terça-feira, 12 de janeiro de 2016

El Chapo e o INSS


Querido diário:

Uma das mais importantes missões que me atribuí ontem era postar sobre a captura do sr. Joaquín Gusmán, codinome de El Chapo. A página 18 de ZH de ontem, não era isto?, fala que poucas semanas antes de sua prisão, ele deu uma entrevista ao ator Sean Penn (acompanhado da atriz Kate del Castillo) e que foi recentemente publicada na revista Rolling Stone.

El Chapo disse algo que serve como colomi para minha visão madre-teresesca do mundo melhor, da sociedade do futuro, da luta que se descortina para aqueles que consideram que os piores males da sociedade contemporânea se desvaneceriam sob o funcionamento da sociedade igualitária. Diga lá, El Chapo:

   A Rolling Stone também divulgou um vídeo em que Guzmán afirma  que trafica drogas desde antes dos 15 anos porque em sua cidade natal, La Tuna, 'não havia oportunidades de trabalho'.

Será apenas uma declaração irresponsável desenhada para nos deixar culpados pelos atropelos da vida, inclusive aquele que denunciei há dias e que teve como figure du rôle o menino Wellington Menezes de Oliveira (aqui), ou apenas a expressão da verdade que teria salvo a vida do xará do político Wellington Moreira Franco, governador do Rio de Janeiro, quando o primeiro nasceu e, no devido tempo. assassinou a petizada? Quero dizer, sem emprego decente, sem educação decente, não há cidadania decente. Enquanto houver um tresloucado rapaz (Wellington) ou um talentoso rapaz (El Chapo) deixados ao léu, teremos a oportunidade de ver espetáculos degradantes.

Emprego para Wellington? Claro, por exemplo, ele poderia ser, pelo menos, o handy-man da própria escola, o quebra-galho, ou o porteiro, ou o motorista do ônibus da escola que costumeiramente leva e trás crianças para as atividades de visita a museus, cidades históricas. Ou porteiro de museu? Ou motorista, ou sargento da força pública, regente de sua banda, violonista, violinista, químico industrial, sei lá? El Chapo, mesmo sem instrução formal, se é que entendo bem que ele teria fugido da escola aos 15 anos, procurando trabalho, poderia ter estudado numa business school da filial mexicana ou da própria matriz americana.

Sabemos que William Baumol, em um daqueles artigos acadêmicos de deixar louco quem jurou que ele ganharia o prêmio Nobel de economia, dividiu os empresários schumpeterianos em produtivos, rent-seekers e destrutivos. Obviamente, se Henry Ford ou Bill Gates, são classificados como produtivos, Eduardo Cunha, Prisco Vianna, etc., são rent-seekers, cabe a Fernandinho Beira-Mar e ao próprio El Chapo caírem na classificação dos empresários destrutivos. Até onde teriam ido Beira-Mar e El Chapo, digamos, dentro da lei? Distribuição de drogas rima com indústria farmacêutica? Com indústria do entretenimento?

Escancaram-se duas lições, pelo menos. A primeira é que a sociedade perde tanto em não investir na educação de suas crianças (e demais indivíduos, numa concepção de escola para a vida inteira) que não consegue avaliar e nem mesmo ligar causa (Wellington Menezes não recebeu tratamento decente durante 23 anos de vida) com efeito (o assassinato das crianças e o tráfico de drogas). A assistente social que poderia ter saldo Wellington poderia, de sua parte, contar com escolas adequadas para dar vazão ao talento pianístico de seu filho caçula, cuja professora teria um marido tomando conta do sistema de iluminação pública da cidade, este teria a filha, etc. O círculo virtuoso do emprego, a variável chave da sociedade igualitária, claro!

Em compensação, a página 13 do mesmo jornal, com data de hoje, tem uma notícia que insere outra que me faz rir. Rir? É que:

   O presidente da Confederação Brasileira de Aposentados, Pensionistas e Idosos (Cobap), Warley Gonçalves, criticou o reajuste [das pensões e aposentadorias]. Segundo ele, as perdas salariais alcançaram índice de 86% nos últimos 17 anos, de acordo com cálculos da entidade.
   -De 1991 a 2016, estamos com 86% de perda salarial, somando todos os anos. Do jeito que as coisas estão indo, vamos todos começar a ganhar salário mínimo, então. Se o governo quer que todos os trabalhadores se aposentem com o mínimo, que faça uma medida provisória, apresente um projeto. Pelo menos assim ninguém será enganado.

Estava eu coçando a cabeça com a mão direita, o que me fez espichar a esquerda até o copo de cachaça que, providencialmente, localizava-se ao lado esquerdo da mesa. Dei um valente gole e pensei que não é impossível que o sr. Warley ou seus assessores também tenham fugido da escola (ou empinarem da que matou o guarda ao prepararem a entrevista). Primeiro, a renda se divide em salário (remuneração dos empregados) e lucro (excedente operacional bruto) e ainda os impostos indiretos líquidos de subsídios.

Pelas regras em vigor na língua portuguesa, o substantivo salário não é sinônimo de rendimento das aposentadorias e pensões. Estas, por sinal, não fazem parte da renda nacional, se não me torno vulgar com esta redundância, e -para evitá-lo- falo das transferências interinstitucionais da contabilidade da sociedade. No caso, os aposentados e pensionistas ganham dinheiro que lhes é repassado pelo governo ou de mão beijada ou por terem contribuído para um fundo de pensão que não tenha sido roubado, como é o caso do dinheiro do INSS do Brasil.

Tão desastrada é aquela referência ao ano de 1991 que imediatamente fiquei indagando por que não se toma como base da vida nacional o ano de meu nascimento. Ou, por que não?, o ano de 1994, quando o Brasil sagrou-se tetra-campeão mundial de futebol?

Por contraste a esta visão de que o salário mínimo é um indexador do que quer que seja que não o piso das remunerações no mercado de trabalho leva a que o PIB do Brasil (ou qualquer país idiotizado que usasse o salário mínimo como indexador generalizado) seja afetado de maneira perversa. Isto é, o salário mínimo deve ser um instrumento de punição para as empresas ineficientes e, como tal, um economizador de trabalho, isto é, um instrumento para forçar a elevação da produtividade do trabalho em toda a economia. Empresa que não pode pagá-lo deve reciclar-se ou, sendo incapaz de fazê-lo, deve fechar as portas, ter uma desvalorização de capital, ser vendida por um preço mais baixo do que o que vigoraria em caso de sucesso, e levar a nova e atraente taxa de lucro.

DdAB
Pedi ao Google Images "El Charo y el salario minimo" e ele deu-me a imagem que nos encima e rastreável ao clicarmos aqui. Não pude conter pensamentos sobre quem suja mais as praias, se os turistas incultos ou essa garota que ainda pode tornar-se uma milionária traficando drogas ou tocando violino em alguma grande orquestra sinfônica do mundo decente.

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