sábado, 22 de outubro de 2016

El Imortal: um experimento mental sobre o déficit da previdência


Querido diário:

Um engraxate daqui das redondezas - chamemo-lo Borges - diz ter 24 anos, o que lhe confere - alega - a condição de adulto, segundo a Organização Internacional do Trabalho. Cálculos de uma astróloga de sua confiança garantem-lhe 100 anos de vida, ou seja, mais 76 a partir da publicação desta postagem. Outros cálculos informam-no de que um bom plano de aposentadoria poderá garantir-lhe um padrão de vida compatível com o que hoje desfruta, permitindo-lhe viver até os 96 anos de idade.

Outra astróloga tinha um cachorro (Fido) da alta sociedade que gostava muito de Borges e, por delegações sinuosas e transversas, ao falecer, deixou-lhe um dinheirinho que lhe permitiria manter-se por mais cinco anos, ou seja, os 100 inicialmente previstos pela astróloga e mais um, como o cão pôde latir, de inhapa. A relação entre Borges e Fido mereceriam por si só, uma novela. Cabe-me registar que, quando já não mais tinha direito a rações nem moradia, nem mais nada, e vivendo às escondidas seu 103o. aniversário, detetives esbeltos e competentes encontraram Borges para revelar que, por tabela, ele tornara-se um rico herdeiro, pois o cão de que falávamos fora indicado como herdeiro de uma fortuna admirável e que caberia, por testamento, ao engraxate. Imediatamente, Borges evocou uns bofes que ele mesmo cozia e cedia ao cão de seu afeto que, sempre lhe informava, iria dividir com um amigo dileto, o cão Venturoso. Só podia ser aquele cão milionário excêntrico que às vezes Borges via a acompanhar Fido.

Por mais admiráveis que sejam as fortunas, terá dito um tal José Cartapácio, de Esmirna, "de onde se tira e não se bota cedo se esgota". Pois não é que foi apenas falar e Borges começou a sentir novamente as pressões econômicas a lhe envenenarem a existência, mais especificamente falando, a nutrição. A estas alturas, houvera enormes avanços na geriatria e tornou-se claro que toda a turma poderia viver 500 anos, e até mais. Ainda durante o período de penúria vivido por Jorge, digo, Borges, já com seus 524 anos, surgiu uma estonteante inovação na geriatria, garantindo aos terráqueos uma vida de, pelo menos, 1000 anos, chegando, em certos casos a 1440. Para Jorge, digo, Borges, esta foi uma dor de cabeça e tanto, pois ele não possuía mais fundos: gastara toda a herança que, post mortem, toda a herança do cão (Fido) que herdara de outro cão (Venturoso).

Para felicidade geral da nação, os homens de 550 e até mais, trabalhavam galhardamente em seus empregos precários, ganhando seu dinheirinho e gastando-o em bebida ou comida, conforme o caso. Mas a questão que volta e meia sobrevinha à mente cansada de Borges era: "que será de mim, quando eu não puder mais catar lixo?" A verdade é que os jovens (pessoas com até dez vezes a entrada na vida adulta (aqueles 24 da OIT multiplicados por 10) que sofriam com a praga do desemprego também viviam em palpos de aranha para ingressar no mercado de trabalho, pois todas as vagas eram preenchidas por trabalhadores de 300 a 350 anos de idade.

Em torno do ano 4000 d.C., a turma toda foi conduzida a deixar o terceiro planeta de Sol, passando a habitar dezenas de plataformas espaciais tão ou mais aprazíveis que os melhores locais terráqueos: autenticava-se eterna primavera, 20 graus centígrados de temperatura, flores o ano inteiro e demais amenidades ambientais produzidas "as if" terráqueas fossem. Nesse mesmo tempo, todos os produtos alimentares e demais bens materiais eram produzidos por máquinas na Terra e carregadas por naves à plataforma que abrigava Borges e seus contemporâneos. As naves eram pilotadas à distância por jovens de 340 anos de idade, que recebiam um treinamento curto (mas intensivo em seu apoio computacional oferecido por uma equipe de androides), trabalhavam por menos tempo ainda e passavam a viver sua nova existência livres, pois redimidos, do trabalho socialmente requerido.

Pendurado no arame já há vários séculos, Borges ficou um tanto contrafeito ao ver-se votando com todos os demais habitantes do terceiro planeta de Sol, que decidiram fazer o chamado salto negro, ou seja, usar a energia domesticada de um buraco negro conhecido e evadir-se do que chamavam de universo presente, deslocando-se para outro que, embora novato, poderia situar-se num tempo pretérito, mas que garantia à turma aposentadorias ou pensões que lhes possibilitassem existência digna.

Naquele tempo, impunha-se uma pergunta filosófica: quais seriam as credenciais de Borges para prosseguir anabolizando e catabolizando (ou seja, absorver bens e serviços) em seu boudoir? A resposta fora dada muitos milênios antes, com a renda básica universal, a única forma desenhada pela humanidade para compatibilizar a maior liberdade possível garantida a todos os tripulantes da nave com os ditames de uma escassez relativa, especialmente, no que diz respeito às necessidades oximorianamente chamadas de supérfluas. Borges era livre por ser dono de seu próprio corpo, mas também por estar credenciado a uma fração do excedente de bens e serviços aportados à nave ou nela mesmo produzidos.

Perguntado sobre que achava sobre os planos aposentadoria de seus ancestrais não cobrirem mais de 78 anos de existência. Ele disse que talvez tivessem ouvido esta ideia da narração do pesadelo de um daqueles cães -desafeto de Cérbero- que tão generosamente expandiram seu horizonte de vida em algumas décadas, que se transforaram em imortalidade. E sua opinião sobre a extravagante ideia de que a previdência social deve dar lucro é rir, rir, rir, pois a vê como fora do tempo, fora de moda.

DdAB
Coloquei estes dois comentários às 21h40 de 24/out/2016 no Facebook de Dejalme Andreoli, comentando um comentário de Vera Goldim:
.a. todos envelhecerão e apenas aqueles que ocupam posições privilegiadas desprezam a ameaça da carência de recursos à vida longa
.b. cada emprego de velho está custando um emprego de jovem. E não é difícil imaginarmos um mercado (intermediado pelo governo ou pela comunidade) em que os jovens "compram" empregos dos velhos.

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