sexta-feira, 31 de julho de 2015

Sou Inocente: mais clamores?


Querido diário:

Não podemos esquecer o caso do deputado Otávio Germano que festejou como proclamação de sua inocência a determinação judicial para arquivar o processo que o acusava de levar bijuja no escândalo do Detran. E agora temos novamente aquela encrenca do deputado Eduardo Cunha: uma vez que o nome dele foi citado sem autorização judicial, ele se declara inocente de ter recebido bijuja dos delatores da Petrobrás, bem como declarou ser calúnia ter passado minguados R$ 125 mil a uma igreja de Madureira, bem perto de Osvaldo Cruz, como diz a canção e a geografia urbana carioca.

DdAB
Imagem aqui. Pelo que pude avaliar pela foto, a igreja não é precária.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Fetichismo Industrial: tacar-lhe pau nos linkages já é minha ideia fixa


Querido diário:

O desenho que nos encima é de minha autoria, modéstia à parte. E o título é inspirado no conceito marxiano de fetichismo: uma ilusão que faz com que as relações entre os homens apareçam a nossos sentidos como relações entre coisas. Típico daquela turma que não coloca, como David Ricardo o fez, a distribuição como o eixo central da economia política. Eu coloco, claro. E acho que comecei a fazê-lo há 30 anos, ou seja, 10 depois de formado, quando comecei a lecionar macroeconomia no curso de graduação. Ao estudar o mercado de trabalho, comecei a entender coisas que até então me eram alheias, na medida em que meus estudos mais avançados restringiam-se à economia industrial.

E claro que fico à vontade para identificar o fetichismo industrial, pois eu mesmo fui vítima dele durante todos aqueles anos, inclusive os de formação no nível de graduação em economia. E depois ainda, naquele tempo da pesquisa do doutorado, mergulhei no mundo da matriz de insumo-produto. Isto não me levaria fatalmente à evasão do mundo da economia industrial, claro, mas empurrou-me para a área da economia do desenvolvimento. E aí segui pensando na distribuição como a chave que retém as chaves de todas as questões. Com meu orientador do doutorado (de onde rolou também a matriz de insumo-produto, eis que ele estava interessado no conceito de valor, entendido como a acumulação de todos os cristais de trabalho contidos em uma mercadoria, o que pode ser rastreado facilmente com a matriz inversa de Leontief).

Então pensemos inicialmente naquela equação que escrevi lá em cima, isto é, abaixo do texto "Matriz de requisitos de trabalho", ou seja, matriz dos requisitos diretos e indiretos de trabalho. Se soubermos o que é L, o que é lambda D, o que é B e o que é fD podemos ir direto aos cálculos. Mas vou começar explicando o que é o primeiro quadro, nomeadamente a matriz de insumo-produto. Trata-se de uma economia de dois setores, um rural e outro urbano (que poderia, se quiséssemos, representar a indústria, a adorada indústria).

Vejamos a primeira linha: o setor rural vende a si mesmo a quantia de 3 unidades monetárias de insumos (3 bilhões?, trilhões?, milhares?, irrelevante, mas o que importa é que são sementes, touros, essas coisas). Depois a primeira linha mostra que o setor rural vendeu para o setor urbano (trigo, soja, gado de abate, coitados dos bichinhos), faturando mais 5. Depois ainda o setor rural vende para a demanda final (alface, flores, essas coisas, depois representada por f^D) no valor de 7. Sabemos que 3 + 5 + 7 = 15, o que perfaz a demanda total dos produtos do setor rural. Se a demanda total foi de 15, de quanto será a oferta total? Também 15, lógico, pois estamos falando de identidades contábeis: ontem os 15 vendidos foram iguaizinhos aos 15 comprados.

E como foi a oferta do setor rural? Além daqueles 3 vendidos a si próprio, o rural adquiriu do urbano outros 6 (tratores, vacinas), mais insumos primários no valor de 6. Não disse? 3 + 6 + 6 = 15. E que são os insumos primários? Primeiro, lá em cima do quadro, aqueles 3, 5, 6 e 20 são os insumos intermediários (pois entram intermediariamente na produção dos dois setores (rural e urbano, claro) para atender a demanda final). Por isto é que a soma dos insumos intermediários (3 + 5) e a demanda final (7) perfaz nossos 15. Então, que são insumos primários? São insumos necessários à consecução da produção. Neste caso, somos obrigados a definir (por nossa conveniência, então nem somos tão obrigados assim...) os insumos primários como os domésticos e os importados. E que será um insumo primário importado? Por exemplo, um avião de pulverização de lavouras. E um doméstico? Aí chegamos na ótica do produto para o cálculo do valor adicionado (lembra que ainda temos duas óticas, a da renda e a da despesa final? e que esta encontra-se lá naquele f^D?). Pelo IGBE, temos

.a. remuneração dos empregados
.b. excedente operacional bruto
.c. impostos indiretos líquidos de subsídios.

Que são aqueles 20 de vendas do setor urbano a si próprio? Por exemplo, consultas médicas, refrigeradores de lanchonetes, cadeiras de barbeiro, mesas de bar, e por aí vai). E os 24 da demanda final? Digamos que são este computador em que agora escrevo, a tela em que lês esta postagem, a roupa que vestes, o relógio que me diz agora que ainda não são 20h00 desta quinta feira, meus chinelos, a água do copo em que bebi um gole. E assim por diante.

Vemos que 6 + 25 = 7 + 24, identidadezinha barbadinha que é chamada de teorema fundamental da contabilidade social.

E quais eram mesmo as três óticas de cálculo do valor adicionado? Duas delas estão na matriz de insumo-produto, a do produto, os 31 do 6 + 25 e a da despesa, os 7 +24. E a da renda? Não está aqui. Obviamente, é 31, mas apenas a matriz de contabilidade social é que a representa (aqui).

A última linha do primeiro quadro lá de nossa ilustração de hoje tem o que pomposamente podemos chamar de vetor do emprego, mostrando 5 empregados no setor rural e outros 15 no setor urbano. Para simplificar minha vida, vamos supor que estamos frente a uma economia fechada, ou seja, não há importação, o que faz os insumos primários corresponderem exatamente ao PIB. Então 6/5 = 1,2 é a produtividade do trabalho do setor rural e 25/12 = 2,1 é a do setor urbano. Obviamente, a produtividade do setor urbano é maior. E isto terá um desdobramento interessante que veremos daqui a pouco.

Então já sabemos tudo sobre a matriz de insumo-produto, ou melhor sobre a tabela de insumo-produto. A matriz é um troço matemático que não me reterá a atenção aqui. Mas o que há de interesse nessa matriz encapsulada pelo modelo de Leontief é que, ao resolver um sistema de equações, chega-se à chamada matriz inversa de Leontief, que mostra os requisitos diretos e indiretos de cada setor para poder fornecer uma unidade de sua produção à demanda final.

Então chegamos agora na hora da equação

L = λD x B x fD

Para determinar o valor dos quatro elementos da matriz L (que estão lá em cima, no terceiro quadro, sendo o primeiro valor dado por 3,1818), precisamos conhecer

.a. uma matriz diagonal de coeficientes de emprego por unidade de produção, aquela lambda-D,

.b. a matriz inversa de Leontief chamada de B (com base nos dados do quadro inicial podemos determiná-la até na unha, como dizem, mas o bom é usar um programa não mais sofisticado que o Excel). Ela é a endeusada matriz dos requisitos diretos e indiretos, cada elemento sendo chamado de linkage setorial. Por exemplo, 1,3636 quer dizer que, se a demanda final do setor rural cresce em uma unidade, a produção precisa crescer em 1,3636 unidades: uma para a própria demanda final e mais 0,3636 para produzir insumos para os outros setores (no caso, o urbano) de sorte a viabilizar que eles produzam os insumos que venderão ao setor rural. E novamente, e novamente, todos os 0,3636 (uns chamam de requisitos indiretos e induzidos).

.c. a matriz diagonal da demanda final, f^D, que apareceu para nós com nossos conhecidos elementos 7 e 24 na diagonal principal.

Então podemos dizer que L é a matriz de emprego, resultado dos cálculos (primeiro, determinar B, e depois pré-multiplicá-la por lamda-D e pós-multiplicá-la por f^D), e que mostra as quantidades de trabalho necessárias para produzir os insumos de cujos valores tomamos contato no primeiro quadro.

Então olha ele de novo aqui:


Então olha só o que temos aqui: aqueles 5 e 12, 17 trabalhadores, mostram o emprego final dos setores rural e urbano. Mas, se usamos aquela bruta equação para fazer a distribuição desses empregos de acordo com a produtividade e os requisitos de produção, vemos que aqueles 5 do setor rural viraram 4,7. E por quê? Pois sua produtividade é menor que a do setor urbano. E olha que os 3,1818 do setor rural são mais que o dobro dos 1,5273 do urbano. Por quê, se os insumos intermediários são 3 e 6, isto é, exatamente o dobro? Pois os requisitos diretos e indiretos do setor rural são menos produtivos que os do setor urbano. E o urbano encapsula mais trabalho direto e indireto que o rural, pois é o setor de maior produtividade. Olha que legal: o rural retirou insumos do sistema (da natureza) no valor de 3 + 6, mas devolveu apenas 3 + 5. Ou seja, a produtividade dos insumos nele é menor que a do setor urbano.

Parece que começo a chegar no final. Enorme missa para pouquíssima mirra. Mas essa pouca mirra é de poderes estupefacientes espantosos. Entendemos que os elementos de L originam-se das relações entre a produção, os requisitos de trabalho e a composição da demanda final. Mas tudo isto deixa claro que, para produzir mais, é necessário aumentar o emprego. Mas aumentar os linkages, isto é "fechar a matriz", ou ainda elevar os requisitos de produção (insumos) por unidade de produto, significa elevar os requisitos diretos e indiretos de trabalho, o que é precisamente o que a sociedade deseja economizar. E, se não é aquela sociedade idílica com que sonhamos, é a dos pesadelos que nos fazem sofrer, o capitalismo. Sua primeira lei de movimento manda economizar trabalho vivo em favor do trabalho morto: aumentar mais e mais a produtividade. Elevar linkages quer dizer jogar trabalho fora.

DdAB

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Promover a Indústria 8


Querido diário:

Chego na última postagem sobre o poder da indústria em promover o crescimento econômico. Diz o autor que vimos consultando desde aqui:


There are powerful empirical and theoretical arguments in favour of industrialisation as the main engine of growth in economic development. The arguments can be summarised as follows:

8. As per capita incomes rise, the share of agricultural expenditures in total expenditures declines and the share of expenditures on manufactured goods increases (Engel’s law). Countries specialising in agricultural and primary production will not profit from expanding world markets for manufacturing goods. These arguments are frequently mentioned in the literature and are often considered self-evident,though the recent literature increasing questions whether manufacturing will continue to be the engine of growth. We examine the empirical support for these arguments. In doing so, we may find that some of the arguments need to be qualified. They should also be considered in a temporal perspective. The applicability of different arguments may well differ in different historical contexts. The sources of growth change over time.

A lei de Engel é mais velha que a humanidade. Só que tem gente que pensa que ela vale apenas para a agropecuária. Mas olha o que diz este paper que está fazendo 20 anos:

[...] o ponto de vista de que as elasticidades da demanda pelos produtos industriais declinaram com a elevação da renda e com a acumulação dos bens de consumo duráveis nas economias industrializadas.

e que eu citei em 2001.

E claro que temos que ficar pensando, como alertei na postagem número 7 (ontem), se a negadinha está incluindo o agronegócio na indústria ou se o acha substantivamente igual à agropecuária.

E aqui destaco o que o autor diz:

These arguments are frequently mentioned in the literature and are often considered self-evident,though the recent literature increasing questions whether manufacturing will continue to be the engine of growth.

Ou seja, no tempo antigo viu-se correlação entre indústria e crescimento. E no caso da Nova Ásia também. Mas o problema é que o Brasil não está na Ásia e nem está no passado remoto. Estamos no mundo presente com os problemas e oportunidades do presente. E esta de que as fontes do crescimento mudam ao longo do tempo? Parece óbvio. E também tentei deixar óbvio que a maior parte da turma que pensa na industrialização como mandatória é nacionalista, não pensa na economia mundial como realidade a ser aprofundada e não a se reacionar contra. Claro que, hoje em dia, só podemos pensar na economia mundial a partir da instituição da renda básica universal.

Encerro aqui os comentários sobre as virtudes da industrialização. Isto não significa que não voltarei ao tema, mesmo que este se vista de incursões aos setores agroindustrial e terciário.

DdAB

REFERÊNCIAS
APPLEBAUM, Eileen, SCHETTKAT Ronald (1995). Employment and productivity in industrialized economies. International Labour Review, v.134, n.4-5, p.605-623.

BÊRNI, Duilio de Avila (2001) A produção social e seu caráter estrutural. Ensaios FEE, v. 22 n. 1 p.35-58.

SZIRMAI, Adam (2009) Industrialisation as an engine of growth in developing countries. United Nations University - Maastricht Economic and social Research and training centre on Innovation and Technology. Working Paper #2009-010.

Imagem: aqui.

Meus textos anteriores no blog sobre

ORIGINAL (aqui)
http://19duilio47.blogspot.com.br/2015/06/promover-industria.html

PRIMEIRO (aqui)
http://19duilio47.blogspot.com.br/2015/06/promover-industria-abaixo-agricultura-e.html

SEGUNDO (aqui)
http://19duilio47.blogspot.com.br/2015/06/promover-industria-item-2.html

TERCEIRO (aqui)
http://19duilio47.blogspot.com.br/2015/06/promover-industria-item-3.html

QUARTO (aqui)
http://19duilio47.blogspot.com.br/2015/06/promover-industria-item-4.html

QUINTO (aqui)
http://19duilio47.blogspot.com.br/2015/06/promover-industria-5.html

SEXTO (aqui)
http://19duilio47.blogspot.com.br/2015/07/promover-industria-6.html

SÉTIMO (aqui)
http://19duilio47.blogspot.com.br/2015/07/promover-industria-7.html

OITAVO (de hoje)
http://19duilio47.blogspot.com/2015/07/promover-industria-8.html
abcz

terça-feira, 28 de julho de 2015

Promover a Indústria 7



Querido diário:


Tenho postado até este momento seis memoriais discutindo a importância do setor secundário para a promoção do desenvolvimento econômico. De onde venho? Venho consultando-o desde aqui:

There are powerful empirical and theoretical arguments in favour of industrialisation as the main engine of growth in economic development. The arguments can be summarised as follows:

7. Linkage and spillover effects are stronger in manufacturing than in agriculture or mining. Linkage effects refer to the direct backward and forward linkages between different sectors. Linkage effects create positive externalities to investments in given sectors. Spillover effects refer to the disembodied knowledge flows between sectors. Spillover effects are a special case of externalities which to refer to externalities of investment in knowledge and technology. Linkage and spillover effects are presumed to be stronger within manufacturing than within other sectors. Linkage and spillover effects between manufacturing and other sectors such as services or agriculture are also very powerful.

Desde que pedi ao Google Images o que ele tinha de "spill over", vi maravilhas. A ilustração que nos encima é a primeira, primeiríssima, que apareceu. E o Google Tradutor falou em "transbordamento". E "linkage"? É "ligação, acoplamento". E daí? E tem aquele "trickle down", que se traduz por "pingar", "gotejamento", que são intuições interessantes, mas que nem sequer chegam a assumir o caráter de importantes. Que digo? Já digo.

Tenho dito que os linkages são praticamente irrelevantes. Ou seja, aumentar os linkages de um setor significa que ele estará usando mais insumos para gerar o mesmo ou -tomara- mais produto. Mas pode ser o mesmo, não é mesmo? Digo mais: imagina que um produto importado cria espantosamente grandes reduções de custos que baixam generalizadamente os preços e, como tal, caem os valores de todos os insumos. Cairão, claro, os linkages. Mas isto está longe de ser algo desejado na economia. E mais: naquela decomposição dos efeitos da variação da demanda total entre dois anos, fala-se em um efeito tecnológico e outro efeito de variação na demanda final. Este efeito tecnológico só faz sentido se for negativo, ou seja, se os linkages forem menores para gerar mais produto.

E os spill-overs? Dá uma olhada aqui, a fim de ver o que penso sobre as potencialidades dos gotejamentos da rama da mandioca, do suor do rosto dos engenheiros e marketeiros para fazerem redes de distribuição (setor serviços) internacionais dos produtos agroindustriais. A propósito, parece que quando esse nosso autor fala em indústria, ele não exclui agroindústria.

Por fim, os linkages, spill-overs e trickle-downs podem perfeitamente ocorrer com produtos importados (se houver divisas para os importar, claro). Mas o principal é que quem faz a difusão da inovação tecnológica e organizacional é mesmo o pessoal dos serviços, serviços prestados às empresas, mesmo que lotados em departamentos de dentro da firma.

DdAB
Imagem aqui.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O Postulado da Racionalidade: novidades


Querido diário:

Qual a razão de ser do postulado da racionalidade?

Ao tomar uma decisão sobre que curso de ação adotar, somos motivados por nossas crenças e desejos. E a forma como articulamos o tripé crença-desejo-ação é mais ou menos coerente com o fins que temos em mente destinado a alcançar certo objetivo que temos em vista. Se o agente age racionalmente e se conhecemos seus desejos, podemos prever suas escolhas. Se não aceitarmos que a ligação meios-fins segue contornos racionais, não temos um suporte lógico sólido sobre o qual basear-nos para fazer previsões.

Podemos agir sem pensar, com uma motivação espontânea ("in the spur of the moment"), podemos agir "no piloto automático". Mas, em boa parte das ações substantivas que adotamos, fazemo-lo com a cabeça, ou seja, agimos racionalmente. Procuramos tomar o remédio na hora certa (e às vezes esquecemos). Procuramos a alimentação saudável (e às vezes mentimos que costela gorda é benévola para a saúde). Procuramos caminhos mais curtos ou mais rápidos (e às vezes damos voltas e voltas (em milhares de bares) antes de chegar em casa). Procuramos métodos seguros para colar nas provas (e às vezes nos enganamos e somos flagrados pela professora Brena Fernandez). Procuramos o preço mais baixo (e às vezes pagamos chapetonadas). Procuramos exemplos e mais exemplos (quando apenas um bastaria).

DdAB
A imagem, ainda que apetitosa, é um contraexemplo, como o texto explica. E veio daqui.

domingo, 26 de julho de 2015

Anaximandro: Brasil XXI, mas também XX, XIX, XVIII, ...


Querido diário:

Hoje, domingo, 26 julho 2015, há uma postagem extraordinária no blog Anaximandro, o universo dança sozinho. Intitulando-se "modestas, é verdade...", imagino que estaremos vendo o primeiro choque do querido professor, ao retornar de seu pós-doutorado na Alemanha. Não lembro de ter lido em sua hagiografia registro sobre outra/s viagen/s ao exterior. É certo que a presente estada, mais longa, deve tê-lo marcado bastante pelo contraste de um cotidiano em um país decente e a vida atribulada de um brasileiro em seu país de origem. Julgo por mim. Julgo pelos pensamentos que, às vezes, me acorrem ao circular pelas ruas do chamado Sul-Maravilha, que minha experiência acima do Trópico de Capricórnio é até o Equador é rala.

Decidi transcrevê-la não tanto por perder a ideia geral, mas para poder ler, evocar, sofrer, dar risinho amarelo indicando "tá vendo?, não falei?, eu não disse? vou desencarnar e não ver o país decente que me prometeram na primeira infância e até hoje prometem aos novos infantes?, vou desencarnar assaltado, na fila da urgência hospitalar, da bala perdida, da colisão de trânsito, do leite contaminado, da enchente, da seca, de ódio, de dó, de comiseração, de compaixão, de empatia mal introjetada?"

Farei uma lista item por item, mas deixarei o registro original no apêndice, meu tradicional P.S.

. 1 temos pouco tempo e muito ainda por fazer, 
. 2 é inaceitável o arranjo que convencionamos chamar de equilíbrio social, 
. 3 em falhas graves, nossas virtudes são poucas e de baixa propriedade. 
. 4 em muitos há um apelo para uma radicalização, os da direita, mercado, os da esquerda, estado, no meio estamos nós, os de centro, sem problemas, estado, sem problemas, mercado, mas, por favor, vamos encaminhar mais efetividade para o combate às diferenças sociais, não faz sentido um país tão desigual ou com tantos em situação da mais absoluta miséria em muitas dimensões importantes para uma vida satisfatória.
. 5 precisamos mais, um outro estado de bem estar social, mais efetivo e de mais generosidade e solidariedade a favor dos que estão fora da nossa 'posição original'. 

. 6 os dois grupos acima, com os quais não me identifico, assumem ares de sabedoria suprema, ungidos pelos deuses da reforma, sabem na ponta da língua a solução, o método e como implantar o estado de bem estado social do zero de miséria e fome e de muita fartura e riqueza.
. 7 mais modesto e assumidamente triste com minha incompetência, reconheço que não sei o caminho da salvação e nem mesmo se atravessarei o portal do purgatório, o que venho de propor e saber é pouco, é uma combinação do Sen com o Lyndon Jonhson doméstico, o do combate a pobreza, não o da guerra, mais gastos em saúde e educação, contratos melhores para proteger os menos favorecidos e mais espaço para o debate público. 

. 8 ao contrário dos que querem controlar a grande mídia e a internet, mais liberdade ali, mais grande mídia e mais internet livre.
. 9 acabaria com as obrigatoriedades do serviço militar e do voto, 

.10 o lucro seria livre e o imposto progressivo sem procedentes, 
.11 substituiria o imposto indireto, gradativamente, em poucas palavras, apenas o razoável, 
.12 votos distritais, reeleições, menos e mais fortes, os partidos, 
.13 e um sentido absoluto de tolerância pelo diferente. 
.14 na economia, a nova bossa seria o trivial nas contas públicas, um banco central autônomo e bancos públicos com capital aberto e transparentes, 
.15 sinceramente, não há como apoiar privilégios para empreiteiros ou outros amigos da casa real, se quiser existir vai ter que se justificar com resultados guiados por princípios comuns a toda a gente. 
.16 é uma proposta modesta e conservadora, diriam os da esquerda, é estatizante e intervencionista, diriam os libertários, 
.17 como não tenho o dom da mágica ou o entendimento absoluta dos arranjos humanos, fico feliz com essa avaliação, errarei pouco, todavia.

Há ainda alguma coisa mais a dizer a acrescentar?  Parece-me a agenda perfeita! Inclusive a requerida modéstia contida no item 17 de minha interrupção da leitura. Quem sabe tudo? Quem não sabe que lhe falta algo para fechar o quadro, quem não sabe que injunções políticas podem ajudar a estruturar os instrumentos de política pública que devem consertar o início do sexto século do estrago? Quem não sabe que a lei do orçamento deveria ser cumprida? Eu penso que o começo do início é investir em educação. Mas não é nem na escola, nem no professor, nem no aluno. O início é montar o grupo de controle para impedir a roubalheira, a pedofilia, a violência intra-infantil, as péssimas condições de vivenda da petizada. E um grupo de controle sobre o grupo de controle. E outro e outro. E outro.

DdAB
P. S. Postagem original:
26 de julho de 2015 6h05min [domingo]

modestas, é verdade...
temos pouco tempo e muito ainda por fazer, é inaceitável o arranjo que convencionamos chamar de equilíbrio social, em falhas graves, nossas virtudes são poucas e de baixa propriedade. Em muitos há um apelo para uma radicalização, os da direita, mercado, os da esquerda, estado, no meio estamos nós, os de centro, sem problemas, estado, sem problemas, mercado, mas, por favor, vamos encaminhar mais efetividade para o combate às diferenças sociais, não faz sentido um país tão desigual ou com tantos em situação da mais absoluta miséria em muitas dimensões importantes para uma vida satisfatória.
precisamos mais, um outro estado de bem estar social, mais efetivo e de mais generosidade e solidariedade a favor dos que estão fora da nossa 'posição original'. os dois grupos acima, com os quais não me identifico, assumem ares de sabedoria suprema, ungidos pelos deuses da reforma, sabem na ponta da língua a solução, o método e como implantar o estado de bem estado social do zero de miséria e fome e de muita fartura e riqueza.
Mais modesto e assumidamente triste com minha incompetência, reconheço que não sei o caminho da salvação e nem mesmo se atravessarei o portal do purgatório, o que venho de propor e saber é pouco, é uma combinação do Sen com o Lyndon Jonhson doméstico, o do combate a pobreza, não o da guerra, mais gastos em saúde e educação, contratos melhores para proteger os menos favorecidos e mais espaço para o debate público. Ao contrário dos que querem controlar a grande mídia e a internet, mais liberdade ali, mais grande mídia e mais internet livre.
Acabaria com as obrigatoriedades do serviço militar e do voto, o lucro seria livre e o imposto progressivo sem procedentes, substituiria o imposto indireto, gradativamente, em poucas palavras, apenas o razoável, votos distritais, reeleições, menos e mais fortes, os partidos, e um sentido absoluto de tolerância pelo diferente. Na economia, a nova bossa seria o trivial nas contas públicas, um banco central autônomo e bancos públicos com capital aberto e transparentes, sinceramente, não há como apoiar privilégios para empreiteiros ou outros amigos da casa real, se quiser existir vai ter que se justificar com resultados guiados por princípios comuns a toda a gente. é uma proposta modesta e conservadora, diriam os da esquerda, é estatizante e intervencionista, diriam os libertários, como não tenho o dom da mágica ou o entendimento absoluta dos arranjos humanos, fico feliz com essa avaliação, errarei pouco, todavia.

[abcz]
A imagem é daqui, pura criança de cabelo loiro e olhos azuis! Claro que esta segregação racial não é segregação, pois é a Finlândia! No Brasil, tinha alemãozinho comendo lixo naquele documentário 'Santa Soja".

sábado, 25 de julho de 2015

Meu Amigo Cairo


Querido diário:

Hoje vi o nome de meu colega Cairo de Assis Trindade na internet. Olhei de cá e de lá e cheguei a este (clique aqui) site. E fiquei impressionado: como ele fez coisas nestes 53 anos desde que se despediu de Porto Alegre e se foi ao Rio de Janeiro. E achei muito mais coisa. E pensei que, assim que mudar de tecnologia de telefone celular, vou entrar em contato com ele. Quem sabe, poderei ser aluno de sua oficina literária, tentando melhorar o que posto neste blog (e escrevo em outros locais) com este marcador Escritos. Neste meio tempo, achei este poema genial:


Celebração

hoje é sempre melhor
do que ontem,
porque hoje é hoje,
esta coisa mágica,
única, surpreendente,
que se acaba de repente.

hoje é melhor
do que amanhã,
porque hoje é hoje
e estamos vivos
e plenos de tanto,
até não se sabe
como e quando.

hoje é sempre
melhor que sempre,
porque o hoje foge,
amanhã é um mistério
e ontem é só memória,
história, já era.

hoje é sempre
o maior presente,
porque a vida é agora,
esta hora de som
e luz e festa,
e este instante é tudo
o que nos resta.


DdAB
Neste clima, pensei em fazer dois hai-kais. Não o fiz, pois fiquei com medo de ser acusado de plágio. Seja como for, deixo registrado como homenagem cheia de afeto do adulto que reconheceu no menino o querido amigo de outrora.

primeiro:
hoje é sempre melhor
do que ontem,
porque hoje é hoje


segundo:
hoje é melhor
do que amanhã,
porque hoje é hoje 


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Por que Estudar História?


Querido diário:

E, pensa daqui, pensa dali, pensei numa resposta à pergunta "por que estudar a história": para entender quais são as estruturas do presente que têm o caráter necessário e quais têm o caráter contingente.

Necessário: por exemplo, o mundo é uma espaçonave cuja tripulação vai mudando, ou seja, somos mortais, mas há um projeto planetário humano mais grandioso que a sucessão das gerações.
Contingente: por exemplo, Napoleão poderia não ter nascido.

DdAB
Imagem de um site extraordinário aqui. Então, chover hoje é contingente. Se chover montes, o copo cairá: necessário.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Modelagem da Complexidade: silly e clever


Querido diário:

Volta e meia, filosofo em alemão, ou melhor, penso coisas de economia em inglês. Silly e clever são antônimos para "abobado" e "sabidinho". Claro que minhas críticas sempre se dirigem a interpretações silly do funcionamento do Terceiro Planeta de Sol. E a versão que dou dos acontecimentos de cada 24 horas, ou seja, cada rotação completa, é sabidinha, como sabemos, ou sabeminhos.

Conheço muita gente que se declara enturmada no pensamento heterodoxo, mas que na verdade esposa a modelagem silly, que transforma a beleza das interpretações evolucionárias como rebeldias da natureza, não percebendo a espantosa ordem que rege o que hoje vemos nas 24 horas da rotação planetária, dia após dia, era após era. Espécies nasceram e feneceram. Espécies nasceram e ficaram. Espécies ficaram e vão sumir. O planeta vai sumir. Mas tudo isto exibe enorme e espantosa ordem e pouco ou reduzido caos. Não posso deixar de exercitar alguma modelagem da linha da explicação funcional: nós, humanos tanto silly quanto clever, fomos selecionados em milhões de anos, milhares talvez apenas, precisamente para ver o mundo com estas regularidades. Isto não nos impede de buscar causas não completamente aparentes e não completamente perceptíveis pelos sentidos. Mas não abrimos mão da realidade como instrumento de calibração dos modelos, hehehe.

Quando os evolucionistas vulgares falam em complexidade, eles desejam colocar a descoberto um desequilíbrio que está totalmente alheio à extrema ordem que rege a maior parte das ações dos indivíduos.

É óbvio que o mundo real contempla assaltos, assassinatos, golpes de estado, colisões no trânsito, enchentes, terremotos, secas, furacões. Mas isto não impede que as crianças sigam sendo levadas à escola (ou criminosamente sendo deixadas fora destas), que o jantar de aniversário do chefe não seja uma balbúrdia e que o pão esteja disponível na prateleira daqui a uma semana.

DdAB
A imagem veio daqui, quando procurei no Google Images a cândida expressão: "espantosas regularidades". E não é para menos. Tanto a barriga dágua do guri como seu cocar e, no alto da direita, ao fundo, os traços escandalosamente regulares de uma oca. Ou seria um vulcão? As ocas são ligeiramente convexas para quem olha de cima e nosso fundo parece ligeiramente convexo.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Morno Marxismo: isto é comigo?


Querido diário:

A Carta Capital datada de hoje circula aos sábados (talvez até na sexta-feira em Sampa), mas -movido pelo ódio da incompetência na entrega porto-alegrense que às vezes pertence ao conjunto vazio- dei-lhe o epíteto de Capital dos Carta. Pudera, dada a presença de representantes da família Carta nas matérias, é mesmo um bom capital. Pois bem. Na página 51, há um interessante artigo de Antonio Delfim Netto, intitulado "Vitória de Pirro", falando de obviedades sobre as consequências do arrocho imposto à Grécia pelas autoridades monetárias europeias.

Ele -artigo e autor- tem (deveria ter dito 'eles têm'?) duas tiradas interessantes (espero que meus cortes não mude o sentido, como pareço já ter feito com outra crônica delfiniana):

.a. "Tsipras" [foi ... ] "buscar Yanis Varoufakis, um acadêmico que conhece a economia do mainstream, admira Keynes, tem um evidente viés marxista e é especialista em teoria dos jogos."

.b. "Nomeou para substituí-lo outro acadêmico, Euclid Tsakolotos, também conhecedor do mainstream e com um elegante tempero do morno marxismo da Universidade de Oxford."

Premièrement. Será que eu também tenho aquele charme e dotes motociclísticos de Varoufakis? E será que eu tenho esse mesmíssimo tempero da esquerda oxfordiana?

Como sabemos, há alguns anos, adquiri o livro de teoria dos jogos de Hargreaves-Heap e Varoufakis, que passei carinhosamente a chamar, entre os alunos de então, de H&V:

HARGREAVES-HEAP & VAROUFAKIS, Yanis (1995) Game theory; a critical introduction. Nova York: Routledge.

E sei que ele escreveu ou atualizou esta obra, mas ainda não a li.

Deuxièmement. E, como sabemos, o finado Andrew Glyn, reader da Oxford University, foi o orientador de meu doutorado. E, a certa altura de conversas informais, disse-me ter deslocado sua posição política do trotskismo para a social-democracia. E atribuía a ela a influência de seu grande amigo Bob Rowthorn, professor de Cambridge-UK. Creio que o suave tempero marxista pode ser identificado por uma palavra, que talvez seja o melhor resumo do legado de Glyn: igualitarismo. Ele não era lido em teoria dos jogos, mas certamente era keynesiano (ou, como dizem os heterodoxos, até mais kaleckiano do que keynesiano).

E eu? Tomemos o Varoufakis como tese e o Andrew como antítese. É dialética? É dialética marxista? É meu amado Carlos Roberto Cirne-Lima? Haverá síntese? Sou de esquerda, sou da esquerda esclarecida, sou igualitarista. Sou keynesiano (quase nada calequiano, por falta de leitura, por falta de comentadores de qualidade). Tento dizer que conheço em alguma profundidade tanto o mainstream quanto o canal heterodoxo. E agora sou muito mais refinado que nos tempos em que ministrei Introdução à Economia a Flávio Comim , que disse (aqui) que eu lhe ensinei

.a. mais-valia e

.b. marginal,

o que me encheu de orgulho e sensação de dever cumprido. E que era o 'marginal'? Basicamente aquelas relações tiradas da curva de demanda linear entre ela (isto é, a receita média), a receita total e a receita marginal. Pouco ou nada havia sobre custos (exceto a diferença entre custo social e custo privado), mas tinha uma curvinha de oferta positivamente inclinada e  inventei100 problemas sobre a teoria elementar do preço (baseados em Achyles Barcelos da Costa e na dupla Levenson&Solon). E que era o 'mais-valia'? Era basicamente o livrinho de Ernest Mandel que respondia pelo título de "Iniciação à Teoria Econômica Marxista" (veja se pode baixar clicando aqui).

Mas havia dois bons artigos moldando minha permanente preocupação em criar bases sólidas para a neo-heterodoxia (a propósito, o prof. João Rogério Sanson classifica-me como um neo-clássico de esquerda, o que me levou a este auto-epíteto/auto-elogio de neo-heterodoxo).

O primeiro artigo é de Oskar Lange:

HOROWITZ, David, org. (1972) A economia moderna e o marxismo. Rio de Janeiro: Zahar. p.66-83. Reproduzido da Review of Economic Studies, junho de 1935.
Digo eu: este é uma dos mais extraordinários e visionários materiais (artigos e livros) que já li.

E o segundo é:

WORLAND, Stephen T. (1972) Radical Political Economics as a Scientific Revolution. Southern Economic Journal, v.39 n.2 oct/1972.
 
Ambos os artigos deixaram claro para mim, de longa data, que não há uma mas, pelo menos, duas ciências econômicas, dois paradigmas, no dizer de Thomas Kuhn e sua aplicação mais direta à ciência econômica.

E que dizer do artigo de James Clifton sobre as transformações do capitalismo e a diversificação da empresa industrial, que se transformou em banco. Isto fez o capitalismo mais concorrencial e não "monopolista", pois o dinheiro é que tem a grande fluidez. E por isto é que, a partir da resposta que dei ao comentário de Ronald Hillbrecht na postagem de ontem, sempre que falar em valor adicionado, passarei referi-lo como M*V, pois a equação quantitativa da moeda garante que isto é igual a P*Q. Então M*V fica mais harmonizado com as economias monetárias com bancos centrais e empresas diversificadas.

DdAB
P.S. Esta postagem começou com minha intenção de dar apenas os dois marcadores Besteirol e Economia Política, principalmente o primeiro. Depois acrescentei o Vida_Pessoal e vi que a parte Economia Política ficou realmente importante. Só faltou dizer que um de meus economistas prediletos (ver postagem a respeito do tema aqui, e já vou para lá imediatamente acrescentar os nomes destes dois) é John Hicks e outro é James Meade, para ficar na turma da Ilha Velha. Hicks, a propósito, foi professor de Oxford, mas nada de cândido marxismo. Também estava em Oxford durante meus anos no paraíso o prof. David Harvey, hoje com enorme notoriedade na esquerda brasileira. Diferentemente de Glyn, Harvey considera não haver saída para a humanidade, em virtude de ter suas bases econômicas assentadas sobre o modo de produção capitalista. Claro que isto é uma antítese da social-democracia.

E a imagem é da city of dreaming spires é daqui. E meu St. Peter's College está aqui:


E devia estar um frio dos diabos por aquelas cercanias.

P. S. Vi que há um comentário de "Flávio" na postagem sobre o artigo do Ronald daqui. Será o Comim de que falei anteriormente?

terça-feira, 21 de julho de 2015

Indústria: café, chá, cacau, mandioca e macaxeira



Querido diário:

Já fiz algumas reclamações sobre a ideologia industrializante, em especial no progressista (em outros tempos...) município de Sant'Anna do Livramentto: melhor seria um supermercado que uma fábrica de aviões a jato. E depois comecei a falar nos importadores por atacado de café na Europa e suas redes de distribuição de varejo. E pensei que isto é que o Brasil deveria ter feito, se não em 1929, pelo menos em 2014 ou 2013, indo de volta até 1929... E será que, se houvesse um capital humano e social decente neste país, não teríamos sido nós a inventar a rede Starbuck? E outra rede? Daqui a 100 anos? Não pode? Ou o que não pode é criar capital humano, que gera social, que gera democracia?

Então segui pensando no cacau: distribuição internacional? Caminhões, vans, kombis, motos, brasileirinhos vendendo de porta em porta? Associações como as assim erigidas maisons du chocolat, ou como quer que viessem a ser chamadas? Mon pote de chocolat? E os insumos, a produção de tratores, a hoje chamada bioengenharia, a antiga revolução verde, a verde-amarela?

E a mandioca? Sua árvore de produtos é uma das peças de informação mais impressionantes que vi em meus vários anos de carreira como professor de economia política.

Parece óbvia a razão que impede o verdadeiro desenvolvimento do agronegócio e a perseguição de reindustrialização com base em crendices, ideologia e fatos distorcidos, além de algumas obviedades que não devem ser tomadas como especiais virtudes, mas obviedades contábeis (como, por exemplo, dizer que as outras indústrias geram mais renda e emprego). Trata-se da revolução que iria ocorrer, deveria ser feita no campo, acabando com a estrutura agrária feudal de boa parte do Brasil. Ou seja, sem terras para produção em massa em pequena escala, o poder feudal iria esboroar-se.

DdAB
Isto que não falei na produção de tratores, de aviões agropecuários, de satélites de controle de ventos, de pilhas de coisas que poderiam ter feito do Brasil um verdadeiro país agrícola. Aquela tolice de aumentar os linkages artificialmente seria substituída por elevação deles por meio de operações econômicas sólidas, baseadas na exploração inaudita das vantagens comparativas do país das águas e das três safras anuais. Então peguei daqui a lista de derivados industriais da mandioca:

Nonfood uses Starch makes a good natural adhesive. There are two types of adhesives made of starches, modified starches and dextrins: roll-dried adhesives and liquid adhesives.
The application of cassava in adhesives continues to be one of the most important end uses of the product. In the manufacture of glue the starch is simply gelatinized in hot water or with the help of chemicals. For conversion into dextrin it is subjected separately or simultaneously to the disintegrative action of chemicals, heat and enzymes.
In gelatinized starch adhesives, quality requirements are such that the medium-quality flours can be used. In dextrin manufacture, the demands are much more exacting: only the purest flours with a low acid factor are acceptable. Cassava dextrin is preferred in remoistening gums for stamps, envelope flaps and so on because of its adhesive properties and its agreeable taste and odour.
Dextrins were accidentally discovered in 1821 when during a fire in a Dublin (Ireland) textile mill one of the workmen noticed that some of the starch had turned brown with the heat and dissolved easily in water to form a thick adhesive paste.
Three primary groups of dextrins are now known: British gums, white dextrins and yellow dextrins.
British gums are formed by heating the starch alone or in the presence of small amounts of alkaline buffer salts to a temperature range of about 180°220°C. The final products range in colour from light to very dark brown. They give aqueous solutions with lower viscosities than starch.
White dextrins are prepared by mild heating of the starch with a relatively large amount of added catalyst, such as hydrochloric acid, at a low temperature of 80º-120°C for short periods of time. The final product is almost white, has very limited solubility in water and retains to varying degrees the set-back tendency of the original starch paste.
Yellow dextrins are formed when lower acid or catalyst levels are used with higher temperatures of conversion (150°-220°C) for longer conversion times. They are soluble in water, form solutions of low viscosity and are light yellow to brown in colour.
The following are some of the major uses of dextrins in nonfood industries.
Corrugated cardboard manufacture. One of the large users of dextrins is the corrugated cardboard industry for the manufacture of cartons. boxes and other packing materials. The layers of board are glued together with a suspension of raw starch in a solution of the gelatinized form. The board is pressed between hot rollers, which effects a gelatinization of the raw starch and results in a very strong bonding. Medium-quality flours are suitable for this purpose provided the pulp content is not too high.
Remoistening gums. These adhesives are coated and dried on surfaces, such as postage stamps and envelope flaps, for moistening by the user before application to another surface. Cassava dextrins in aqueous solution are well suited for this purpose as they give a high solids solution with clean machining properties.
Wallpaper and other home uses. Various types of starch-based products are used as adhesives for wallpaper and other domestic uses.
Foundry. Starch is used as an adhesive for coating the sand grains and binding them together in making cores which are placed in moulds in the manufacture of castings for metals.
Well drilling. Starches and modified starches mixed with clay are used to give the correct viscosity and water-holding capacity in bores for the exploratory drilling of oil wells or water wells. These starch products are replacing other commercial products for making the muddy materials which are indispensable for drilling wells. For this purpose a coldwater-soluble pregelatinized starch which can be made up to a paste of the required concentration on the spot is desired.
Paper industry. In the paper and board industries, starch is used in large quantities at three points during the process:
(i) at the end of the wet treatment, when the basic cellulose fibre is beaten to the desired pulp in order to increase the strength of the finished paper and to impart body and resistance to scuffing and folding;
(ii) at the size press, when the paper sheet or board has been formed and partially dried, starch (generally oxidized or modified) is usually added to one or both sides of the paper sheet or board to improve the finish, appearance, strength and printing properties;
(iii) in the coating operation, when a pigment coating is required for the paper, starch acts as a coating agent and as an adhesive.
Cassava starch has been widely used as a tub size and beater size in the manufacture of paper, in the past mainly on account of its low price. A high colour (whiteness), low dirt and fibre content, and, above all, uniformity of lots are needed in this instance.
An important new application of starch is in the machine-coating of magazine paper, formerly done exclusively with caseins. There are indications that cassava is particularly well suited to the purpose; however, definite specifications for the starch still have to be worked out.
Textile industry. In the textile industry, starches occupy an important place in such operations as warp sizing, cloth finishing and printing. Warp sizing is the application of a protective coating to prevent the single yarns from disintegrating during weaving. The size consists of an adhesive and a lubricant and is generally removed after weaving. Cloth finishing alters the "feel" of the fabric by making it firmer, stiffer and heavier. Cassava starch is also used for cloth printing or producing certain designs in various colours on the smooth surface of a finished fabric. While cassava accounted for about 20 percent of all starch for these purposes in 1937, it has been largely replaced by other starches after the Second World War.
An exception is the manufacture of felt, where cassava continues to be used exclusively in the finishing process.
Wood furniture. Before the Second World War the manufacture of plywood and veneer relied mainly on cassava as a glue. The basic material in this case is gelatinized at room temperature with about double the amount of a solution of sodium hydroxide. After prolonged kneading of the very stiff paste in order to give it the required stringy consistency, the glue is applied to the wood with rollers. As the presence of a certain amount of the pulp is useful, medium- to low-quality flours are acceptable or even preferable, although the presence of sand is objectionable.
Since 1945, however, the use of cassava as a glue has declined to second place owing to the increasing success of water-resistant plastics.
Particle board from cassava stalks
As cassava cultivation increases, more stalks will become available for disposal. The Tropical Products Institute, London, has been working on the utilization of the cassava plant. Particle boards could be made from cassava stalks by cutting them into small sections and mixing them with certain resins. The strength of the board can be varied by altering the resin content or the density.
Fermented products
CASSAVA ALCOHOL
Cassava is one of the richest fermentable substances for the production of alcohol. The fresh roots contain about 30 percent starch and 5 percent sugars, and the dried roots contain about 80 percent fermentable substances which are equivalent to rice as a source of alcohol.
Ethyl alcohol is produced from many carbohydrate materials. In Malaysia and some other countries, many factories are equipped to use cassava roots, starch or molasses (by-product of the sugar industry), the type of product depending on the costs of the raw materials. When cassava is used, the roots are washed, crushed into a thin pulp and then screened. Saccharification is carried out by adding sulfuric acid to the pulp in pressure cookers until total sugars reach 15-17 percent of the contents. The pH value is adjusted by using sodium carbonate, and then yeast fermentation is allowed for three to four days at a suitable temperature for the production of alcohol, carbon dioxide and small amounts of other substances from sugar. Alcohol is then separated by heat distillation. The yield of conversion is about 70-110 litres of absolute alcohol per ton of cassava roots depending on the variety and method of manufacture. The crude alcohol of cassava is described as average in quality. It has a disagreeable odour, but can be improved if the first and last fractions in the distillation process are discarded. It is usually utilized for industrial purposes, as in cosmetics, solvents and pharmaceutical products. If the production is required for human consumption, special care should be taken in handling the roots to rid them of hydrocyanic acid.

DRIED YEAST
Microbial protein is attracting growing interest owing to the enormous protein requirements of the world. Among the microorganisms which are considered possible food sources, yeast has perhaps stirred the greatest interest. Candida and saccharomyces yeasts have had a well-established place for many years as feed, and the technology of production, the composition and the nutritive value of yeast are well known.
Most of the production of yeast is based on such low-cost raw materials as waste liquids, wood hydrolyzates and molasses. Starch-rich plant materials from wastes or surplus production are also utilized as substrata for yeast production. Cassava starch and cassava roots are being used in Malaysia and some other countries for the production of yeasts for animal feed' the human diet and for bakery yeast. The starch is hydrolyzed into simple sugars (predominantly glucose) by means of mineral acid or by enzymes. Certain yeasts are then propagated which assimilate the simple sugars and produce microbial cellular substances. The dry, inactive yeast contains about 7 percent moisture and the raw protein content can vary between 40 and 50 percent depending on the raw material.
The yield of yeast production also depends on the raw material. In some applications of cassava starch conversion into substances obtained from yeasts, a 38-42 percent yield of yeast product containing 50 percent raw protein has been obtained.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Sonhos Libertários e as Aspirações da Esquerda


Querido diário:

O caderno PrOA de Zero Hora de ontem (domingo, 19/jul/2015) estampa um artigo de toda a página 8 inteirinha de autoria de Ronald Hillbrecht, economista e professor do PPGE-UFRGS, e intitulado "Com que sonham os libertários". Achei-o por demais interessante e vi minhas convicções sobre economia política e filosofia econômica refletidos em sua maior parte. Vou falar de algumas delas e da principal diferença, nomeadamente, os direitos de propriedade. Há outras diferenças, duas ou três, que enumerarei no momento do comentário. Talvez seja pouco para classificar os "sonhos libertários" de sonhos de esquerda, mas -menos ainda- não poderemos dizer que meus sonhos é que são de direita. As duas páginas anteriores têm um artigo sobre o que é ser direita no Brasil atualmente. Por conhecê-lo pessoalmente e ter lido outros materiais e realizações de sua autoria, juro que Ronald Hillbrecht não é "de direita". E certamente ele é, como também sou eu, lido em public choice, a economia política moderna, ou parte dela, que não é levada a sério pela esquerda tradicional, estatista, nacionalista, ou seja, quase uma unanimidade nacional. Basta ler aquelas páginas e o artigo que passo a comentar.

Estabelecerei as seguintes convenções: texto como este é de minha autoria, colchetes como este [...] também. E os textos como este são de autoria de Ronald. Espero, claro, não estar distorcendo o que ele disse ao ordenar algumas coisas de modo diverso ou ainda pular trechos enormes, são marcados assim. Onde havia negritos no original, troquei por sublinhados. A ideia não é transcrever, mas deixar evidentes os vínculos com uma proposta da esquerda libertária, ou seja, tirando o caráter de substantivo de "libertário" e dando-lhe o papel de adjetivar o substantivo "esquerda", de que tanto tenho falado.

A. QUEM SÃO OS LIBERTÁRIOS DE ONTEM E DE HOJE

[...]

[...] foi a partir dos séculos 17 e 18 que o ideal de liberdade começou a tomar forma como filosofia política por autores como John Locke, David Hume, Adam Smith, John Stuart Mill e Thomas Jefferson.

[...] Existem basicamente duas grandes vertentes do libertarianismo. A primeira, com foco em direitos, tem como alguns de seus expoentes filosofos como John Locke (1632-1704), que argumentou que indivíduos têm direitos naturais, como à vida, à propriedade e à liberdade, e que a única função dos governos é garanti-los; Ayn Rand (1905-1982), Robert Nozik (1938-2002), Douglas Rassmussen (1948) e David Smithdtz (1955), cujas contribuições são nas áreas de ética e filosofia moral e política.

No mundo contemporâneo, Ronald alinha na vertente consequencialista, a segunda, os nomes de Ludwig von Mises (1881-1973), Friedrich von Hayek (1899-1992) e Milton Friedman (1912-2006). Bem antes, ele escreveu:

[...] Libertários acreditam que o respeito pela liberdade individual é o requisito central de justiça e que as relações humanas devem ser baseadas em consentimento mútuo. Eles advogam uma sociedade livre baseada em cooperação, tolerância e respeito mútuo. [...]

Venho eu: a liberdade é o primeiro requisito para a vida humana. E se é para falarmos de justiça, começo logo evocando o nome de John Rawls, que não é citado por Ronald por ser "constitucionalista", ou seja, libertário de esquerda. Nós, da esquerda libertária, também pensamos nesses requisitos na prática da sociedade livre: cooperação, tolerância e respeito mútuo.

[...] Libertários acreditam que todas as pessoas têm o direito de decidir os rumos das suas vidas e não podem ser forçadas a servir outros nem ser sacrificadas em nome de grandes ideais sociais. [...]

Acho que isto de "servir outros" nem no exército, que já entendi que não devemos ter nem serviço militar obrigatório, que dizer de voto obrigatório e constrangimentos de funcionários públicos para favorecer a corrupção? Mas esta questão de sacrificar pessoas "em nome de grandes ideais sociais" já é outra encrenca. Que é "ser sacrificado"? E que é "grande"? Claro que não aceito nem mesmo aquelas desapropriações de terrenos urbanos para "modernizar a cidade". Penso que podem modernizá-la para além dos limites das casas dos homens. E as terras? Os latifúndios por extensão? Estes hoje em dia creio que perderam a hora. E os latifúndios por exploração? Claro que devem ceder o direito de exploração a pessoas mais interessadas/qualificadas.

[...] Desta forma, libertários enfatizam a dignidade de cada indivíduo, o que lhes confere tanto direitos quanto responsabilidades: adultos não devem ser tratados como escravos ou servos, nem como crianças. Algumas das maiores conquistas da humanidade, como a abolição da escravidão; o estabelecimento de tolerância religiosa; a progressiva extensão da dignidade às mulheres, gays e minorias étnicas e religiosas; a substituição da superstição pela ciência; a subordinação de monarcas a parlamentos eleitos; a proteção de direitos à propriedade para todos; a substituição do mercantilismo por mercados e a substituição de governos arbitrários pelos constitucionalmente limitados, estão todas intimamente vinculadas às ideias de liberdade e dignidade individual.[...]

Aqui tranco apenas naquela garantia dos direitos de propriedade sem maiores qualificações. Primeiro, a favor, odiaria que avançassem sobre minha escova de dentes. Depois, menos personalista, juraria que nenhum indivíduo terá direito de viver nababescamente às expensas da plebe rude, especialmente se esta vive da mão para a boca. Já falei longamente sobre este ponto ao discutir os critérios de Kaldor-Hicks-Scitovski sobre como alcançar o maior bem-estar possível para a sociedade.

[...] Libertários acreditam que se levarmos seriamente a ideia de que as relações humanas devem ser voluntárias, então o escopo de atuação de governos na sociedade deve ser fortemente restringido, pois muitas coisas que governos fazem e que as pessoas desejam que eles o façam não podem ser feitas sem tratar outros como escravos, servos ou crianças. De forma antagônica, ideologias políticas coletivistas como marxismo, socialismo e fascismo assumem que se pode tratar os outros como escravos, servos ou crianças, sendo que a discordância entre estas é quem deve ser tratado desta forma. Desta forma, libertários não confiam em governos, por dois motivos: 1) governos não têm a competência nem a informação necessária para interferir em afazeres privados de forma benéfica, e 2) conferir poder crescente a governos sobre nossas vidas atrai para a esfera pública não somente aqueles que desejam ajudar mas também aqueles que desejam explorar e viver às custas dos outros. [...]

Aqui tenho um ponto velho: parece que aqueles que intensamente modelam a sociedade dividindo-a em mercado-estado olvidam a dimensão comunidade, deixando a tríade fundamental das organizações econômicas incompleta. Parece-me que boa parte das ações que o governo e o próprio mercado desempenham pode ser absorvida (com prioridade, a meu ver) pela comunidade. Aliás, o governo tem falhas, o mercado tem falhas e a comunidade também. Isto implica que nenhum destes três esteios pode alcançar soberania absoluta sobre os demais.

[...] Libertários acreditam que, no que diz respeito à justiça, cada pessoa deve ser dotada de um extenso conjunto de direitos, que incluem liberdades civis, econômicas e políticas. As liberdades civis incluem a liberdade de expressão, o direito de associação, a liberdade de pensamento, o direito à integridade física e à proteção contra abusos e assaltos, liberdade de escolha de estilo de vida, o direito de protestar e o direito de deixar o país. As liberdades econômicas incluem o direito de adquirir, usar, manter e doar propriedade, o direito de estabelecer contratos, de comprar ou vender bens e serviços na forma compactuada pelas partes, de escolher sua ocupação profissional e de negociar os termos que regem contratos de trabalho. As liberdades políticas envolvem o direito de votar e concorrer em eleições, assim como o direito de viver sob governos não arbitrários e intrusivos. [...] 

Parece que novamente aqui há apenas a diferença sobre os limites da propriedade: adquirir, usar, manter e doar. Tá tudo bom, desde que não estejamos falando em propriedade de escravos (o que obviamente não é o caso dos libertários, que a condenam fazem exuberantemente). Mas e a venda de água em terras de miseráveis? A venda de vacinas? Parece que chegamos em um ponto importante de divergência talvez da própria teoria da escolha pública com os libertários exaltados. Falemos em educação (Ronald concorda) e vacinas: se o mercado é incapaz de prover, o governo que o faça. E a produção é que pode ser delegada ao mercado. Aliás, quem produziria bens públicos, uma vez que a produção pudesse ser delegada ao mercado (por exemplo, guardas florestais governamentais, que não estou falando de jagunços).

[...] Libertários enfatizam direitos negativos, que são direitos de exclusão, pois nos impedem de fazer certas coisas com os outros. Como exemplos de direitos negativos temos o direito à vida, que nos nega o direito de matar outros; o direito à propriedade, que diz que não temos o direito de usar propriedade alheia sem o consentimento dos seus proprietários; o direito à liberdade, que diz que não temos o direito de escravizar outros. Por outro lado, existem os direitos positivos, que dizem que, se alguém tiver um direito positivo a algo, outras pessoas devem prover a satisfação deste direito. [...]

Há apenas a discordância com relação à questão da propriedade. Para a esquerda libertária, é óbvio que a sociedade (a comunidade) deve impor limites à propriedade, ao direito de propriedade, ao direito de usar frações do planeta apropriadas diretamente da natureza ou da produção humana de maneira indiscriminada em confronto com os interesses comunitários democraticamente representados (e o melhor é mesmo democracia direta com fiscalização de umas comunas sobre outras).

[...] Libertários acreditam que somente em casos especiais podemos ter direitos positivos contra outras pessoas, como por exemplo, a obrigação dos pais de cuidar dos filhos. Libertários não acreditam que qualquer pessoa deva ter direitos positivos contra a sociedade como um todo. De forma geral, os direitos que os libertários acreditam que as pessoas têm são direitos morais, que proveem uma estrutura necessária para a convivência social pacífica e próspera, baseada em justiça e sólidos valores morais. Entretanto, cumpre notar que não se tratam de direitos legais, que podem ser radicalmente distintos e estruturar a sociedade em outras bases. [...]

Parece que também aqui chegamos a um ponto de ruptura com o libertarianismo exaltado. O binômio homem-sociedade nem seria binômio, pois um não existe sem o outro. E atribuir a soberania absoluta das decisões ao homem, desconsiderando a sociedade, não pode levar a bons resultados. A questão é "quem cuida de filhos sem pais?". Penso nos meninos de rua, nas patologias sociais que levam estas pessoas a existir. Lançado como "caso especial", podemos expandi-lo para abarcar também as demais crianças, os criminosos e os loucos, e a velhice desamparada.

Em continuação, ao nominar os pensadores libertários contemporâneos, escreve:

Ludwig von Mieses, da escola austríaca de economia, mostrou no debate do do cálculo socialista que estes sistema era incompatível com o progresso econômico, pois seria impossível para os planejadores realizar os cálculos necessários para alocar os bens em uma economia moderna.

Tranco aqui: von Mieses estava duplamente errado. Empiricamente, não notou que, crescentemente, a União Soviética engajou-se cada vez mais fortemente em planejamento central. E em segundo lugar o famoso artigo de Oskar Lange e Frederick Taylor deixou claro que pode-se substituir o papel dos preços como sinalizadores originários do mercado por outro vetor de preços originário do escritório do planejamento central. Incompatível com o progresso econômico? Talvez, por causa da democracia. Impossível de calcular? Claro que não, pois foi tudo calculadinho tintim por tintim.

[...] Friedrich von Hayek, também da escola austríaca de economia, mostrou que o socialismo, além de dar ao governo um poder indesejável nas relações econômicas, também lhe permite expandir controle sobre liberdades individuais, levando naturalmente a Estados totalitários como a Alemanha nazista ou a União Soviética. [...]

E também paro aqui: parece que os libertários têm completa razão neste ponto.

[...] Finalmente, Milton Friedman, da Universidade de Chicago, defendeu os princípios de livre mercado no debate público nos EUA e mostrou que liberdades econômicas são necessárias para a consolidação de liberdades políticas. [...]

E também aqui: e foi ele que teve a ideia nobilíssima de invenção do imposto de renda negativo. Se quem ganha muito paga, quem ganha pouco recebe.

   A relevância e importância das ideias do libertarianismo para o Brasil decorrem do fato de que as sociedades que conseguem combinar, de forma fundamental, as prescrições de governo limitado de John Locke com as prescrições de liberdade econômica de Adam Smith, são exatamente aquelas que atualmente são as mais prósperas, pacíficas e virtuosas. Em linhas gerais, o século 20 e o início do século 21 têm sido pródigos na oferta de evidências empíricas favoráveis à visão libertária.

O mundo empírico é brabo, pois eu diria -contrariamente a Ronald- que as evidências empíricas do século XX e do século XXI são esmagadoramente desfavoráveis a qualquer projeto humano. O que vimos e vemos é um descaso dos detentores do poder na sociedade de criar condições de vida cada vez piores. Houve progresso importante em áreas como a saúde e a indústria. Mas não podemos esquecer a explosão demográfica e a consequência da irresponsabilidade paternal corromper gerações e gerações de crianças que não são adotadas nem pelo estado nem por ninguém. Pelo lado econômico, parece mesmo é que quem se deu melhor foram as sociedades mais igualitárias. E, entre os subdesenvolvidos, como é o caso do Brasil, a única receita que dou é que devemos gastar em formação de capital humano e social, organizar a estrutura econômica para atender a suas demandas por insumos. E, independentemente disto na origem, mas dadas as vantagens, produzir aceleradamente progresso tecnológico sempre pensando na natureza tropical do país e meter mais energia na produção de inovações tecnológicas em culturas como o milho e a mandioca. E em culturas de plantas ainda nem descobertas ou ainda nem exploradas comercialmente.

E agora parei definitivamente no final do texto, mas tenho comentários. E talvez nem consiga fazer todos. Seja como for, parece que "uma leitura de esquerda" deste material que representa uma notável e refinada síntese do pensamento libertário, deixa bem claro que as diferenças essenciais localizam-se em dois ou três pontos que obedecem muito mais a julgamentos de valor (como as inúmeras convergências em inúmeros outros). Por exemplo, lá em cima, ele fala em "subordinação de monarcas a parlamentos eleitos", ou seja, está aceitando que a monarquia é uma forma sensata de promover a organização política de cidades, províncias, países, regiões, e o próprio planeta. Minha visão de esquerda igualitarista é que esta é uma proposição insustentável. Como apear a monarquia sem ofender alguns dos princípios libertários compromete os princípios tomados rigidamente. Isto significa que os princípios libertários devem ser hierarquizados lexicograficamente, como o fez de modo mais econômico John Rawls com o conceito de sociedade justa.

No espantosamente elogiado livro "Mesoeconomia; lições de contabilidade social", vemos três listas de ingredientes da sociedade justa:




PRINCÍPIOS DA JUSTIÇA SEGUNDO JOHN RAWLS

1. Todos têm igual direito à mais ampla liberdade compatível com a dos demais indivíduos
2. A desigualdade social e econômica deve ser organizada de modo a
a) permitir que as oportunidades de emprego sejam abertas a todos
b) gerar o maior benefício aos detentores de menos posses


PRINCÍPIOS DA JUSTIÇA SEGUNDO ROBERT NOZICK

1. Qualquer indivíduo pode apropriar-se legitimamente de alguma coisa útil não pertencente anteriormente a ninguém, desde que esta apropriação não implique redução no bem-estar de nenhum outro indivíduo (princípio da apropriação original)
2. Qualquer indivíduo pode tornar-se proprietário legítimo de uma coisa, adquirindo-a por meio de uma transação voluntária com a pessoa que era antes sua proprietária legítima (princípio de transferência)



PRINCÍPIOS DA JUSTIÇA SEGUNDO DAVID HARVEY
1. Desigualdade intrínseca: todos têm direito ao resultado do esforço produtivo, independentemente da contribuição
2. Critério de avaliação dos bens e serviços: valorização em termos de oferta e demanda
3. Necessidade: todos têm direito a igual benefício
4. Direitos herdados: reivindicações relativas à propriedade herdada devem ser relativizadas, pois, por exemplo, o nascimento em uma família abastada pode ser atribuído apenas à sorte
5. Mérito: a reivindicação associa-se ao mérito; e.g., estivador e cirurgião querem maior recompensa do que ascensorista e açougueiro
6. Contribuição ao bem-comum: quem mais beneficia aos outros pode clamar por mais recompensa
7. Contribuição produtiva atual: quem gera mais resultado do que quem gera menos ganha mais
8. Esforços e sacrifícios: quanto maior o esforço, maior a recompensa.


E, derivando-se deste tipo de raciocínio e considerando a fragilidade humana (para não falar nos sistemas econômicos já engendrados ou a engendrar pela humanidade, é que postei aqui sobre os seguros generalizados, quando haveria proteção até contra os erros de digitação.

DdAB
Imagem: aqui.



OS 4 COMENTÁRIOS SOBRE A POSTAGEM
(se quiser, veja no que segue, pois aqui está ligeiramente editado)

"Sonhos Libertários e as Aspirações da Esquerda"
Ronald Hillbrecht disse...
 Prezado Duilio,
    Muito bom seu artigo interpretativo e fico grato por ter elaborado esta análise de qualidade sobre meu artigo do ZH. Em sendo de jornal, meu artigo é necessariamente incompleto - sim, também considero John Rawls e associados como sendo libertários, assim como boa parte dos economistas de mainstream, que considero libertários marginais, posto que elaboram análise de custo e benefício de intervenções de governo, mas ambos não foram contemplados no meu artigo pelas óbvias questões de espaço.
    Da sua análise entendo que temos algumas diferenças filosóficas, mas que são mais de ênfase do que de substância, em particular no que diz respeito à importância de direitos à propriedade. Mas mais importante são as convergências que você devida e corretamente apontou: a importância da liberdade individual como constituinte de noções relevantes de justiça e dignidade, além de base para prosperidade e inclusão social. O Brasil esta seguindo hoje uma rota muito ruim exatamente pelo fato de não levar com a devida seriedade os pontos que você com tanta propriedade discutiu, de forma que acredito que as convergências citadas poderiam servir de fundamentos de uma discussão pública para botar nosso país no caminho correto novamente.
    Forte abraço,
   Ronald Hillbrecht
 21 de julho de 2015 11:36

Duilio de Avila Bêrni, ... disse...
 Caro Ronald:
    Muito obrigado pela atenção a meus comentários sobre o artigo dominical. Escrevi uma resposta enorme que -talvez por isto- o blog desprezou. Não saberei reproduzi-la, fazendo apenas um resumo. Ao escrever ontem, tinha intenção de colocar aquela ressalva de que ninguém em nenhum espaço razoável pode tratar de tudo ('deus e sua época', como dizem alguns amigos hereges). Falei também do primeiro item do conceito de justiça de David Harvey o geógrafo marxista. E tenho claro que isto implica renda básica da cidadania e, ergo, Milton Friedman. E disse entender que o valor adicionado (que retiro da equação quantitativa da moeda como M*V) é função da população inteira (bebezinhos, trabalhadores, sinecuristas, e tudo o mais).
    E o Brasil, Ronald, como costumo exclamar em outras postagens, só bebendo. Mas devemos pensar na reconstrução nacional. Penso -com Geraldo Brenner- que o primeiro item é acabar com a impunidade, o que requer acabar com este estilo de poder judiciário.
 DdAB
 21 de julho de 2015 12:17

Flavio disse...
    Em primeiro lugar, obrigado gente por essa discussão, muito interessante e sofisticada, vários autores que vocês citam, como Harvey mas mesmo o Mises, eu desconheço. Mas sei que há uma diferença importante entre o Rawls e o Nozick, por exemplo, que o artigo do Ronald (para puxar a brasa para sua sardinha....ou peixe mais sofisticado...não cita). De qualquer modo, parece haver uma questão fundamental sobre o papel do Estado que divide aqueles que acreditam na liberdade como pilar de organização social.
   Flavio
    22 de julho de 2015 00:26

 DdAB - Duilio de Avila Bêrni, ... disse...
    Caro Flávio:
    Intuo que este comentário sofisticado bem poderia ser da estirpe dos Comim. Sobre Rawls, Nosik, Sen e essa turma toda, lembro o que disse legitimamente Ronald: seria impossível tratar de todos os temas naquele espaço de jornal. Eu mesmo queria ter colocado na postagem mais milhares de autores. Uma falha séria foi omitir
    WILKINSON, Richard & PICKETT, Kate (2010) The spirit level; why equality is better for everyone. lONDON: Penguin.
    que li -digo cheio de orgulho e ostentação- em italiano (mas dei o original em inglês de presente à patroa...).
    Chegando na questão do 'Estado', gosto de Rawls pois para ele o assunto começa com liberdade. E continua com igualdade, o que me leva à consideração final: aprendi que o principal requisito da sociedade justa (ou apenas decente) é a mobilidade. Que só é alcançada com a igualdade de oportunidades. Que só é alcançada com políticas social-democratas. E ainda a sociedade necessita de alguma organização para suprir as falhas de mercado (e prover bens públicos). E talvez a mesma, talvez outra, para prover bens de mérito e restringir os de demérito. E sei que isto pode ser considerado estatismo. E chego no ponto em que acho que a decisão é mesmo "no voto".
    DdAB
    22 de julho de 2015 10:58

E POR QUE FIZ ISTO?


Pois eu mesmo me entusiasmei com aquelas observações que fiz ao comentário de Ronald Hillbrecht sobre o valor adicionado da sociedade ser função da população. Pois bem, peguei 181 países e calculei o coeficiente de correlação (dados do World Bank da Wikipedia), encontrando 0,78 (ou um r^2 de 0,61, quer dizer uma enorme correlação para este tipo de dados).