sexta-feira, 26 de maio de 2017

O Desprezo ao Neoclacissismo


Querido diário:

Primeiramente, fora Temer! Em segundo lugar, gente que muito prezo e muito, muitíssimo qualificada, tachou-me um par de décadas atrás de ser um neoclássico de esquerda. Anos depois, ouvi de um ex-aluno dileto no primeiro semestre da faculdade e intelectual politicamente ativo a frase: "quem, senão o Duilio, iria ensinar 'marginal' e 'mais-valia'"? Frase curta que penso ter feito a melhor radiografia de minha própria vida intelectual enquanto economista.

Tive dois grandes mestres a ajudar-me a equacionar essa questão de

.a entender o funcionamento e a evolução dos modos de produção nas sociedades humanas
.b contribuir para sua regulamentação, buscando a maior eficiência (produtiva, alocativa e distributiva) possível.

Escrevi no próprio blog em 22 de julho de 2015:

O primeiro artigo é de Oskar Lange:

HOROWITZ, David, org. (1972) A economia moderna e o marxismo. Rio de Janeiro: Zahar. p.66-83. Reproduzido da Review of Economic Studies, junho de 1935.

E o segundo é:

WORLAND, Stephen T. (1972) Radical Political Economics as a Scientific Revolution. Southern Economic Journal, v.39 n.2 October. 

E daí que, quando vejo a nova forma de discriminação de preço na indústria de transporte de passageiros por avião, quando se abandona o princípio da formação do preço do carregamento de bagagem pelo custo médio e passa-se a cobrar pelo custo marginal, ou o que o valha, pareceria estarmos buscando eficiência alocativa. Mas o que estamos vendo é nova manobra monopolística, assessorada pelo próprio órgão governamental que deveria regular e tributar os lucros extraordinários.

E a diferença entre custo privado e custo social? Parece que estes conceitos são dados no primeiro dia de aula da faculdade de economia e, se não o for, devem ser dados quando se estuda, lá pelo quilômetro 5 ou 6 de um curso elementar de microeconomia, a teoria dos custos. E qual a relevância disto para um neoclássico de esquerda? É termos presente, por exemplo, no estudo do funcionamento do mercado de trabalho, que quanto menos emprego -mantido o mesmo nível de produção- melhor. E que, quando se fala em 'gerar emprego e renda', o que se está fazendo é passar adiante um discurso reacionário, pois estas duas variáveis econômicas não estão ligadas: o bebê de qualquer porte não tem emprego e absorve parte do valor adicionado. E o velhinho dos ricos também: come, bebe e dorme, mas não trabalha.

DdAB
Eficiência alocativa - quando o custo marginal é nulo, quero dizer, é igual ao preço.
Eficiência produtiva - quando o custo médio é mínimo.
Eficiência distributiva - quando o custo médio é igual à receita média, ou seja, o lucro extraordinário é nulo.
Existe alguma estrutura de mercado teórica que autoriza este alcance simultâneo de eficiência? Teórica, sim, prática, provavelmente, não, e é a concorrência perfeita (e até mesmo a pura). E qual a diferença entre concorrência pura e a perfeita? O grau de informação disponível pelos agentes ser parcial ou total.
E toda a macacada dos economistas de esquerda sabe isto? Estou praticamente certo de que não sabe, não!

Olha só: escrevi aqui no blog e fui ao Facebook de 26/maio sexta-feira tipo 10h00. Lá recebi o seguinte comentário do prof. Hélio Henkin:
Duilio De Avila Berni, não sei se não captei algo, ou se tu estavas falando de produtos cujo custo marginal é zero ou tendem a zero, mas creio que no texto do blog acima citado a condição de eficiência alocativa deveria ser "disposição a pagar por uma unidade do produto ou preço devem ser iguais ao custo marginal" e não que "custo marginal=zero". (Pode ser também que o meu trabalho atual de gestão orçamentário-financeira-administrativa esteja me atrapalhando no raciocínio microeconômico.....hehehehe) Aproveito para indagar se o teu neoclassicismo de esquerda consideraria a eficiência inovativa........(provocações de um shumpeteriano social democrata...hehehe).

E respondi assim:
Obrigado, Hélio: leitura atenta leva a diagnóstico de erros. Falei mesmo aquilo de CMg = 0, quando queria dizer CMg = preço, ou, para usar tuas palavras, "disposição a pagar por uma unidade do produto ou preço devem ser iguais ao custo marginal". Para simplificar a exposição de Frederick Scherer, seleciono apenas estas três situações ilustradas por aquele desenho tradicional do equilíbrio de longo prazo na concorrência pura. Mas claro que, quando chamado às falas, vou logo acrescentando que, ao falar em eficiência produtiva, estou pensando num ambiente dinâmico em que as empresas que não inovarem ficarão para traś. Diria o velhinho da mais-valia: produzirão a um preço menor que o valor, cedendo a liderança a outras mais eficientes inovativamente.

Vou já pra lá no blog arrumar este erro que juro ser apenas desatenção, mas não falta de compreensão da relação entre disposição a pagar e o custo de obtenção da unidade adicional do produto.

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