quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Papeleiros: the truth


Querido diário:

Não sou pobre, mas porto a maior simpatia pelos menos aquinhoados. Porto também simpatia pelos ricos, por todos os indivíduos humanos. E tanto admiro os ricos, sua educação, seu estado de saúde, sua distância do cárcere, seu perfume, sua nutrição, sua decisão por prole pequena, que acho bem sensível que a sociedade tenha um bom plano de promover a riqueza dos pobres a ponto de equalizá-los aos ricos. Mas desejar enriquecer os pobres não pode ser declarado como 'ser contra pobre', é lógico.

Ocorre que existe uma confusão com relação à percepção das atribuições reservadas aos papeleiros pelos pobres, remediados e ricos. Tem gente que considera que aquele trabalho -para mim notoriamente precário- é um meio digno de "ganhar a vida". Tenho dito que eles respondem a uma terceirização odiosa por parte da prefeitura. Como pode o prefeito deixar uma fração substantiva da limpeza urbana por conta de trabalhadores que não sejam detentores de empregos decentes (com direito a repouso semanal remunerado, feriados, férias e aposentadoria)? Como pode essa fração da população apoiá-lo, apoiar este arranjo que nem mesmo serve para manter a cidade limpa? Um arranjo mal ajambrado e que permite o tratamento discricionário dessa fração da população. Nem falei dos vícios e doenças que lhes empanam e encurtam a vida. Volta e meia, ao conversar com papeleiros, percebo-lhes um hálito de cachaça, o que não é bom hábito (productivity enhancer) durante o horário de expediente.

Estes senhores papeleiros são pior que pobres (talvez tenham uma renda razoável, ganha como fruto de seu trabalho), mas são socialmente desvalidos, terceirizados perversamente.

Quem me lê com frequência há de saber que há muitos anos estudo a distribuição da renda, uma preocupação acadêmica tomando foros adequados e dando vasão aos valores morais e éticos que venho cultivando. Estes valores morais e éticos conduziram boa parte de minha reflexão e pesquisa enquanto economista. Nesta linha é que desde -provavelmente- minha segunda infância, comecei a tomar consciência da terrível diferença entre as oportunidades oferecidas a meninos pobres, em contraste com os meninos ricos.

DdAB
Imagem da tragédia veio daqui.

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