sábado, 16 de maio de 2015

Ulysses: Osman no título


Querido diário:

Se "Ulysses" fala de tudo, de todos os mundos possíveis, como não falaria de Osman Lins? Como não ter um de seus momentos com personagens, ruas de Dublim, pratos orientais, trinados de ópera, algo, o que quer que seja, com Osman ou palíndrome como namso?

A verdade verídica é que intuo que James Joyce leu as obras completas de Osman Lins mesmo antes de o segundo tê-las escrito. Isto não é raro na literatura ocidental, como o provam Petrarca, Bukowski e Dostoyewhisky. Para não falar das obras secretas, inéditas, mantidas em floppy disks guardados em cápsulas enterradas no, claro, centro da terra, cápsulas resistentes a temperaturas elevadas, mas não o suficiente para levar o próprio planeta à condição de combustor nuclear e, deste modo, estrela. Esta metamorfose comprometeria os arquivos de  dados.

Prova: em nossa tradicional sentença, citada de memória:

Stately, plump Buck Mulligan came to the stairhead, bearing a bowl of lather on which a razor and a mirror lay crossed:

.a. de 'mulligan', Joyce retirou o 'n';
.b. de 'stately'', Joyce retirou o 'a';
.c. de plump, Joyce retirou o "m",
.d. recorrendo novamente a 'stately', Joyce colheu o 's';
.f. finalmente, da expressão preposicional 'to', Joyce sacou o 'o', de Osman, formando-se assim a palíndrome de que tanto falo nestes "Escritos", sem maiores medos de ser trancafiado na cadeia irlandesa.

Com n, a, m, s e o, devidamente palindromados, lê-se claramente Osman, Osman da Costa Lins! Só pode ser magia.

Vejamos mais uma estrondosa influência de Osman sobre James. No livro que segue, lemos o que segue:

LINS, Osman. A Rainha dos Cárceres da Grécia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

A socióloga Cesarina Lacerda, desenvolvendo sugestões de Lucien Goldmann, de quem foi aluna por correspondência, realizou pesquisa de campo nos bairros operários do Recife e constatou o que já era previsível, o domínio absoluto do rádio como instrumento de informação e a nenhuma importância do jornal. Menos previsível é o desacordo entre o mundo configurado pelo rádio e, para os que sabem ler, o que estampam os jornais. Os jornais cedo ou trade chegam à periferia, como papel de embrulho, trazidos pelos pobres ambulantes que os compram a peso para revender, e até soprados pelo vento. Uma dona de casa, entrevistada em 1968, acreditava ser recente o suicídio de Getúlio Vargas, ocorrido em 1954. Mas o aspecto que parece haver tocado Cesarina Lacerta e ao qual consagra extenso capítulo é o que ela denomina 'a confirmação da existência'. Marginalizado social e topograficamente, o homem da periferia tem poucas ligações com a cidade, não sendo insensível a essa exclusão. O rádio, dirigindo-se, através do locutor, a um ouvinte não especificado e sempre encarecido, vai ao encontro de um vácuo. 'Chega ao homem dos morros e dos alagados como (enfim!) a voz da cidade, que o acolhe e reconhece. A linguagem radiofônica, portanto, reveste-se para ele de um caráter ao mesmo tempo balsâmico e recompensador. O silêncio da cidade representa uma forma de negação do ser: para existir, é necessário que a cidade fale. A mensagem radiofônica desempenha esse papel, conforma uma existência problemática e assume, com isso, um estatuto privilegiado e quase diríamos sacral.'^28 A interpretação de Cesarina Lacerda talvez explique a atração dos pobres pelo rádio. Seja como for, busca avaliar o significado, na chamada classe C, de um tipo de mensagem altamente cordial, frequentemente nesse meio de comunicação e lisonjeiro para o destinatário. Além disso, sem o saber, justifica a ensaísta, sob perspectiva sociológica, o discurso de Maria de França, que finge dirigir-se - solução evidente a partir do capítulo II - ao público de uma emissora de rádio. Animam a obra os clichês de linguagem comum aos locutores, e certos esquemas típicos de programas radiofônicos, dentre os quais o noticiário, empregado com humor e eficácia, envolvendo tanto as personagens (inclusive a própria narradora), quanto os acontecimentos mundiais, deformados pelo anacronismo e outros fatores.

Nota 28: Falando para o mundo. Recife, Ed. Flos Carmeli, Convento do Carmo, 1968, p. 120.

[Tudo assim no original, exceto as aspas tipo "abcz" que troquei pelas 'zcba'. E, onde pude, obedecer à idiotia nacional chamada de nova-nova-nova ortografia. E a citação ao capítulo II encontra-se na página 30 do mesmo volume, o que levou-me a consultar a página XXXII (que grafo 32R, ou seja, '32 em romano') da tradução de Tortosa do "Ulysses", de Joyce, para o espanhol, como veremos em seguida. Aliás, como sabemos, a finada sra. Cesarina Lacerda, casada com Edgard, era minha amiga, inclusive cedendo-me hospedagem em sua mansão recifense menos de 20 anos depois do aparecimento como personagem de ficção, que ela era assistente social de enfermagem e não socióloga, claro!, e quem me parece ter sido aluno de Lucien Goldmann teria sido mesmo o economista Osman Lins].

Estamos agora na página 32R da admirável tradução de Tortosa (ao espanhol, claro), Já sabedor que James e Osman gostavam de fazer das suas. De sua parte, vemos Joyce criando uma personagem chamada Gerty MacDowell. Mas sabemos que por causa de citas que veremos adiante na tradução brasileira de Bernardina da Silveira Pinheiro, Gerty é o apelido de Gertrude. E, ainda que a garota no romance tenha o nome de Gerty MacDowell, sua inspiração é mista. De um lado, Joyce tem em mente a figura de Martha Fleischmann, tomando-lhe os pensamentos lúbricos em Zurique. De outro, estamos frente a "otra infatuación de Joyce, el de la joven doctora que conció en 1917, Gertrude Kaempffer".

Posso garantir que Gerty é mesmo Gertrude MacDowell, pois ela, na genial tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro, em

JOYCE, James. Ulisses. Rio de Janeiro: Alfaguarra/Objetiva, 2007. Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro.

fica, na praia, fantasiando um casamento com Reggy Wylie (página 409 de BdSP).

Tomo a palavra: tudo se esclarece: no original em inglês, o nome de Gerty aparece 64 vezes, nada mais cabalístico, nada mais revelador, pois, como sabemos 64 é um quadrado e um cubo. Quadrado de 8 e cubo de 4. E, por que negar?, potência 5 de 2. Dois, ainda podemos imaginar, na imaginação de Joyce, ou -o que dá no mesmo- de Gerty seria o casal Reggy-Gerty.

Então, naquela página 409, temos a Gertrude Wylie. Depois há mais algumas gertrudes. Três. Em duas delas, não é nossa Gerty, parecendo ser uma empregada sem sobrenome. Seja como for, não há qualquer dúvida sobre o nome de Gerty: Gertrude. E que isto tem a ver com Osman Lins? Parece tão óbvio que nem vou explicar...

Sei que, em literatura, assim como em matemática, não se pode garantir que uma prova seja realmente verdadeira (por exemplo, 1 + 1 = 10, q.e.d.), a menos que saibamos todos os supostos explícitos e implícitos feitos em todas as gerações desde o chimpanzé africano, para entendermos o mundo da mesma forma que o fazemos há mais de cinco ou seis gerações (no caso, base 2). Deste modo, não apenas minhas teses, mas também suas antíteses e eventuais (quando possível) sínteses, provam que meus escritos são apenas ficção. E que tudo o mais que escrevi, ou seja, todos os meus escritos, são ficção, meu jeito de ver o mundo, sua raiz quadrada e o retorno, ao elevar o que escrevi ao quadrado. Se é que a matemática permite este tipo de operação. Por exemplo, o título da postagem garante que Osman está no título. E, se mal-entendidos houver, a culpa é do revisor, no caso, eu myself mesmo.

DdAB
Imagem daqui. Inclinando a foto, sob luz adequada, vemos que Osman Lins, na foto acima, está manuseando a edição de 1922 do "Ulysses". Isto prova que o autor brasileiro nasceu mesmo em 1924.

P.S. Conferir minha cita de memória com o original:
Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead, bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed.

Nenhum comentário: