segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Mais Dados para a Prestação de Contas das Eleições Municipais

(Legenda: decifra-me ou devoro-te)

Querido diário:

Dei-me conta de que os eleitores do voto em candidato mais o branco mais o nulo mais a abstenção demarcam o mesmo voto do mesmo homem que bate na mulher, que briga no trânsito, que rouba no supermercado, da mulher que apanha do marido, que esbofeteia o filho. Que tem razões para distinguir-se nos três maiores fatores indutores do ódio à humanidade:

.a exercício físico.
.b dieta para emagrecer.
.c. estudar.

Há quem pratique o trio e muitos inclusive mentem que os apreciam.

Uma fração de nós fracassou rotunda, completa e insofismavelmente no uso de nossa habilidade de convencimento. Talvez nossas receitas nem sejam as melhores. Mas como é que vamos sabê-lo?

Desde que ouvi falar na teoria da grande conspiração, fiquei atribuindo a ela tudo o que foi explicação com a qual não concordo ou não estou preparado para entender. Claro que, por isso mesmo, tenho sido resistente em aceitar que existe um complô entre os juízes, promotores, policiais e jornalistas e seus mandantes que tem sido responsável por tudo aquilo que nos desagrada, enquanto esquerdistas. E agora também me parece que a devastadora derrota do PT na eleição municipal e a assustadora vitória do PSDB não precisam de mais explicações que a assunção de que o problema foi mesmo aritmético: votos de menos para cá e votos de mais para lá.

Claro que podemos dizer que foi o eleitor analfabeto, idiota, reacionário, ignorante da teoria da escolha pública, alienado, ignorante do trio c+v+m, ignorante do conceito de sociedade justa, e tudo o mais que nos possa ocorrer que deu a vitória às forças anti-populares. Mas isto não me satisfaz, em absoluto. Talvez por levar a sério a teoria da escolha racional (com moderação), a leitura (obviamente pessoal) de Marx e Engels, daquela turma da filosofia analítica e da continental, dos franceses, dos americanos de esquerda é que tento fazer modelos que talvez os cientistas políticos mais aquerenciados com os métodos quantitativos têm levado à prática.

Anos atrás, li um livro de introdução à ciência política (ou era um artigo numa revista técnica?) que dava uma equação que me parecia emergir de um livro de macroeconomia e não de onde veio. Para quem sabe ler em português, podemos escrever:

P = f(i, w, c),

que se deixa ler como: a inflação é uma função da taxa de juros, da taxa de salários e da taxa de câmbio. Mesmo agora, ao reler o que acabo de escrever, digo para mim mesmo: é pura macroeconomia. Mas, se o cientista político fez uma teoria econômica, por que não posso simetrizar e fazer uma teoria política? Pois então. Pensei em apelar para uma regressão logística, isto é, uma forma de usar métodos quantitavos para lidar com dados qualitativos. E talvez os cientistas políticos já o façam, sendo apenas meu desconhecimento da fronteira da pesquisa na área que me impede em absoluto de saber onde andam os resultados. Pois bem. Então escrevi o seguinte modelo (que pode ser designado como modelo teórico):

V = v(J, H, C),

em que V é a probabilidade de vitória do candidato selecionado, J é seu grau de juventude, isto é, sua idade cronológica (e já poderíamos começar a sofisticar o modelo, por exemplo, combinando a idade cronológica com o número de anos que se dedica à política partidária, etc.), H é o grau de honestidade do candidato (mensurado de alguma forma racional) e C é seu grau de carisma (também mensurado por meio de um índice pertinente).

Então, devidamente calibrado, o modelo poderia dar-nos os seguintes parâmetros que inserimos no que podemos chamar de modelo empírico:

V =  a * J + b * H + c * C.

Ou seja, se conhecermos a, b e c e também J, H e C, teremos determinado a probabilidade de vitória do candidato que desejarmos. Há dois tratamentos para chegarmos ao valor de V. O primeiro e mais usual é um tipo de equacionamento que parte das variáveis J, H e C e, por meio das tais técnicas da regressão logística, determina os parâmetros a, b e c. E, uma vez que disponhamos desses parâmetros a, b e c obtidos para o caso geral, quando formos informados, por exemplo, do J, do H e do C de Raul Pont, poderemos "adivinhar" sua probabilidade de vitória na eleição porto-alegrense. Ora, se o modelo teórico é consentâneo, então aqueles 18% que Raul alcançou devem-se a baixos valores que ele exibia para as três variáveis que selecionei para ilustrar meu ponto. Dada a baixaria implícita nesse resultado, se eu fosse o presidente da Associação Porto-Alegrense da Esquerda Esclarecida, iria recomendar a Raul Pont que se mantivesse em low profile e recomendasse a pessoas de sua confiança, portadoras de valores de J, H e C mais palatáveis, sob o ponto de vista do eleitor mediano, que assumissem seu lugar. Se um partido -seguiriam minhas recomendações- não tem ninguém em condições de alcançar um valor V decente, não se candidate, apoie algum outro candidato também vinculado a nossa associação, que pode fazer papel menos ridículo num certame de baixa seriedade, mas elevadas consequências para o cotidiano de todos nós, destacando os menos aquinhoados.

O segundo tratamento a ser dado a nossa equação

V =  a * J + b * H + c * C

consiste em aceitar como dados os valores de V, a, b e c e, com eles, fazer estimativas (no mínimo, adivinhações de bar e, numa hipótese mais séria, de grupos focais) precisamente para J, H e C. A isto se chama de calibração e sua importância está associada à possibilidade de "vetarmos" candidatos que não alcançam valores críticos para as três variáveis, sendo plausível pensarmos que teriam candidaturas fadadas à derrota.

Como é fácil falar, não é mesmo? Se este tipo de encaminhamento para os fenômenos políticos tem algo a ver, poderemos evitar futuros vexames, como os que nos fizeram pagar as candidaturas de Jandira no Rio de Janeiro, Raul e Luciana em Porto Alegre e por aí vai a lista. Enorme lista.

DdAB
Imagem: a pergunta da Esfinge ("decifra-me ou devoro-te") é a maior representante da estupefação atual do Brasil. Com dificuldades criadas por "aquilo que não se pode falar".

P.S. Para quem não é acolherado com estas tecnicalidades, ficou claro que estou falando de dois métodos para determinar valores numéricos para modelos matemáticos/estatísticos? Naquele modelo lá de cima (isto é, V =  a * J + b * H + c * C), os valores de a, b e c podem ser obtidos por meio da estimação feita por métodos paramétricos ou não-paramétricos. Mas, uma vez conhecidos os valores desses, assim chamados, parâmetros, podemos usá-los para determinar valores de J, H e C, técnica que se chama de calibração.

P.S.S. E dei esta introdução no Facebook: Não consigo me desligar da derrota eleitoral da esquerda. No outro dia, recomendei a todos nós mais estudo. Creio que me baseava naquele cavalo cujo nome agoram e foge (sem escoiçear, por sinal) da "Fazenda Modelo", que -a qualquer revés- usava seu mantra: "Trabalharei mais ainda". Uma vez que alguns amigos dizem que nunca trabalhei ("também trabalhas ou só dás aula?"), minha solução é estudar mais ainda...

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