terça-feira, 4 de julho de 2017

Geddel, a Pena de Morte e o Juiz


Querido diário:

Na página 2 de Zero Hora de hoje, fala-se que mais de 50% da população brasileira é favorável à pena de morte. Presumo que apenas uma fração muito reduzida dessa mais-de-metade aceitaria com exação tal pena aplicada contra si. Como apenas 94% da população ganham menos de R$ 5 mil por mês, estimo que o objeto da pena de morte seriam mesmo é os pobres, muitos remediados e um que outro rico.

Sou contrário à pena de morte para Geddel Vieira Lima, notório corrupto deste desditado país. E se fosse para o enquadrarmos, por que deixar incólumes tantos outros larápios? Uma razão para a absoluta proscrição da pena de morte é dada por Hegel:

[...] No ensaio Quem pensa abstratamente?, de 1807, Hegel sugere que pensar abstratamente é simplificar, partir e fixar o objeto da reflexão. Qualquer um, seja rico ou pobre, culto ou sem instrução, comandante ou soldado, pode incorrer nesse erro de avaliação. Um exemplo comum do pensamento abstrato para Hegel é 'ver em um assassino somente o fato abstrato de que ele é um assassino e através dessa simples qualidade anular toda a essência humana, ainda remanescente nele' (op. cit., p. 237) [sic].

Primeiro, o Geddel segue sendo humano, tendo uma essência humana, algo remanesce mesmo nos piores vilões. Depois, a pena de morte, aplicada intensamente, como na China de hoje ou nos Estados Unidos nos últimos 100 anos, só pode levar à ocorrência de erros tipo II, ou seja, condenar inocentes. E isto é inadmissível: sob o risco de tal injustiça, deve-se adotar o princípio de proscrevê-la para todos.]

Pois nenhum juiz condenou o Geddel, mas o neguinho que mandou prendê-lo cometeu um erro de português em seu, sei lá, despacho. Lemos em Zero Hora (livre, as it were, de ser chamada de Zero Herra):

   No despacho assinado ontem, o juiz Vallisney Oliveira diz que 'a prisão de Geddel Lima é medida que se impõe, por haverem provas, até o momento de sua participação no supramencionado esquema ilícito, havendo o perigo de que se permanecer solto pssa atrapalhar as investigações na Operação Cui Bono'.

Haverem provas? Se fosse no pretérito, ficaria claro tratar-se de um erro: Houveram provas. Ou, no futuro: haverão provas... A este haverão, vi a piada: depois da primavera, há verão.

Todos temos direito de cometer erros de português, mas 94% dos brasileiros, a elite, por ganhar mais de R$ 5 mil mensais deveria ser condenada à morte, quando os comete. Dados meus próprios raciocínios sobre o tema e, especialmente, a reflexão de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, o certo mesmo, para o Geddel e o juiz seria submetê-los a ritos de vaias. E encarcerar quem ganha mais de R$ 300 mil por mês, e até menos...

DdAB
Fonte da citação a Hegel: FEITOSA, Charles (2004) Explicando a filosofia com arte. Rio de Janeiro: Ediouro. Como sabemos, declaro-me especialista em introdução à filosofia, razão que me leva -sempre que possível- a reler meus livros listados aqui, o que me fez notar hoje, logo hoje, dia em que tomei conhecimento da prisão do emporcalhado Geddel.
Imagem: precisa dizer?
Cui bono: quem se beneficia: expressão que aprendi lendo, há um século, o artigo de Chico de Oliveira "Crítica da razão dualista". Chico é sabido e erudito. E meio radical em demasia para meu gosto, hoje em dia. Mas segue sendo meu ídolo por esse trabalho.

Nenhum comentário: