sábado, 26 de dezembro de 2015

Ulysses: lições de Julio Cortázar

(balão de fala com três pontos)

Querido diário:

Hoje é sábado, amanhã é domingo. Sabemos, bem sabemos. Também sabemos que todo mundo sabe que este é o começo de um poema de Vinicius de Moraes, levando por título "O Dia da Criação". Ontem falei n"O Dia da Saudade", é justo que o 26/dez/2015 tenha as lucubrações joyceanas que começo a fazer. [Por falar em 'justo', é estupidamente injusto que ainda existam palhaços que comem lixo, como se ouve na canção. E o pior é que seguirão existindo, pois não há o menor sinal de mudança de rumos para uma sociedade igualitária].

Joyce, como sabemos e por aqui postamos, volta e meia escrevia suas frases com dois pontos, mais dois pontos. Pensei ser uma singularidade até dar-me conta de que Guimarães Rosa e Campos de Carvalho também o fizeram. Mas ficou faltando a expansão do modelo analítico e pensar no que teria acontecido com a análise dos três pontos encadeados por nosso autor dublinense.

Dublinense? Sim, dublinense, que talvez tenha inventado a sequência de dois pontos e mais dois pontos (verticais) na mesma sentença. Pois é certo que há controvérsia sobre se as diferentes versões em inglês e traduções que conheço (português e espanhol) carregam o mesmo ponto gordo no final do capítulo 17. Encrenca certa, pois nem todos dividem as três partes do livro nos 18 capítulos que outros dividem.

Minha leitura padrão em português é a tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro. Em sua página 787, final do capítulo 17, temos um pontinho:

Onde?
.

E que tem isto a ver com o imortal Julio Cortázar? Falo agora da edição de 2008 da Alfaguarra de Buenos Aires. Lá na página 379, encerra-se o capítulo 56, o que é sinalizado com três pontos alinhados horizontalmente, no rez-de-chausée, como diriam lá as personagens dele próprio. Não há nada de parecido no "Ulysses" joyceano.

Mas existe no "Rayuela", de Cortázar, outra regularidade que chega a parear aqui e ali com "Ulysses". Trata-se agora de três pontos no plancher, por assim dizer. Vemos a primeira da edição Alfaguarra no primeiro parágrafo do primeiro capítulo da primeira parte, na página 21, na quarta linha:

d  i  st  i ngu  i  r

E Joyce? Joyce teria deixado "Ulysses" para trás? Vejamos a versão Bernardina, que escreve na página 30:

s i f i l í t i c o

Parece que estas evidências não encerram a polêmica sobre sucessões de pontos inferiores a quatro. De fato, o terceiro "i" de "Ulysses" tem o ponto do 'i' e o acento agudo da língua portuguesa, abrindo perspectiva para novas investigações.

DdAB
Imagem daqui.

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