sábado, 28 de novembro de 2015

A Cult como Diálogo Dois


Querido diário:

No outro dia, postei aqui uma postagem sobre a matéria de capa da revista Cult, n. 206, ano 18, out/2015. Fiquei tão impactado que decidi ler e reler algumas vezes, refletindo praticamente sobre cada sílaba e seu correspondente fonema. Pois então. Passo batido pelo artigo de Luiz Carlos Bresser-Pereira, por já haver catalogado boa parte de minhas divergências com sua visão sobre o Brasil/2015, em especial, a "reindustrialização".

Pois então. Das páginas 42 à 44, lê-se o artigo "O Descompasso entre República e Democracia", de Maria Abreu. Vou citar trechos que, espero, não distorçam a intenção globalizante da autora.

[... o] governo liderado pelo PT agiu de forma limitada em duas frentes: (1) colocou como prioridade a democratização econômica por meio de uma renda básica e o acesso ao consumo, sem tocar em postos cruciais da desigualdade, como os benefícios obtidos pelo sistema financeiros e a tributação dos mais ricos, e (2) ampliou a participação social no interior do próprio Executivo, sem atuar em outros campos sociais de modo a transformar valores sociais e reduzir a cisão social entre ricos e pobres, privilegiados e desprivilegiados - de modo amplo - o que talvez viabilizasse inclusive uma representação legislativa diferente. [...] Com a crise econômica e o esgotamento de inclusão adotado, o quadro que se formou foi de repulsa ao governo pelos segmentos mais ricos, porque perderam alguns referenciais de sua distinção, e por parte dos segmentos mais pobres porque não foram, de fato, incluídos. Agora, com a ameaça de cortes financeiros inclusive nos programas sociais, o governo corre o risco de perder também a sua base social mais sólida. [...] O fracasso do PT no governo, no sentido da consolidação republicana do país, é necessariamente o de todos os governos que o antecederam.

Entendo o fracasso da política, pois parece-me que o sucesso econômico requereria precisamente força política especialmente para mudar o imposto de renda. Não se precisaria de mais de uma alíquota de 35% para o imposto de renda para, digamos, quem ganha mais de R$ 10 mil por mês. Ademais, já deixei bem claro que jamais perdoarei Lula e Dilma por não terem transformado a bolsa família em renda básica.

Pois então. Páginas 46 a 49 - artigo de Ruy Braga, intitulado "Contornos do Pós-Lulismo" e destaco uma passagem devastadora:

Além da absorção de milhares de sindicalistas às funções de assessoria parlamentar, cargos em ministérios e chefias de empresas estatais, parte da burocracia sindical ascendeu a posições estratégicas nos conselhos dos grandes fundos de pensão das estatais administradas como fundos de investimento, assumindo, em acréscimo, posições nos conselhos gestores do BNDES, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Assim, o sindicalismo lulista trnasformou-se não apena em um ativo administrador do Estado burguês, mas em um ator-chave da arbitragem do próprio investimento capitalista no país. Por meio da ocupação de postos nos conselhos dos fundos de pensão e dos bancos públicos, a alta burocracia sindical 'financeirizou-se', isto é, fundiu seus interesses de camada social privilegiada ao ciclo de acumulação do capital financeiro. Desta forma, o petismo militante nas greves e nos movimentos sociais dos anos 1980 e parte dos anos 1990, afastou-se de suas origens, tornando-se um sócio menor do bloco do poder capitalista no Brasil. 
[...]
Vale destacar que, ano após ano, o número de acidentes e mortes no trabalho cresceu e a taxa de rotatividade do emprego aumentou, dois indicadores claros de deterioração da qualidade do trabalho criado durante o lulismo. E como seria diferentes se os principais motores do atual regime de acumulação [itálico original] pós-fordista e financeirizado são a indústria da construção pesada e civil, a agroindústria e o setor de serviços? 
[... o] governo Dilma Rousseff decidiu atualizar o regime de acumulação priorizando a estratégia da espoliação social. O país está vivendo uma transição na qual o velho ainda não morreu, mas o novo não tem força para nascer[grifo meu]. Os contornos desta era pós-lulista ainda não estão totalmente definidos. No entanto, algo parece claro: o momento atual anuncia o fim da relativa pacificação social eque marcou a última década na história brasileira. Em síntese, entramos em uma nova era de luta de classes na qual o centro da vida social deslocou-se para os extremos do espectro político. Tempos interessantes nos aguardam.

Pois então. Como evitar a espoliação social? Primeiro, a renda básica universal, segundo, o emprego no serviço municipal, atraindo aqueles que desejam trabalhar, com ganhos cumulativos sobre a renda básica. Terceiro: expandir a construção civil geradora de emprego de baixa qualificação (Minha Casa, Minha Vida). Quarto: acabar com a baixa qualificação via educação. E por aí vai a vida.

DdAB
Peguei a imagem do site oficial do conjunto Plebe Rude. E lembrei especialmente do último autor que citei, com a expressão do samba de Billy Blanco.

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