quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Educação, Sofisticação e Napoleão


Querido diário:

Estamos vivendo o mundo de Susan Sontag, "O Amante do Vulcão". Meu exemplar tem o selo de qualidade inigualável da Livraria Passos. Veio de segunda mão, mão abençoada que o fez acessível para mim. Mãos abençoadas.

Então tem a sra. Emma, que veio a casar-se com o Cavaliere. Ela, o marido e o -como diz Sontag - Herói, veem-se fugindo de Napoleão (apenas eles?, hehehe) do reino de Nápoles para a Sicília, instalam-se com outros refugiados. Num daqueles jantares refinados, com a presença de Lord Minto e Lorde Elgin, uma constatação deles e suas esposas, do trio que referi, e principalmente da própria Susan Sontag, vemos uma referência à sra. Emma:

   Seu traje: demasiado berrante. Sua risada: ainda mais alta. Sua tagarelice: mais incessante. Na verdade, ela era incapaz da reserva que as pessoas consideram elegante. Não só era palradora por natureza, mas achava que sempre devia dizer alguma coisa, e a arte das meias palavras lhe era tão estranha como a arte de esconder os sentimentos. Estava constantemente se exibindo, ou lisonjeando seu marido e o amigo do casal.

Que posso dizer de pessoas que 

.a. não cultivam a reserva que as pessoas consideram elegante e 

.b. são incapazes de lidar com a arte de esconder os sentimentos?

Que são mal-educadas, como é o caso de, pelo que andei contando, 203.435.544 brasileiros e brasileiras. E qual é a prova do que digo? É que, hoje de manhã, fui comprar numa loja de artigos de R$ 1,99 uma caixa da qual eu precisava conhecer as medidas. Sem espalhafato, pedi a uma vendedora para medir. Primeiro não sabiam se havia na loja que vende trenas trenas. Quero dizer, havia trenas à venda, mas a gerente da loja não sabia que as trenas servem para medir, ou não quis emprestar aquela para este. E -pecado mortal no modo capitalista de produção- nem se interessou por vender-me um exemplar, com ele mediríamos minha caixa, eu pagaria as duas mercadorias e sairia feliz. Pois apareceu a trena e a vendedora mediu a caixa que eu desejava adquirir. Achou 15. 

Olhei e pensei: ou esta caixa tem mais de 15cm ou juro que o banco central está avalizando a inflação no Brasil. Na verdade, as duas coisas. No caso, a garota não sabia -como verifiquei- a diferença entre centímetros e polegadas, nem avaliou criticamente a informação que a trena lhe dera. Une vraie horreur, como diria Napoleão antes e continuaria a fazê-lo depois de invadir Nápoles.

Maneiras elegantes e contenção da demonstração dos sentimentos são as bases sobre as quais se fundamentam sociedades com elevada renda per capita. E é por isto que Tony Blair e eu vivemos dizendo: education, education, education. E digo mais, sem esconder minha simpatia pelos menos aquinhoados: tem muita gente querendo enfunerar eles, inclusive alguns representantes da Esquerda Um, que acham que com a CPMF estarão ferindo os interesses dos ricos.

P.S. Fiquei horas pensando -à la Sontag- se deveria usar a expressão "enfunerar eles" como imitação da plebe rude. Como se vê, usei-a. Aquele 'enfunerar' que me acompanha desde meus tempos das conquistas matto-grossenses parece-me ter algo a ver com 'funéreo', 'funerária', algo muito temido pela classe alta e por todas as demais classes.

P.S.S. e escavei este 'Café Society', onde encontrei a expressão 'plebe rude', de autoria de Billy Blanco e cantado por Jorge Veiga. Mas tenho no ouvido (ambos) uma gravação diferente, mais estilo bossa nova. É? Chi lo sa?

DdAB
p.s. remeti de lá para cá. E postei lá:
Manejo do lixo, lixeiros, trabalho informal, trabalhadores informais, exploração DMLU, serviços urbanos de coleta de lixo.

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