sexta-feira, 5 de junho de 2015

Promover a Indústria: item 2


Querido diário:

Sigo no périplo das oito razões que justificam as virtudes da indústria na promoção do desenvolvimento econômico (começa aqui). Hoje comentarei a segunda. O autor iniciava dizendo:

There are powerful empirical and theoretical arguments in favour of industrialisation as the main engine of growth in economic development. The arguments can be summarised as follows:
[...] 2. Productivity is higher in the industrial sector than in the agricultural sector. The transfer of resources from agriculture to manufacturing provides a structural change bonus.

Por simples requebro do destino, a produtividade do trabalho no Brasil tem dois escândalos. O primeiro é a expulsão do homem do campo, homem despido de capital humano, homem mal recebido na cidade: muitos expulsos, alta produtividade. Mas não é apenas isto neste primeiro escândalo: ainda hoje, o coeficiente de trabalhadores não remunerados nas escassíssimas e deficientíssimas estatísticas do emprego brasileiro é elevadíssimo. Com tudo isto, especialmente, se fizermos espaço para estas mediações, aí mesmo é que não veremos tão avassaladora vantagem da produtividade industrial sobre a da agropecuária. O que aconteceu no Brasil é que aquilo que antigamente se chamava de agropecuária é um negócio marginal. O cerne da produção rural origina-se de lavouras e rebanhos movidos a alta tecnologia e, como tal, alta produtividade do trabalho.

O segundo escândalo diz respeito à chamada desindustrialização brasileira: emprego e PIB cadentes e desabotinada perda de participação no comércio mundial. Houve uma extraordinária expansão da produtividade industrial há duas décadas precisamente devido àquelas chamadas reengenharias. Muita demissão, pouco aumento da produção.

Aquela sentença sobre o bônus carreado à economia pela transferência do homem do campo à indústria é até caricata: o modelo de Lewis da oferta ilimitada de mão-de-obra servirá talvez mais ao Congo do que ao Brasil. O problema é que aquele estoque de trabalhadores do êxodo rural chegaram ao meio urbano na condição de analfabetos e assim permaneceram por várias gerações. E esta mão de obra ilimitada no setor informal urbano é adequada para a limpeza urbana (garis) e outras qualificações de baixo nível de educação.

Olhei uns dados na internet e constatei que as produtividades intersetoriais relativas são:

Agricultura: 0,37
Indústria: 1,80
Serviços: 0,99

A menos que o autor esteja falando em transferências de recursos naquilo que por aqui rebateu como as interpretações de que foi a poupança dos cafeicultores que financiou a indústria paulista.

Penso que, sem dados, não posso argumentar em favor da comparação entre a agropecuária de produtos selecionados contra as indústrias de grupos industriais selecionados.

DdAB
Imagem daqui.

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