quarta-feira, 29 de março de 2017

Sigo no Jessé: mas pensando de lado


Querido diário:

Como sabemos, fiquei abaladíssimo (no bom sentido) com a leitura de

SOUZA, Jessé (2015) A tolice da inteligência brasileira; ou como o país se deixa manipular pela elite. São Paulo: LeYa.

Então veio-me a necessidade de recuperar alguma coisa de meus estudos específicos e antigos de sociologia. Caí, para começar o assunto, na Wikipedia (em inglês). E vim lendo até que aprendi algo interessante. Os autores do verbete falam em quatro "tradições teóricas":

.a classical theory
.b functionalism
.c utilitarianism
.d conflict theory.

Sobre o utilitarismo, veio-me à compreensão o pensamento de Josh Whitford, dizendo que "rational actors are assumed to have four basic elements, the individual has
.1 knowledge of alternatives
.2 a knowledge of, or belifes about the consequences of the various alternatives
.3 an ordering of preferences over autcomes
.4 a decision rule, to select among the possible alternatives.

Super bem comportados, mas no próprio verbete fala-se na racionalidade limitada de Herbert Simon e outros.

DdAB

segunda-feira, 27 de março de 2017

Estado Nacional versus Governo Mundial


Querido diário:

Se eu lesse o título que dei a esta postagem na capa de um livro, iria adquiri-lo (por compra ou roubo) e ler com sofreguidão. Não se trata disso, nem tenho o engenho de escrever algo de grande monta, como o tema requer. Apenas a revisão da literatura dos últimos dez anos levaria mais tempo que aquele que me está dado viver sobre a terra. Para ser rápido e, certamente, bem rasteirinho, já vou adiantando: acho que o estado nacional está agonizante e que o governo mundial ainda tardará a ser implantado. Neste vácuo entre o velho que perdura e o novo que não nasce (respingando, como deve ser, sangue, suor e lágrimas por todos os poros), vemos horrores acontecendo, desde a guerra na Europa nos anos 1990, sua invasão por um milhão de refugiados nos anos 2010s, o tratamento de péssima qualidade dado a países como a Nigéria, o Paraguay e o Brasil. Epa, o Brasil até nem pode ser comparado com essa dupla.

Segundo parágrafo: em novembro de 2015, em pleno Rio de Janeiro, vi numa banca a revista Cult que nunca tinha se dado a ver por mim em meu canto da província porto-alegrense. Desde então, em duas ou três oportunidades, tentei tornar-me seu assinante via internet, enfrentando sempre rotundos e estrondosos fracassos. Até que, dias atrás, tive sucesso. Pois -entusiasmado com este, com esta- decidi adquirir (no caso, por compra) dois números atrasados. O número de dezembro de 2016 anuncia na capa o tema especial "O Desmanche Neoliberal", tema que me faz, em tudo, pensar no fim do estado nacional e na emergência do governo mundial. Li com exação, não gostei muito da qualidade literária, quero dizer, acho que encontrei parágrafos um tanto mal-engendrados, fazendo algumas ideias ininteligíveis mesmo na segunda ou terceira leitura. Talvez, em alguns casos, houvesse apenas problemas de tradução. Da página 14 à 17, tem um artigo assinado por Ruy Braga, ele agora intitulado "A Herança do Neoliberalismo: sementes da revolta; diferentemente do passado fordista, uma vitória pacificadora do Estado social não parece nada provável".

Uma vez que não estou suficientemente convencido de ter entendido o primeiro parágrafo da seção intitulada "Espoliação Social" (página 15), posso estar citando fora de contexto. Mas não importa, pois -fosse eu capaz- teria eu myself propriamente eu teria criado-a:

[...] um Estado nacional refém do poder das finanças globalizadas.

Fosse minha a frase, não teria aquele "estado" com 'capital', mas claro que não podemos deixar de lado a realidade realmente real em que o estado e o mercado, em outras palavras, o capitalismo contemporâneo são irmãos siameses. Como dizemos em Jaguari, a cara dum é o focinho do outro. Com efeito, tem muita gente que, ao falar em capitalismo, esquece o estado e fica olhando exclusivamente para o mercado e até apontando suas falhas. Ao não estudar o estado como seu contraponto (seu, dele, mercado, claro) esquece duas coisas: as falhas de governo e, ainda, a presença da comunidade e suas próprias falhas, dela, comunidade.

Mercado, estado e comunidade: o mais importante trio de agregação de preferências coletivas. Todos têm falhas, todos funcionam às vezes de modo harmônico e integrado e, outras tantas vezes, funcionam alquebrados e desintegrados. Olha o que tá escrito na página 630 do livro "Mesoeconomia; lições de contabilidade social", da Editora Bookman:

Se uma comunidade fraca se deixa equilibrar por um estado forte, veremos o comprometimento da eficiência distributiva. Uma comunidade forte e espiritualizada poderá comprometer o desenvolvimento das forças produtivas, a divisão do trabalho e, como tal, o desenvolvimento do mercado. Um mercado forte pode desequilibrar a ação do estado fraco, enviesando o uso do poder político, em possível prejuízo da comunidade, para não falar no prejuízo direto, por exemplo, com a cobrança de preços monopolísticos pelos produtos que vemos transacionados.

É bem verdade que tem gente que não quer a ação harmônica da tríade, como dizemos lá no livro. Ainda tem gente que pensa que tá na hora de destruirmos o capitalismo, pensando que vai de roldão apenas o duo mercado-estado. Não se dão conta da convivência entre os três polos. Não se dão conta de que o esperanto foi uma língua surgida em laboratório, substituindo o que a comunidade leva anos para construir e aperfeiçoar. Não se dão conta de que o socialismo também é um construto de laboratório e que não podia dar certo mesmo. Quando se fala em socialismo de estado, ocorre-me a figura criada por terceiros e que muito me impactou: e se for o socialismo nacional, não é o mesmo que nacional-socialismo?

Estado nacional, para uns, versus estado social para o artigo da Cult. Uma vez que aprendi que socialismo é fria, procuro repensar possibilidades e caminhos para a reinstauração do estado de bem-estar social, com o devido aggiornamento, naturalmente seguindo-se do aggiornamento da própria esquerda. A questão relaciona-se com a possibilidade de uma evasão da periferia com o tipo de estado que hoje vemos na Nigéria e na Bolívia, ainda que aparentado com o vigente na Noruega e na Bélgica.

Minha sugestão de questões fundamentais para o aggiornamento durante os anos que restam ao estado nacional são:

.a luta pela implantação do governo mundial
.b voto universal, secreto, facultativo, periódico e distrital
.c república parlamentarista.

Observemos que ainda não cheguei a falar muito sobre o governo mundial. Claro que não sei mais sobre ele, sei apenas da experiência europeia, sei superficialmente. Imagino que a burocracia e a demagogia permitiram-lhe aceitar os "países do leste" a uma velocidade impossível de ser absorvida nos prazos estipulados. Pensaram que a transição do socialismo de estado para o capitalismo de mercado-estado seria mais simples do que foi. E principalmente a integração deu-se precisamente no ponto em que o neoliberalismo estava avançando sobre o estado do bem-estar social nos próprios países signatários originais. E qual teria sido a solução e qual é a solução mesmo hoje para a reorganização social-democrática do mundo? O início de tudo é a implantação da renda básica universal, financiada pela "Taxa Tobin", um imposto sobre as movimentações financeiras a serem recolhidas pelo banco central mundial.

Para falar nisto, volto ao cerne do fragmento que marcou-me, uma "faca me escavacando", na linha de Carlos Drummond de Andrade: não dá de pensar em estado nacional quando o que temos é um bando de reféns das finanças globalizadas. Quem acompanha a literatura marxista, de Marx a James Clifton, passando pelo artigo de Donaldson Brown, aceita que a concorrência aumentou e não diminuiu nestes séculos de capitalismo, ou seja, o capitalismo não se monopolizou. E o que teria feito o capitalismo tornar-se mais concorrencial, e não menos? Clifton segue Brown que sugere que o departamento de finanças da empresa procura a todo instante projetos lucrativos para colocar seu dinheiro, ou seja, o departamento de finanças transformou a empresa em um banco. 

E qual seria o limite dessa financeirização do mundo? Nacionalizar as finanças ou globalizar o estado? Parece óbvio que chegou a hora de começarmos a urrar pela implantação do governo mundial, acelerar a implantação do banco central mundial. E levar o povo ao poder. E o que distancia o povo do poder? Basicamente o povo deseducado não está apto a identificar seus objetivos na vida e, como tal, é incapaz de lutar por eles. Volto à declaração atribuída a Benedito Valadares, quando indagado da razão que impediu um de seus protegés não ter sido eleito: faltaram votos.

DdAB
P.S. Tirei a imagen daqui.
P.S.S. a postagem foi-se fazendo cada vez mais longa. Omiti um baita parágrafo falando naqueles "escape from the periphery": claro que, como naquela outra de "one flew over the cuckoo's nest", volta e meia, algum país pode evadir-se do clube da baixaria. A Coreia certamente o fez, não podemos falar na mesma língua para a Índia e a China, mas há algo na "nova Ásia" que poderia dar-nos esperanças. A verità é que a social-democracia foi incapaz de integrar o mundo, de avançar a criação do governo mundial. Mas nada nesta linha podemos esperar do neoliberalismo.

sábado, 25 de março de 2017

Rosane de Oliveira do 13


Querido diário:

Sabe, sempre soube, meu leitor diuturno que leio Zero Hora diariamente e, por isso mesmo, marco-a de cima e a chamo de Zerro Herra. Talvez haja sadismo de minha parte, pois vejo volta e meia arremetidas que, se não fazem todos tomarem-na por palhaça nos dias que correm, vão fazê-lo em qualquer futuro mais remoto que queiramos tomar como parâmetro. Aquela macacada do futuro vai rir de todos nós, não apenas daquela turma que criou uma definição ad hoc para jornalismoEra isto?

É que a cronista política Rosane de Oliveira, na página 12 do jornal deste fim-de-semana tem como seu artigo principal uma encrenca que responde pelas seguintes garrafais: "Procura-se um Candidato para Presidir o Brasil". Gelei, degelei, tornei a gelar, pois entendi, há pelo menos seis meses, haver um candidato que possivelmente será imbatível e que atende pelo nome de Luiz Inácio Lula da Silva, cognominado desde a tenra infância como Lula. Senão vejamos:

A um ano e meio da eleição, o Brasil vive o auge do desencanto com a política e não tem favorito para a cadeira de presidente da República.

Não falei que gelei? É que tenho visto as pesquisas divulgadas pelos tradicionais órgãos, cada vez mais escassas, dando absoluto favoritismo a Luiz Inácio Lula da Silva, como disse eu, cognominado de Lula, ele-u-lu, ele-a-la. Pulei uns trechinhos e me deparei com:

   Se a eleição fosse hoje, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), seria forte candidato a disputar com o ex-presidente Lula (PT) a ocupação desse vazio - opina a socióloga [Elis Radmann, do Instituto Pesquisa de Opinião].

Não falei que o negócio estava fazendo-me gelar e degelar repetidas vezes? Há um vazio? Só posso ser sádico em perseguir alguma coerência já nem digo entre crenças distribuídas no tempo, mas nos números daquelas pesquisa do jeito como são feitas. Existe um vazio? Com Lula ascendendo na percentagem de atração de votos, sempre em primeiro lugar? Existe um vazio, sim, mas não pela hipótese que levantei. Já nem sei se estou no gelar ou no degelar, pois mais umas sentenças adiante, lemos:

   O primeiro lugar de Lula nas pesquisas de intenção de voto também encontra explicação nas sondagens qualitativas, em que os especialistas mergulham na cabeça do eleitor. Elis [Radmann] atribui o bom desempenho de Lula em meio ao tsunami da Lava-Jato a um conjunto de fatores: a memória dos programas sociais bem-sucedidos, a capacidade de dialogar com o eleitor de baixa renda, a falta de concorrentes e o fato de não ter sido preso. Como não há contra Lula achados como os que surgem diariamente contra outros investigados, como joias, contas no Exterior ou malas de dinheiro, o eleitor do ex-presidente tende a comprar o discurso dele de que está sendo perseguido.

Pobre jornalismo, pobre de mim, que me vejo mimetizando comportamentos de sádicos. Enfim vemos no texto de Rosane Oliveira que Lula é, afinal de contas, favorito para as eleições presidenciais de 2018. E mais. Se não há mesmo achados como os que surgem diariamente contra outros investigados, como joias, etc., etc., e vemos uma investigação interminável contra ele, só pode ser que ele tem mesmo razão em declarar-se perseguido. Ah, os pedalinhos... Mais uma, para concluir:

O vazio [de candidatos] poderá ser ocupado por um nome que ainda não surgiu no cenário.

Então não estamos falando de conjunto vazio vazio de vasabarros. E sim de um conjunto vazio de antagonistas à candidatura de Lula. é jornalismo? É sadismo de minha parte? É sábado? A saída é a bebida!

DdAB
P.S. a imagem é para deixar claro que nem toda Rosane de Oliveira é de direita. A candidata de Lontras registrada sob o número 13111 tem a ver com Lula.

terça-feira, 21 de março de 2017

A Carne e a Gula

Querido diário:
Acabo de dar à profa. Geni De Sales Dornelles a seguinte definição de pleonéxia:
Característica de uma pessoa que pensa erroneamente estar credenciada a uma parte maior do excedente econômico de uma comunidade do que aquela que legitimamente lhe cabe.
Não se trata de uma invenção minha, pois tenho a lembrança de a ter lido em um livro de capa amarelinha. Por exemplo, no churrasco, sofre de pleonéxia o político que avança sobre os cortes que cabem por obviedade a outros.
No caso dos frigoríficos, a quantidade de agentes portadores de pleonéxia é estonteante. Neguinhos da polícia que participam de concurso de beleza disfarçado de busca de eficiência. Neguinhos dos frigoríficos que subornavam os neguinhos da fiscalização indicados pelos neguinhos da política.
Fala-se que a imagem do Brasil no exterior foi abalada pela divulgação da ação dessa corja. E nem se falou na corja da soda cáustica no leite, da corja do roubo das merendas no RGS e SP, no roubo das licitações do metrô, de Furnas, uma sem-vergonhice generalizada.
E não deveria ser divulgado? Acho interessante que a corrupção, o tráfico de influência, a falta de fiscalização do imposto de renda a sinais de enriquecimento ilícito, o conjunto das mazelas brasileiras que leva o país a exibir uma desigualdade escandalosa em todas as suas dimensões (pobre é mais pobre, mais doente, mais ignorante, mais preso, mais criminoso, etc.) não sejam vistos como deletérios à imagem auri-verde.
DdAB
P.S. Achei que o garçom é meio parecido com o Sérgio Moro, que -como sabemos- "juiz Moro é oximoro".
P.S.S. e trouxe este desabafo do Facebook. Nem falei que, por pirraça, fui olhar aqui a definição de 'pleonexia'. Pois ele -dicionário- corrigiu para 'pleonéxia', que aceitei até que, se for o caso, a profa. Brena Fernandez, já de volta ao Brasil, corrija.
P.S.S.S. Curiosidade algorítmica: ao digitar 'pleonexia' no mural da profa. Geni e aqui no P.S.S. e agorinha, tudo ficou sublinhado de vermelho. Ao digitar 'pleonéxia' dá como palavra aceita pelo mr. Google.
P.S.S.S.S. Andando mais fundo, olhei a Wikipedia aqui. Declaro, sob as penas da lei, que algum tempo (alguns anos, talvez) atrás, olhei lá e nada encontrei.

domingo, 19 de março de 2017

Tolstoi, o Marginalismo e a Vida que a Gente Escolheu


Querido diário:

Poucos tempos atrás andei fazendo umas viajações sobre o livro Machado, de Silviano Santiago, espantosa peça de ficção, realidade, crítica social e tudo o mais que podemos esperar de um romance moderno. Por razões ligadas à vida e suas peculiaridades, também li recentemente:

TOLSTOI, Leon A morte de Ivan Ilitch. Porto Alegre: L&PM, 1997.

É um spoiler avant la lettre, pois tá na cara que o dr. Ivan vai dançar, o que se conforma já na primeira página da novela, quando se lê um aviso fúnebre da "passagem" do rapaz.

Lendo o livro, vi o trecho que segue, prova incontestável da relevância do conceito de mudança na margem. Este conceito, que aplicamos em nossa vida cotidiana muitas vezes ao dia, é também importante, fundamental, para a teoria da evolução. E, por sermos seres evolucionários que vivem um dia de cada vez cotidianamente, importante e fundamental também para a ciência econômica. Não lembro quem [acho que foi Peter Bernstein] que disse tratar-se da maior contribuição da profissão de economista para a humanidade:

Página 50
O progresso de sua doença [isto é, de Ivan] era tão mínimo que, ao comparar um dia com o outro, seria capaz de enganar-se, tão sutil era a diferença.

Retomo a palavra: a chave da evolução é uma sequência longa de "mudanças incrementais e sucessivas". É isto.

Página 95-6
Ocorreu-lhe, pela primeira vez, o que lhe tinha parecido totalmente impossível antes - que ele não teria vivido como deveria.

Retomo: há muitos anos, uns 40, muito ouvi um dos dois discos do trio Sá, Rodrix e Garabira, em que cantam a "Primeira Canção da Estrada" e, a certa altura, dizem que desejam voltar a casa, "pra descansar um pouco da vida que a gente escolheu". E, desde então, esforço-me precisamente para viver a vida que escolhi. Volta e meia tive revezes, mas -em linhas gerais- já aposentado há quase dez anos e cheio de realizações, costumo dizer que vivi (e vivo) a vida que escolhi. Claro que gostaria de ter feito mais, mas não gostaria de ter mudado o rumo substancial: economista, professor, corredor de rua, essas coisas.

DdAB
P. S. A propósito da imagem que veio daqui: eu escolhi morar por lá, mas não vai dar pedal...

P.S.S. O site "Brasil 247" diz: Florestan aponta interesse dos EUA na destruição do Brasil http://bit.ly/2mDz08X "Três concorrentes brasileiros incomodavam os EUA: Petróleo, Empreiteiras e industria de Embutidos (salsichas, presuntos, linguiças etc)", diz o jornalista Florestan Fernandes Júnior.

Eu escrevi:
Então imagino que a CIA enrustiu espiões nas administrações de grandes empresas destes três setores, pois não é concebível que se queira alcançar liderança mundial na base da falsificação de produtos.

Não quero dizer que isto não seja feito, volta e meia, também pelas empresas dos países capitalistas avançados. Vejamos, por exemplo, a Volkswagen e a adulteração dos exames de controle de gases poluidores. Com isso, ela incidiu em enormes prejuízos e uma devassa na diretoria. 

O que não pode ser admissível é pensarmos no desenvolvimento brasileiro, especialmente se for apoiado com dinheiro público -cujo custo de oportunidade, como sabemos, pode ser medido em gasto nas escolas, saneamento, saúde.

Um carinha escreveu:
vai devagar... não se sabe nada sobre o que ocorreu de fato. Até agora só o vazado pelos interessados em claramente destruir outro setor nacional...

E respondi a ele:
Vamos devagar, então, Jonas. Como poderíamos saber que há conspiração para destruir os interesses nacionais? A busca de cobertura para as informações que a gente incorpora é fundamental, nos dias que correm. Olhei o que pude, chequei o que pude e concluí haver irregularidades.

Acho até que há outras questões envolvidas, no caso, a ausência de fiscalização decente em toda a indústria de alimentos. Aqui no RGS não há nada de mais vergonhoso que as costumeiras fraudes de adulteração do leite e derivados. Até na produção de cachaça os jornais de alguns anos atrás apontaram fraudes. 

Um governante falou que faltam 1.500 fiscais em todo o Brasil. Eu já vou dizendo que não faria nenhum mal para a sociedade brasileira se fossem 1.500.000 fiscais. Empresa produzindo alimentos é que não falta. As padarias também volta e meia são acusadas de meter produtos químicos nocivos à saúde humana e animal. E por aí vai...

sexta-feira, 17 de março de 2017

Terça e Sexta em Zero Hora


Querido diário:

Na terça-feira passada, aqui mesmo falei em duas cartas de leitores de Zero Hora. Em uma delas há um erro factual: o responsável pela criação do Plano Piloto de Brasília não é Oscar Niemayer, mas Lúcio Costa. Ao ler o -por assim dizer- slip of tongue do autor da carta, talvez tenha pensado com meus próprios botões que "amigo de meu amigo é meu amigo", ou seja, um cara baixando cacete nos políticos brasileiros contemporâneos só pode ser meu amigo. Mais afinada que eu com a arquitetura, minha amiga Maria Lúcia Sampaio, arquiteta de escol, sinalizou aquilo que depois identifiquei como "pobrema". Pois então.

Então é que hoje tem um caderno, talvez Segundo Caderno, ou Caderno de Cultura, já não lembro, em Zero Hora/Herra. O jornal tem matéria de divulgação sobre nova edição do fórum "Fronteiras do Pensamento", que novamente dá água na boca, dada a envergadura dos oradores, distribuídos ao longo do ano. Tem esquerda e direita, claro, que o mundo não é pintado de cinza... Gostaria de fazer-me presente, pelo menos, agora evoco, nas conferências de Thomas Piketty, Leonardo Padura e Martha Nussbaum.

Piketty teve seu livro diagonalizado por mim, que não sou bobo de ter lido aquela encrenca toda. Tornou-se até um livro de consultas e não um dos amados, como é o caso -por contraste- o livro de Leonardo Padura sobre amar cães. Em compensação, a obra de Nussbaum foi um tanto subestimada, em virtude de sua inserção na chamada abordagem das capacitações, também ligada -a abordagem e a própria Martha- ao nome de Amartya Sen.

Pois cheguei num ponto importante, dois pontos aliás. O primeiro é comprometedor a minha pessoa, a meus interesses intelectuais, a meus conselhos aos jovens. Diz respeito a minhas razões para ausentar-me de tão concorrido evento nesta cidade que já foi considerada como túmulo do pensamento (cuja sede do poder executivo -parece- foi edificada sobre um cemitério índio). É que eu acho que, cada vez que meus horizontes culturais são ampliados, a sociedade é que vai beneficiar-se e, como tal, ela é que deve pagar a conta. Em outras palavras, sou a favor da ampliação da demanda por bens culturais, ou o que seja, com o estabelecimento de preço zero para qualquer evento assim classificado por uma comissão da qual eu devo necessariamente fazer parte.

O segundo, menos delirante, é que, a minibiografia de Leonardo Padura, fala no livro "El Hombre que Amava a los Perros" que declarei minha best reading de 2014, adquirido que foi na casa/museu em que Leon Trotsky viveu na cidade do México. É que meu querido e finado amigo Jesiel de Marco Gomes fora um tempo atrás a Cuba e lá conheceu o este livro de Padura. E, hospedando Jesiel em minha casa, vi em sua bagagem e, instantes após, sobre o criado mudo (trabalhador deficiente oral?) a edição cubana do livro. Ele, Jesiel, disse estar com dificuldade de ler, pois na parte não romanceada temos um espantoso libelo contra um lado importante do comunismo real realejo, tal como o que viveram Cuba e a União Soviética. Não propriamente motivado por sua dificuldade em seguir a leitura, mas pela provocação que ela representava, fiquei motivado a ler o livro que vim a entender não era "El Hombre", mas três hombres: Trotsky, seu assassino e o narrador da epopeia paduriana.

E, seguindo na sensatez oposta a minha posição de receber em dinheiro o valor que atribuo à contribuição que dou para a sociedade cada vez que me torno mais culto, chego ao cerne do segundo ponto. Fala-se lá naquela região da Zero Herra que Leon Trotsky era russo. Ele era ucraniano. Brasília teve seu plano piloto engendrado por Lúcio Costa. Mas é possível e, quem sabe, provável, que Niemayer tenha opinado aqui e ali, coisa que também fiz, mas no caso as opiniões que emiti não chegaram aos ouvidos de Lúcio Costa. Então, resumo: Zero Herra é um jornal que tenta ser um grande jornal, mas seu tamanho nanico já o condena. Talvez descontente com esta sina original, ela está afanosamente se encaminhando para ser um jornal de tela.

DdAB
Imagem: parece que até aquele topete despertou a ira de José Estaline, se é que a grafia de Trótski da Wikipedia merece referência em uma postagem séria.

terça-feira, 14 de março de 2017

Ler e Surpreender-se


Querido diário:
Uma das boas razões que conduz a ler Zero Hora diariamente é a "piada do dia". Muito me divirto e até, em algumas delas, faço o registro gráfico (isto é, transcrevo-as, dando o que poderíamos chamar de meu toque pessoal; uma vez Moacyr Scliar escreveu-me dizendo fazer isto, no início da carreira, com o conto "Gaetaninho", de Alcântara Machado; nem imaginei que esta frase sendo assim escrita dá-me um status de verdadeiro literato, não é mesmo?).
Em compensação, às vezes sou levado à fúria, às vezes no sentido de quase sempre. Um reacionarismo de alto a baixo, com reduzidíssimas exceções, que -por sinal- já vi escrita como essessõess, algo assim. Em compensação, ainda mais compensada, hoje na seção "Leitor", há duas visões interessantes:
BRASÍLIA
Numa época de decência, Niemeyer projetou Brasília no formato de um avião. Hoje, com certeza, o formato seria de um camburão.
ASSIS VIEIRA
Jornalista - Montenegro
PREVIDÊNCIA
Para o governo, o 'rombo' nas contas públicas não está ligado aos R$ 58 bilhões de aumento do Judiciário, aos R$ 100 bilhões das teles, aos R$ 500 bilhões sonegados ou aos R$ 10 trilhões da corrupção. Não está na aposentadoria sem contribuição dos militares, no agronegócio isento ou nas renúncias fiscais aprovadas na base do toma lá dá cá das 'doações de campanha'. Também não está na taxação ridícula das grandes fortunas.
Para o governo, o problema é o salário mínimo da aposentadoria da mulher do campo, da aposentadoria daquele que trocou a infância pelo trabalho, o meio salário mínimo do filho deficiente ou a viúva que 'insiste' em receber a subsistência. Para o governo, a conta do 'rombo' deverá ser paga por aqueles que deveriam ser amparados.
DAMASCENO VARGAS
Administrador - Frederico Westphalen

Retomo: pois é, pois então, pois não, pois sim, pois etc.
DdAB

domingo, 12 de março de 2017

Analfabetismo: craqueando governantes


Querido diário:

Quem lê Zero Herra, às vezes lê a notícia da hora. Pois o caderno "doc." (ou o que seja) desta "edição de fim-de-semana" tem duas comoventes reportagens com analfabetos. Contígua, página 15, vemos uma entrevista com a professora Maria Clara Di Pierro, da Faculdade de Educação da USP. Tiro um trecho que me parece resumir tudo, inclusive um breve contra quase permanente ativismo de sofá da estrondosa maioria dos cronistas contratados:
Professora Di Pierro:
[...] Eu não acredito em um remédio estritamente educativo [para acabar com o analfabetismo, e ela mostra descontentamento com o/a repórter que falou em erradicação do analfabetismo]. Nenhum país do mundo chegou à universalização da escola e a uma difusão da alfabetização sem também proporcionar certos níveis de democratização econômica e de bem-estar social. Não tenho essa ilusão da erradicação, pois acho que os problemas são muito mais complexos. A gente tem um desafio muito grande de combater a desigualdade social profunda que temos no nosso país e que está na raiz dessa problemática. [...]
Retomo: desigualdade? Aqui? Tem tanto problema aqui que só pode mesmo ocorrer-me uma frasezinha: "Abrace a política, sufoque um político".
P.S. Esta imagem que selecionei nada tem a ver com o assunto. Não? Com governantes delineando políticas (educação, combate às drogas) neste país, precisamos mesmo é pensar em uma invasão estrangeira: qual seria o melhor patrão, pois o atual não está dando conta?

DdAB
Imagem daqui. O texto foi importado -ipsis litteris- do Facebook.

sábado, 11 de março de 2017

Previdência: algo inteligente


Querido diário:
Todos conhecem o que chamo de primeiro teorema do PIB, não é mesmo? De acordo com ele, o PIB representa 100% do PIB. Um corolário é que, se o governo arrecadar mais impostos para fazer frente aos gastos de previdência, o PIB prosseguirá tendo precisamente o mesmo valor, havendo a transferência dos pagadores de impostos aos recebedores das aposentadorias e pensões.
Pois veio-me lá do Facebook de Fernando Lara o artigo de Carlos Bastos que reproduzo como anexo, mais para eu mesmo poder voltar a ele, artigo de Bastos, infinitas vezes do que para eu vangloriar-me da descoberta desse potente teorema.

Esta postagem estava com os rascunhos perdidos, pois o mural de Fernando foi visitado há bons tempos. Em compensação, ontem, Flávio Comim entrou no mesmo assunto. Fiz um comentário apoiando suas preocupações, mas com um conteúdo independente, de certo modo. Entao escrevi o que segue. Embora não estude os meandros do assunto, fala-se tanto nessa reforma que não consegui evitar pensar algumas diretrizes que certamente o governo deixou de lado. Primeiro: parece que qualquer sistema de aposentadoria decente não pode pagar mais ao aposentado do que ao trabalhador ativo. É que no Brasil o "salário mínimo" é tão escandalosamente baixo que falar nisto soa até estranho. Nos países decentes, não haveria qualquer sobressalto com essa iniciativa. Segundo: esses "salários" estrondosamente altos devem ser rebaixados, claro, mas claro que estou falando de um país decente. No Brasil, não acho haver a menor chance de que isto venha a ocorrer a curto prazo. Aliás, fala-se em "direito adquirido" a uma pensão de R$ 100 mil (no tempo do governo Sarney, ouvi na TV Bresser-Perreira dizer que "privilégio não é direito adquirido". Mas, se fosse, uma legislação decente do imposto de renda resolveria a questão. Terceiro: no mundo que esperamos ver no futuro, haverá cada vez mais PIB e cada vez menos emprego. Ou seja, os empregos precisam ser racionados: jornadas de trabalho menores, mais repouso remunerado semanal, férias mais alongadas, entrada tardia no mercado de trabalho e saída precoce. Ok, ok, tudo bem ao contrário do que os rapazes encarregados há 20 anos de propor uma reforma foram incapazes de intuir. Flávio respondeu: Verdade, nada disso está sendo discutido, principalmente esse terceiro ponto! E eu selecionei a imagem daqui.

DdAB

ANEXO:

A questão da previdência pública e a natureza do sistema de repartição
Carlos Pinkusfeld Bastos

Uma vez compreendido que a previdência é um sistema de contribuição e transferência em dado período de tempo, e não um sistema de seguro intertemporal, revelam-se a possível natureza redistributiva que envolve seu debate e os ataques que sofre por setores da sociedade.

A questão da previdência entrou definitivamente no centro do debate político e econômico como um elemento importante da agenda de reformas conservadoras. Tal discussão oscila entre debates contábeis, ideológicos e até demográficos. Sem diminuir a importância de tais questões, é curioso notar que, ao se tratar de um tema eminentemente econômico, o que menos se observa é, exatamente, o aprofundamento do debate, e confronto de ideias, segundo abordagens teóricas distintas.

Entretanto, um ponto inicial, e possivelmente o mais fundamental, aquele que uma vez compreendido elimina boa parte dos mal-entendidos, é explicar o que é um sistema de previdência público de repartição[1].

Tal sistema é um programa de tributação e transferência, ou seja, são cobrados impostos e contribuições de um subconjunto da sociedade e tais valores são transferidos para outro subconjunto, composto por aposentados e pensionistas. A forma como o Estado arrecada as receitas que serão transferidas para pensionistas e aposentados depende de uma economia política específica do arranjo de contribuições previdenciárias: as receitas da previdência podem advir de diferentes formas de impostos dependendo de uma decisão da sociedade pactuada através de seus corpos de deliberação e decisão política.

Tais contribuições podem incidir, majoritariamente, sobre lucros, por exemplo (e não sobre rendimentos de trabalhadores ativos), ou sobre o consumo através de impostos indiretos (que são pagos indistintamente por ativos e inativos). Entretanto, pode-se dizer que, usualmente, mas não exclusivamente, as receitas do sistema são obtidas por contribuições feitas por trabalhadores ativos, sendo esta forma de contribuição em boa medida relacionada à própria formação histórica dos sistemas de previdência pública, como se discutirá mais à frente.

Um primeiro ponto importante a se observar é que se, por um lado, as contribuições para a previdência podem elevar a carga tributária, as suas “despesas”, ou pagamentos, retornam à sociedade em quase sua totalidade. Como o próprio nome deixa claro, as transferências da previdência apenas realocam renda dentro da sociedade e seu impacto líquido sobre o conjunto desta é praticamente zero, sendo a diferença composta pelos reduzidos gastos operacionais do sistema de previdência.

Assim, em princípio, a carga tributária requerida para o pagamento de benefícios da previdência não é uma subtração de renda da “sociedade” como um todo, e sim sobre um grupo da sociedade e redistribuído a outro.

Esse tipo de sistema previdenciário pode ensejar arranjos de tributação e transferências que estimulem o nível de atividade econômica. Numa abordagem da demanda efetiva (ou Keynesiana/kaleckiana), o produto e emprego dependem da demanda efetiva, ou seja, do resultado dos gastos (e tributação) do governo, setor privado e setor externo, sem que haja nenhuma tendência natural ao pleno emprego dos fatores de produção. Neste caso, há distintas formas de impacto de um determinado desenho de sistema tributário sobre o produto. Quando ocorre a cobrança de impostos sobre indivíduos de maior propensão a poupar e as transferências são feitas para aqueles com maior propensão a gastar o sistema tributário tem características expansionistas. Arranjos de previdência assim organizados, mais generosos e distributivistas, teriam um impacto positivo sobre o nível de renda!

Como dito anteriormente, tais conclusões só se tornam claras à medida que a verdadeira natureza de um sistema público de contribuição é explicitada, afastando-se do debate comparações ou “metáforas” indevidas que remetem a sistemas de seguro individual; sistemas nos quais os indivíduos acumulariam riqueza em seu período ativo para gastá-los no período de inatividade.

De acordo com tal “metáfora” os esquemas de repartição, e especificamente os pagamentos dos ativos à previdência, emulariam as decisões de poupança relacionadas ao ciclo da vida. A contrapartida contábil desta inadequada “metáfora” do seguro seria a acumulação de “passivos” por parte do responsável pelos pagamentos previdenciários, o Estado.

Tal incompreensão da verdadeira natureza do sistema previdenciário não é nova; é tão antiga quanto a própria origem do sistema. Bismarck, o pioneiro na implementação da previdência na Alemanha, refutava a ideia de vinculá-la a um seguro pessoal, negando, assim, a própria razão de ser: a caracterização do Estado como benevolente, que cuida do bem-estar dos seus cidadãos.

Outro marco na implantação de esquemas de previdência, o Beveridge Report[2], reconhecia que um sistema público se baseava na capacidade do Estado de tributar para prover recursos aos pensionistas e aposentados, e que tal esquema não tinha nenhuma relação com a ideia de acumulação pessoal de ativos, que caracteriza um seguro. Entretanto, a utilização de uma “ficção de seguro”, ou seja, a cobrança de contribuição individual que estaria relacionada aos pagamentos futuros de aposentadorias seria uma ferramenta politicamente útil para conscientizar os trabalhadores acerca dos custos do sistema.

O próprio economista John Maynard Keynes reconhecia que a forma “ficcional” como se apresentava um sistema de contribuições pessoais relacionado a pensões futuras, era, simplesmente, uma característica de natureza política que tinha o objetivo de lembrar aos trabalhadores que benefícios só seriam legítimos se tivessem como contrapartida uma contribuição prévia.

Essa ficção alcançou seu status teórico mais sofisticado na reflexão do economista Paul Samuelson que desenvolveu um modelo no qual contribuição e benefício se relacionam por uma “taxa de retorno” (que chamou de juros biológicos) igual ao crescimento dos salários.

A tentativa de apresentar uma formalização de um sistema de transferências públicos através de uma “ficção do seguro” foi veementemente contestada tanto por economistas simpáticos a tal esquema, como Abba Lerner, quanto por críticos, como Milton Friedman. Ambos se opunham à tentativa de representar de forma equívoca um sistema público de tributação e transferência com o objetivo de transformá-lo politicamente mais “aceitável”.

Uma vez entendida a verdadeira natureza do sistema torna-se mais fácil entender o debate que cerca a questão do pagamento de pensões no futuro.

Não há discordância que quanto maior for o produto per capita no futuro maior será o produto a ser repartido. Repartição esta que é feita, entre indivíduos ativos e inativos, no sistema público usual, segundo algum critério de natureza sociopolítica. Segundo a abordagem da demanda efetiva, como não existe uma tendência da economia de chegar ao pleno emprego, políticas de estímulo à demanda efetiva fazem com que aumente a renda e o consumo agregado escapando-se de um trade off que poderia ocorrer caso se registrasse um maior grau de dependência (ou a relação) entre trabalhadores inativos por ativos. Assim, no agregado pode-se aumentar o consumo mantendo-se os benefícios aos trabalhadores inativos com políticas de estímulo à renda e ao emprego.

Logo, o debate de previdência não independe das formas distintas de abordagens teóricas adotadas para a compreensão do funcionamento de uma economia capitalista e não é, simplesmente, a consequência inelutável de cálculos demográficos. Estes fornecem as características populacionais futuras que influenciarão a capacidade laborativa da população, mas a produção a ser repartida por tal população depende de como se interpreta o processo de determinação do produto e da acumulação de capital.

Uma vez compreendida que a previdência é um sistema de contribuição e transferência em um dado período de tempo, e não um sistema de seguro intertemporal, revela-se a possível natureza redistributiva que envolve o seu debate, e os ataques que sofre por certos setores da sociedade. Por exemplo, uma elevação dos salários recebidos ao longo da vida de um trabalhador, em consequência da existência de um sistema de previdência de repartição, financiado em alguma medida pela taxação de lucros, pode causar uma redistribuição entre lucros e salários em favor do último, caracterizando uma situação redistributiva a favor dos trabalhadores.

Vale lembrar, também, que mudanças demográficas não operam apenas na elevação de gastos. À medida que a população envelhece, uma série de gastos relacionados à infância e outros serviços como, por exemplo, segurança, se reduz. Há que se considerar ambos os efeitos e não apenas aqueles que representam aumento de gastos e transferências[3].

Certamente, seria contraditório com a abordagem da demanda efetiva defender que uma redução do gasto não teria um efeito contracionista sobre o produto. Apenas queremos ressaltar que os fatores demográficos colocam aos gestores de política econômica opções de alocação de recursos que devem ser levadas em conta na consecução do objetivo de maximização do bem-estar da sociedade, no qual se inclui a manutenção do alto emprego.

A discussão importante a ser feita diz respeito a escolhas da sociedade sobre a trajetória do desenvolvimento econômico e divisão do produto social. Se, por um lado, a metáfora do seguro foi imposta por formuladores de sistemas públicos de previdência como uma forma de mascarar sua verdadeira natureza redistributiva, por outro é forçoso reconhecer que os trabalhadores aderiram a esta metáfora com a expectativa de que uma ideia de contribuição presente para futuro recebimento de renda fosse tornar mais rígido o pacto político de manutenção do benefício previdenciário.

As propostas de reformas correntes, não apenas no Brasil como em outras partes do mundo, revelam que a estratégia dos trabalhadores se mostrou equivocada. Uma vez aceita a verdadeira natureza previdenciária de cobrança, contemporânea, de imposto, e transferência via pagamento de benefício, a ideia de uma “quebra da previdência” perde seu sentido lógico. Afinal, isso só seria possível caso houvesse uma acumulação de ativos que deveria fazer frente a compromissos fixos de remuneração futura e uma incompatibilidade atuarial entre tais ativos e compromissos explicitaria tal “quebra”.

Num sistema de tributação e transferência não só a ideia é fora de propósito como também esforços intertemporais de “consertar” uma crise que não pode existir em um esquema contemporâneo são também um contrassenso. É claro que medidas como, por exemplo, a isenção tributária sobre as contribuições de patrões, pode causar um desequilíbrio entre receitas e despesas, mas sua “solução” deve ser um item do conjunto da política fiscal de um dado período, que se constitui de decisões de gasto, tributação e análise dos impactos macroeconômicos de tais decisões.

Como defendido neste artigo, a preocupação do gestor de política econômica deve ser com a manutenção de um nível de demanda efetiva compatível com um baixo desemprego, elevada ocupação da capacidade produtiva e, indiretamente, acumulação de capital com impacto sobre a elevação da renda per capita no futuro. Cortes de gasto presentes vão na contramão de tal lógica.

Como diz o dito popular no idioma inglês: “If it ain´t broken don´t fix it”, ou “se não está quebrado não conserte”. Neste caso, não apenas a ideia de uma quebra do sistema é equivocada como a sua suposta correção da forma como está sendo proposta traria efeitos distributivos regressivos, socialmente prejudiciais aos trabalhadores e indiretamente nefastos à acumulação de capital no longo prazo. A suposta solução seria um enorme problema.

Notas:

[1] A discussão que se segue baseia-se no capítulo 1 do livro de autoria de Sergio Cesaratto “Pension Reform and Economic Theory”. Uma referência importante para explicitar as diferenças teóricas por trás do debate é o artigo do economista Massimo Pivetti “The ‘Principle of Scarcity’, Pension

Policy and Growth” publicado no Review of Political Economy, Volume 18, Número 3, de Julho de 2006.

[2] Um documento preparado em 1942 pelo economista William Beveridge e que estabeleceu os fundamentos do sistema de bem estar social na Inglaterra do pós guerra.

[3] Um exemplo de exercício nesta direção é feito no Working Paper do FMI de 2005 “Aging: Some Pleasant Fiscal Arithmetic” de autoria de David Hauner.

Aqui acaba o artigo.
DdAB


P.S. Carlos Pinkusfeld Bastos é economista, professor e pesquisador do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ). Publicado aqui em 22/12/2016.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Repercussões da Revista Cláudia

Querido diário:
Instigantes repercussões de minha postagem de ontem no blog, falando da angelical revista "Cláudia", destacando o comentário de

Josevaldo Duarte Gueiros (que, se não gostar disto aqui, removo instantaneamente):

Duilio, excelente e instigante análise. Você mostrou como ler revistas do tipo "Cláudia" de forma crítica e bem humorada. Li cada palavra.

Duilio De Avila Berni:
Obrigado, querido. Meu teste em tira algo de útil do fútil é feito diariamente quando leio o jornal que chamo de Zero Herra, um dos nanicos de Porto Alegre.

E mais:

Josevaldo Duarte Gueiros:
Duas indagações que coloco. Não sei se as perguntas são adequadas, mas seguem: 1) o que é teoria da escolha pública? e 2) qual a vantagem de um governo mundial e de um sistema parlamentarista

Inspirei-me, comecei a responder lá, comecei a alongar-me e decidi transferir para cá:

... Por outro lado, hehehe, tenho recebido de você cada pergunta mais difícil de responder. Primeiro, mais fácil, cito 'par coeur'. A teoria da escolha pública é um ramo de interseção entre a ciência econômica e a ciência política. Em boa medida, aplica à análise da política o instrumental desenvolvido pela ciência econômica, ou parte dele. Difere do marxismo, pois não dá lugar central à luta de classes. Seu suposto fundamental é que os políticos têm objetivo similar às empresas, ambicionando maximizar seu número de votos, ou -o que é assemelhado- manterem-se no poder. Muita gente de esquerda a despreza, pois ela partiu de uma simetrização das conhecidas e catalogadas falhas de mercado, sugerindo que a substituição deste pelo governo também hão de enfrentar as falhas de governo. Entre estas, vemos a formação de lobbies, a troca de votos, o nepotismo, o tráfico de influência, e mais meia dúzia de outros vícios. Vendo o mundo sob uma perspectiva de esquerda, costumo dizer que precisamos estudar a 'escolha pública' para dar a verdadeira dimensão às atividades de mercado e também às do governo. Fui convencido de que o melhor que o governo pode fazer é a provisão de bens públicos (segurança, diplomacia) e de mérito (educação, saúde) e não necessariamente (ao contrário) produzi-los.

Adendo um: aprendi que a sociedade tem três instâncias principais de agregar suas preferências - o mercado, o estado e a comunidade (esta, sempre lembro, talvez personifique o que Marx chamava de 'produtores independentes livremente associados'). E quanto mais for delegado para o mercado ou a comunidade, melhor para a sanidade da vida social, até o ponto em que 'o governo dos homens será substituído pela administração das coisas'.

Adendo 2: nada do que foi dito até aqui nega a importância da luta de classes, ao contrário, até permite colocarmos o governo/estado como seu algoz.

Sobre o governo mundial: hoje vivemos num mundo muito mais integrado do que aquele que testemunhou o surgimento do estado nacional. Dizem que o desastre atômico de Chernobyl foi determinante para entendermos a interdependência. Muitos dizem que o processo acelerou-se com o navio a vapor, mas ainda antes disso temos o saboroso livro "1491", ou seja, um ano antes da chegada de Colombo, que faz um balanço do avanço da Europa sobre a América em termos de ecologia, política e economia. Hoje em dia, parece óbvio que a lavagem de dinheiro, o tráfico de armas, de drogas e de pessoas clamam por uma autoridade central que impeça a ação desses caroneiros (outro conceito técnico).

Sobre o parlamentarismo: tem muita literatura sobre o assunto e que até foge um pouco de minha área de leituras. Ainda assim, falo com brevidade, dado que não sou analfabeto, de qualquer jeito, e também já vivi crises institucionais que me levaram a entender que as instituições muito se beneficiariam da ausência de golpe contra João Goulart em 1964, contra o impeachment de Collor em 1992 e o de Dilma em 2016. Trocar primeiro ministro é muito menos custoso do que qualquer desses três abalos institucionais.

DdAB

quinta-feira, 9 de março de 2017

A "Cláudia" na Política


Querido diário:

Estamos falando na revista Cláudia de dezembro/2016, dizendo

"[...] entenda que, em política, há muito mais que dois lados."

Pois não é que é? Eu mesmo já estou dividindo a esquerda entre arcaica e moderna. E a direita? Presumo que uma divisão importante encontra-se entre a escabelada e a desgrenhada. Mas não vou elaborar sobre este ponto.

Pois a "Cláudia". Na página 123, parece que tenho pontos em comum com ela. Por exemplo, ela tacha Donald Trump de afiliado a um partido conservador. E que as eleições para prefeitos e vereadores do indigitado 2016

"também trouxeram um novo cenário político com a predominância da direita."

Fora a carga de direita que veio na política com as eleições de 2014, estamos bem. A rigor, estamos bem para pensar numa frente de esquerda, a fim de fazer política, não necessariamente eleitoral, tentar auxiliar o povo a pensar suas vidas, seus objetivos na vida, suas formas de luta para alcançá-los, e depois criarmos um partido ou controlarmos outro (pois os programas são maravilhosos, como acentuei) e ganharmos eleições. E qual será o programa?

Se não houver

.a luta intransigente pela implantação do governo mundial
.b voto universal, direto, secreto e distrital,
.c luta pela consolidação de uma república parlamentarista

então já entro na parada um tanto contrafeito.

E, se houver consenso relativamente a esses pontos, passo a falar em igualitarismo, o que nos leva muito adiante em termos de política governamental. E depois reclamarei do intrínseco desequilíbrio de várias décadas entre as variáveis taxa de câmbio, taxa de salários e taxa de juros e taxa de salários e ainda, além disso, periódicos desequilíbrios nas contas públicas. Nem falei em inflação e desemprego...

Nas páginas 124-5 da revista, há uma coluninha para intelectuais, na visão dos intelectuais que dirigem a matéria. A primeira é assinada por Flávia Biroli, cientista política. Ela começa dizendo que

"existe uma forte relação entre a esquerda e a temática da igualdade e da justiça social. Para a direita, a liberdade individual é um valor mais importante."

Pois não falei que há mal-entendido com essa questão da liberdade? Duvido que alguém, direita ou esquerda, aceite tal quebra do princípio da maior liberdade possível compatível com a dos demais, desejando tornar-se escravo, ou discriminado pela cor, sexo, gaieté, etc. O que gente de direita faz quanto ao discurso da liberdade é falar em "livre iniciativa", querendo dizer que cada um pode comprar e vender o que quiser/puder. Esta visão é pobre, na medida em que não posso vender-me como escravo, não é sensato deixarem-me vender meu fígado, essas coisas. E tem mais: já que precisamos de um estado, mesmo que com funções mínimas, os livre-iniciativistas enroscam-se sobre o funcionamento dessa máquina pública: como financiá-la sem impostos. Em outras palavras, até agora, auxiliado pela sra. Biroli, acho que direita é fria.

Mas ela vai adiante. Primeiro, deixa claro que a corrupção não é de direita nem de esquerda, exclusivamente. Lamento admitir que isto é verdade, pois a coalizão PT-PMDB mostrou-se um verdadeiro ninho de ladrões. A estupefação com o PT é até maior, pois volta -mutatis mutandis- aquela sentença platônica que referi no outro dia:

'Sustentamos que, se um estado deve evitar a maior de todas as pragas - quero dizer, a guerra civil, embora desintegração civil fosse um termo mais adequado - a pobreza e a riqueza extremas não deveriam ser toleradas em qualquer segmento do corpo de cidadãos, porque ambas levam a estes dois desastres. Esta é a razão que faz com que o legislador deva anunciar os limites razoáveis da riqueza e da pobreza. O limite inferior da pobreza deve ser o valor das terras (holding). O legislador usará a propriedade como unidade de medida e autorizará um homem a possuir duas, três,
e até quatro vezes seu valor.'

Infelizmente, concluo com uma citação da sra. Biroli que me desagrada:

"A lógica de mercado não nos agrada, pois as pessoas valem mais do que a satisfação do capital. É preciso ter uma agenda de justiça social em que se combata a prevalência do mercado sobre a vida das pessoas (a chamada mercantilização da vida) [sic]. É necessário pensar uma democracia capaz de incorporar o valor da igualdade."

Ok, ok, na linha de meus amados Hargreaves-Heap e Varoufakis, este trecho me desagrada, pois não sei exatamente em que me desagrada... A mim a lógica do mercado agrada, pois resulta de séculos de interação humana por meio da troca, responsável pela especialização e crescente divisão do trabalho. Não é à toa que, digamos, bem antes de se pensar em socialismo, ou capitalismo, já a humanidade alcançara um grau de produtividade do trabalho estrondoso. E se houve episódios de fome até mesmo nestes século, isto não se deve à maldade do "capital", mas à fraqueza das instituições, erros de política governamental.

Não podemos esperar do mercado o que ele não pode dar. Ele não provê bens públicos, ele não dá comida grátis. Ele produz e provê outras benesses à sociedade, inclusive a oferta de drogas ilegais, por exemplo, e talvez no caso estejamos falando em "malesses", mas o mercado vence barreiras espantosas. Quantas vezes já falei que a lei da oferta e procura é mais imponente que a lei da gravidade? A primeira mantém aviões voando, ao passo que a outra não consegue mantê-los em terra. O que podemos esperar, voltando ao tópico da fome, é que outra instituição (estado, comunidade) se encarregue da provisão de alimentos, no caso. A questão da produção é que pode ser delegada a qualquer deles.

Tampouco podemos esperar do estado o que ele não pode dar. Volta e meia, reclamo de colegas militantes da esquerda que tratam a teoria da escolha pública com desdém. Ao fazê-lo, eles negam as falhas de governo, sendo a mais flagrante delas a facilidade com que agentes públicos são corrompidos pelos demais atores de uma comunidade. Um exemplo de tráfico de influência marcou-me precisamente quando eu começava a aprofundar-me nos estudos desta teoria, iniciado que fui pelo prof. Eugênio Cánepa, lá pelos idos de 1985. Era o governo Sarney, havia congelamentos de preços, havia importação de produtos alimentícios, havia escassez de alimentos em alguns pontos. Pimba: um deputado de Goiás, dono de silos alugados ao governo para que este armazenasse os cereais de sua propriedade, pressionou quem "de direito" para importar os tais grãos de São Paulo e deixar seu silo com lotação plena, pois sem ela não iria receber o aluguel.

Finalmente, o elogio da igualdade feito por Flávia Biroli não pode eximir-se de considerar que o mercado não gerará igualdade, ao contrário. Ele é concentrador por natureza (e pela lei de Gibrat), ele não oferece eficiência distributiva. Mas o governo, seu imposto de renda, pode aproveitar a geração de renda "pelo mercado" e distribuí-la: retirar de quem tem e dar para quem não tem. Pois não é isto o que o velho Milton Friedman sugeriu? Se ganha muito paga imposto de renda e se ganha pouco o recebe: Lei 10.835/2004 no Brasil, Eduardo Suplicy! Em pleno segundo ano do primeiro mandato do presidente Lula.

A segunda coluna da revista Cláudia é da lavra de Demétrio Magnoli, sociólogo declarado, por quem não nutro grande admiração, dado o que ouço quando me pego distraído ouvindo o canal 40/GloboNews. E que diz lá Demétrio de tão comprometedor? Será ele criança, criminoso ou louco, tentando-nos a reduzir-lhe a autonomia decisória? Não o suficiente. Deixemo-lo dizer suas desabotinadas sentenças à vontade.

E que destaco? Primeiro, ele diferencia a "esquerda latino-americana" do estalinismo e da chamada "[esquerda] europeia". Segundo, deixa-me estupefato ao declarar, entre parênteses, que é simpatizante desta. No Brasil, associa esquerda ao PT e ao PSOL. E diz que

"A maior parte das figuras eleitas e da base do atual governo federal pertence a um vasto centro".

É o centrão, minha gente! Só que o centrão não é nem centro, o centrão é direita, evocando as bancadas BBB - boi, bíblia e bala. Magnoli não diz o que é direita, mas deixa outra crítica para a esquerda:

"Acreditam em um modelo que tende ao autoritarismo: não querem implodir o capitalismo; o que buscam é um capitalismo de Estado, com forte intervenção na economia."

Não está de todo errado... Ainda assim, a encrenca não dura muito, pois já vem ele com

"[a esquerda local] é contrária à economia de mercado e tende a se aproximar do nacionalismo".

 Pois é bem isto: naqueles tempos em que eu falava da Esquerda A e da Esquerda 1, a facção a que pertenço (não lembro se é à A ou à 1...) tem na cabeça algo com que o Magnoli não atina: queremos mercado forte, estado forte e comunidade forte, nenhum dominando o outro.

Seguimos com esse sr. Magnolli para um final melancólico, fazendo a análise semântica do termo "reacionário", alguém que reage a algo. Assim, se a esquerda reage, digamos, a mulher pelada na banca de revista, ou à viadagem, ela é reacionária. Cá entre nós! Ou se reajo a sandices ditas por jornalistas na TV, sou reacionário. Só estou reagindo a ele, de modo que isto não me faz reacionário. Cá entre nós...

Pulando para a página 125 da Cláudia, temos algo mais interessante, na definição de Vladimir Safatle, auto-declarado filósofo. O título da coluna é "Falta de Solidariedade" e ele começa falando nas diferenças estrondosas na distribuição da renda, acrescentando as assimetrias no acesso à educação, saúde e assistência [previdenciária?] a todos. Lá no livro de Dennis Mueller, vemos uma definição de salário contemplando o montante monetário acrescido das despesas deste tipo. Ou seja, a preocupação central para a definição de esquerda, por parte de Safatle é com o igualitarismo, o que me leva a concordar com ele em 100%. E social-democracia é o modus faciendi: queremos igualdade, não queremos ninguém melhor que nós. E nem pior. E os méritos? Cito literalmente:

"Diferentemente do que muntos pensam, a esquerda acredita na ideia de mérito, sim. No entanto, nas condições atuais do Brasil, a meritocracia não pode ser aplicada, pois as pessoas partem de posições bem diferentes."

Parece óbvio: o filho do menino de rua não tem a menor chance ao competir com o filho do deputado. Outra frase:

"[...] a ideia de que toda sociedade deve se organizar com base no princípio do livre mercado é um inimigo comum para a esquerda, que defende a correção dessas injustiças."

E agora eu esclareço que a sociedade do século XXI deve organizar-se com base no tripé mercado-estado-comunidade. Por fim, Safatle também declara de esquerda aqueles que requerem uma reforma tributária, incorporando -em minhas palavras- o princípio da capacidade de pagar: quem ganha mais paga mais. Estou com ele. A menos de diferencinhas aqui e ali, a esquerda anda mesmo por aí.

Finalmente, a "Cláudia" deu a palavra à segunda mulher, Lilian Furquim, economista e cientista política. Título: "Menos Paternalismo". Fazendo um apelo para ficarmos "longe dos extremos", acrescenta:

"A esquerda radical quer a imposição de ideias, não o debate. E a grande defesa da direita radical é o autoritarismo do mercado sobre a sociedade."

Começou mal, mas sigamos:

"No Brasil e na America latina, temos uma esquerda com uma visão muito clara do papel do Estado: forte e paternalista, é ele que vai definir a distribuição dos recursos. Já o Estado da direita é aquele que intervém o mínimo possível na vida das pessoas. Penso que quem deve estar no comando não é nem o Estado nem o mercado, mas a sociedade. [...] não se trata de marcar um X e definir que privatizar é bom ou ruim. Na área onde for benéfico socialmente privatizar uma empresa estatal, pode-se fazê-lo, mesmo que a agenda inclua o fundamental combate às injustiças. Mais: ainda que essas políticas de combate à desigualdade necessitem ser feitas, elas devem caber no orçamento."

Parece-me estar claro que as posições de Furquim colocam-na dentro do mundo da direita. E agora temos o parágrafo final, que me deixou doido, por achar que houve erro de edição no texto:

"A esquerda perdeu a conexão com os problemas práticos que precisam ser resolvidos. Tanto a reforma da previdência quanto a política são urgentes. Também temos um problema sério de gestão e de qualidade dos serviços públicos. Nosso Estado é presente demais na nossa vida, mas ao mesmo tempo não resolve problemas sérios de saúde, segurança e educação. É necessário pensar que soluções podemos oferecer para o país e apresentar uma esquerda mais progressista, que concilie liberdade e justiça."

Reforma previdenciária? Parece-me uma das maiores declarações de fracasso de todo o aparato do planejamento governamental federal no Brasil. Primeiro, ninguém fala nesse debate na contribuição da reforma proposta pelo chamado governicho de Michel F. Temer para a desigualdade ou para a produtividade. Ninguém fala que, daqui a 49 anos, haverá uma estrutura de consumo de bens e serviços ainda nem mesmo inventados hoje ou mesmo daqui a 30 anos. E como é que poderíamos erigir um ideal de nivelamento do consumo per capita com a renda miserável que essa reforma vai garantir à estrondosa maioria da população? E de onde viria o dinheiro para dar-lhe padrões de consumo crescente? Do PIB, simplesmente do PIB, que será gerado em maior volume com muito menos emprego. E mais: onde foi parar o dinheiro sumido do INSS? Talvez nem haja déficit previdenciário, talvez haja superávit e talvez, com isso, a idade da aposentadoria pudesse cair para, digamos 20 anos de serviço.

Era isto. Ler política na "Cláudia" é o mesmo que ler filosofia da matemática no "Jornal dos Esportes".

DdAB
Imagem daqui. E joguei isto lá: Embora não estude os meandros do assunto, fala-se tanto nessa reforma que não consegui evitar pensar algumas diretrizes que certamente o governo deixou de lado.
Primeiro: parece que qualquer sistema de aposentadoria decente não pode pagar mais ao aposentado do que ao trabalhador ativo. É que no Brasil o "salário mínimo" é tão escandalosamente baixo que falar nisto soa até estranho. Nos países decentes, não haveria qualquer sobressalto com essa iniciativa.
Segundo: esses "salários" estrondosamente altos devem ser rebaixados, claro, mas claro que estou falando de um país decente. No Brasil, não acho haver a menor chance de que isto venha a ocorrer a curto prazo. Aliás, fala-se em "direito adquirido" a uma pensão de R$ 100 mil (no tempo do governo Sarney, ouvi na TV Bresser-Perreira dizer que "privilégio não é direito adquirido". Mas, se fosse, uma legislação decente do imposto de renda resolveria a questão.
Terceiro: no mundo que esperamos ver no futuro, haverá cada vez mais PIB e cada vez menos emprego. Ou seja, os empregos precisam ser racionados: jornadas de trabalho menores, mais repouso remunerado semanal, férias mais alongadas, entrada tardia no mercado de trabalho e saída precoce.
Ok, ok, tudo bem ao contrário do que os rapazes encarregados há 20 anos de propor uma reforma foram incapazes de intuir.

terça-feira, 7 de março de 2017

Machado Enxada Foice


Querido diário:

O título desta postagem tem de relevante apenas mesmo o nome de Machado de Assis. Mas evoca uma piada familiar: um parente de Porto Alegre, que cuidava de outra parente hospitalizada, enviou este telegrama aos parentes de Cacequi. Machado não era o de Assis, mas um daqueles Machado Menezes que por lá perambulou. Enxada não é enxada, mas inchada, a coroa hospitalizada tinha uns inchaços de deixar qualquer enxada vexada. E foice não é foice, mas foi-se, ou seja, a garota inchada morreu, faleceu, desencarnou: "Machado, inchada foi-se". Funéreo, como o presidente da república.

Em compensação, acabei de ler o livro

SANTIAGO, Silviano (2016) Machado. São Paulo Companhia das Letras.

que já declarei na postagem que por aqui fiz no dia 1o. deste mês que provavelmente será minha best reading do ano. O cara é um monstro, o cara Silviano e o cara Machado de Assis, mas tem mais monstros, alguns até que nem tanto, mas tem monstro para admiradores de meu porte ficar/mos feliz/es. O livro do ano. Praticamente eleito. Duvido que haja algo mais criativo. Mas em breve lerei obra assemelhada de Silviano Santiago sobre Graciliano Ramos.

Não farei digressões sobre como voltei a conviver com Machado de Assis, digamos, no ano 2000, que, em janeiro de 2001, aquele triste ano, estava eu em Nova York lendo, se bem me lembro, as Memórias Póstumas de Brás Cubas. Era um momento em que eu decidi vivenciar a negadinha que escreve na língua portuguesa do Brasil com enlevado desvelo. Não demorou que caí em Graciliano Ramos, outro monstro.

Pois não é que, no livro Machado, tornei-me viajandão ao marcar de cima algumas expressões usada por Silviano Santiago que me parecem retiradas de nossa língua falada contemporânea, ele que escreve magistralmente (e como escreveria de forma diversa um monstro?). Claro que não estou fazendo uma tese de doutorado em literatura ou aritmética, logo minha caça a expressões peculiares não é invulnerável, ou seja, houve furos. Vejamos:

Páginas
37-38 a destreza visionária dos que são dotados pela natureza com o controle das sutilezas desentranhadas da análise psicológica que se detém em nonadas
. obviamente o autor do livro "Machado" leu "Grandes Sertões" de J. G. Rosa e tirou de lá a palavra "nonada", ainda que pudesse tê-la ouvido em outros contextos, pois também (como Joãozinho) era mineiro (e neste caso, da cidade de Formiga, sendo o outro caso, de Cordisburgo).

38 o monarquista [Carlos Laet] decide enfrentar abertamente os donos do poder nacional
. obviamente Silviano Santiago está citando o livro "Os donos do poder", de Raymundo Faoro, ou tu achas que nosso autor não leu o outro autor?

46 Dá de cara com a altiva e sereníssima figura de Machado de Assis a presidir os trabalhos.
. pimba: temos agora um caso em que Silviano Santiago colheu rico material etnográfico com o povo brasileiro e o homenageou pela citação em minha melhor leitura de 2017. Dei de cara com esta expressão super coloquial.

54 também somos todos, se associados uns aos outros pela cabeça, tronco e membros, pereitamente substituíveis no correr dos séculos.
. bem, aqui não me lembrei de nada evocativo de cabeça, tronco e membros, a não ser as aulas do segundo ano do ensino fundamental da profa. Abigahil, que assim dividia  (no sentido técnico e não de açougue) o corpo humano. Mas, por tabela, evoquei o que ele -Silviano- vai citar lá adiante o presente, passado e futuro, do disco de Sá, Rodrix e Guarabira.

63 Deus existe para escrever direito por linhas tortas.
. nada preciso dizer, a não ser que fui induzido por Maria da Paz Brasil a ingressar na campanha "Ateus, saiam do armário", o que fiz bem antes de começar a escrever "Fora Temer". Fora Temer, foi golpe, sim. Hahahaha.

76 O Seixas, desenho de Raul.
. temos agora uma ilustração de um Ortigão (de Walt Disney, se é que é o Hortelão), um bicho humano feio pra burro, com uma barba de dois meses, cabelo desgrenhado e olhar desabotinado. Mas, ao associar Seixas com Raul, juro que Silviano Santiago estava pensando mesmo era naquele "Toca Raul", que deve ter ouvido algumas vezes nestes últimos dez ou 11 anos.

91 Nas apinhadas matinês e soirées carnavalescas e nos elegantes e endiabrados bailes de máscara realizados no antigo Teatro São Pedro, denominado João Caetano nos anos 1950, a marchinha 'Vaga-lume' era cantada a plena voz pelos foliões:

Citação de Silviano:
Rio de Janeiro
Cidade que nos seduz
De dia falta água
De noite falta luz.

Abro o chuveiro
Não cai nem um pingo
Desde segunda
Até domingo.

Citação de DdAB
Eu vou pro mato,
Oi, pro mato eu vou
Vou buscar um vaga-lume (!)
Pra dar luz pro meu chatô.

. também do dia 1o. de março, temos na postagem a sequência do texto de Silviano.

94 na boca da petite histoire carioca, se transformou no chute inicial, ainda na corte imperial, da carreira do engenheiro Paulo de Frontin, que será aclamado definitivamente pela população da capital federal em 1904.
. o que nos interessa aqui é apenas o "chute inicial", que alguns locutores de futebol cuja cabeça porta um bola vazia, de "pontapé inicial", o início da partida do ludopédio e, por extensão, o início de qualquer atividade humana.

110 o Acaso abre para o jovem imortal um novo percurso - o da doença crônica, ou da morte sempre anunciada, ou ainda da possível sobrevivência pela cura.
. morte anunciada? Estamos falando de Gabriel Garcia Marquez, não é mesmo? O jovem imortal é, sem querer estragar a festa da leitura de Machado, Mário de Alencar, filho de José de Alencar, praticamente jogado na academia brazileira de letras por Machado de Assis, ambos epiléticos e ambos M. de A. E depois pintará outro M. de A.

152 Ao pai médico, o gestual juvenil e aloprado parece manifestação precoce do gosto adolescente pela carreira teatral.
. fala-se agora de Gustave Flaubert, também epilético, veja só a trama como se alastra. Aloprado? Conheci O Professor Aleprado", com Jerry Lewis atuando e dirigindo. O filme -dizem-me- é de 1963, ano em que concluí o ginásio no Colégio Júlio de Caudilhos. Parece que meus colegas Henrique Reguli, Carlos Leonardo Guimarães e outros já ouvíramos falar na palavra aloprado, talvez um ou outro de nós mesmos, ou algum professor, tendo recebido o epíteto. Mas o verdadeiro aloprado que levou -suponho, tudo aqui são suposições ou obviedades- Silviano a inserir este "caco" em seu texto elegante foi mesmo a referência que o presidente Lula fez aos rapazes que foram presos carregando moeda sonante (?) nas cuecas: "São uns aloprados", e encerrou o assunto.

153 Acusado pela nova amante Louise Colet de ainda amar a sra. Foucaud, Flaubert não titubeia e abre o jogo.
. Abre o jogo? e lá isto é jogo de canastra que a gente, a certa altura, deve abrir o jogo para o parceiro aproveitar e completar e poder, ato contínuo baixar suas próprias cartas? Garanto que Silviano e a mulher dele viviam indo para Tramandaí ou Pinhal e jogado canastra com o outro casal com quem comungavam diazinhos de evasão da cidade grande. Ou muito me engano...

160 O espírito está abatido e o corpo - carcomido pelo caruncho da epilepsia - lembra esqueleto decepado de tronco de ipê, semelhante ao cantado em prosa pelo pai do romancista.
. que posso dizer? digo: "tronco de ipê escrito pelo velho José de Alencar", ou seja, tinha gente que considerava o Mário de Alencar como romancista. Nunca li nada dele, nunca li "O Tronco do Ipê" e pouco ou nada li de José de Alencar. Talvez até saibam mais sobre o pensamento de José Alencar, vice-presidente da república nos tempos do lulismo.

178 Na passagem do século [XIX ao XX], antes do bota-abaixo de 1904, compensa e muito a comodidade de morar perto dos vários locais de trabalho e a possibilidade de se socializar com parentes, amigos, colegas profissionais e clientes sem perder muito tempo nos ineficientes meios de transporte.
. puxa vida! O bota-abaixo de 1904 era o mesmo patrão de Paulo de Frontin que hoje é túnel ou viaduto no Rio de Janeiro. O Bota-Abaixo foi o prefeito Pereira Passos, pelo que lembro. Isto quer dizer que havia outro bota-abaixo em outro ano.

201 VI. A escada e o lustre: a solidariedade humana
. então este é o título do capítulo oito. E daí? Tenho algumas razões para imaginar que o velho Silviano estava citando o livro de Raymundo Faoro "O Triângulo e o Trapézio", obra faraônica que comenta o velho Machado de Assis. Escada e lustre, triângulos e trapézios, isto também me cheira ligeiramente a Clarisse Lispector...

212 a praça da Liberdade - o palácio do governo e as três secretarias de estado -, mas também as residências dos amanuenses de alto escalão, localizadas no bairro dos Funcionários.
. arrojo-me a sugerir que "O Amanuense Belmiro", de Ciro dos Anjos, tava na cabeça do Silviano ao escrever esta passagem. Ou eram os jornais da época?

232 Beatriz - se válida para um, se válida para dois, pouco importa - tem, lá nos céus, olhos humanos demasiadamente humanos.
. pois isto também é Nietzsche diretaço: Humano, demasiadamente humano.

233 Partiu desta vida e, no andar de cima, se recolhe ao seu canto, como aqui no andar de baixo os sobreviventes devem se recolher às suas residências.
. então temos agora Camões: alma minha gentil que te partiste tão cedo desta vida, descontente. Ou tu achas que seria mero acaso? O Silviano não é bobo, como já está óbvio.

242 O próprio amor matrimonial [...] é a razão do sofrimento.
. agora sou mais eu myself falando que o próprio Silviano. Evocou-me esta passagem a canção La Llorona: ayer pené por no verte, llorona y hoy peno por que te vi. É muita fumaça para uma fábrica de gelo, hehehe.

259  levando o escritor viúvo, enfermo e solitário a imaginar que as duas protagonistas [dona Carmo e Fidélia, se bem lembro do Esaú e Jacó e do Memorial de Aires. By the way, M. de A., não é mesmo?] por entre as janelas das dúvidas e hesitações, e, no pão, pão, queijo, queijo da insegurança afetiva maior, ele delira.
. aqui vemos a expressão que se dirige à concretude material da realidade tangível: pão, pão, queijo, queijo. Mexendo com a aritmética, constatei tratar-se de uma expressão coloquial que tem o maior número de vírgulas por metro quadrado da literatura latino-americana.

333 Olha a gota d'água que falta para o desfecho da festa.
. deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa: Chico Buarque e Paulo Pontes.

343 A reflexão matinal de Machado clica a fotografia esfumaçada.
. amei esta de Machado clicar algo, sua reflexão ter um mouse, sei lá.

344 Os primeiros folhetins dominicais são assinados por [Joaquim] Nabuco e cutucam com vara curta - abusando da presunção e da injustiça da mocidade, para usar futuras palavras do autor - ideias nacionalistas estreitas de Alencar sobre a produção literária do Brasil pós-Independência.
. cutucar com vara curta é coisa de quem mexe com onça, talvez coisa que todo menino mineiro deve fazer ainda na escola do ensino fundamental. Como sabemos, Silviano acaba de mostrar-nos evidência neste sentido.

344-5 Estuda e acata o pensamento germânico sobre nacionalismo e cultura universal. As recém adquiridas ferramentas críticas lhe dão régua e compasso para medir a importância da obra de Alencar no que estão oferecendo para o melhor conhecimento dos brasileiros e do Brasil.
. aqui também, quem sabe que foi a Bahia que deu régua e compasso a Gilberto Gil? Chacrinha continua balançando a pança e buzinando a moça e comandando a massa.

370 Na comicidade do discurso sem pé nem cabeça, no absurdo que se revela verdadeira por estar colado à desconstrução do saber humano pelo gestual impassível do sofredor e pelas caretas abusivas que ele arma lá  dentro, no íntimo do artista, pelo descalabro nervoso que toma o corpo convulsivo, involuntariamente.
. Sem pé nem cabeça lembra Elba Ramalho e seu bicho de sete cabeças. O que falta cá lhe sobra ulalá. Mas tem mais: Silviano é leitor de Jacques Derrida, pois -se não o fosse - não estaria a evocar o pensamento resumido em desconstrução do bom franco-argelino.

377 A troca de presentes sempre esconde alguma pilantragem arquitetada pela astúcia dos deuses.
. não apenas temos essa óbvia citação à turma da pilantragem, que envolvia dromedários do porte de Carlos Imperial e Wilson Simonal, com também deixa a descoberto a teoria de Marcel Mauss sobre a dádiva.

396 depois de assinada a Lei Áurea, Nabuco baterá de volta à porta do útero familiar. Entrará e, já lá dentro, em viagem na família, se fechara a si com um zíper.
. então. Pois então. Zíper? Olha o que diz a Wikipedia em português: "A história do zíper, fecho éclair ou simplesmente "fecho", começou em 1893 na Exposição Mundial de Chicago, nos EUA, onde esse objeto deslizante para fechar e abrir roupas foi apresentado pela primeira vez.".

401 Na impossibilidade de apreciar a Transfiguração [pintura de Rafael cuja reprodução orna a folha de rosto de Machado] com os olhos que a terra haveria de comer contentara-se com reproduções.
. os olhos que a terra há de comer: uma expressão coloquial que a gente, mortal que é, cita volta e meia. Enquanto ela não come os meus, preparo-me para visitar a pintura e examiná-la detalhadamente e, antes disso, mas nas cercanias temporais do evento, reler Machado.

412 Depois de ter surpreendido a alma e a vida que lhe são oferecidas pelo modelo-vivo, a quem ele ama de paixão, Rafael se entrega - na pintura da tela a óleo - ao trabalho de corrigir as desproporções físicas naturais.

Em compensação, talvez eu deva ler tudo novamente. E ler mais Silvianos. Tem a biografia de Graciliano e tem mais coisa. A orelha de Machado diz que Silviano tem um romance intitulado Mil Rosas Roubadas. Parece-me óbvio que está citando Cazuza. E cito, para concluir, a mim próprio: tchau.

DdAB
P.S. Lá em cima, tudo miniatura cf. aqui.
P.S.S. comentário que fiz no Facebook a uma observação de Josevaldo Duarte Gueiros:
Acho que a que mais me chamou a atenção foi mesmo Machado de Assis clicando com sua caneta de pena e tinteiro... Quando comecei a ler (depois de adulto, quase velho), comecei com o chamado pentateuco machadiano: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e finalmente Memorial de Aires, tudo da Editora L&PM. Depois disso foi-me recomendado o livro de 50 contos selecionados por John Gledson, o que li com verdadeiro prazer literário. Cheguei a espalhar que o grande Machado é melhor contista que romancista... Tempos depois, adquiri as obras completas, da Editora Aguillar. Então li ou reli os romances iniciais, menos consagrados: Ressureição, A Mão e a Luva, Helena (que referes ter lido) e Iaiá Garcia. 
Os editores das obras completas se orgulham de ter quase seis mil páginas. E eu tento ler de tudo, os contos, as crônicas, tudo, pilhas de coisas. Um dia termino...