sexta-feira, 10 de junho de 2016

Formação do Preço: pode teorizar?


Querido diário:

Claro que pode. Tá cheio de teorias sobre tudo. Nossa percepção da realidade, ainda que sejamos realistas, é "nossa", ou seja, não haverá percepção da realidade se não houvermos nós. Isto não impede que a realidade siga altaneira sem nós, heheheh.

Em compensação, vou falar sobre três teorias da formação do preço. É mais que simplesmente querer dizer que eu entendo a realidade. Estou dizendo que estou buscando explicações para os fenômenos que observo em meu dia-a-dia, tem preço para o quiabo, tem preço para a aguardente, tem preço para a bíblia, e assim por diante.

Obviamente, estamos falando de dois mundos: o mundo em que podemos entender a formação do preço na indústria (conjunto de atividades homogêneas ou sob o ponto de vista dos compradores como sob o ponto de vista dos vendedores) e que difere da formação do preço da empresa. Parece óbvio que a formação do preço na indústria resulta da interação entre as curvas de oferta e procura. E o segundo mundo: o processo decisório da empresa em que ela decide-se ou por seguir o preço que vê no mercado ou rebelar-se contra ele e formar seu próprio preço, se puder, claro.

Primeira teoria
É simples:
q = f(p), q - a quantidade- é uma função de p - preço, com p e q variando inversamente
ou, com a mesma postulada variação inversa,
p = g(q)
Claro que f e g são funções inversas.
Se q = 3 - 2 x p, então p = 1,5 - 0,5 x q.

Nestes casos, temos a mesma equação expressa de duas formas, sendo elas constituídas por duas variáveis. Assim, de sorte a determinarmos p precisamos conhecer q. Falta, no nível do mercado, uma equação. Os modelos tradicionais buscam mais informação como a função de custos ou apenas maximizam as vendas, ou maximizam o lucro, dando menos destaque à curva de oferta de mercado.

Segunda teoria
Agora falamos da teoria do mark-up (também chamada de "custo mais margem":
p = (1 + M) x CVMd,
onde, além de p designando o preço, M é a margem adicionada ao custo variável médio CMVd. Agora temos uma equação com três variáveis (p, M e CVMd), logo, para determinarmos p, precisamos conhecer os valores de M e de CVMd. E de onde vem CVMd? Da contabilidade da empresa. E de onde surge o valor de M? Da "tradição da indústria", como dizem os livros e o afamado artigo de Hall & Hitch. (HALL R. L.,HITCH, C. J. A teoria dos preços e o comportamento empresarial. Clássicos da literatura econômica. Rio de Janeiro: IPEA/INPES, 1988.)

Terceira teoria
Eu demorei a entender, mas quando o fiz (lendo principalmente o artigo de Franco Modigliani - MODIGLIANI, F. (1958). New Developments on the Oligopoly Front. Journal of Political Economy.V. 66 Jun.) tinha lido os dois criadores independentes BAIN, J. (1956). Barriers to New Competition. Harvard Univsersity: Cambridge, USA e SYLOS-LABINI, P. (1984). Oligopólio e Progresso Técnico. Forense : Rio de Janeiro.

O assunto começa quando montamos uma figura que permite assinalarmos o preço que vigoraria num mercado de concorrência pura, contrastando-o com o que vigoraria no mercado controlado por um monopolista. 

Temos ali as curvas de receita média RMd e receita marginal RMg e uma curva de custo médio de longo prazo refletindo rendimentos decrescentes à escala (que a viagem toda ocorre no longo prazo, não é isto?), com sua correspondente curva de custo marginal. Aquela partezinha que diz que ambos são iguais é apenas o trecho horizontal, não é mesmo?

Pois então. pM é o preço que o monopolista maximizador de lucros (ou seja, produzindo no ponto em que RMg = CMg) escolhe. pC é o preço que vigoraria em concorrência (onde RMd = CMd e também RMg = CMg). Entre estes dois extremos deve localizar-se o pO, ou seja, o preço que o oligopolista cobraria/cobrará.

A equação do modelo é simples, embora ligeiramente assustadora:
onde po é o preço que vigora para a empresa que participa de um oligopólio, pc é o preço que ela enfrentaria caso estivesse em um mercado de concorrência pura, x é a empresa da menor escala eficiente possível, E é a elasticidade preço da procura pelo produto vendido pela empresa e qc é o nível de produção compatível com a oferta de uma empresa em um mercado de concorrência pura.

Faltou algo? Claro que sim. Ainda ficamos com a formação do preço nas firmas que vendem mais de um produto. E também firmas que, mesmo vendendo um produto único, discriminam preços entre consumidores ou entre áreas geográficas.

DdAB
P.S. Parece que estou aprendendo a diferença entre iteração e interação. Lá em cima, com interação, queria dizer mesmo "ação recíproca": um excesso de oferta faz o preço cair, e se cair muito gera um excesso de demanda que o faz subir, que se subir muito levará a novo excesso de oferta que o fará cair. Até sabe-se lá onde, mas muitas vezes levando ao equilíbrio.
ITERAÇÃO
 1. Ato de iterar; repetição.
 2. Álg.  Inform. Processo de resolução (de uma equação, de um problema) mediante uma seqüência finita de operações em que o objeto de cada uma é o resultado da que a precede.
INTERAÇÃO
 1. Ação que se exerce mutuamente entre duas ou mais coisas, ou duas ou mais pessoas; ação recíproca: &  &  
 2. Fís.  Ação mútua entre duas partículas ou dois corpos.
 3. Fís.  Força que duas partículas exercem uma sobre a outra, quando estão suficientemente próximas.

P.S.S. No outro dia que falei em morte, pena de morte, coloquei aquela espantosa pintura de Goya. Hoje, ao falar em preço, achei que não haveria nada mais natural do que mostrar uma foto de Gauguin, por suas vinculações com o sistema financeiro.

P.S.S.S. As imagens (exceto o pintor) vêm do inesgotável livro:


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