sábado, 25 de junho de 2016

My Britain


Querido diário:

Quando, em 1974-7, eu sonhava em cursar pós-graduação no exterior, percebi que necessitava de três requisitos: o mestrado local, a língua estrangeira e a bolsa de estudos. Negligenciei a língua, estava, em julho de 1977, defendendo a dissertação do hoje chamado PPGE/UFRGS e pedi aceite a milhares de universidades da França, Canadá, Estados Unidos e Inglaterra. Dessas miríades de formulários de pedidos de bolsa e de aceite na universidade, além das cartas de recomendação, uma boa meia dúzia de instituições ofereceu-me a vaga para estudar ou mestrado ou diretamente doutorado de língua inglesa. Não lembro de ter sido aceito na França, que tinha a extraordinária vantagem de oferecer o ensino gratuito mesmo para estrangeiros.

De todo esse esforço, resultou a concessão da bolsa do Conselho Britânico e o aceite (independente, mas endossado por ele) na University of Sussex. Escolhi Sussex, pois ouvia falar tratar-se de uma das "universidades vermelhas" criadas pelo trabalhismo dos anos 1950. Fui admitido para o doutorado, mas entrei na trilha do mestrado (M. A. in economics of industry) e dele não saí, quero dizer, no meio do caminho, baixaram-me saudades do Brasil, que não consegui por lá segurar-me e, tendo feito uma dissertação, ganhei o segundo mestrado, ou seja, sou mestre e master of arts. Era outubro de 1978 e vim olhar de perto o que estava acontecendo no Brasil. Derrota, claro, hoje bem vejo, mas não foi letal, pois apenas fingi (para mim mesmo) que o sonho do doutorado estava sepultado.

Não é que, em janeiro de 1988, por indicação de um dos irmãos Fiori, professor da Faculdade Bartlett em Londres, consegui uma entrevista com meu futuro ídolo, o mr. Andrew Glyn, hoje falecido, que recebeu-me em sua sala no Corpus Christi College, em Oxford? A entrevista estava marcada para as 11h00 a.m. e, por medo de atrasar-me na viagem de trem Paddington-Oxford, devo ter chegado lá em torno das cinco ou seis da madrugada de um dia ultra frio e chuvosinho. Por razões de puro medo de sei lá o quê, ao invés de pegar um táxi da estação de trens até a Merton Street. Ao avistar o college, tranquilizei-me um tanto, mas o stress voltou sobre como eu iria passar o tempo. Creio que seriam, digamos, 10h00 a.m. e fui fazer um reconhecimento absoluto do local, não lembro como é que consegui entrar, parece que o porter avisou o Andrew que um tresloucado perguntava por ele. Por minha sorte, ele não tinha compromissos aquela hora e me recebeu.

Foi uma entrevista-prova de paciência para ele, pois meu inglês -que nunca fora de primeira classe- estava um tanto enferrujado, ainda que eu tivesse lido muita coisa nesses dez anos entre a volta de Sussex e a chegada a Londres naquele janeiro. Pilhas de literatura sobre economia (organização) industrial e até alguns romances, que não sou de ferro. Mas ele, claro, foi muito amável e indagou o que eu queria estudar e eu disse sabe-se lá o quê, o que não o impediu de sinalizar que poderia considerar ser meu orientador do doutorado, se durante os primeiros meses de 1988 eu fizesse um projeto interessante.

Daí desse "interessante", já pintou uma das frases proverbiais que aprendi com ele "interesting questions and tentative answers". Pois então. Quando cheguei para estudar com ele, em janeiro de 1989, ele deu-me dicas sobre morar em Oxford, comprar a inefável bicicleta com cestinha e alguns passeios em torno da ring road da cidade. E depois me ajudou extraordinariamente durante os trabalhos, volta e meia fazendo elogios (escassos) e críticas (rotineiras), mas eu sentia que, no dia em que ele dissesse que eu poderia apresentar a tese, esta seria aceita. E assim foi.

Pois então. Melhor que eu fala a Wikipedia como "Background" no verbete dele:

Glyn was born in Tetsworth, Oxfordshire. He was the son of John Glyn, the 6th Baron Wolverton, of th Williams & Glyn's Bank banking dynasty. He attended Eton and went on to study economics at Oxford University before becoming a government economist from 1964 to 1966. He was appointed to a fellowship in economics at Corpus Christi where he worked for the rest on his life.

Eton, Oxford, parecia eu mesmo, como o colégio das freiras de Jaguari e o Julinho em Porto Alegre, não é mesmo? Pois era ele um sétimo barão e eu não sabia? Até hoje não sei se ele renunciou ao cargo ou se o cargo foi entregue a seu filho mais velho (do primeiro casamento). Coisas que fiquei sabendo apenas depois da morte de Andrew, nos obituários escritos por amigos diletos. Ele nunca falou nisto comigo, era brincalhão, mas muito objetivo e mesmo as investidas que eu dava no ramo da psicanálise ou da epistemologia, ele descartava de má vontade. No que diz respeito à ascendência pelo baronato, um colega (também orientando dele), talvez leitor mais atento d'O Capital chamou-me a atenção para o sobrenome de Andrew como um banqueiro citado. Nunca tive coragem de comentar com ele.

Pois era pois então. Agora também. Andrew foi trotskysta durante muitos anos, dizendo-me a certa altura ter sido convertido à social-democracia -talvez nos anos 1980- por Bob Rowthorn. Mas não deixou de ser "marxista", pelo menos usando os instrumentos analíticos do marxismo para forjar sua visão do mundo atual. Em outras palavras, um revolucionário que parece-me ter abdicado do caminho da revolução para levar o proletariado à redenção.

Pois então, finalmente. Em novembro de 1992, meus últimos dias de Oxford antes da tese (que finalizou-se apenas em fevereiro de 1994), testemunhei (pela TV) um incêndio ocorrido no Castelo de Windsor, algo que chocou os ingleses de maneira que não posse descrever. Em uma reunião de supervisão de Andrew, fiz um comentário que aquele sofrimento enorme poderia ter sido abrandado se não houvesse mais monarquia. Pimba: falei em corda em casa de enforcado, como agora sei de sua origem nobre. Ele, claro, disse algo na linha de "pensando melhor, o bom mesmo é deixar como está".

Revolucioários e conservadores. Plebe rude e nobreza. Desiguais e combinados. E agora esses brits decidem sair da União Europeia. Só bebendo!

DdAB

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