terça-feira, 11 de agosto de 2015

Marx e o Agribusiness


Querido diário:

No outro dia, falei nas dezenas de livros de leitura literária que estou lendo/fazendo. Nem referi, nem costumo fazê-lo, as centenas de "economia", os milhares de "filosofia", os milhões de "cultura geral" e os bilhões de estrelas do universo conhecido, digo, de astronomia e astrofísica. Um mundo milionário.

Segue-se logicamente (digo-o por homenagem brincalhona à profa. Brena Fernandez que hoje cruza o Equador. 'Logicamente?', indagaria ela, curiosa.) que estou lendo

HARVEY, David (2013) Para entender O Capital; Livros II e III. Rio de Janeiro: BoiTempo. (Título original: A Companion to Marx's Capital, Volume II. Tradução de Rubens Enderle).

Em compensação, na página 263, Harvey está falando do tempo de produção do capital. Isto é, como diria Stephen Hymer, coisas que ocorrem no recesso da fábrica e, segundo Marx, onde a entrada é proibida exceto para os negócios.

A agricultura é, como seria de esperar, a esfera em que é mais difícil reduzir os tempos de produção, e isso tem implicações para o capital e, mais ainda, para o trabalho. Marx cita longamente Kirchhof, que enfatiza os diversos impactos dessas distinções sobre o capital e o trabalho. Para esse autor, a sazonalidade das possibilidades de trabalho na agricultura é um grande problema. Na Rússia, por exemplo, o trabalho agrícola é possível apenas em 130 a 150 dias no ano, o que acarretaria sérios problemas, não fosse a produção organizada nas aldeias, com 'tecelões, curtidores, sapateiros, serralheiros, cuteleiros etc.' A 'unificação da agricultura com a indústria subsidiária rural' foi uma maneira eficiente de lidar com essa estrutura naturalmente sazonal.

Quem é esse Kirchhof? Ver nota 1. E que mais? Parece óbvio que, como disse o próprio Marx,

No capitalismo, tudo vira mercadoria, inclusive a honra.

Então pareceria mesmo óbvio que a produção agrícola cada vez se tornasse mais comandada pela mercantilização de todas as relações sociais.

E somos levados ao final do livro de David Harvey, quando ele fala no que sempre considerei um dos mais escandalosos mal-entendidos da história da filosofia ocidental, ou melhor, da economia política. Parece que a primeira e óbvia e pré-capitalista solução foi mesmo usar o tempo que não pode ser aplicado sobre as lavouras (neve e até o excesso de calor nos trópicos) para a prática de tarefas domésticas, como as citadas. É o início do agribusiness, que não tem  pinta de que vai acabar tão cedo. Inovações tanto de processos quanto de produtos.

Primeiro, no livro "Viagem na Irrealidade Cotidiana", Umberto Eco fala nas ovelhas capitalistas, isto é, ovelhas de focinho preto que foram sendo selecionadas ao longo de certo tempo e geraram uma "raça" de ovelhas de focinho branco, ou seja, um pelame de focinho não dissonante daquele do resto do corpo do pobre animal. Mais fácil de tosar, mais fácil de juntar a lã, aquelas coisas. Esta ovelha é um produto novo.

Segundo, o simpático livro

MAETERLINCK, Maurice (2002) A vida das abelhas. São Paulo: Martin Claret.

diz em sua página 18:

   Em poucos anos, quebrou-se a rotina da apicultura. A capacidade e a fecundidade das colmeias acham-se triplicadas. Estabelecem-se por toda a parte cortiços vastos e produtivos. Desde esse momento, findou o inútil morticíio das cidades mais laboriosas e a odiosa e contraproducente selação, que era consequência disso mesmo.
   O homem tornou-se realmente o senhor das abelhas, senhor furtivo e ignorado, que dirige tudo sem dar ordens, e é obedecido sem ser reconhecido.
   Repara as injustiças do ano.
   Reúne as repúblicas inimigas. Distribui igualmente as riquezas. Aumenta ou restringe os nascimentos. Regula a fecundidade da rainha. [...] Despoja, cinco ou seis vezes seguidamente, do fruto do seu trabalho as irmãs do bom convento, infatigável, sem as melindrar, sem as desanimar e sem as empobrecer.

Em poucos anos, tudo isto foi virando mercadoria. E é impossível visualizarmos um limite "natural" ao aumento da produtividade do trabalho (humano), com inovações que vêm em ondas, determinando novos processos e novos produtos. Meu exemplo brasileiro mais constante é que a soja tropical foi um produto encomendado. E entregue no devido tempo. E hoje enriquece uma turma de agricultores do centro-oeste.

De quebra, naquela lição da exploração da abelha pelo homem, vemos uma dica para acabar com a desenfreada reprodução humana que, hoje, foi relegada apenas aos pobres. Na Nigéria, no Brasil, no etc.

E isto é só? Claro que não, voltemos a David Harvey. Estamos agora na página final dos capítulos, esperando apenas para ler as reflexões que sucederam (no local pertinente) sua linda introdução. Estamos nos comentários de Harvey sobre o volume 2. E na seção superfinal (p.360-362) intitulada "A possibilidade de um planejamento socialista racional", o próprio Marx está falando na 'sociedade comunista'. Harvey, no início da página 361:

   Ele também afirma, no capítulo 49 do Livro III (escrito antes dos principais estudos teóricos dos anos 1870, mas no qual os esquemas de reprodução fazem uma breve aparição), que 'mesmo depois que o modo de produção capitalista é abolido, embora a produção social permaneça, continua a prevalecer a determinação do valor no sentido de que a regulação do tempo de trabalho e a distribuição do trabalho social entre os vários grupos de produção tornam-se mais essenciais que nunca, assim como sua contabilidade'(C3, 991). A implicação é que Marx pensava que os esquemas tinham um papel importante no desenvolvimento do planejamento socialista nacional.

Dali a pouco, nesta mesma página, David Harvey fala mais sobre a organização do trabalho na sociedade pós-capitalista (usando meu termo agora e não o dele). E na página seguinte, temos o que me pareceu o maior mal-entendido de todos os tempos, inclusive na origem do estalinismo:

No exemplo aritmético de Marx, toda a expansão é movida por mudanças no setor I. Disso deriva a visão, já mencionada, de que o planejamento econômico e desenvolvimentista deveria concentra investimentos na produção de bens de capital e meios de produção, e só mais tarde, cuidar da produção de bens de consumo. O modelo socialista de desenvolvimento adotou esta convenção ao pé da letra. [...]
   Não há absolutamente nenhuma razão para qu o setor II dependa do setor I. Essa ideia surgiu em consequência de uma escolha arbitrária de Marx e do caráter desigual das relações entre os dois setores que surgiu do impacto de um grau maior de entesouramento no setor I em relação ao setor II. O desafio da transição socialista seria, é claro, eliminar essa diferença. Com isso, seria plenamente e possível inverter a relação e pôr o setor I a serviço do setor II. Sob relações sociais capitalistas isso seria impossível, como disse Marx, porque o objetivo do capital é acumular capital, e não satisfazer as necessidades físicas e de consumo das massas. Num mundo socialista/comunista, porém, objetivo seria exatamente o inverso.

Primeiro: o final não me agrada. Não creio que esta primazia do setor II seja apanágio do socialismo. Por que o seria? Segundo, os tempos de rotação do capital cada vez mais convergem ao uso dos capitais financeiros, a mercadoria fica mais e mais distante do recesso da fábrica, inclusive por meio da produção de signos e subjetividade (esta expressão também não é originalmente minha, ainda que, neste momento, nem lembre de onde me veio, talvez Félix Guattari).

Terceiro: se é que podemos pensar em um setor de agribusiness como tenho descrito aqui (e daqui a pouco, teremos a indústria dos minerais não-metálicos fazendo canequinhas para usar nas cafeterias), estamos jogando no lixo aquelas prescrições de que o Brasil contemporâneo precisa porque precisa porque precisa reindustrializar. Insisto: o Brasil precisa é gastar em educação, talvez colado ao gasto no sistema judiciário (policiais e juízes).

DdAB
Imagem daqui. Tu viu o que eu tenho dito? De uma banana podemos fazer até uma lâmpada maravilhosa e chamar nosso Aladim para dela extrairmos pão e rosas, telefones e fisioterapia, trens e lanchonetes. E tu sabe que, durante minhas estadas um tanto conturbadas pela Europa, nunca de núncaras vi banana maçã, só estas da foto da lâmpada de Aladim?

Nota 1: aquele nome de Kirchhoff não está na Wikipedia em inglês. Mas está aqui, presumo, pela idade, pela profissão. Em minha edição do segundo volume do Capital em alemão, na Literaturzveizeichnis, em plena página 527, lemos:
KIRCHHOF, Friedrich: Handbuch der landwirthschftlichen Betriebslehre. E por aí vai.
Nota 2: eu ima emendar como final da postagem uma diatribe contra o Anselm Jappe, mas decidi apenas fazer o registro nesta altura. A questão é se o capitalismo que hoje vivemos tem mesmo ou não possibilidade de vida longa. Digo que sim, digo que o agribusiness pode jogar o Brasil para frente, se não for, como tem sido, estragado pelos adoradores da indústria.
JAPPE, Anselm (2011) As aventuras da mercadoria; para uma nova crítica do valor. Lisboa: Antígona. Tradução de José Miranda Justo.

Nenhum comentário: