segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Bombas em Porto Alegre


Querido diário:

Na foto, por contraste, o que vemos são explosões em Los Angeles, numa Los Angeles de um futuro datado como 2017 ou 2019 (a conferir). Falo do filme Blade Runner. Falávamos Rodrigo Morem e Roberto Rocha sobre as condições normais de temperatura e pressão e, como tal, alguma ficção científica. Evocamos filmes utópicos e distópicos. Talvez o garçom ou algum de nós, sabe-se lá, sugeriu que utopia é final feliz e distopia é final infeliz. Como o Blade Runner teve final feliz, segue-se que ele é uma utopia.

Estivemos na manifestação dos cidadãos que se sentem lesados pela proposta do governo Sartori de extinguir dez órgãos da administração indireta. Depois fomos almoçar nas cercanias daquela "Praça da Matriz". No caminho para o restaurante, durante o almoço e depois deste, ouvimos o que pareciam tiros de morteiro.

Fui para casa, mexi em meus papeis, dormi, acordei, vesti-me e fui caminhar, como tenho feito nestes pródromos do solstício de verão. Cheguei do bairro Menino Deus às cercanias do Mercado Público. Subi a Av. Borges de Medeiros, dobrei à direita na "Rua da Praia", mais adiante, dobrei à esquerda na "Rua da Ladeira". Cheguei na "Praça da Matriz", onde seguiam concentrados os cidadãos que declarei lesados pelo governo que nada prometeu como plano de governo.

Atravessei a praça e, ao chegar na Rua Duque de Caxias, novas explosões e vi o povo começar a evadir-se das proximidades da assembleia legislativa, a casa do povo que proibiu a entrada do povo e, por contraste, estacionou dezenas de policiais com escudos, outros a cavalo e sei-lá-mais-o-quê. Novas explosões? Mais de perto, primeiro, a movimentação de pessoas começando a correr, depois ouvi alguém dizer: "o cheiro de vinagre", segui caminhando no rumo intencionado, ou seja, descer a Rua Espírito Santo e voltar a meu bairro. Muita gente seguiu parte deste trajeto. Na Rua Duque de Caxias, na altura da Catedral Metropolitana do credo católico, cheguei a ouvir gente dizer "vamos entrar na igreja". A esta altura, eu já sentira "o cheiro do vinagre", e já estava lacrimejando e ao mesmo tempo imitando pessoas que tapavam o nariz com panos. Também vi gente portando máscaras.

Novos estrondos e o cheiro se intensificou. Parece-me óbvio que ele -cheiro- penetrou nos apartamentos das cercanias, especialmente, o que posso jurar ser verdade, no edifício da esquina dessas ruas. Desci a ladeira e encontrei amigos, destacando Fernanda Fernanda Queiroz Sperotto e Iván G. Peyré Tartaruga. Separei-me deles e segui com o nariz e os olhos um tanto irritados. Cheguei na Rua Fernando Machado e ainda havia traços daquele cheiro no ar. Fernanda falou-me ser gás lacrimogênio.

Aí é que está a chave desta postagem. Em 1964, eu era estudante do que hoje se chama primeiro ano do ensino médio. Em 1972, fechei o ciclo básico de minha formação profissional, graduando-me em economia. Pois bem, nesse período, participei -digamos- de 20 passeatas de protesto contra a ditadura militar. Nunca, nunca de núncaras, senti o cheiro do gás lacrimogênio. [Não quero dizer que não houvesse tal dispositivo em outras passeatas, em outros locais, em outros momentos, o que relato com estupefação é que aqui, democracia, crise institucional severa, o governicho dessa macacada fez o que eu nunca vira/sentira: levou-me a respirar veneno. Cá entre nós. Sartori? Anunciou que, depois de ganhar a eleição, iria falar sobre seus planos de governo. Não sei o que está falando, mas a ação de seu governo é um escândalo]

DdAB*Espelhado do Facebook. Imagem conhecida do filme Blade Runner: caçador de androides. 

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