sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Teori e Tomás


Querido diário:

Cada vez que alguém morre, vai-se um tanto minha fantasia de imortalidade e outro tanto os anseios de alguns de alcançá-la. Nós, da utopia, não nos conformamos: queremos imortalidade. em geral, um país ou um império tem vida mais longa que uma pessoa (o império soviético durou de 1917 a 1991), mas quando país e pessoa associam-se numa complicada relação de crime e castigo fica a estupefação da morte do indivíduo. O mundo e o Brasil vivem dias difíceis. Hoje, por coincidência organizada, toma posse o pirado presidente americano. Ontem faleceu no mar, numa queda de avião, o ministro do supremo tribunal Teori Zavascki encarregado, como li há pouco no Facebook de julgar dezenas de políticos, inclusive o presidente da república, o mal-afamado Michel F. Temer.

Nesse espírito de luto e preocupação, estava lendo o breve anti-racionalista construído por Thomas Hobbes com sua imersão na filosofia da linguagem, mas -como é mais provável- caí em seguida em sua filosofia política. E decidi transcrever algo:

   [...] na natureza do homem encontramos três causas principais de discórdia. Primeiro, a competição; segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória.
   A primeira leva os homens a atacar os outros tendo em vista o lucro; a segunda, a segurança, e a terceira, a reputação. Os primeiros usam a violência para se tornarem senhores das pessoas, mulheres, filhos e rebanhos dos outros homens; os segundos, para defendê-los; e os terceiros por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma diferença de opinião, e qualquer outro sinal de desprezo, quer seja diretamente dirigido a suas pessoas, quer indiretamente a seus parentes, seus amigos, sua nação, sua profissão ou seu nome. 
   Com isto se torna manifesto que, durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens. Pois a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente conhecida. Portanto a noção de tempo [itálico no original] deve ser levada em conta quanto à natureza da guerra, do mesmo modo que  quanto à natureza do clima. Porque tal como a natureza do mau tempo não consiste em dois ou três chuviscos, mas numa tendência para chover que dura vários dias seguidos, assim também a natureza da guerra não consiste na luta real, mas na conhecida disposição para tal, durante todo o tempo em que não há garantia do contrário. Todo temo restante é de paz.
   Portanto tudo aquilo que é válido pra um tempo de guerra, em que todo homem é inimigo de todo homem, o mesmo é válido também para o tempo durante o qual os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida por sua própria força e sua própria invenção. Numa tal situação não há lugar para a indústria, pois seu fruto é incerto; consequentemente não há cultivo da terra nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas  pelo mar; não a construções confortáveis, nem instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande força; não há conhecimento da face da Terra, nem cômputo do tempo, nem artes, nem letras; não a sociedade; e o que é pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta.

Nem me ocorre selecionar uma imagem para este pessimismo todo!

DdAB
Fonte: Hobbes. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (Coleção Os Pensadores), páginas 76-77.

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