sábado, 15 de outubro de 2016

Marx e a Impressão em 3D


Querido diário:

Um bom tempo atrás, declarei-me a uma amiga. Ou melhor, declarei a uma amiga que sou especialista na primeira sentença do Ulysses de James Joyce e que cheguei a pensar em escrever meu nome como Duylyo, um y para o autor e outro para a obra. E agora me ocorrem dy Avyla e Berny. Tornar-me-ia mais realista que o rei.

A amiga pediu provas e eu a convenci facilmente, pois citei com mudanças menores o início da tradução de Antônio Houais, que ela também começara a ler em tenra idade: "Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan chegou-se ao alto da escada portando um vaso de barbear em que se entrecruzavam um espelho e uma navalha." E concluí dizendo já ter boa carga de leitura (especialização) sobre os comentadores, uma fração reduzidíssima deles, by the way. Mas não é apenas o Ulysses, como também já andei falando por aqui: "A riqueza das sociedades humanas em que rege o modo de produção capitalista é dada por uma imensa coleção de mercadorias: nelas, portanto, começa nosso estudo." É a primeira sentença de O Capital, não é mesmo?

E aqui já tem uma espantosa sutileza em minha "releitura" do príncipe dos economistas. Falei "mercadorias", com 's', no plural: se uma mercadoria (forma relativa do valor) não tivesse outra (forma equivalente do valor) para se espelhar, nem uma nem outra seriam mercadorias, não é mesmo?

E andei lendo as três introdução que Ernest Mandel fez para os três volumes d'O Capital, na edição Penguin/Pelican. Não vão nem 50cm de texto, quando ele diz: página 13 (tradução minha, mas o trecho original está lá no rodapé):

A teoria econômica de Marx e sua obra-prima, O Capital, baseiam-se numa compreensão da relatividade, determinação social e limitação histórica de todas as leis econômicas. No desenvolvimento sócio-econômico da humanidade, a produção de mercadorias, a economia de mercado ou a distribuição dos recursos sociais entre os diferentes ramos da produção por meio de 'leis econômicas objetivas' operando 'por trás dos produtores' nem sempre existiu. O Capital, explicando a origem do modo de produção capitalista, sinaliza o declínio inevitável e a queda deste sistema social. Uma teoria econômica baseada na relatividade histórica de cada sistema econômico, sua limitação restrita a um período de tempo, relembra, sem qualquer tato, os excelentíssimos senhores capitalistas, seus parasitas e seus apologistas que o próprio capitalismo é um produto da história. Ele vai extinguir-se, no devido tempo, da mesma forma como um dia foi criado. Nesse momento, uma nova forma de organização econômica vai tomar-lhe o lugar: ela vai funcionar em consonância com outras leis alheias às que hoje governam a economia capitalista.

De repente, me veio ao pensamento algo que podemos chamar de ficção científica. Assis, um rapaz de seus 1800 ou 2000 anos de idade, conhece uma das novas sócias (androide) de Anita, até então sua noiva. A androide chama-se Rachel II, mas tentando dar-lhe um caráter humano, chamam-na apenas de Rachel. Como seria de esperar em uma história de amor e morte, Rachel apaixona-se por Assis, deixando claros alguns defeitos em sua fabricação, pois "voar (o que ela faz com perfeição) é com os pássaros", mas -ao mesmo tempo- amar (o que ela descobriu ser capaz, assim como tocar piano e imiscuir-se em vilegiaturas de fino trato) é com os humanos. Assis apercebeu-se da singularidade de Raquel, também se apaixonando por ela. Tudo fica congestionado com essa invulgar união amorosa, a turma enciumada sugere que ele e sua máquina (ele quase morre de tristeza ao ouvir chamar sua doce Rachel de máquina) deem no pé, ou seja, abandonem a nave em que vivem, ele desde seus primeiro centenário e ela a menos de seis meses, quando foi produzida -por romântica e até certo ponto previsível coincidência- em uma plataforma ligada gravitacionalmente a Tétis, fazendo incursões periódicas sobre anéis do sexto planeta de Sol.

E será que Assis e Raquel (por assim escrever) poderão procriar, gerar hijitos, como diria la Suzanita de Mafalda? Raquel garante que sim, sua prodigiosa memória porta toda a enciclopédia galáctica e todas as revistas publicadas naquelas infindáveis colônias humanas. Diz ser da geração Rachel II, já testada em outras paragens, gerando humanos até mais humanos que aqueles rudimentares modelos selecionados geneticamente no terceiro planeta de Sol. Sabedor disso tudo, Assis decidiu aceitar a sugestão de alguns veteranos que "mobiliavam" sua plataforma e evadir-se, imergir na grande noite do espaço intergaláctico e formar sua própria civilização: serão os filhos de homem com, essencialmente, um programa de computador a que foi dado um corpo humanoide para operar. Homem e máquina, humáquina.

Na boda, rolou um vinho de excelente qualidade. Ao faltar, bebido que foi com sofreguidão, foi solicitado a um visitante que providenciasse de novas garrafas, quando os convivas testaram um dos melhores vinhos de que a humanidade pode lembrar-se. Ato contínuo, os 25 padrinhos de Assis e Raquel mandaram imprimir sua nave, inicialmente projetada para abrigar apenas eles dois, mas dotada de 20 androides de duas ou três gerações inferiores a Raquel, pois ambos gostavam de jogar ludopédio, um jogo muito popular no terceiro planeta dois milênios atrás. Tudo tudinho foi impresso em 3D, de sorte que a nave chegou praticamente pronta para uso, desde refletores de raios nocivos a escovas de dentes, faltando apenas as caixas de rádio, que lhes foram dadas com zelo pelos ancestrais de Assis.

Quando a população aumentasse, com novos migrantes, ou filhos, Assis e Raquel imprimiriam novos módulos e seguiriam em comboio rumo a Vega. Tal circunstância era mais que óbvia, pois Assis era muito chegado a sua família e gostava de cultivar-lhe a história. Por isso as 12 caixas de rádio que lhe foram dadas seriam guardadas no coração da nave, como o mais precioso de todos os objetos a bordo. Com essas caixas verdadeiramente milagrosas, rastreavam-se, em incontáveis distâncias espaciais, os neutrinos associados a configurações cerebrais de quem bem eles quisessem. Mesmo tendo convivido com tantos androides duplicando parentes de gerações anteriores, nada impedia que replicassem tanto os já resgatados quanto algum ou outro que teriam ficado para trás por diversas razões, desde a condição de espíritos atribulados quanto a simples omissão deliberada.

Naves em 3D e caixas de rádio, maravilhas tecnológicas que praticamente não requeriam trabalho humano para serem concretizadas. Se é que um e-mail enviado pelos padrinhos ao computador central de Tétis pode ser considerado "trabalho", então aquela nave incorporava trabalho humano, mas o ancião Carlos Marques garantiu que bilhetes por e-mail não configuram trabalho, especialmente, quando se trata de criar surpresas para serem presenteados em festas. Gerar utilidades, como escovar os próprios dentes, nada tem a ver com o já extinto mundo das mercadorias, que ficaram para trás, com seus históricos produtores e distorções que elas criavam na própria base da vida societária. Um tanto prá lá de marraqueche, Assis indagou a Raquel se ele era um fetichista, por estar adorando uma máquina. Ela disse que o verdadeiro fetichismo ocorria, naquele tempo antigo, quando um humano trocava dinheiro por alguma mercadoria de seu agrado, mas não se dava conta de que a troca ocorria em termos de unidades de trabalho socialmente necessário. Satisfeito com esta nova lição de história da humanidade que lhe pespegara Raquel, Assis dirigiu-se à copa, quando viu a nave. Impressa, deste modo, a nave nupcial de Assis e Raquel, eles nela embarcaram e foram felizes para sempre.

DdAB
Imagem: home-made, com um printscreen daqui.

P.S. o texto original está aqui:
[...] Marx's economic theory and its crowning work Capital are based upon an understanding of the relativity, social determination and historical limitation of all economic laws. In the socio-economic development of mankind, commodity production, market economy or the distribution of social resources among different branches of production by 'objective economic laws' operating 'behind the back of the producers' do not always exist. Capital, explaining the origins of the capitalist mode of production, points towards the inevitable historical decline and fall of the this same social system. An economic theory based upon the historical relativity of every economic system, its strict limitation in time, tactlessly reminds Messrs the capitalists, their hangers-on and their apologists that capitalism itself is a product of history. It will perish in due course as it once was born. A new social form of economic organization will then take the place of the capitalist one: it will function according to other laws than those which govern the capitalist economy.

P.S.S. O mundo das mercadorias já estava sendo ameaçado e, com a tecnologia que permitirá imprimirmos de tudo, até bifes acebolados e arroz soltinho, navalhas de barba e naves espaciais, será definitivamente sepultado. Mas mesmo assim não podemos descartar que haverá piratas espaciais, em suas naves, querendo afanar coisas das outras naves. Se eu tiver tempo, num certo futuro, contarei qual será a motivação desses descendentes dos políticos brasileiros do século XXI.

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