sábado, 13 de junho de 2015

Gerson, Ibsen e (... nem sei mais o quê...)


Querido diário:

Quer relembrar o passado? Clique aqui. Cerca de cinco anos atrás, o padre Gerson Schmidt (ver nota 1) lançou aquela diatribe contra a viadagem (imagem daqui; deveria eu dizer 'leonagem'?) . E hoje lá na página 23 do jornal Zero Hora (aqui e que coloquei como nota 2 a estes escritos), ele volta com "Os abusos da parada gay". Talvez o concorrido sacerdote não faça a defesa do bom tratamento aos meninos de rua, por causa daqueles problemas da cúria romana e aquela encrenca da pedofilia. Talvez ele não faça a defesa do amparo à velhice por não a considerar importante, talvez até pode ser que considere importante, como o preocuparia o tempo de fila de seu rebanho nas agências do SUS. Talvez ele seja um bom homem. Mas ele está preocupado com "alguns participantes da Parada Gay de São Paulo". E confundiu a árvore com a floresta, se bem uso este agora já estabelecido lugar comum. Árvore: os alguns participantes. Floresta: todo o resto da macacada. E como sei disto? O padre manda ver: "Pior é saber, como expressa o repúdio dos bispos católicos das dioceses do Estado de São Paulo, que o evento foi autorizado e patrocinado pelo poder público, que deveria garantir a ordem democrática e os direitos da Constituição brasileira que garantem o respeito à fé e que foram agredidos nessa ocasião."

O artigo do padre, só lendo, o que fiz. As viadagens da parada provavelmente serão acessíveis por meio da internet, YouTube, sei lá (não campeei, por que o faria?). O artigo é que me fez pensar que o padre padece de mal-formação. Para não me alongar na análise daquela peça de ódio e viés de seleção de amostra, cito apenas o que citei: o estado de são paulo não deveria financiar um evento em que alguns participantes pisaram na bola. E como é que o estado de são paulo iria saber se precisamente naquele dia, naquela manifestação, haveria réprobos? O padre Gerson não sabe a diferença entre ex ante e ex post, claro. Mas talvez, pensando melhor, até saiba, o que me leva a pensar que ele é mesmo um homofóbico.

Para acabar de concluir o tema viadagem, não fui olhar homem ou mulher ou ambos pelados, se é que isto rolou na parada gay, mas procurei o nome "padre Gerson Schmidt" na internet e caí aqui. E olha o que o blogueiro atribuiu ao padre (o que não fui conferir, pois este declara-se "um filho de Deus" e, como tal, merece fé pública):

A presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em nota explicativa, repudia veementemente o ato insano de estupro do padrasto e pede a rigorosa apuração dos fatos, que o culpado seja devidamente punido, de acordo com a justiça. E não concordou, evidentemente, com o desfecho final de eliminar a vida de seres humanos indefesos.

Falava-se da garota pernambucana que engravidou em reação a uma série de estupros. E por que falo nisto? Pois o ato insano do padrasto deve, ao bem ver do blogueiro e do padre citado, ser declarado ato insano, ou seja, deve ser apurado. E punido, de acordo com a justiça. Ok, então a viadagem paulista deve ser apurada, julgada pela justiça ou foi o próprio padre encarregado de fazer o julgamento e exarar seu parecer no jornal?

Eu, que já acordara mesmo com a intenção de encher a cara de cachaça, antes de fazê-lo, li compulsivamente o mesmíssimo jornal que abrigou a diatribe paroquial. Antes até de chegar naquele manual de homofobia, li coisas de corar frade de pedra (como diriam as jornalistas Martha Sfredo e Lurdette Ertel...). Por exemplo, a capa fala que a "[v]olta do imposto do cheque divide governo". Em minha opinião, os que defendem este outro imposto (contribuição) distorcivo deveriam ir para a cadeia e, no xilindró, serem constrangidos a ler um livro sobre a teoria da escolha pública. Depois, já se diz que faltam ciclovias nos municípios e que há municípios que não controlam nem seus limites territoriais e que -na minha opinião- deviam ser fechados. E gente cobrando segurança pública, queixando-se da fraude que é esta reforma política, a fria em que entraram os trabalhadores voluntários da copa da fraude do mundo, dos ganhos escorchantes dos juízes e seu aumento pleiteado e previsto, da prioridade que será dada (será?) a obras nas escolas, olha, vou parando por aqui, pois quero falar e parar na página 10, seção de Rosane de Oliveira.

Diz a consagrada cronista em sua "+ Política" que o deputado estadual Ibsen Pinheiro é um procurador aposentado do ministério público, usufruindo de uma remuneração bruta de R$ 30,4 mil. E que abriu mão do subsídio de R$ 25,3 mil "a que teria direito na Assembleia". Ele informa não receber acima do teto salarial, pois ganha mais R$ 6 mil do Feppa e R$ 12 mil da Câmara". E diz a jornalista que o deputado diz o que segue: "têm natureza privada e são compensatórias pela expropriação legal dos fundos que as originaram."

Como é que ele, com estipêndios mensais chegando aos R$ 50 mil não sentiu falta dos R$ 25,3 mil? E como é que estes mesmíssimos R$ 25,3 mil não contariam para limitar os ganhos da elite? É que eles não são "salário" e sim "subsídio". E que é aquilo de "natureza privada e são compensatórias pela expropriação legal dos fundos que as originaram"? Fundos públicos? Dinheiro público em profusão na mão dos políticos? Dos juízes? Das centenas de apaniguados com as benesses do loteamento do estado? Dos meninos de rua? Das viúvas e da velhice carente? Do SUS? É, não é! E o que não é mais romântico é que é que o imposto de renda sobre R$ 50 mil é a mesma alíquota de 27,5%, a mais alta incidindo sobre toda a macacada bem remunerada.

Este país sem justiça, sem política decente, sem legislativo, executivo, judiciário, bancos, telefônicas decentes teria uma lei do orçamento decente? Claro que não. Uma legislação do imposto de renda decente? Claro que não. O que seria decente? Na visão dos auto-outorgados, nem seus "salários" são decentes, pois eles querem mais e mais aumentos.

E o Planeta 23, esperança de muitos, é decente? Claro que não, pois está cheio de erros de português, matemática, história e geografia, as quatro disciplinas que me foram cobradas quando fiz o exame de admissão ao ginásio no ano de 1959.

DdAB
Nota 1: Observação ad hominem: É que santarrão traz por trás de si (descontar o descaminho para o infame trocadilho) preconceitos, estereótipos e etnocentrismos. Negação e identificação, Freud explica, andam de mãos dadas, ou seja, dois substantivos femininos que já iriam atrair a ira do clube da homofobia.

Nota 2: tá aqui o artigo (publico com autorização da internet):

Artigo| OS ABUSOS DA PARADA GAY

13 de junho de 20150
GERSON SCHMIDT
Padre e jornalista
Não podemos nos calar diante dessas aberrações escandalosas por parte de alguns participantes da Parada Gay de São Paulo. As manifestações infelizes na Parada Gay não podem deixar de serem repudiadas, frente ao desrespeito à fé de milhões de cristãos de nosso país. Houve aí uma clara manifestação e agressão à consciência religiosa de nosso povo e ao símbolo cristão mais preciso de todos os tempos, a cruz de Cristo. Houve também escárnio e banalização de imagens da fé católica, quebrando-as no chão.
O Brasil está indignado por esta atitude inescrupulosa. Está se afrontando a fé cristã. Pior é saber, como expressa o repúdio dos bispos católicos das dioceses do Estado de São Paulo, que o evento foi autorizado e patrocinado pelo poder público, que deveria garantir a ordem democrática e os direitos da Constituição brasileira, que garantem o respeito à fé e que foram agredidos nessa ocasião. O Artigo 208 do Código Penal afirma constituir-se um crime quem escarnecer alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa, impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso ou vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso. É claramente o que aconteceu. Há já manifestações nacionais e encaminhamentos para tornar isso crime hediondo.
A profanação dos símbolos religiosos pede de nós, ofendidos, não uma atitude de ódio e revolta, mas um ato de desagravo e oração por todos os manifestantes. Nenhuma Igreja está ensinando a odiar as pessoas. Somos nós acusados de homofóbicos porque defendemos a família. Não se trata aqui de condenar segmentos e impedir democraticamente as manifestações de quaisquer que sejam. O direito de expressão, nessa parada, extrapolou os limites do bom senso e ética. Urge garantir o respeito de quem pensa ou acredita de maneira diversa, não agredindo de maneira tão desproporcional como aconteceu. Há aqui um contrassenso. Querem ser respeitados aqueles que não respeitam. Querem ter direitos, mas afetam e ofendem o direito dos outros. Reivindica-se respeito à opção e liberdade sexual e não se respeita a opção religiosa e a fé mais forte da população brasileira. Não é a forma correta de lutar pelos direitos individuais ou coletivos. É preciso rever quem de fato aqui está agindo com preconceito, desrespeito e intolerância.

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