quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Divagando com Paris: vida, morte e todo o resto


Querido diário:

Discutindo temas transcendentais com a profa. Paula de Paris durante uma de suas agradáveis (e suarentas) aulas de musculação (51+9144.9146, professora de Pilates e personal trainer), falamos sobre a finalidade da vida. Finalidade da vida? A morte, claro. A vida não finaliza quando a gente nasce, não é mesmo? Mas vida rima com morte de maneira interessante, conforme expressa um pensamento muito maneiro que li naquele tempo em que a revista Ciência Hoje, da SBPC era vendida em bancas. Originou-se ele, pensamento, de uma entrevista, ou algo menos pessoal, que lhes deu -se bem lembro- um médico, professor da Unicamp:



Viver como se fosse morrer amanhã. 
Estudar como se não fosse morrer nunca.

Parece que achamos, sem maiores esforços (a não ser o que despendi adquirindo a revista em um tempo em que o nome da moeda girava mais que as estações do ano), a chave da felicidade: a busca do conhecimento que nos é cedido pela meditação e pelo estudo (rodapé 1).


O começo, nada pode ser mais começo do que o parágrafo inicial de um livro. Selecionei, então, o que consta da página 13 do livro de Cirne-Lima (rodapé 4):


De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido do mundo e de nossa vida? O universo teve um começo? Terá um fim? Há leis que regem o curso do universo? Estas leis valem também para nós? Podemos desobedecer a estas leis? O que acontece quando desobedecemos a elas? Há recompensa e castigo? Há existência após a morte? Pode-se pensar, sem contradição, uma vida eterna, uma existência após a morte? Pode haver um tempo depois que todo tempo acaba? Pode haver um depois após o último e definitivo depois? Afinal, o que somos?

Se me não faltarem os camonianos engenho e arte, em particular, força de impulsão e imaginação criativa, pretendo -como tenho anunciado a agentes decisórios próximos- escrever, no devido tempo, "um depoimento sobre meu tempo". Não quero dizer ter deixado que outros passassem em branco, sem registro, apenas assinalados por feixes de neutrinos que perpassam muitos dos bares que frequentei na tentativa de expandir minha compreensão do mundo e, como tal, qualificar o agora já famoso depoimento.

Tudo indica que, se isto vier a acontecer, que iniciarei, que o capítulo inicial terá algo como "O Significado da Vida" para título, que me cheira até a um filme do grupo Monty Python (rodapé 2). Se tivesse que pagar royalties a alguém por usar este título para o capítulo inicial de tão escabelado depoimento, creio que deveria buscar os herdeiros dos filósofos gregos que, naturalmente, terão indagado esta questão em sua tenra infância. A mensagem central será: se na hora da morte nos acorre o desejo de sentir a empatia de outros, próximos ou profissionais, também devemos fazer com que este sentimento tome conta de nossa vida, voltando-se a terceiros, que vivam bem, que sejam felizes.


Não é de hoje que penso neste assunto da "finalidade da vida". Por exemplo, lembro de, em eras passadas, ter duas reflexões sobre o assunto, uma mais direta que a outra. Uma minha, outra de uma das irmãs.

De minha parte, caiu-me para escrever uma composição naqueles tempos do Colégio Estadual Júlio de Caudilhos, era o ano de 1965. O tema era


Ao morrermos só levaremos o que houvermos dado

Não lembro bem o que escrevi, claro, mas lembro de ter saboreado o jogo entre darmos e assim mesmo carregarmos. Claro que o primeiro item, levar algo conosco depois de descoberto o memento mori, é arriscado, mas se dermos, se formos altruístas, se exercermos empatia sobre os outros, poderemos ter um final mais feliz que o do avarento.

Pois minha irmã, estudante do Colégio Estadual Pio XII, naqueles tempos, tomou contato com a reflexão sobre nascer, viver e morrer (para o espiritismo, o pensamento completo era nascer, viver, morrer, renascer ainda, tal é a lei):

Quando nasceste, tu choravas e todos os demais sorriam. Faze de tua vida um espetáculo em que, durante tua morte, todos chorem e apenas tu sorrias.

Freud, que não era qualquer um, tem as seguintes reflexões que me foram passadas há anos (olhar aqui), ao ler Moacyr Scliar no caderno "Donna", página 6, de Zero Hora de 1st de novembro de 2009, domingo. Era o dia de finados. Falava-se sobre morte, finados e Freud:

E aí a pergunta emerge: o que podemos dizer a nós mesmos para afastar o espectro que teimosamente nos persegue? Numa entrevista dada ao jornalista americano George S. Viereck, disse Sigmund Freud: 

'Vivi mais de 70 anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas: a companhia de minha mulher, meus filhos, o por-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?'.

Eu mesmo disse o seguinte (mas, ao ler ali em baixo aquilo de 'palidez final', fiquei em dúvida se é mesmo texto de minha autoria): Estava Freud mentindo a si próprio? Estava desempenhando o papel que o mundo (ao menos o mundo psicanalítico) esperava dele, o papel de supremo guru? Pode ser. Não sabemos o que terá ele pensado, ou sentido, no momento do derradeiro suspiro, da palidez final. O que podemos fazer é falar ou escrever, é transformar nossa ansiedade em palavras.

E acho que, nestes quase seis anos, alcancei a compreensão de outras coisas mais relevantes sobre o tema. Um livro que se tornou importantíssimo para mim e que já li duas ou três vezes, cada vez com mais proveito (rodapé 3) é este de Yalom. Em sua página 17, lemos:

[...] Em meu trabalho clínico cheguei à conclusão de que uma pessoa pode reprimir não apenas a sexualidade, mas também todas as suas características humanas e em especial a sua natureza finita.

E isto liga com o resumo que fiz no final do livro, na página 212, com certas ediçõezinhas de minha parte:

Se entendermos nossa finitude, iremos:

.a. saborear o simples prazer de existir (dar sentido à vida)
.b. intensificar nossa compaixão por nós mesmos e pelos outros.

E na página 16 tínhamos: não ter consideração pelos outros [isto é, ser malvado] é uma forma de aplacar o pavor da morte. Por isto é que devemos ser bondosos, desenvolver empatia com relação a pessoas próximas e mesmo as distantes. Mas a questão é: como aplacar?  Talvez o primeiro pensamento de elevação do astral venha mesmo desta frase de Yalom:

Achatar [é um termo dele!] a racionalidade, excluindo nossa reflexão sobre o tema da morte, provoca o encolhimento de nossa vida interior.

E, na página 25, fala de uma paciente que sofria muito com o medo da morte aos cinco anos de idade, quando uma noite especialmente difícil procurou a mãe que lhe disse:

Você tem uma longa vida pela frente e não faz sentido pensar sobre isto agora. Quando você estiver muito velha e se aproximando da morte, estará em paz ou doente, e em nenhum dos dois casos a morte vai ser mal recebida.

Não é de agora que ando metido no tema, pois fiz dois conjuntos de teoremas sobre a idade. O primeiro é de um único princípio:

Nunca fui tão velho quanto hoje.

E o segundo se decompõe em três proposições auto-evidentes:

.a. é certo que vou morrer,
.b. é certo de que será de alguma causa,
.c. é certo que ficarei furioso.

E por aqui, um tanto redundante, mas com certas novidades, escrevi:

.a. a inevitabilidade da morte : é certo que vamos morrer (fora o “será de algo” e “ficarei injuriado”),
.b. a liberdade de viver como desejamos: esta é mais fácil - apenas falta dinheiro e depois faltará saúde,
.c. condição fundamental de solidão: disto, nem se fala. ninguém jamais dará a outrem toda a atenção desejada,
.d. ausência de significado ou sentido óbvio para a vida: isto repete o primeiro. 

Mas talvez seja por estas portas que se atravessa a religião, o oculto, essas coisas. Ateu como se declara no livro, há outra frase interessante do próprio Yalom sobre si mesmo na página 164. Indagado por um paciente sobre como lida com a morte, respondeu:

Tenho meus surtos das três da manhã com angústia de morrer também, mas acontecem muito menos agora, e, conforme envelheço, encarar a morte tem tido alguns resultados positivos. Sinto mais intensidade em minha vida. A morte me faz viver mais cada momento, valorizando e apreciando o puro prazer de estar consciente, de estar vivo.

Mas ainda tem mais Yalom (página 112). Sempre tendo presente que vencer a angústia/consciência da morte próxima ou longínqua é o melhor incentivo para procurarmos viver uma vida produtiva. Uma paciente terminal, em um grupo de pares, inconformou-se com a falta de perspectiva daquela gente. Ela deu-se conta de que a finalidade da vida pode ter uma forma de aproximação útil:

Decidi que há, apesar de tudo, uma coisa que ainda posso oferecer. Posso oferecer um exemplo de como morrer. Posso servir de exemplo para os meus filhos e amigos ao enfrentar a morte com coragem e dignidade.

Mudando de Yalom para Thomas Nagel [rodapé 5], no final do livro, no capítulo que fala da teleologia humana (a finalidade de nossas vidas):

[...] vou retornar às dimensões menores da vida humana. Mesmo que a vida como um todo não tenha sentido, talvez não haja motivo para nos preocupar. Talvez possamos reconhecer isso e simplesmente seguir como antes. O truque é manter os olhos no que está à sua frente e deixar que as justificativas se esgotem na sua vida e na vida das pessoas que estão ligadas a você. Se um dia chegar a indagar: ‘Mas qual é o sentido de estar vivo, afinal?’ – seja você um estudante, um garçom ou qualquer outra coisa – responda: ‘Não há sentido algum. Não faria diferença se eu não existisse, ou se não me importasse com nada. Mas eu existo e me importo. E isso é tudo.

Acho que isto fecha mesmo com aquelas outras reflexões sobre "o sentido da vida é dar significado à vida". Na finalidade última, dei-me conta, de acordo com o depoimento num grupo terapêutico de Yalom de uma velha senhora eneagenária com câncer terminal, que o importante, naquele caso, é ter uma morte digna, diz ela: "para dar um bom exemplo aos amigos e parentes".

Sei que isto não é tudo... Mas acho que também entra na parada o "otimismo construído": precisamos acreditar que estas racionalizações nos ajudam a viver bem. E precisamos viver bem para dar razão às racionalizações! Não quero amarelar na hora H, não quero apequenar-me em momento tão solene de minha vida, quero deixar --disse a velha senhora-- um bom exemplo aos amigos e parentes. Nesta linha também tenho o depoimento da tia que me foi transmitido pela dra. Carmen Daudt: "quero fechar com chave de ouro o livro de minha vida." Também quero. O fato é que eu existo e me importo com o que fui e como deixarei de ser. E isso é tudo.

DdAB

Imagem: ver finalzinho da nota de rodapé (1), mas não consegui alcançar a página original, embora tudo estivesse prometido aqui.

Rodapés:

(1) Coloquei esta frase ipsis litteris no Google e vieram 411.000 entradas. Natural, claro, mas o que me surpreendeu é que, já nas primeiras entradas, são citados -pela ordem de importância e charme- este blog, James Dean e Mahatma Gandhi. Pois então. Depois de dar uma olhadas nas fontes da frase charmosa, pedi as imagens correspondentes. Esta que vemos lá em cima estava entre as primeiras. Selecionei-a, pois parece-me uma foto de campeões. Não é qualquer um que consegue ver tanta simetria, tanta linha, tanta vida, tanto sonho, tanta vida, tanta harmonia, tanta vida. Tanta vida. E capturar tudo em 25cm^2 de papel.

(2) Não sou 100% inteirado da obra do grupo de performances nonsense britânico/britânicas, mas achei a referência a este título de filme aqui.


(3) YALOM, Irvin D. (2008) De frente para o sol; como superar o terror da morte. Rio de Janeiro: Agir. 

(4) CIRNE-LIMA, Carlos Roberto  (2003) Dialética para principiantes. 3ed. São Leopoldo: Unisinos. [De acordo com Eduardo Grijó, esta é uma introdução à filosofia, dando conta do recado até a era de ouro. E o livro de Richard Rorty's "A filosofia e o espelho da natureza" seria o da filosofia do século XX.


(5) NAGEL, Thomas (2007) Uma breve introdução à Filosofia. São Paulo: Martins Fontes.

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