domingo, 18 de junho de 2017

O Loteamento de um Cemitério


Querido diário:

Sabemos que um dos traços mais determinantes de nossa condição humana é o respeito aos restos mortais de nossos assemelhados. De fato, o cuidado com os mortos, com os cadáveres, com os restos de tudo é um dos "universals", classificado aqui como "funeral rites" ou ainda "mourning", ritos funerários e pranteamento.

Não é difícil que nos tornemos fúnebres neste momento em que o governo do estado, em sua gestão desabotinadamente neo-liberal, quebrou a pau uma comunidade que se alojara em um prédio público que se encontrava abandonado. Fatos de junho/2017, triste sina do mês do padroeiro do Rio Grande do Sul, o velho São Pedro.

Fiquei imaginando que, com centenas de imóveis de sua propriedade, o governo estadual deveria era usar esses recursos para acomodar populações sem-teto e não vendê-los para "o setor privado". O mínimo dos argumentos é dois: a necessidade de parte da população de rua e, além dele, considerar que, num país de desabotinada concentração da renda e da riqueza, vender próprios públicos significa precisamente discriminar a negadinha sem-teto, em benefício dos abonados de sempre. Incluem-se nesta rubrica os ladrões da geração presente e os herdeiros de rapina em gerações pretéritas.

Pois fiquei pensando que é inconcebível que a geração presente, por problemas de trânsito ou de loteamentos, desative seus cemitérios, mande os restos e lápides de sua ancestralidade para o fundo do mar ou para um buraco num canto ermo da região. Exemplo extremo, óbvio, mas ninguém sabe qual é o limite de um governo insensível às necessidades de uma população detentora de escandalosos níveis de desigualdade.

DdAB
Fúnebre como estou, não surpreende que "o algoritmo" tenha me oferecido, com a busca sobre o título da postagem, aquela turma de Verona, Romeu e Julieta, sem restos mortais...

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