quarta-feira, 10 de maio de 2017

Como poderia dar certo?


Querido diário:

Um país pode dar certo ou dar errado. Acemoglu e Robinson ("Por que as nações fracassam") falam em instituições políticas e econômicas inclusivas ou extrativistas, requerendo também a destruição criativa de que nos fala Schumpeter (novos produtos ou novos processos arrasando práticas ou hábitos anteriores).

Eu vejo o mundo a partir de meu umbigo, claro. Mas não apenas dele, óbvio. Minha principal fonte para ficar ao par do que vai pelo mundo (Art Filmes...) é, de manhã, ler o jornal, de noite, os jornais da internet e - por pura ironia - o que melhor me serve é o El País em português. Às vezes, olho o Washington Post, o Guardian e a Economist.

Pois hoje, há duas notícias que, conjugadas, deixam-me aturdido. Nem estou falando no ponto de vista de direita que percola todo noticiário do depoimento de Lula para Moro. Falo da página 6 da Zero Herra, falo da cronista Rosane de Oliveira, falo de um drops como segue:

NA MOITA
   Um mês depois de o PDT aprovar a saída do governo Sartori, os filiados que ocupam cargos de confiança nos escalões inferiores seguem na moita|: ninguém pediu demissão. Até os coordenadores regionais de educação seguem nos postos.
   O PMDB e os demais partidos aliados que seguem com o ônus de ser governo não aceitam que o PDT decida ser oposição sem abrir mão do bônus.

Não é crível que se pense nestas linha, em um país cuja infração sistemática ao item "os cargos públicos serão abertos a todos" da definição de sociedade justa de John Rawls. A jornalista Rosane de Oliveira dá um tom e teor a sua notícia que parece que o comportamento mais natural do mundo é mesmo a troca de cargos na administração pública por apoio parlamentar. Obviamente, estamos falando de instituições distorcivas (extrativistas), maculando tanto a democracia quanto a qualidade da administração pública. Digamos que um daqueles detentores de CC fosse competente (o que me surpreenderia, pois -se o fossem- não estaríamos no mesmo desvão de baixa produtividade), então seria defensável retirá-lo do cargo? Quem deveria surgir em primeiro lugar, o emprego de partidários ou a eficiência do trabalhador?

O inferno é infinito, como dizíamos em Jaguari. Como tal, a página 10 está falando que aquela psicopatia dos governantes gaúchos quer prender e arrebentar a administração indireta estadual. Mas a constituição do estado requer a realização de plebiscitos, buscando auscultar as preferências do eleitorado em meia dúzia de assuntos. O governo tentou fazer uma lei mudando a constituição, sei lá em detalhe, na tentativa de contornar esse "auscultar". Digamos que estivéssemos no caminho certo quando o governo deu-se conta de que o melhor mesmo seria cumprir a constituição estadual e não dar-lhe um golpe com novas iniciativas legislativas que viessem a burlar aquele "auscultar". Neste caso, para o plebiscito, passou-se a discutir se o voto deveria ser obrigatório ou facultativo. Do jeito que vejo o mundo, o voto deveria ser facultativo, pois quem quer votar vota e quem não quer votar não vota: Rawls novamente - todos terão direito à maior liberdade possível compatível com a dos demais. Não vejo, como tal, de que jeito meu voto (presente ou ausente) pode prejudicar o bem-estar do governador Sartori ou de meu vizinho de estacionamento na garagem do centro da cidade, ou de quem mais lá seja. Parece que a dupla falha da turma reside no seguinte parágrafo dessa desditada página 10:

   Interlocutores do Palácio Piratini vinham trabalhando com a hipótese de que a consulta seria facultativa, porque 2017 é ano não eleitoral. O entendimento era de que, sem a exigência de comparecimento às urnas, aumentaria a probabilidade de que entidades de classe contrários à privatização dominassem a votação.

Segue-se logicamente que o que interessa não é eficiência do funcionário público nem o desejo de ouvir o que a população acha sobre a iniciativa do governo. O que interessa é, num caso, agradar aos partidos aliados e, no outro, anular a possível mobilização das entidades de classe.

Tá ou não está explicado que tipo de gente nos fixa tão rigidamente nas cadeias do inferno? Como é que um país com políticos desta estirpe pode fazer para dar certo? (Resposta no item .b no que segue).

É por isso que:

.a eu bebo e

.b eu penso que a saída não é tão simples quanto pensar apenas em educação para o povo. Acho que também cada vez mais se mostra importante formarmos uma rede de esgotos: saneamento para tudo quanto é dejeto -humano ou não- que infesta o país.

DdAB
P.S. Com educação, serão criados empregos para neguinhos alfabetizados, limpinhos e cheirosos, ao passo que, com a criação de esgotos, serão empregados os analfabetos, os desdentados, os despossuidores de máquinas de lavar roupa e que, como tal, exibem aquele característico cheiro de roupa suja.

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