dele e sobre ele desde sua unção ao ministério das finanças. Parece-me óbvio que ele "não se demitiu", num sentido de que cansou do trabalho, mas que entendeu a derrota e certamente iria ser demitido por imposição dos negociadores da dívida grega.
Agora, por outro lado, parece-me que a citação está incompleta, pois -aprendi com Samuel Bowles, se é que não nasci sabendo como todos os envolvidos nesta postagem- que existe um tripé (e não uma dupla) como principais elementos de agregação das preferências sociais: mercado-estado-comunidade. E que nenhum deles poderia expandir-se na ausência dos demais. Para quem não está familiarizado com o tema, lembro que partidos políticos são mistos de estado-comunidade e que sindicatos são apenas comunidade. E que mercados são passíveis de falhas na produção de bens públicos que, se a provisão não fosse assumida pela comunidade ou pelo estado, a vida civilizada como a conhecemos (fartura aqui e fome acolá) não seria possível.
O que agora vou falar (e já falei antes) não lembro de ter lido em outro lugar (talvez esteja errado, sei lá, é antropologia econômica, tema de que fujo aceleradamente). Imagino que a ordem de aparecimento destas instâncias de agregação de preferência sejam: primeiro, a comunidade (da horda à cidade), mercado (a troca direta e o dinheiro) e apenas então o estado (a polícia, o banco central). Naturalmente antes do estado havia simplesmente "administração pública".
E costumo dizer (antigamente não entendia nem pensava nisto) especialmente para aqueles que ainda desejam o socialismo hoje (e não reformas democráticas que conduzam a ele, amanhã) que não podemos pensar em instaurar um sistema econômico de cima para baixo, como seria o caso de exigirmos que o povo falasse esperanto. Um sistema econômico, a exemplo de uma língua, é um construto social. A língua pode surgir em semanas, mas o sistema econômico leva séculos para desenvolver-se amplamente.
Por outro lado, para abarcar o que vemos no Brasil e, principalmente, nos países capitalistas avançados não é bem capitalismo mas uma outra formação econômico-social que uniu de forma ainda mais íntima o trio mercado-estado-comunidade. E aquele capitalismo pré-dominância-financeira costumo dizer que acabou há mais de 15 dias. 
A imagem lá de cima achei-a ao buscar no Google Images a expressão mercado-estado-comunidade. Fiquei extasiado e vou olhar tudo com mais atenção. Talvez faça um remendo no texto. Um conserto que vou fazendo desde já é que, em minha visão, as "organizações" econômicas são três: produtores, fatores e instituições. Logo elas não estão "dentro" do mercado. E desde nosso cursinho de introdução à economia, as instâncias que absorvem a produção contam-se em três: famílias (consumidores), governo (consumidor), empresas exportadoras e importadoras e empresas domésticas (investidoras). Daí é que Keynes e sua turma inventaram que Y = C + G + (X-M) + I, ou seja, o valor adicionado, quando mensurado pela ótica da despesa é dado pela soma do consumo das famílias mais o consumo do governo, mais o saldo verificado no balanço das transações correntes mais o investimento.

DdAB
A imagem veio daqui. Achei-a tão interessante que decidi olhar o blog assim que terminei a postagem. Voltei agora para cá e remeto também para a primeira que está aqui.

P.S. gente: esta postagem está de azar, aqui no blog e também esteve lá no Facebook, até que a deletei e enviei para cá. Para dar uma ideia da ordem dos erros, falei em X - M como importação e importação, quando -obviamente- X é exportação e M, sim, é importação. Além disso, falei que X-M é o saldo do balanço de pagamentos, quando bem sabemos tratar-se do saldo do balanço das transações correntes (desde que X e M sejam importações de bens e serviços-exceto-os-prestados-pelos-fatores-de-produção).
P.S.S. no segunda postagem a que referi anteriormente, baixa-se o sarrafo na minha idolatrada tríade mercado-estado-comunidade, usando, ao que parece, o conhecimento desenvolvido por Immanuel Walernstein. Não o li o suficiente para saber de que e onde se fala.