quarta-feira, 7 de junho de 2017

Emprego no Governo: Érico + Graciliano


Querido diário:

Eu queria ter obtido uma foto mostrando a amizade Érico-Graciliano, parece que já vi numa reunião da União Brasileira de Escritores, algo assim, mas não lembro onde (parece que é de Shakespeare a constatação de que "true love never runs smooth"). Não achei no Google Images. É que aqui mesmo já falei de uma das manifestações mais regulares de meu TOC:

.a. ler Érico Veríssimo (um mesmo conjunto de obras, não todas) nos outonos

.b. ler Graciliano Ramos sempre que me der vontade, que der saudades daquelas tramas cerebrais e daquela escrita impecável.

Pois neste outono, estou relendo (já no terceiro volume) o terceiro tomo de O Arquipélago. E, por coincidência, também neste outono, estou fazendo o mesmo com Caetés.

Pois bem: Graciliano é mais velho, Caetés é mais velho e lemos na página 111, quando João Valério ouve a pergunta de Nazaré e prossegue narrando o diálogo:

   -Já sabe? O Xavier foi demitido.
   -Que está dizendo? Isso pode ser? Um funcionário que vem da mnoarquia! Que horror!
   E falei em Xavier filho, há muito tempo estudante de medicina. Luta desesperadamente e não consegue terminar o curso.
   -Que miséria!
   -É verdade, prosseguiu Nazaré. O Evaristo embirrou com ele, e com razão. Tiraram-lhe o emprego.
   -Que razão! Pense na família do Xavier. Mais de dez filhos! Bandalheira.
   -Mais de dez filhos, é exato. Quanto a isto ninguém tem culpa, que a filharada foi ele que fez, ou alguém por ele. Era necessário colocar na Secretaria da Prefeitura um sobrinho do Evaristo.
   -Outro? Deve ser como o promotor. Boa amostra.
[...]

Então era um emprego para um parente? Nepotismo. Então: Érico é mais novo que Graciliano, O Tempo e o Vento é mais novo que Caetés e lemos na página 156, numa daquelas rodas de discussão entre o Dr. Rodrigo, à beira da morte, e o estancieiro Terêncio, que diz:

Jamais se roubou tanto e tão descaradamente nas esferas governamentais do Brasil como na era getuliana, em que imperou, como nunca em toda a nossa história, o empreguismo, o nepotismo, a advocacia administrativa, o peculato, o suborno, a malversação de fundos públicos... 
[reticências no original e itálico de DdAB]

De repente, em minha propaganda pela sociedade igualitária, caiu outra ficha, uma vez que:

.a. na sociedade igualitária, tem empregos para todos

.b. o setor de mercado da agregação das preferências sociais é incapaz de gerar empregos para todos, pois uma das leis imanentes do capitalismo é a transformação de trabalho vivo em trabalho morto

.c. então resta ao governo gerar estes empregos que os srs. Evaristo e Terêncio jogam na parada.

Evaristo cria emprego para um parente, à custa de um funcionário cumpridor de suas obrigações. Terêncio critica o governo Vargas.

Qual é a solução? Parece óbvio: é preciso que o governo acolha todos os cidadãos que não têm empregos no mercado de trabalho. Deixá-los à míngua? Os dez filhos do sr. Xavier? A turma do Catete e seus aparentados? É preciso democratizar o emprego, ainda que pagando a essa turma do governo, digamos, no Serviço Municipal, menos que ganhariam se estivessem no setor de mercado.

DdAB
Meu Érico Veríssimo:
.a. Clarissa (1933)
.b. Música ao Longe (1935)
.c. Caminhos Cruzados (1935)
.d. Um Lugar ao Sol (1936).
.e. Olhai os Lírios do Campo (1938)
.f. O Resto é Silêncio (1943).
.g. O Tempo e o Vento (1949-62)
     ** O Continente
     ** O Retrato
     ** O Arquipélago
.h. O Senhor Embaixador (1965)
.i. Incidente em Antares (1971).
[Fora os livros de viagem, que também adoro]

Meu Graciliano Ramos:
.a. Caetés (1933)
.b. S. Bernardo (1934)
.c. Angústia (1936)
.d. Vidas Secas (1938)
.e. Infância (1945)
.f. Insônia (1947)
.g. Memórias do Cárcere (1953).

De repente, caiu-me a ficha: a única chance que temos de impedir os políticos de cultivarem o nepotismo é oferecer emprego público para todos os interessados. E ter um leque salarial estreito, sem os disparates de R$ 1.000 para uns e R$ 400.000 para outros.
O prof. Conrado comentou. E eu escrevi: grato pela atenção e silêncio (hahaha). Talvez o livro que mais reli em minha existência tenha sido "O Senhor Embaixador". E gosto de relê-lo, com certo diferimento no tempo. Se bem lembro, a primeira leitura foi lá por 1968. Depois, digamos, em 1975 li pela segunda vez e extasiei-me, especialmente por lembrar da leitura anterior, evocar momentos daqueles tempos e aprender desdobramentos que me fugiram na primeira. Depois, como não poderia deixar de ser, os acontecimentos se sucederam... E, neles envolto, creio que voltei a ler "O Senhor Embaixador" apenas em 2008. E foi por essa época que o TOC me garrou de vez. Então reli no outono-inverno de 2014 e novamente, pingando o ponto final na leitura em 20/jun/2016, com a anotação "madrugada fria de segunda-feira".

E acrescento: Érico Veríssimo voltou a minha vida depois de 2001, meses depois do retorno de minha segunda viagem aos Estados Unidos. Voltei com ganas de reler "Gato Preto em Campo de Neve", que lera, digamos, em 1965 ou 1966 e amara, e lembro de uma referência de Érico à visita que fez à Fundação Rockefeller, testemunhando a efervescência da vida dos estudantes estrangeiros bolsistas. Naquele tempo, pensei que adoraria estudar no exterior (Reino Unido). E agora calculo que o fiz em pouco mais de dez anos após aqueles desejos.

P.S. de 21/ago/2017: Retirei de um papelzinho que guardava afanosamente em uma caixinha de talco Ross: Érico Veríssimo tem dois romances maduros: "O Sr. Embaixador" e "Incidente em Antares". Passou a vida preparando-se para ele, da mesma  forma que juro ter sido o caso de Amartya Sen e seu "The Idea of Justice". Na  verdade, tem três outros momentos:
. o ciclo de Clarissa
. o de Eugênio e Olívia
. o do "O Tempo e o Vento"

Nenhum comentário: