sábado, 17 de outubro de 2015

Horário de Verão: ontem e hoje


Querido diário:

Todos bem já sabemos que, em 1995, lancei meu primeiro livro: A Cura da Época Futura. Porto Alegre: Ortiz. 239p.

E que nas páginas 63-66, reproduzo o artigo

Todos madrugando, alguns lucrando. [que reproduzi aqui]

E que o original foi publicado (em português) no Bulletin of the Oxford University Brazilian Society. n. 3 p. 6-7, em outubro de 1989.

E que meu argumento era que o horário de verão que estava começando por aqueles dias no Brasil (e mais ou menos terminando lá no reino em que, então, eu morara) gerava mais-valia relativa e absoluta. A mais-valia relativa queria dizer que aquela simples mudança nos ponteiros do relógio levava a uma economia de energia, elevando a produtividade do sistema, sem distribuir seus ganhos aos trabalhadores. E a mais-valia absoluta era que se lhes roubava uma hora em outubro, devolvendo-a, sem juros, apenas em fevereiro.

Hoje no jornal as duas páginas centrais inteirinhas tratam do assunto. Primeiro, dizem que o horário de verão está completando 30 anos no país, depois do período getulista em que foi ativado e desativado... Acho que combate era mais à ditadura do que às economias da prática. Segundo, no domingo, começa o horário de verão 2015-2016 nas regiões centro-oeste, sudeste e sul. Uma população atingida de 129,4 milhões de habitantes.

Segundo o jornal, a economia de energia será de cerca de 2,5 mil Mw. A isto se chama de mais-valia relativa, pois é um ganho de produtividade originário do melhor uso dos recursos por parte de toda a população (trabalhadora). Como sabemos, um chuveiro gasta lá seus 2.500 mega watts. E o récord monetário foi de R$ 405 milhões (creio que a preços correntes em 2013-2014. No ano seguinte, o valor monetário da economia foi inferior em R$ 127 milhões (creio que roubados por políticos). No ano gordo, a economia foi de R$ 3,2 por habitante destas três regiões do Brasil. Em termos físicos, a economia é de 19,3 watts por habitante. Lá naquele artigo, pelos cálculos que fiz em minha -então- moderna calculadora Sharp, a economia teria sido de 6,1 watts por habitante para todo o Brasil. Ou seja, há uma certa discrepância um tanto inaceitável. Sei lá se confio no Bulletin of the Brazilian Society ou na Zero Hora.

Mas tem um cálculo que não muda, a não ser a taxa de juros. Que acontece caso eu separe uma unidade do que quer que seja, por exemplo, uma hora de meu tempo e a aplique a uma taxa de juros de 5% a.a. durante os 126 dias da encrenca (com aquela dubiedade do limite ser 20 ou 21/fev/2015). Então

Ct = C0 x (1 + 0,05/365)^126 = 1,017

ou seja, nossa mais-valia absoluta é de 1,7%.

Que quero provar com isto? Muita coisa, inclusive lembrar que uns anos antes de ter escrito o artigo eu começara a usar os instrumentos analíticos que me foram dados pelo conhecimento que adquiri da teoria econômica para pensar no outro lado das questões. Em geral, era o lado que sobrava para o povo. Passei a interessar-me mais agudamente pela questão distributiva. A verdade é que eu estudara em microeconomia aquela xaropada neoclássica da formação do preço dos fatores. Caí na verdadeira real sobre o mercado de trabalho apenas alguns anos depois, quando comecei a lecionar macroeconomia.

DdAB
P.S. A encrenca termina no dia 21 de fevereiro, ou melhor, o 21/fev é um domingo e acho que o negócio termina à meia-noite de sábado. Em outras palavras, no dia 21 não haverá mais economia.

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